{"id":337547,"date":"2024-09-29T07:39:12","date_gmt":"2024-09-29T10:39:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=337547"},"modified":"2024-09-29T07:39:12","modified_gmt":"2024-09-29T10:39:12","slug":"tapa-de-encher-pulmao-transforma-vida-de-quem-apavorava","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/tapa-de-encher-pulmao-transforma-vida-de-quem-apavorava\/","title":{"rendered":"&#8216;Tapa&#8217; de encher pulm\u00e3o transforma vida de quem apavorava"},"content":{"rendered":"<p>Ela era uma matinta paraense. Seu nome n\u00e3o lembrava, matinta era o suficiente. Resignada ao fado das matintas, seguia pelos caminhos de terra, carrancuda e triste. Por vezes detinha-se numa casa pobre e pedia caf\u00e9 e tabaco. Se fosse atendida, ia em frente; se a pessoa n\u00e3o tivesse o que lhe oferecer, olhava feio para ela e ia embora \u2013 deixando para tr\u00e1s uma v\u00edtima apavorada, temerosa de que sua filha fosse escolhida para ser uma futura matinta.<\/p>\n<p>Por vezes assumia a forma de uma coruja ou um p\u00e1ssaro preto e voava. Era gostoso, mas esses momentos no seu destino eram raros. Estava fadada a caminhar engolindo poeira, a pedir caf\u00e9 e tabaco em casas pobres e a escolher futuras matintas entre as filhas das mulheres que n\u00e3o lhe fizessem oferendas.<\/p>\n<p>Certo dia, ela deteve-se numa casa. No port\u00e3o, estava uma jovem sorridente, de uns 25 anos.<\/p>\n<p>&#8211; Bom dia, senhora \u2013 falou. N\u00e3o devia ser paraense, o povo da terra a identificava \u2013 ou desconfiava de quem ela era \u2013 e ficava em sil\u00eancio, olhando-a ressabiado, torcendo para que ela fosse em frente.<\/p>\n<p>&#8211; Quero caf\u00e9 e tabaco \u2013 exigiu.<\/p>\n<p>&#8211; Caf\u00e9 acho que tem, vou trazer. Cigarrinho careta n\u00e3o tenho. Mas tenho do outro. Quer dar uns tapinhas?<\/p>\n<p>A matinta n\u00e3o entendeu nada. Tomando o sil\u00eancio por concord\u00e2ncia, a mo\u00e7a entrou, trouxe um pouco de caf\u00e9 num copo de requeij\u00e3o. Entregou a ela e acendeu um cigarro j\u00e1 apertado. Deu duas tragadas fortes e depois falou:<\/p>\n<p>&#8211; Nunca fumou um cigarrinho do capeta antes, n\u00e9? Puxa fundo e prende a fuma\u00e7a nos pulm\u00f5es, c\u00ea vai gostar.<\/p>\n<p>A matinta obedeceu. E n\u00e3o gostou. Adorou.<\/p>\n<p>Desde esse dia, seu fado mudou. Ela transforma-se em ave todos os dias e faz mil acrobacias a\u00e9reas \u2013 procedimento inaudito para corujas, p\u00e1ssaros pretos e matintas. Continua a perambular pelos caminhos do interior paraense, mas agora chega rindo muito, cumprimenta e pede um baseado. Se a pessoa n\u00e3o tem, oferece um dos seus. Caso a dona da casa n\u00e3o queira fumar, a matinta n\u00e3o olha feio e sim pesarosa, e ri. Mas sem zombar. De simpatia e solidariedade, ela sabe que j\u00e1 foi careta. E n\u00e3o bebe mais caf\u00e9, pede Bar\u00e9, Fanta Uva, caldo de cana com cupua\u00e7u ou algo parecido, bem doce. E implora por um salgadinho, qualquer coisa, que a larica n\u00e3o est\u00e1 de brincadeira.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ela era uma matinta paraense. Seu nome n\u00e3o lembrava, matinta era o suficiente. Resignada ao fado das matintas, seguia pelos caminhos de terra, carrancuda e triste. Por vezes detinha-se numa casa pobre e pedia caf\u00e9 e tabaco. 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