{"id":337677,"date":"2024-10-01T00:50:14","date_gmt":"2024-10-01T03:50:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=337677"},"modified":"2024-10-01T00:48:25","modified_gmt":"2024-10-01T03:48:25","slug":"devaneio-sob-chuva-e-whisky-so-para-gracineide","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/devaneio-sob-chuva-e-whisky-so-para-gracineide\/","title":{"rendered":"Devaneio sob chuva e whisky, s\u00f3 para Gracineide"},"content":{"rendered":"<p>Estava num bar, brando. Chovia l\u00e1 fora. As goteiras rasgavam l\u00edquidos evanescentes nos vidros adormecidos. Esperava por ela. Cigarro em punho, deixando o som ambiente desaparecer e dissolver-se em ba\u00e7o fumo azul. Ela demorava. N\u00e3o tinha a certeza se viria. Com certeza n\u00e3o viria. N\u00e3o interessava. Eu estava l\u00e1, a acontecer. Mandei vir whisky.<\/p>\n<p>Mulheres interessantes interessadas nas suas conversas, nada mais. Rodo o olhar, o redor \u00e9 satisfa\u00e7\u00e3o pura de s\u00e9culo XXI, estereotipada nudez de ser noite e eu esperar por ela enquanto l\u00e1 fora chove. Chove muito.<\/p>\n<p>O ch\u00e3o parece mort\u00edfero, parece engolir os meus pensamentos. Os meus pensamentos. Os meus pensamentos surpreendem-me, mornos, tepidamente inofensivos, sem lan\u00e7as ou punhais; h\u00e1 muito vou aprendendo a domar o desejo. Ponho a cinza no cinzeiro.<\/p>\n<p>O rumor das vozes das pessoas em redor \u00e9 apenas um pormenor, prefiro o som que sai esva\u00eddo do tecto. L\u00e1 fora chove. Chove muito. N\u00e3o me adianta ser impaciente. Ser\u00e3o as sortes dos dias, ou desta noite, a ditar se ela vir\u00e1 ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma lua l\u00e1 fora, prateada, aparecendo e desaparecendo entre as nuvens cinzentas ligeiras, desordeiras. A noite neste s\u00edtio \u00e9 cen\u00e1rio sem grande exalta\u00e7\u00e3o, tudo parece querer estar de olhar embaciado a ver a chuva cair, cervejas e \u00e1lcool \u00e0 descri\u00e7\u00e3o, telem\u00f3vel na ansiosa m\u00e3o, aquela estranha parece preocupada, tem uivos nos an\u00e9is coloridos que saem do seu corpo. Ela deseja muito. Talvez companhia, algu\u00e9m a dissipar-lhe o desejo nesta noite de chuva, algu\u00e9m a dizer-lhe o que ela quer precisamente ouvir enquanto mastiga pastilha el\u00e1stica e entret\u00e9m o nervosismo tiritando os dedos na mesa. Apetece-me abord\u00e1-la. Est\u00e1 l\u00e1 ao fundo, vejam, ela est\u00e1 l\u00e1 ao fundo. Um rock 70 rompe a plasticidade de \u00e1tomos e pessoas neste bar. Fico onde estou. Ponho mais uma cinza no cinzeiro.<\/p>\n<p>Como chove! Parece o fim de tudo! Algumas pessoas sem nome entram de cabelos molhados e roupa pingada, deixam os guarda-chuvas \u00e0 entrada enquanto se ouvem os aplausos da chuva contra o cinzento pavimento.<\/p>\n<p>Ela vir\u00e1 ou n\u00e3o?<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a quest\u00e3o. Ou melhor, uma das quest\u00f5es porque ainda n\u00e3o entendi o que fa\u00e7o aqui. Ponho cinza no cinzeiro.<\/p>\n<p>Ah, \u00e9 a empregada de whisky na bandeja. Sorri. Tem olheiras da noite, eyeliner escuro, um olhar de noites em quartos arrendados, faz favor, os seus dedos parecem porcelana estressadamente el\u00e1stica, vejo duas pedras no l\u00edquido amarelo a boiarem e penso nas suas mamas, como devia ser giro, enquanto a chuva sombreava a parede oposta ao brilho gotejante da janela do quarto arrendado, fazer gritos de amor com ela amorda\u00e7ado, escorrendo suor molhado, ouvi-la gemer como uma gata enroscando-se no meu corpo, o cheiro dos seus cabelos, o eyeliner misterioso, os seus olhos enquanto fazemos amor a refletirem a chuva clara e sombria que goteja da janela do seu quarto arrendado. Vai-se embora arrastando o meu fumo.<\/p>\n<p>Ou\u00e7o uma harm\u00f3nica solit\u00e1ria arranhando a fundura do meu existencialismo de po\u00e7o fundo segurando o meu cigarro, pondo cinza no cinzeiro. Foi-se. Vai atender outro.<\/p>\n<p>Ah, tenho o copo \u00e0 minha frente, o l\u00edquido parece luzir c\u00e9us em fogo com os cubos de gelo a servirem de cidade cristalizada, endemoninhada. Pego no copo. Ela vir\u00e1 ou n\u00e3o? Bebo. O travo do malte e da empregada e da minha amiga, talvez j\u00e1 neste qu\u00e2ntico momento namorada, faz-me avan\u00e7ar a mente em filmes r\u00e1pidos de desejos quentes, de l\u00edquidos vermelhos, luz, de inconscientes brilhos de sementes evanescentes.<\/p>\n<p>Dentro deste p\u00e2ntano sou sempre eu olhando-me em redor atentamente para as pessoas que, como eu e como este calor ardente, s\u00e3o o espelho meu dedicando-se \u00e1 arte ancestral da cr\u00edtica das coisas boas constantemente; ao culto do julgar algemadas as sombras do vazio silente que passam \u00e1 sua frente por si mesmas desejadas como sonhos de unic\u00f3rnios sobre as nuvens, as trovoadas, como se sonham e se sonham nas suas brancas almofadas.<\/p>\n<p>Chove.<\/p>\n<p>O whisky arranca-me uma explos\u00e3o de sangue enquanto sobrevivo an\u00f4nimo neste ambiente de r\u00e1dios ligados. E volta o som da harm\u00f3nica outra vez, estou s\u00f3, \u00e9 um facto. Bebo esquecido destas pessoas que parecem coexistir bem numa esp\u00e9cie de mundo provis\u00f3rio onde viver\u00e3o alguns anos at\u00e9 as sombras dos amigos e parentes sa\u00edrem das suas l\u00e1pides standart. Ponho cinza no cinzeiro, ou melhor, \u00e9 melhor apagar o cigarro, pensei de mais, chove demais, ela n\u00e3o vem, talvez nunca mais, tinha pactos de sangue para fazer com ela no telhado de um pr\u00e9dio sombrio, depois, beijava-a, e o nosso sangue de matrim\u00f3nio selava-se nos l\u00e1bios saliva, no cubo de gelo que passeia agora na sua barriga, no frio, na libido prometida e nunca cumprida, nesta noite de caos, de caos, de caos sempre e sempre eternamente somos maus por medo do dever amar, a alma \u00e9 do c\u00e9u ca\u00edda e volta, volta sempre, \u00e1s alturas da sua pr\u00f3pria saudade para a Nova Jerusal\u00e9m prometida, a outra cidade que, como as gotas desta chuva sem mente ou idade, continuamente, continuam e continuam a chamar-me para l\u00e1 levemente, de volta \u00e1 perp\u00e9tua espiral do eu e do sempre, de volta \u00e1 subida e descida sem final no eterno cont\u00ednuo permanente, na subida e descida da procura pelo eterno feminino consolando as feridas da mente; do nome da palavra perdida que neste sil\u00eancio de chuva ser\u00e1 gente certamente mas ser\u00e1 gente perdida.<\/p>\n<p>Chove.<\/p>\n<p>Chove.<\/p>\n<p>Chove a minha alma l\u00edquida, parece que me estou a dividir em muitos eus s\u00f3s, rastejando nas \u00e1guas que ofuscam os vidros deslizando esquecimentos azuis, cordas enla\u00e7adas com vinte e um n\u00f3s.<\/p>\n<p>Bebo.<\/p>\n<p>Se calhar n\u00e3o tenho alma. H\u00e1 uma zombaria no mundo paralelo ao lado. N\u00e3o s\u00e3o as pessoas deste lugar, \u00e9 antes&#8230; \u00c9 antes uma m\u00fasica distante, entre a mente, o olhar envidra\u00e7ado e a noite l\u00e1 fora a chorar copiosamente.<\/p>\n<p>\u00c9 outra gente. N\u00e3o me adianta entrar em pormenores, s\u00e3o detalhes, talvez seja o malte a dissolver-me as percep\u00e7\u00f5es. As percep\u00e7\u00f5es&#8230;. Como parecem musicais. Distantes mas musicais. Ela n\u00e3o vem. Que importa. A noite j\u00e1 est\u00e1 morta e eu, eu tenho muito tempo, talvez entretenha a eternidade segurando o vidro frio deste copo onde a chuva parece deslizar e a noite, e a noite&#8230;, tr\u00e9mula noite de pavor ou ser\u00e3o os meus dedos encharcados de suor?<\/p>\n<p>A m\u00fasica mudou, est\u00e1 lend\u00e1ria, ou\u00e7o-a como se fosse lend\u00e1ria, sa\u00edda de um mito ou de um grito que arranca a impress\u00e3o pl\u00e1stica em movimento que tenho deste lugar lento, lenda, chuva l\u00e1 fora. Ela n\u00e3o vem. Nunca vir\u00e1. \u00c9 sina. Tenho linhas nas m\u00e3os que me desajustam da realidade, pare\u00e7o est\u00e1tica de sombra difusa an\u00f3nimo na multid\u00e3o, linhas nas m\u00e3os e realidade difusa. Bebo devagar soletrando no copo e no l\u00edquido palavras m\u00e1gicas, bruxaria.<\/p>\n<p>Chove.<\/p>\n<p>Chove.<\/p>\n<p>Chove.<\/p>\n<p>Shhhhhh!, calem-se habitantes dos mundos paralelos!, tenho os dedos amarelos de malte, passo a m\u00e3o atrav\u00e9s do copo cheio de l\u00edquido dourado, ningu\u00e9m viu, sou m\u00e1gico sem o saber, mas o que eu queria realmente saber era se a chuva, n\u00e3o, a minha alma, n\u00e3o, ela, a mi\u00fada que era suposto aparecer, aparece, aparece, aparece nesta esp\u00e9cie de ser a desvanecer que a lis\u00e9rgica noite esquece. N\u00e3o.<\/p>\n<p>Nas vidra\u00e7as a \u00e1gua desliza em estranhas contor\u00e7\u00f5es finas, estou imerso em gentes murmurando, em neblinas, j\u00e1 n\u00e3o sou eu, \u00e9 algu\u00e9m que vai falando, algu\u00e9m que me ajuda, que me ajuda a subir sem desistir as colinas do existir, al\u00e9m do firmamento o meu nome est\u00e1 chamando, chamando, chamando-me para ir, vertigens e alturas dentro deste agora momento que \u00e9 como um desistir, um desistir que procuras, atrav\u00e9s da minha li\u00e7\u00e3o de auto-esquecimento an\u00f4nimo criando situa\u00e7\u00f5es contra o vento avan\u00e7ando lento pelas ruas. Alto!<\/p>\n<p>N\u00e3o posso enlouquecer. Acendo mais um cigarro.<\/p>\n<p>Citando algu\u00e9m direi: \u201c&#8230;aprender a esquecer\u201d. Esta noite n\u00e3o me esquece. Perten\u00e7o a esta noite, a este s\u00edtio, \u00e0 m\u00e1scara de mim que ouve a m\u00fasica subir sem fim, a este lugar cravejado de mat\u00e9ria qu\u00edmica \u00e0 qual perten\u00e7o e sinto sentindo o travo a avi\u00f5es dourados em mais um pequeno gole desta treta de malte.<\/p>\n<p>Rasgava o mundo de raiva, espumava, teria delirium tremens \u00e0 quinta sa\u00edda de mim mesmo amarrado a uma cama branca de hospital psiqui\u00e1trico rodeado por gorilas lentos de xanax e ardor hermen\u00eautico zeloso. Mas n\u00e3o. \u00c9 s\u00f3 mais uma noite. Uma repeti\u00e7\u00e3o. Uma li\u00e7\u00e3o \u00e0 chuva. Um s\u00fabito clar\u00e3o. A lua \u00e9 prata luminosa, atirada de n\u00f3s h\u00e1 milh\u00f5es e milh\u00f5es de explos\u00f5es de tempo algures agora, algures l\u00e1 fora e chove.<\/p>\n<p>Chove. Chove l\u00e1 fora. Um momento, vou, vou\u2026 vou penetrar na aurora.<\/p>\n<p>Raios fulminam l\u00e1 fora os pr\u00e9dios chorosos, as fachadas est\u00e3o impression\u00e1veis, temerosas da chuva intensa que bate e aplaude at\u00e9 cair no cinzento pavimento que no ch\u00e3o arde. H\u00e1 mais gente a entrar. Que entrem, testemunhem-me a caminhar at\u00e9 \u00e0 minha mesa onde um copo meio cheio de um l\u00edquido doirado e um cinzeiro com um cigarro apagado me esperam, a mim, inseguramente eu, esperando por uma mulher ou o que acontecer nesta noite sem ser, sem ser sempre eu a dizer continuamente o que est\u00e1 a acontecer.<\/p>\n<p>Cron\u00f4metros de mim disparam e partem-se em estilha\u00e7os de mil cristais. Seremos normais? N\u00f3s todos aqui? Seremos normais? Estaremos l\u00facidos da falta de luz que este bar cont\u00e9m? M\u00e3o, m\u00e3e. Sento-me. Ch\u00e1 para um.<\/p>\n<p>Olho para o meu rel\u00f3gio de pulso. N\u00e3o trouxe o rel\u00f3gio de pulso. Para qu\u00ea rel\u00f3gio, mesmo rel\u00f3gio de pulso?<\/p>\n<p>A m\u00fasica mudou outra vez. Suspira outras noites gravadas em est\u00fadios confusos repetindo-se indefinidamente pelas noites solit\u00e1rias de milhares de lugares onde, curiosamente, eu me encaixo no perfeito e presente momento de ouvir as suas notas, os suspiros e as guitarras enquanto a chuva cai e toda a minha esperan\u00e7a l\u00edquida numa noite como esta cai, cai e se esvai, se vai, como a chuva que cai e sempre foi assim, ai, o eu, o mundo em mim e mim no mundo, bebendo at\u00e9 ao fundo o raio do mundo rodando e rodando num universo em expans\u00e3o depois de outra, flash!, explos\u00e3o. Mas n\u00e3o. Estou. Estou para estar. Para ficar a sorver a pouco e pouco o nada que me resta nesta esp\u00e9cie de mistura entre madrugada e festa, nesta real e dourada gesta, teatral noite mestra, encenada com a noite, a chuva, a lua e o malte que me testa. Penso que penso demais. Isso p\u00f5e-me a voar al\u00e9m dos rel\u00f3gios. Talvez me perca no meu voo esta noite, ch\u00e1 para um.<\/p>\n<p>Espero uma vida inteira a passar-me diante dos olhos refletindo os coriscos l\u00e1 fora, sopros de ventos desejosos nos ouvidos, gemidos num quarto arrendado, sons de aplausos da chuva batendo no cinzento pavimento. Estou a fragmentar-me. Tenho o pensamento fora da raz\u00e3o e da l\u00f3gica. A l\u00f3gica. A l\u00f3gica era ela ter aparecido, termos falado com l\u00f3gica a melhor maneira de esquecer as nossas vidas, de chegar \u00e1 simples conclus\u00e3o que viver sem mentir \u00e9 ilus\u00e3o, at\u00e9 tudo se fundir num orgasmo trov\u00e3o alojados num motel por a\u00ed ou por aqui al\u00e9m da estrada clar\u00e3o, na casual conversa que j\u00e1 tive com ela agora, esta incerta cena de decis\u00e3o que o tempo deixa deslizar como quem deseja em v\u00e3o. Isso era toda a l\u00f3gica, toda a l\u00f3gica sonhada talvez. Talvez a il\u00f3gica trovoada me tenha levado a pensar nela, talvez este agora seja ela.<\/p>\n<p>A chuva cai l\u00e1 fora e cai dentro de si tamb\u00e9m. A saudade assalta-me, lan\u00e7a-se sobre mim como cavalos entre valqu\u00edrias correndo, correndo, correndo&#8230; Deixo o olhar perder-se nas \u00e1guas que v\u00e3o no vidro morrendo, luzidias, risonhas, fantasmas de pl\u00e1stico, gritos no bar ao lado, o sol amanh\u00e3&#8230; Mas, que estou dizendo? O agora nunca ser\u00e1 o amanh\u00e3 e o amanh\u00e3 agora \u00e9 t\u00e3o distante, t\u00e3o distante como eu estou agora, neste instante, dos murm\u00farios dos violinos assassinos em staccato desacato de toda esta gente \u00e1 solta, \u00e1 minha volta, provocando, ora agora, ora depois do agora em tardia hora, a ordem e o caos por um triz. Neste recreio brincamos \u00e1 satisfa\u00e7\u00e3o decadente e ignorante de nos ocuparmos somente da satisfa\u00e7\u00e3o dos nossos pr\u00f3prios s\u00f4fregos desejos que desesperam para serem mitigados por palavras doces, encantos de m\u00fasica rock 70 e chuva morna, longe de casa, longe de tudo, tudo.<\/p>\n<p>Peda\u00e7os de pensamentos como algas assassinas boiam no ar. Tenho o andar afetado, pare\u00e7o febril, caminhando equilibrado nesta esp\u00e9cie de festa pueril que ronda \u00e0 minha volta, que ronda \u00e1 minha volta servil, a vida que vir\u00e1 e que me resta neste j\u00e1 que j\u00e1 n\u00e3o volta e corre como uma revolta das sombras danadas percorrendo de noite as ruas apinhadas com pressa passando \u00e1 frente das outras sombras das gentes projetadas, n\u00e3o entendo nada, nada tenho a entender, explodem constela\u00e7\u00f5es misturando-se com o som rock 70 super plus que me reduz a\u2026 a\u2026 ser, a seguir a luz do whisky malte ou da vida, a luz que resta depois de acabada a \u00faltima festa nossa vivida.<\/p>\n<p>Passa a empregada arrendada de eyeliner escuro no olhar maduro. Sou c\u00e3o salivando as suas inconscientes sedu\u00e7\u00f5es, concebo rapidamente em n\u00f3s dois um futuro. Ela enche o tabuleiro com mais copos de cerveja, ganha mal a arrendada, penso no seu virtual quarto onde se ouvem tocar guitarras long\u00ednquas enquanto ela se despe e deixa a sua negra roupa interior em cima do aquecedor, dispo-me \u00e9brio de mundos, abro a janela do seu quarto e apetece-me gritar at\u00e9 o meu grito se fundir num rel\u00e2mpago profundo e r\u00e1pido que nos ofusca a nudez de sermos n\u00f3s e este mundo. Sento-me. Sento-me outra vez.<\/p>\n<p>Espero por quem afinal? Ah sim, pela mi\u00fada distante que podia vir a ser a minha amante, m\u00e3e, mulher, a tal. Como ela est\u00e1 distante. Com certeza est\u00e1 nesta altura a olhar para o teto enquanto um tipo que desconhe\u00e7o a cobre com a sua sombra e l\u00e1 fora chove. E aqui tamb\u00e9m chove.<\/p>\n<p>Aqui? Isto? Estou nisto? Espa\u00e7o e tempo parecem sons de guitarras el\u00e9ctricas distorcendo-se at\u00e9 ao fim do ju\u00edzo, at\u00e9 ao feedback n\u00edtido de uma paragem card\u00edaca fatal ser uma linha algures horizontal numa cama de hospital desta cidade em que existo, em que existo para o bem ou para o mal. Que cidade \u00e9 esta? Aonde estou? Pare\u00e7o Descartes negando tudo at\u00e9 ao solipsismo de copo de whisky doirado na m\u00e3o a fingir que cismo.<\/p>\n<p>&#8230;As mulheres nuas, as bacantes, as p\u00e9talas douradas do c\u00e9u caindo, onde est\u00e3o? Para onde foi mais esta ilus\u00e3o? Preciso de um choque de realidade. Acendo mais um cigarro.<\/p>\n<p>Como rende a minha vida aos retalhos! E aqui estamos, contagiosos de plasma, espantalhos da noite. Este bar parece um abajour na minha mesa de cabeceira. O conforto de estar triste fumando de olhar molhado vendo a chuva a escorrer no fundo deste cen\u00e1rio envidra\u00e7ado! Ah se ela viesse! O amor \u00e9 uma quest\u00e3o de oportunidade, tenho de ser pragm\u00e1tico enquanto estou vestido de escuro de cigarro e de copo na m\u00e3o a perguntar ao futuro: \u201cEla vem ou n\u00e3o?\u201d Se o acidente disto tudo disser que n\u00e3o fico sem motivo.<\/p>\n<p>O bar est\u00e1 recheado de mulheres bonitas. Sonho em ser ator dentro deste filme agora que fitas, chove, lancinante grito, chove e chove o infinito l\u00e1 fora e eu, ou o que eu fito, \u00e9 espera pela minha solid\u00e3o fora concebendo numa r\u00e1pida previs\u00e3o a estrangeira que da chuva se esgueira e da noite sem fim para mim se abeira, \u00e9\u2026, \u00e9 j\u00e1 a hora, a hora que h\u00e1 de vir vinda l\u00e1 da rua molhada, vinda l\u00e1 de dentro, de fora da poente aurora. Que falta de carpe notem! Que falta de espontaneidade! Eu, uma gota de chuva que cai nesta cidade, espero por quem afinal?<\/p>\n<p>Vou fazer algo de produtivo. Vou meter conversa com uma mulher qualquer que se me atravesse no caminho. Olho em redor. Algazarra geral como se os foguetes de uma festa local explodissem todos colorindo os olhares fixos no c\u00e9u. Preciso de escolher um alvo. Tenho na percep\u00e7\u00e3o milhares de instantes hilariantes e pare\u00e7o n\u00e3o conseguir escolher qual h\u00e1 de ser&#8230;<\/p>\n<p>Naquela mesa, escuta, naquela mesa est\u00e3o tr\u00eas, sozinhas, copos de cerveja e carteiras escuras presas \u00e1s m\u00e3os, falam intimidadas com o apertar lento das paredes e o rodar lento dos rel\u00f3gios, qual ser\u00e1 a inten\u00e7\u00e3o delas em vir aqui? Conhecer-me? N\u00e3o. Eu sou apenas uma personagem de ocasi\u00e3o que passa desfocado nos seus olhares. S\u00e3o novas, entre os 20 e 22, h\u00e1 uma de cabelos negros insinuantes, \u00e9 a pose dela ou o malte em mim mas parece insinuante. Devo dizer-lhe algo de importante tipo: \u201cQueres rebolar comigo no pavimento \u00e0 chuva?\u201d<\/p>\n<p>H\u00e1 um furor ext\u00e1tico em mim que n\u00e3o consigo controlar, estou barroco demais, tipo estar no abismo ecoante entre a vida e a morte e escolher beij\u00e1-la agora sem mais nem menos. Seria capaz disso? Acho que sim. Chama-se a isto, jovens aprendizes, Dutch Courage \u2013 \u00c9 isso, a outra l\u00e1 estar\u00e1 a arfar olhando infinitamente as cambiantes do candeeiro pendurado no teto enquanto a sombra do tipo a cobre e l\u00e1 fora chove. Que se dane. \u00c9 tudo ilus\u00e3o.<\/p>\n<p>Filosoficamente estou luz dentro de um corpo pris\u00e3o, dentro de um convencionalismo pris\u00e3o que eticamente n\u00e3o me deixa levantar-me de onde estou, dirigir-me aquelas tr\u00eas e beijar a de cabelos negros de pose insinuante. Rasgo este pensamento, apetece-me outro\u2026<\/p>\n<p>&#8230; copo na m\u00e3o, vestido de negro, avan\u00e7o para a mesa onde est\u00e3o as tr\u00eas, passam-me fa\u00edscas no olhar enquanto caminho, aproximo-me, aproximo-me demais das tr\u00eas, o term\u00f3metro emocional partiu-se, explodiu!, pego no queixo da mi\u00fada de cabelo escuro e SMACK! B\u00fazios e lanternas rodopiam&#8230; Ela levanta-se e prega-me um estalo com a sua m\u00e3o pequenina, com os seus leves dedos pequeninos&#8230;. Sorrio cinicamente, \u00e9 portuguesa. Se eu estivesse na Holanda!<\/p>\n<p>Come\u00e7a a gritar qualquer coisa que n\u00e3o entendo mas que me soa a solos de bateria gas\u00f3leo extra-cash. \u00d3. \u00c9 a harm\u00f3nica outra vez, a cada sopro fico com a alma levada no vento em rodopiantes dentes de le\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cSim? N\u00e3o estou!\u201d- digo-lhe.<\/p>\n<p>Ela berra aos meus ouvidos, tens uns dentes queridos, deve-se chamar Luzia. \u201cEspera \u2013 digo \u2013 Vou-me j\u00e1\u201d \u2013 \u201cOu eu chamo a pol\u00edcia!&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Nisto, como que vinda atrav\u00e9s da n\u00e9voa dos n\u00e9ons e do malte de um Quinto Imp\u00e9rio feminino, chega o meu encontro, a tal mulher que eu especulava e especulava, como um judeu sob o signo de g\u00e9meos com sentido de eterno peregrino que a mensagem criava.<\/p>\n<p>\u201cPensavas que n\u00e3o vinha?\u201d \u2013 disse-me estranhando a estranha murmura\u00e7\u00e3o vociferante das tr\u00eas amigas que agarravam as suas carteiras negras e sa\u00edam do bar enquanto ou\u00e7o \u201cMaluco!\u201d sa\u00eddo dos l\u00e1bios SMACK da mi\u00fada insinuante de cabelos negros e lipstick malte rock 70 super power erection.<\/p>\n<p>\u201cPensavas que n\u00e3o vinha?\u201d \u2013 dizia ela, a tal, numa voz sozinha enquanto rodando \u00e0 minha volta o redor algazarra parecia desaparecer em fios de l\u00e3.<\/p>\n<p>\u201cPensei em tudo se queres que te diga. Anda, vamo-nos sentar ali\u201d. Enquanto nos sent\u00e1vamos, cuidado!, as pessoas olhavam-me como se fosse um Zaratrusta ou um albino b\u00eabado filho menor da noite e da chuva que ca\u00eda e ca\u00eda.<\/p>\n<p>Ela vem com uma conversa de que se atrasara, talvez o tipo sombra n\u00e3o a deixasse em paz enquanto n\u00e3o se viesse e a chuva a cair e as cambiantes do teto ou do candeeiro a mudar e a mudar&#8230;, vestiu-se, disse-lhe uma mentira rev\u00f3lver r\u00e1pido nos l\u00e1bios e desceu o elevador, que se atrasara, estivera a fazer um trabalho universit\u00e1rio com uma amiga, enquanto descia o elevador ia rasando os l\u00e1bios com um batom bom, caro, rock 70 crash ready night, com uma amiga, que seca!, e o computador emperrou!, e, na rua, saindo do apartamento, deixou cair o sapato vermelho, \u00e0 chuva tentava cal\u00e7\u00e1-lo cambaleante, ningu\u00e9m a vira, que al\u00edvio! pensava! Agora vou at\u00e9 aquele gajo maluco, deve ser demais o erotismo r\u00e1pido de&#8230;, que seca!<\/p>\n<p>Enquanto a chuva ca\u00eda, gania, molhava e revirava com o vento, batendo crua no cinzento pavimento, eu ouvia-a de olhar desfocado pensando nos dias de Ver\u00e3o onde havia campos verdes junto \u00e0 estrada e rios serpenteantes onde rolavam \u00e1guas macias sobre as pedras deste Letes longe e esquecimento.<\/p>\n<p>\u201cAinda bem que vieste, esperei um pouco mas valeu a pena. Queres beber alguma coisa?\u201d<\/p>\n<p>Aproxima-se a empregada de eyeliner mortal sobre os olhos arrendados, com certeza, dois Martinis, com certeza, passou-me uma fragr\u00e2ncia a vestido de noite no aquecedor irradiando a sua nudez e seios arrepiados, ia-me desfazendo aos bocados, um cansa\u00e7o, os mundos paralelos sugavam cada bocadinho s\u00f3brio de mim, assim ia indo, como um solo de guitarra castanho fazendo arabescos num palco escuro.<\/p>\n<p>Olhei-a e vi o futuro: n\u00f3s, um carro vermelho, muitos quil\u00f3metros de estrada nada e nada estrada, conversas dentro de um l\u00edquido amni\u00f3tico, gritar, j\u00e1, Ahhhhhhhhhhhh! Para onde \u00edamos?, ver algu\u00e9m, um s\u00e1bio, um homem que sabia o destino tra\u00e7ado nas estrelas, as linhas nas m\u00e3os, acho que a amo&#8230;<\/p>\n<p>\u201cDois Martinis!\u201d \u2013 \u201cS\u00e3o bzz de euros!\u201d \u2013 \u201cTome.\u201d \u2013 disse a arrendada empregada de eyeliner&#8230; Sem querer coloco-lhe um preservativo na m\u00e3o e ela diz: bzzz.<\/p>\n<p>Olhei a mulher \u00e0 minha frente, a mulher causa-raz\u00e3o de eu estar ali naquele bar bazar onde a chuva malte escorria nas vidra\u00e7as dos meus olhos devagar, contorcendo-se, cambiando de fluidez e&#8230; Mudou a m\u00fasica outra vez.<\/p>\n<p>Rock 70 hold on \u00b4till you cry. Melodias choque, repetindo-se at\u00e9 o meu est\u00f4mago sorver o doce anelo de mais um Martini com gelo.<\/p>\n<p>\u201cSara&#8230; Tu sabes a raz\u00e3o de eu estar aqui&#8230;. \u2013 seguro-lhe a m\u00e3o \u2013 ela disse qualquer coisa como: \u201cQueres mais um whisky? Tenho uma vizinha que&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u201cSara \u2013 digo-lhe de dentro da cidade dos danados \u2013 (tenho os dedos cruzados, apostarei emocionalmente o meu peso em ouro nesta noite toda, sim olhos castanhos, \u00e9s o meu terreno tesouro que o meu desejo entesoura) &#8211; penso vendo o pensamento como palavras cruzadas formando-se em neons interseccionando cores em cada car\u00e1ter de seres Sara, a minha mulher&#8230;<\/p>\n<p>\u201c Sara&#8230; Tudo o que eu posso dizer-te s\u00e3o meras palavras que n\u00e3o carregam consigo a quantidade, o total do que sinto por ti&#8230; Sara&#8230; Queres que te fale com voz rom\u00e2ntica? Com a voz tr\u00eamula de um pedinte ou com os artif\u00edcios de voz de um imperador?&#8230; Sabes que quero que o nosso amor, que as coisas deem certo&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Ela, lenta, como um blues fora do alcance de se ouvir nitidamente mas que se percebe o ritmo inconscientemente na voz que se lamenta, os seus olhos \u00famidos a querer dizer, a querer dizer simplesmente&#8230;<\/p>\n<p>Eu, nesta lenda, a pensar na empregada de eyeliner numa esp\u00e9cie de flash!, de ser trovoada r\u00e1pida e lenta cruzando feixes de luz l\u00e1 fora!, n\u00e3o sei, e outra vez uma esp\u00e9cie de flash! E o senhor trov\u00e3o e a chuva chora, onde estou?, algures daqui fora num consult\u00f3rio treinando-me entre est\u00edmulos e reflexos o que se passa na minha mente agora, ch\u00e1 para um&#8230;<\/p>\n<p>Parei de olhar para dentro do whisky dourado, estava s\u00f3, na ilha do Sul encantado, para al\u00e9m do bem e do mal, chovia l\u00e1 fora, e ela, ela n\u00e3o viera afinal&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estava num bar, brando. Chovia l\u00e1 fora. As goteiras rasgavam l\u00edquidos evanescentes nos vidros adormecidos. Esperava por ela. Cigarro em punho, deixando o som ambiente desaparecer e dissolver-se em ba\u00e7o fumo azul. Ela demorava. N\u00e3o tinha a certeza se viria. Com certeza n\u00e3o viria. N\u00e3o interessava. Eu estava l\u00e1, a acontecer. Mandei vir whisky. 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