{"id":337818,"date":"2024-10-03T08:07:28","date_gmt":"2024-10-03T11:07:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=337818"},"modified":"2024-10-03T08:07:28","modified_gmt":"2024-10-03T11:07:28","slug":"no-pais-dividido-a-sacanagem-e-o-que-ainda-pode-unir-os-brasileiros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/no-pais-dividido-a-sacanagem-e-o-que-ainda-pode-unir-os-brasileiros\/","title":{"rendered":"No pa\u00eds dividido, a sacanagem \u00e9 o que ainda pode unir os brasileiros"},"content":{"rendered":"<p>Em um pa\u00eds t\u00e3o dividido social, pol\u00edtica e economicamente como o Brasil, o que pode nos unir? Bastam dois segundos de reflex\u00e3o para se concluir que, caso haja alguma forma de uni\u00e3o, ela \u00e9 a sacanagem. Substantivo feminino e com o mesmo significado de safadeza ou fuleragem, a sacanagem \u00e9 capaz de se expressar por meio de outros sin\u00f4nimos e de variadas maneiras, entre elas o modo de agir de uma pessoa sacana, brincalhona ou sem car\u00e1ter. No sentido familiar, \u00e9 apenas uma goza\u00e7\u00e3o. O termo degenera para uma devassid\u00e3o prazerosa e ejaculat\u00f3ria no caso de uma a\u00e7\u00e3o libidinosa que transgrida as normas sexuais consideradas comuns.<\/p>\n<p>No linguajar de botequim j\u00e1 fechado, \u00e9 sentir sozinho arrepios que n\u00e3o s\u00e3o de medo nem de frio. \u00c9 a cabe\u00e7a proibir, o corpo desobedecer e nada acontecer. Ou \u2013 o que \u00e9 pior -, uma cabe\u00e7a n\u00e3o pensar, a outra agir e o bolso esvaziar. Talvez uma das mais marcantes seja, de madrugada, a gente sair acompanhado da balada com uma loira estonteante, do tipo Farrah Fawcett, e, antes mesmo da alcova, ainda no primeiro toque mais \u00edntimo, descobrir que a quase Brigite Bardot era na verdade Robert de Niro disfar\u00e7ado daquele ator metade cearense e metade ga\u00facho, o Licarco Ferro de costas.<\/p>\n<p>Sacanagem \u00e9 ser obrigado a responder ao pneumologista que j\u00e1 tive os v\u00edcios do tabaco e da pororoca. Atualmente estou limitado ao cheiro do fumo e ao frescor do corregozinho da casa da vizinha. Quanto ao fumo, esclare\u00e7o que obviamente n\u00e3o \u00e9 o de rolo. Ainda me apetece apenas o de tran\u00e7a. Galhofa maior \u00e9 usar frald\u00e3o e dizer aos amigos que voltei a ser crian\u00e7a. Por recomenda\u00e7\u00e3o m\u00e9dica, tenho o m\u00e1ximo cuidado com a l\u00edngua portuguesa. A das portuguesas faz tempo n\u00e3o bolino mais. Meu medo \u00e9 que confundam o reposit\u00f3rio digital de minhas narrativas com o suposit\u00f3rio do c\u00f3digo-fonte dos meus anais.<\/p>\n<p>Zombaria mesmo \u00e9 lembrar do gigante pela pr\u00f3pria natureza, outrora mais f\u00falgido e brilhante a todo instante. Heroico, mas sem o brado retumbante, hoje, adormecido em margens pl\u00e1cidas de um riachinho que o l\u00e1baro ainda ostenta, ele quase n\u00e3o tem mais o verde louro da fl\u00e2mula. Tamb\u00e9m perdeu as flores do bosque e esqueceu o seio dos muitos amores. Vejam o que tempo fez comigo. As gl\u00f3rias do passado lembram o Cruzeiro de Tost\u00e3o, o Vasco de Roberto Dinamite e o Flamengo de Zico. Era sempre bola no fil\u00f3. O sono em ber\u00e7o espl\u00eandido virou fato e n\u00e3o fake.<\/p>\n<p>Sem sacanagem, a maior das sacanagens foi o ano de 2024, \u00e1pice da desuni\u00e3o. Ele s\u00f3 n\u00e3o foi pior do que 2023, quando tentaram repetir na Pra\u00e7a dos Tr\u00eas Poderes a Tomada da Bastilha de 1789. Em 2024, al\u00e9m da batalha a c\u00e9u aberto em que se transformaram os debates pol\u00edticos e, por extens\u00e3o, a pol\u00edtica nacional, o amor deixou de ser aquilo que me fazia sentir um calor t\u00e3o intenso que, por pouco, metaforicamente eu n\u00e3o ardia em chamas. Nos dias de hoje, o nome disso \u00e9 Bras\u00edlia, Cuiab\u00e1, S\u00e3o Paulo e Pantanal. Na outra ponta, as fortes chuvas voltam a sacanear o patriotismo exagerado dos ga\u00fachos.<\/p>\n<p>Entendo todo tipo de sacanagem. A \u00fanica que ainda n\u00e3o entendi tem a ver com as elei\u00e7\u00f5es. Depois de anos de luta para conquistar o direito de votar soberana e livremente, percebo que os eleitores de hoje se dirigem \u00e0s sess\u00f5es eleitorais como se estivessem indo a um vel\u00f3rio. Ser\u00e1 o tal voto envergonhado? Parece que sim. Afinal, quem em s\u00e3 consci\u00eancia tem coragem de assumir voto em Pablo Mar\u00e7al, em Alexandre Ramagem, Capit\u00e3o fulano, Coronel beltrano, General ciclano ou Doutor n\u00e3o sei das quantas. Se a ideia \u00e9 convencer, estimular ou amea\u00e7ar pelos t\u00edtulos, o tiro saiu pela culatra. Acabou o medo. \u00c9 claro que muitos votar\u00e3o neles, mas morrer\u00e3o negando. Alguns talvez morram de vergonha antes mesmo de partir.<\/p>\n<p><strong>*Wenceslau Ara\u00fajo \u00e9 Editor-Chefe de <em>Notibras<\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em um pa\u00eds t\u00e3o dividido social, pol\u00edtica e economicamente como o Brasil, o que pode nos unir? Bastam dois segundos de reflex\u00e3o para se concluir que, caso haja alguma forma de uni\u00e3o, ela \u00e9 a sacanagem. 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