{"id":337783,"date":"2024-10-03T05:11:44","date_gmt":"2024-10-03T08:11:44","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=337783"},"modified":"2024-10-03T17:42:56","modified_gmt":"2024-10-03T20:42:56","slug":"sogro-acaba-refrega-e-faz-de-mariana-a-linda-neta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/sogro-acaba-refrega-e-faz-de-mariana-a-linda-neta\/","title":{"rendered":"Sogro acaba refrega e faz de Mariana a linda neta"},"content":{"rendered":"<p>Chovia. E o cheiro de terra molhada penetrava no casebre triste, perdido nos arrabaldes de uma vila antiga, iluminado por uma crepitante lamparina de querosene. Era fim de tarde, fazia frio.<\/p>\n<p>Os jovens Pedro e Maria acercavam-se do pequeno ber\u00e7o onde a rec\u00e9m-nascida dormia como um anjo. Perto, os pais de Maria observavam a cena, sentados \u00e0 mesa. Ouviam o di\u00e1logo do casal, pais de primeira viagem, enquanto bebericavam o caf\u00e9 fresco ado\u00e7ado com rapadura:<\/p>\n<p>\u2014 Que nome daremos \u00e0 menina?<\/p>\n<p>\u2014 Qual era mesmo o nome da v\u00f3, m\u00e3e? Otac\u00edlia?<\/p>\n<p>A mulher fez que n\u00e3o era com ela. Entreolhou-se com o marido.<\/p>\n<p>\u2014 Otac\u00edlia n\u00e3o! Minha filha n\u00e3o vai ter nome de velha. Onde j\u00e1 se viu? Vai ser um nen\u00e9m de oitenta anos.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o amola, Pedro. Vai ter o nome da minha v\u00f3. T\u00e1 decidido! A v\u00f3 que eu n\u00e3o conheci. Morreu quando minha m\u00e3e era criancinha.<\/p>\n<p>\u2014 Pois n\u00e3o boto. N\u00e3o boto esse nome. Se for pra chamar Otac\u00edlia, fica sem nome. A gente chama de menina e pronto&#8230; Ainda que fique velha, vai ser sempre menina. Dona Menina.<\/p>\n<p>O av\u00f4 riu-se enquanto ia puxar do bolso uma palhinha de fazer cigarro. A av\u00f3 reprovou, segurando-lhe a m\u00e3o. N\u00e3o podia fumar ali. O bebezinho&#8230;<\/p>\n<p>A m\u00e3e da pequena continuou o discurso:<\/p>\n<p>\u2014 Carreguei nove meses, senti as dores do parto, minha Nossa Senhora! Estou dando o peito. Est\u00e1 todo rachado. E n\u00e3o vou escolher o nome? Claro que vou. Quando tivermos outro, e for menino, voc\u00ea decide. Na sua vez voc\u00ea escolhe. Mas nessa quem manda sou eu.<\/p>\n<p>O pai da rec\u00e9m-nascida ficou carrancudo. A crian\u00e7a, ignorando a disputa dos mais velhos, deu uma espregui\u00e7ada e soltou um leve ru\u00eddo, como que fosse come\u00e7ar a chorar.<\/p>\n<p>\u2014 T\u00e1 vendo? Fala baixo. Vai acordar a Menina.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea para com isso. Menina n\u00e3o. Otac\u00edlia. Otac\u00edlia e pronto.<\/p>\n<p>Passaram os dias. A av\u00f3 e a m\u00e3e da crian\u00e7a conversavam sobre que destino dar ao umbigo, que secava. Haviam de levar para longe de casa e enterrar debaixo de uma porteira. Havia uma porteira na fazenda, mas estava quebrada. N\u00e3o convinha. Tinha de ser porteira nova. Da\u00ed, todos os caminhos estariam abertos para a crian\u00e7a, que se tornaria adulta. Ainda teria muita vida.<\/p>\n<p>Intervia o pai:<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 bobagem. Tem que enterrar num vaso de roseira. Ou no ch\u00e3o mesmo. Perto da janela do outro quarto tem roseira. Vou p\u00f4r l\u00e1.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o me fala isso! M\u00e3e, diz para o Pedro parar!<\/p>\n<p>A av\u00f3 at\u00e9 saiu de perto. N\u00e3o queria meter a colher nessa confus\u00e3o de marido e mulher.<\/p>\n<p>Apenas Maria, h\u00e1 pouco parida, terminava de falar, o av\u00f4 da crian\u00e7a entra na casa com uma galinha depenada. O resguardo exigia quarenta galinhas. Depois, haja tempo para desenjoar de quarenta galinhas. A av\u00f3 j\u00e1 fervia a \u00e1gua num panel\u00e3o enorme sobre a boca fumegante do fog\u00e3o. A lenha era ati\u00e7ada com o sopro potente da mulher e estalava.<\/p>\n<p>Pedro come\u00e7ou t\u00edmido:<\/p>\n<p>\u2014 Vou no cart\u00f3rio amanh\u00e3. O Arildo e o Bento, do armaz\u00e9m do Seu Orlando, v\u00e3o de testemunha comigo. Pedi para passarem aqui antes.<\/p>\n<p>Maria trazia a filha ao colo. A pequena havia acabado de mamar. Falando baixinho, ela ordenou a Pedro:<\/p>\n<p>\u2014 Pega ali na c\u00f4moda aquele papelzinho. Eu escrevi ali o nome todo. Confere. \u00c9 para registrar bem assim, viu? N\u00e3o erra nada.<\/p>\n<p>Mal pegou o papel dobrado, Pedro jogou-o longe. Vira, de relance, o in\u00edcio da anota\u00e7\u00e3o, na letra redondinha da esposa: Otac\u00edlia.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o! Este nome eu n\u00e3o ponho. Vou esperar voc\u00ea desistir.<\/p>\n<p>\u2014 Mas Pedro, se n\u00e3o registrar logo, vai pagar multa.<\/p>\n<p>\u2014 Eu pago! N\u00e3o me importa. E se voc\u00ea insistir, fica sem registro mesmo.<\/p>\n<p>Continuou aquele tendep\u00e1, no humilde casebre, por tr\u00eas semanas. At\u00e9 o batizado, que devia ser tratado na igreja da vila, orago de Sant\u2019Ana, foi ficando atrasado. Nos momentos de paz, os av\u00f3s e o casal entregavam-se \u00e0s obriga\u00e7\u00f5es comezinhas de suas vidas. E a rec\u00e9m-nascida brilhava, cheia de gra\u00e7a.<\/p>\n<p>Um dia, Pedro, com uma enxada, tirava os matinhos que haviam crescido nas pedras do cal\u00e7amento em frente da casa. E, absorto na tarefa e em seus pensamentos, repetia mentalmente que Otac\u00edlia n\u00e3o haveria de ser. Era perto do meio-dia.<\/p>\n<p>Foi quando viu o sogro chegando a p\u00e9 pela estradinha, com o chap\u00e9u de feltro que usava toda vez que ia \u00e0 vila. Vinha com um envelope pardo na m\u00e3o. Pedro adivinhou em um instante de onde ele estava voltando. Sentiu-se tra\u00eddo, deu um berro de raiva, largou fortemente a enxada no ch\u00e3o e saiu correndo para o mato.<\/p>\n<p>\u2014 Otac\u00edlia n\u00e3o! Otac\u00edlia n\u00e3o!<\/p>\n<p>E feliz vinha o av\u00f4. Fora ao cart\u00f3rio do registro civil, com Arildo e Bento de testemunhas, registrar a netinha Mariana.<\/p>\n<p><strong>*Daniel Marchi \u00e9 autor de A Verdade nos Seres, livro de poemas que pode ser adquirido diretamente atrav\u00e9s do e-mail<\/strong> <a href=\"mailto:danielmarchiadv@gmail.com\">danielmarchiadv@gmail.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Chovia. E o cheiro de terra molhada penetrava no casebre triste, perdido nos arrabaldes de uma vila antiga, iluminado por uma crepitante lamparina de querosene. Era fim de tarde, fazia frio. Os jovens Pedro e Maria acercavam-se do pequeno ber\u00e7o onde a rec\u00e9m-nascida dormia como um anjo. 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