{"id":337808,"date":"2024-10-03T07:06:18","date_gmt":"2024-10-03T10:06:18","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=337808"},"modified":"2024-10-03T07:18:52","modified_gmt":"2024-10-03T10:18:52","slug":"paixao-de-mae-corre-no-sangue-da-primogenita","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/paixao-de-mae-corre-no-sangue-da-primogenita\/","title":{"rendered":"Paix\u00e3o de m\u00e3e corre no sangue da primog\u00eanita"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o me casei com o grande amor da minha vida, \u00e9 verdade, mas \u00e9 com ele que ainda vivo momentos de lux\u00faria, at\u00e9 chegar o dia em que terei que prestar contas com Deus, isto \u00e9, se \u00e9 que Ele exista ou, ent\u00e3o, n\u00e3o passe de devaneio da mente humana. Que seja uma coisa ou outra, n\u00e3o estou preocupada hoje, diante do meu marido, que repousa no caix\u00e3o ornado de flores. Um bom homem, creia-me, que, durante quase 40 anos, me fez companhia nas noites solit\u00e1rias, enquanto eu, talvez ingrata, s\u00f3 possu\u00edsse pensamentos voltados para o outro.<\/p>\n<p>O outro, por assim dizer, \u00e9 meu primo Orlando, cujas promessas de um futuro juntos foram repentinamente quebradas por uma gravidez inesperada. N\u00e3o minha, mas de outra parenta, a Judite. Sem poder fugir da responsabilidade, meu grande amor desposou a mulher, com quem ainda vive sob o mesmo teto. Como ele pr\u00f3prio me confidencia durante os momentos de alcova, casamento \u00e9 que nem fumo de rolo, tem que ir at\u00e9 a \u00faltima tragada.<\/p>\n<p>N\u00e3o guardo rancor de Judite, que, aos 17 anos, se deixou seduzir ou seduziu nosso primo. E o que teria sido uma aventura, acabou em casamento antes da barriga despontar. E foi justamente nesse dia que conheci J\u00falio, amigo da fam\u00edlia, que me fez par. \u00c9ramos padrinhos daquele casal, cujo noivo, pecadora que sempre fui, desejei passar a lua de mel. N\u00e3o o fiz, obviamente. Pelo contr\u00e1rio, me afastei de todos alguns dias ap\u00f3s. Fui estudar na capital.<\/p>\n<p>Meti a cabe\u00e7a nos livros e consegui passar no vestibular para o curso de ci\u00eancias cont\u00e1beis. Durante as f\u00e9rias na faculdade, evitava voltar para minha Belmonte. Resisti quase sempre, at\u00e9 que, j\u00e1 perto de concluir o curso, visitei meus pais. Tudo corria bem, mas mam\u00e3e fez quest\u00e3o de me levar para uma visita \u00e0 casa do Orlando e da Judite, que j\u00e1 estava na terceira gravidez.<\/p>\n<p>Ao chegarmos, fomos recebidos por Orlando, que ostentava um bigode, o que o deixou parecido com o jogador de futebol Rivelino. Um charme, por assim dizer. Conheci os dois pequenos, L\u00facia e Joaquim, que timidamente me receberam. Judite, perto de parir novamente, sorriu e me deu um longo abra\u00e7o. Apesar de querer me livrar daquela situa\u00e7\u00e3o o mais r\u00e1pido poss\u00edvel, acabei aceitando de bom grado, pois senti o cheiro impregnado do nosso homem nos cabelos de Judite.<\/p>\n<p>Enquanto est\u00e1vamos sentados no amplo sof\u00e1 da sala, ouvindo as v\u00e1rias conversas sobre a vida de casados dos meus parentes, a campainha tocou. Para minha surpresa, era J\u00falio, que estava na cidade por causa do falecimento do pai. Aqueles olhos tristes me fizeram querer confort\u00e1-lo. Abracei-o de modo prolongado, o que despertou um olhar de ci\u00fame em Orlando. Sei que n\u00e3o deveria sentir o que senti, mas meu cora\u00e7\u00e3o se encheu de regozijo.<\/p>\n<p>Dois dias depois, reencontrei J\u00falio na rodovi\u00e1ria. Por coincid\u00eancia, ele havia comprado passagem de volta para a capital no mesmo \u00f4nibus que eu. Os nossos assentos n\u00e3o eram pr\u00f3ximos, mas isso n\u00e3o foi empecilho, pois consegui convencer a senhora que estava ao lado dele a trocarmos de lugar. Como consegui? Simples. Agarrei J\u00falio pela cintura e menti que \u00e9ramos rec\u00e9m-casados.<\/p>\n<p>Durante o trajeto de Belmonte a Salvador, J\u00falio n\u00e3o parou de me chamar de doida por ter inventado que \u00e9ramos casados. Falei para ele que aquelas horas de viagem seriam como nossa lua de mel. N\u00e3o chegou a tanto, mesmo porque o \u00f4nibus estava lotado. Quase comportados, meu marido de mentirinha pegava na minha m\u00e3o e a acariciava. \u00c0 noite, enquanto a maioria dos passageiros adormecia ou fingia faz\u00ea-lo, tomei a iniciativa de beijar aqueles l\u00e1bios t\u00edmidos. Apesar de surpreso, J\u00falio soube retribuir ardentemente.<\/p>\n<p>Assim que chegamos a Salvador, combinamos de nos encontrar em breve. N\u00e3o foi t\u00e3o breve assim, pois eu precisava me dedicar aos estudos, j\u00e1 que enfrentaria o \u00faltimo semestre na faculdade. Fal\u00e1vamos por telefone uma ou duas vezes por semana, at\u00e9 que marcamos de tomar uma cerveja num domingo. Quando cheguei, percebi que J\u00falio estava ainda mais bonito.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s alguns copos, comecei a imaginar como terminar\u00edamos aquela tarde. Sa\u00edmos do bar e fomos para o apartamento que eu dividia com uma amiga de curso. Ela, por sorte, tinha ido passar o final de semana na casa dos pais, em Feira de Santana. Todavia, para meu azar, J\u00falio se mostrou muito respeitador e fez quest\u00e3o de me acompanhar somente at\u00e9 a porta.<\/p>\n<p>Nosso segundo encontro aconteceu apenas no m\u00eas seguinte, quando meu quase namorado me convidou para jantar. Era um s\u00e1bado e o prato foi moqueca. Foi o encontro dos sonhos e, para minha sorte, J\u00falio me convidou para conhecer seu apartamento. Nem tive o trabalho de fingir constrangimento, pois era justamente o que esperava desde que passamos por marido e mulher naquele \u00f4nibus.<\/p>\n<p>N\u00e3o vou romantizar a noite que tivemos. J\u00falio, apesar de n\u00e3o ter se mostrado decepcionante debaixo dos len\u00e7\u00f3is, n\u00e3o conseguiu me impressionar. Seja como for, adorava estar ao seu lado e, ap\u00f3s alguns encontros, ele me pediu em casamento. Aceitei como se fosse mais uma brincadeira e, duas semanas ap\u00f3s minha formatura, oficializamos o noivado na casa de mam\u00e3e.<\/p>\n<p>Casamos sem pressa quase um ano ap\u00f3s na mesma igreja que Orlando e Judite. Por ironia, os dois foram nossos padrinhos. Lembro-me muito bem do belisc\u00e3o que mam\u00e3e me deu ao percebeu que eu n\u00e3o tirava os olhos do meu primo. O engra\u00e7ado \u00e9 que o romance que tivemos antes da gravidez de Judite foi breve, apesar de intenso, e, at\u00e9 onde sei, ningu\u00e9m soube. No entanto, parece que m\u00e3es sentem as coisas no ar. Soube disso ap\u00f3s dois anos, quando Maria Clara, minha filha, nasceu.<\/p>\n<p>Como mor\u00e1vamos em Salvador, mant\u00ednhamos pouco contato com os parentes em Belmonte, ainda mais ap\u00f3s o falecimento de mam\u00e3e, ocorrido pouco antes do Natal de 1993. E, quando \u00edamos, era coisa r\u00e1pida e cada vez mais espa\u00e7ada. De vez em quando, receb\u00edamos um ou outro parente em nosso apartamento, momentos em que fic\u00e1vamos sabendo que fulano havia se casado, sicrano morrido ou coisa assim.<\/p>\n<p>J\u00falio e eu, que pens\u00e1vamos que ir\u00edamos passar o resto da vida em Salvador, decidimos retornar para Belmonte em 2016, dois anos ap\u00f3s nos aposentarmos. Maria Clara, casada com Paulo, um rapaz que havia feito faculdade com ela, nos deu duas netas lindas, J\u00falia e Roberta.<\/p>\n<p>Alugamos nosso apartamento na capital e fomos morar na casa que recebi de heran\u00e7a de mam\u00e3e. Apesar de pequena, nos serviu muito bem, pois \u00e9ramos somente dois velhos aposentados e sem muitas preocupa\u00e7\u00f5es. Gost\u00e1vamos de passear de m\u00e3os dadas pela orla, como se f\u00f4ssemos namorados ainda.<\/p>\n<p>J\u00falio, logo que retornamos para Belmonte, voltou a ficar pr\u00f3ximo de Orlando, o que me obrigava a, vez ou outra, encontrar meu primeiro grande amor. Judite, que h\u00e1 tempos andava acamada por conta de um acidente de carro, mal conseguia andar. J\u00falio, alguns meses depois, me confidenciou que os dois n\u00e3o se relacionavam intimamente h\u00e1 mais de 10 anos, bem antes do acidente. N\u00e3o sei se ele disse isso como forma de convite, mas passei a desej\u00e1-lo como nos meus 18 anos, quando tivemos nossa primeira vez.<\/p>\n<p>Aconteceu quase por acaso alguns dias ap\u00f3s. Meu marido precisou ir ao m\u00e9dico para exames de rotina. Ele me pediu para levar um livro de poesias para Judite, al\u00e9m de lhe fazer companhia, pois ela parecia cada vez mais definhada. J\u00falio me deixou na casa do meu primo e ficou de me buscar mais tarde, assim que sa\u00edsse da cl\u00ednica.<\/p>\n<p>Sentada em uma cadeira ao lado da cama de Judite, comecei a ler o livro de poesias &#8220;A verdade nos seres&#8221;, de Daniel Marchi, autor que at\u00e9 ent\u00e3o desconhecia. Lembro-me de v\u00ea-la emocionada, ao ponto de marejar aqueles olhos t\u00e3o tristonhos. A inveja, at\u00e9 ent\u00e3o entranhada em meu ser, se transformou em compaix\u00e3o pela esposa de meu primo.<\/p>\n<p>Em determinado momento, levantei e fui at\u00e9 a cozinha pegar um pouco de \u00e1gua, quando percebi a porta se abrindo. Era Orlando, que me sorriu aquele sorriso que h\u00e1 muito eu havia esquecido. Ele se aproximou para me cumprimentar e, n\u00e3o sei o que me deu, eu o abracei e comecei a chorar. Orlando me fitou e, antes que pudesse me perguntar o motivo daquele choro, aproximei meu rosto do seu e nos beijamos ardentemente.<\/p>\n<p>Meu \u00edmpeto era largar tudo e cair nos bra\u00e7os do meu primo. Falei que poder\u00edamos voltar a ficar juntos, mas ele disse que n\u00e3o poderia abandonar a esposa, ainda mais com ela praticamente inv\u00e1lida. Apesar de tamanho comprometimento com o matrim\u00f4nio, Orlando n\u00e3o resistiu ao apelo do cora\u00e7\u00e3o. Passamos, a partir daquele dia, a ter momentos s\u00f3 nossos, quando tent\u00e1vamos recuperar tantos desejos reprimidos por d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se meu marido desconfiou de algo, at\u00e9 porque h\u00e1 tempos viv\u00edamos praticamente como colegas de quarto. Discreto como sempre foi, nunca me tratou de modo diferente. Sempre foi muito gentil e atencioso, al\u00e9m de \u00f3tima companhia. Nosso casamento, que come\u00e7ou como uma brincadeira naquele \u00f4nibus, provavelmente duraria mais uma d\u00e9cada ou duas, caso o infarto n\u00e3o o tivesse pegado \u00e0 trai\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Orlando veio me consolar e disse que, se eu precisasse de qualquer coisa, ele estaria sempre perto. Judite n\u00e3o pode vir, pois est\u00e1 cada dia pior. Os m\u00e9dicos j\u00e1 a desacreditaram e, talvez, n\u00e3o chegue ao pr\u00f3ximo Natal. Isso me entristece muito. Digo isso de cora\u00e7\u00e3o, acredite. Voc\u00ea pode at\u00e9 pensar que n\u00e3o estou sendo sincera, pois seria a oportunidade para viver livremente o amor que sinto por meu primo. Por\u00e9m, gosto das coisas como est\u00e3o.<\/p>\n<p>Edmar, filho mais novo do meu primo, tamb\u00e9m est\u00e1 aqui no vel\u00f3rio. \u00c9 incr\u00edvel a semelhan\u00e7a com o pai. Minha filha tamb\u00e9m parece perceber, tanto \u00e9 que n\u00e3o consegue tirar os olhos sobre o homem. Em vez de belisc\u00e3o, seguro a m\u00e3o de Maria Clara. Tenho certeza, m\u00e3es sentem as coisas no ar.<\/p>\n<p><strong>*Eduardo Mart\u00ednez \u00e9 autor do livro \u201c57 Contos e Cr\u00f4nicas por um Autor muito Velho\u201d.<\/strong><\/p>\n<p>Compre aqui\u00a0<span class=\"x19la9d6 x1fc57z9 x6ikm8r x10wlt62 x19co3pv x1g5zs5t xfibh0p xiy17q3 x1xsqp64 x1lkfr7t xexx8yu x4uap5 x18d9i69 xkhd6sd\"><span class=\"xrtxmta x1bhl96m\"><img decoding=\"async\" class=\"emoji\" role=\"img\" draggable=\"false\" src=\"https:\/\/s.w.org\/images\/core\/emoji\/14.0.0\/svg\/1f447-1f3ff.svg\" alt=\"&#x1f447;&#x1f3ff;\" \/><\/span><\/span><span class=\"x19la9d6 x1fc57z9 x6ikm8r x10wlt62 x19co3pv x1g5zs5t xfibh0p xiy17q3 x1xsqp64 x1lkfr7t xexx8yu x4uap5 x18d9i69 xkhd6sd\"><span class=\"xrtxmta x1bhl96m\"><img decoding=\"async\" class=\"emoji\" role=\"img\" draggable=\"false\" src=\"https:\/\/s.w.org\/images\/core\/emoji\/14.0.0\/svg\/1f447-1f3ff.svg\" alt=\"&#x1f447;&#x1f3ff;\" \/><\/span><\/span><span class=\"x19la9d6 x1fc57z9 x6ikm8r x10wlt62 x19co3pv x1g5zs5t xfibh0p xiy17q3 x1xsqp64 x1lkfr7t xexx8yu x4uap5 x18d9i69 xkhd6sd\"><span class=\"xrtxmta x1bhl96m\"><img decoding=\"async\" class=\"emoji\" role=\"img\" draggable=\"false\" src=\"https:\/\/s.w.org\/images\/core\/emoji\/14.0.0\/svg\/1f447-1f3ff.svg\" alt=\"&#x1f447;&#x1f3ff;\" \/><\/span><\/span><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho\">http:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o me casei com o grande amor da minha vida, \u00e9 verdade, mas \u00e9 com ele que ainda vivo momentos de lux\u00faria, at\u00e9 chegar o dia em que terei que prestar contas com Deus, isto \u00e9, se \u00e9 que Ele exista ou, ent\u00e3o, n\u00e3o passe de devaneio da mente humana. 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