{"id":338261,"date":"2024-10-09T07:17:32","date_gmt":"2024-10-09T10:17:32","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=338261"},"modified":"2024-10-09T07:19:37","modified_gmt":"2024-10-09T10:19:37","slug":"bicho-bom-e-dinheiro-se-bem-contado-melhor-ainda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/bicho-bom-e-dinheiro-se-bem-contado-melhor-ainda\/","title":{"rendered":"Bicho bom \u00e9 dinheiro; se bem contado, melhor ainda"},"content":{"rendered":"<p>O ano era 1987, quando trabalhava como caixa num banco particular. Uma merreca de sal\u00e1rio, mas era o que tinha na \u00e9poca. Foi num domingo, final de junho, pouco depois de completar 19 anos, que abri as p\u00e1ginas dos classificados do jornal. L\u00e1 estava, bem no canto inferior, um pequeno an\u00fancio: Firma respeit\u00e1vel procura contador. Na \u00e9poca, eu mal havia conclu\u00eddo o segundo grau, hoje chamado de ensino m\u00e9dio. Todavia, como a grana estava cada vez mais curta no final do m\u00eas, quis arriscar. Afinal, o que teria a perder? No m\u00e1ximo, uma porta na cara.<\/p>\n<p>No dia seguinte, telefonei para o n\u00famero indicado e, ent\u00e3o, consegui marcar um encontro para aquela mesma manh\u00e3. Por sorte, o endere\u00e7o era bem perto do meu trabalho. Tratei logo de me arrumar para o servi\u00e7o, pois a minha inten\u00e7\u00e3o era ir direto para o banco assim que a entrevista de emprego terminasse.<\/p>\n<p>Logo que cheguei ao local, n\u00e3o consegui encontrar a entrada, at\u00e9 que fui abordado por um cara enorme e com cara de poucos amigos, isto \u00e9, se ele tivesse algum. Ele tocou meu ombro e me lan\u00e7ou aquele olhar que lutadores de boxe fazem antes da luta.<\/p>\n<p>\u2014 Manoel?<\/p>\n<p>\u2014 Sim.<\/p>\n<p>\u2014 Me acompanhe.<\/p>\n<p>Segui o tal brutamontes, que me levou para o lado de tr\u00e1s do pr\u00e9dio. Ele estacou diante de uma velha porta esverdeada. Olhou para os lados por alguns segundos, at\u00e9 que, finalmente, a abriu e quase me empurrou para dentro. Tive que apoiar as duas m\u00e3os nas paredes enquanto subia uma escada t\u00e3o \u00edngreme, que imaginei que acabaria desabando sobre aquele troglodita, que vinha logo atr\u00e1s.<\/p>\n<p>Depois de subirmos tr\u00eas andares, entramos num corredor praticamente escuro, caso n\u00e3o fosse a ilumina\u00e7\u00e3o natural que entrava por uma pequena janela ao lado tipo basculante. Entramos no pequeno apartamento ao fundo, onde estava o homem com quem eu havia conversado por telefone naquela mesma manh\u00e3.<\/p>\n<p>\u2014 Manoel?<\/p>\n<p>\u2014 Sim, sou eu.<\/p>\n<p>\u2014 Sou o Jorge. A gente se falou mais cedo.<\/p>\n<p>Ele me estendeu a m\u00e3o e nos cumprimentamos. Em seguida, Jorge se virou pa-ra o grandalh\u00e3o e, com um gesto de cabe\u00e7a, o mandou sair. Somente ap\u00f3s algumas semanas, eu saberia seu nome: Bruno. No entanto, todos o chamavam de Pequeno.<\/p>\n<p>Por sorte, Jorge n\u00e3o me fez qualquer questionamento sobre a minha forma\u00e7\u00e3o, pois eu teria apenas o meu diploma do segundo grau para lhe apresentar. Ele me perguntou se eu era bom em matem\u00e1tica e, ent\u00e3o, pela primeira vez me senti confort\u00e1vel, pois al\u00e9m do meu nome, era a segunda verdade que havia dito naquela manh\u00e3.<\/p>\n<p>\u2014 Sou.<\/p>\n<p>\u2014 T\u00e1 vendo aqueles cadernos e pap\u00e9is naquela mesa? Quero que voc\u00ea some tudo.<\/p>\n<p>\u2014 Agora?<\/p>\n<p>\u2014 Sim. Tem uma calculadora ali.<\/p>\n<p>\u2014 Mas \u00e9 que preciso ir trabalhar daqui a pouco.<\/p>\n<p>\u2014 Quanto voc\u00ea ganha nesse seu trabalho?<\/p>\n<p>Antes que eu pudesse responder, Jorge colocou um ma\u00e7o de notas gra\u00fadas no bolso da minha camisa. Nem precisei contar para saber que ali havia mais dinheiro do que o meu sal\u00e1rio de dois meses inteiros.<\/p>\n<p>\u2014 Posso usar o telefone?<\/p>\n<p>\u2014 Vai ligar pra quem?<\/p>\n<p>\u2014 Pro meu chefe.<\/p>\n<p>Jorge me olhou com desconfian\u00e7a, mas, em seguida, apenas me fez um sinal em dire\u00e7\u00e3o ao telefone de cor laranja sobre a mesa. Liguei para o gerente do banco onde trabalhava.<\/p>\n<p>\u2014 Danilo?<\/p>\n<p>\u2014 Sim. Quem \u00e9?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 o Manoel.<\/p>\n<p>\u2014 Diga l\u00e1! O que voc\u00ea quer?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 que acordei com uma diarreia daquelas. N\u00e3o vai dar para eu ir trabalhar hoje. Tem como quebrar essa pra mim?<\/p>\n<p>\u2014 Fazer o qu\u00ea? Vou dar um jeito por aqui. Melhor que te ver com as cal\u00e7as borradas. Ia acabar espantando os clientes.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se Jorge ouviu as gargalhadas do Danilo, mas tratei logo de desligar o telefone. Em seguida, peguei a calculadora e a coloquei sobre a mesa. Conectei o fio \u00e0 tomada ao lado. Puxei uma cadeira e me sentei diante daquele monte de anota\u00e7\u00f5es, todas feitas \u00e0 caneta.<\/p>\n<p>O servi\u00e7o, apesar de trabalhoso, era apenas somar, e meus dedos eram ligeiros, gra\u00e7as aos seis meses como banc\u00e1rio. Tudo estava anotado em cadernos e in\u00fameros pap\u00e9is recortados. Na \u00e9poca, certamente por ingenuidade, n\u00e3o entendi como \u00e9 que uma empresa que movimentava tanta grana ainda usava algo t\u00e3o rudimentar, quando as m\u00e1quinas de escrever, hoje pe\u00e7as de museu, eram t\u00e3o comuns h\u00e1 d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Perto do meio-dia, com mais da metade das somas feitas, Jorge, sentado em uma cadeira ao fundo, me perguntou se eu preferia carne ou frango. Levei um tempo para entender a pergunta, at\u00e9 que percebi que ele estava falando sobre almo\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2014 Frango.<\/p>\n<p>Ele abriu a porta e saiu. N\u00e3o tardou e voltou com duas marmitas e um litro de refrigerante. Entrou na pequena cozinha ao lado, onde havia uma mesa redonda, forrada com uma toalha quadriculada.<\/p>\n<p>\u2014 Manoel, vem comer!<\/p>\n<p>Almo\u00e7amos em sil\u00eancio e, em seguida, retornei aos c\u00e1lculos. Levei mais duas horas para terminar. Jorge, percebendo que o barulho da m\u00e1quina havia cessado, levantou-se e veio at\u00e9 mim.<\/p>\n<p>\u2014 Acabou?<\/p>\n<p>\u2014 Sim.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea \u00e9 bom.<\/p>\n<p>Ele foi em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 porta e, n\u00e3o tardou, nos despedimos. O corredor estava ainda mais escuro, pois a posi\u00e7\u00e3o do Sol havia mudado. Mesmo assim, consegui tatear as paredes at\u00e9 que, finalmente, sa\u00ed pela porta nos fundos do pr\u00e9dio. Passei pelo Pequeno e tive \u00edmpeto de cumpriment\u00e1-lo, mas me faltou coragem. Fui para casa.<\/p>\n<p>Duas semanas depois, enquanto atendia dezenas de pessoas no banco, eis que avistei um rosto familiar. Era Jorge, que carregava uma maleta. Ao seu lado, l\u00e1 estava o Pequeno, com a caracter\u00edstica cara de poucos amigos. Os dois me viram e nos cumprimentamos com acenos de cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>A fila era enorme, mas percebi que os dois queriam ser atendidos por mim, pois Jorge deixou que outros dois clientes, logo atr\u00e1s, lhe tomassem a frente. E, assim que chamei o pr\u00f3ximo da fila, Jorge e Pequeno se postaram diante de mim. O primeiro me entregou a maleta. Enquanto eu contava todo aquele dinheiro, Jorge me disse que um dos pacotes era para mim.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o posso aceitar.<\/p>\n<p>\u2014 Besteira! O Chefe gostou do seu servi\u00e7o. Ele quer conversar com voc\u00ea ainda hoje.<\/p>\n<p>\u2014 Que horas?<\/p>\n<p>\u2014 Agora.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o posso, estou trabalhando.<\/p>\n<p>\u2014 Besteira!<\/p>\n<p>Depois de somar e fazer o dep\u00f3sito daquela dinheirama toda, entreguei o recibo para Jorge. Ele me encarou, e n\u00e3o tive d\u00favida. Fechei o caixa e aquele foi meu \u00faltimo momento como banc\u00e1rio. A partir de ent\u00e3o, quando algu\u00e9m me pergunta sobre meu trabalho, sempre respondo: &#8220;Ah, sou corretor zoot\u00e9cnico!&#8221;<\/p>\n<p><strong>*Eduardo Mart\u00ednez \u00e9 autor do livro \u201c57 Contos e Cr\u00f4nicas por um Autor muito Velho\u201d.<\/strong><\/p>\n<p>Compre aqui\u00a0<span class=\"x19la9d6 x1fc57z9 x6ikm8r x10wlt62 x19co3pv x1g5zs5t xfibh0p xiy17q3 x1xsqp64 x1lkfr7t xexx8yu x4uap5 x18d9i69 xkhd6sd\"><span class=\"xrtxmta x1bhl96m\"><img decoding=\"async\" class=\"emoji\" role=\"img\" draggable=\"false\" src=\"https:\/\/s.w.org\/images\/core\/emoji\/14.0.0\/svg\/1f447-1f3ff.svg\" alt=\"&#x1f447;&#x1f3ff;\" \/><\/span><\/span><span class=\"x19la9d6 x1fc57z9 x6ikm8r x10wlt62 x19co3pv x1g5zs5t xfibh0p xiy17q3 x1xsqp64 x1lkfr7t xexx8yu x4uap5 x18d9i69 xkhd6sd\"><span class=\"xrtxmta x1bhl96m\"><img decoding=\"async\" class=\"emoji\" role=\"img\" draggable=\"false\" src=\"https:\/\/s.w.org\/images\/core\/emoji\/14.0.0\/svg\/1f447-1f3ff.svg\" alt=\"&#x1f447;&#x1f3ff;\" \/><\/span><\/span><span class=\"x19la9d6 x1fc57z9 x6ikm8r x10wlt62 x19co3pv x1g5zs5t xfibh0p xiy17q3 x1xsqp64 x1lkfr7t xexx8yu x4uap5 x18d9i69 xkhd6sd\"><span class=\"xrtxmta x1bhl96m\"><img decoding=\"async\" class=\"emoji\" role=\"img\" draggable=\"false\" src=\"https:\/\/s.w.org\/images\/core\/emoji\/14.0.0\/svg\/1f447-1f3ff.svg\" alt=\"&#x1f447;&#x1f3ff;\" \/><\/span><\/span><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho\">http:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ano era 1987, quando trabalhava como caixa num banco particular. 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