{"id":338382,"date":"2024-10-11T05:38:44","date_gmt":"2024-10-11T08:38:44","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=338382"},"modified":"2024-10-11T05:38:52","modified_gmt":"2024-10-11T08:38:52","slug":"sonho-de-lula-4-comeca-a-virar-pesadelo-apos-as-eleicoes-municipais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/sonho-de-lula-4-comeca-a-virar-pesadelo-apos-as-eleicoes-municipais\/","title":{"rendered":"Sonho de Lula 4 come\u00e7a a virar pesadelo ap\u00f3s as elei\u00e7\u00f5es municipais"},"content":{"rendered":"<p><em>&#8220;As elei\u00e7\u00f5es gerais n\u00e3o medem corretamente a for\u00e7a pol\u00edtica dos partidos por causa das v\u00e1rias influ\u00eancias burguesas, mas servem como um censo para indicar como as for\u00e7as populares est\u00e3o se desenvolvendo.&#8221; (Carta de Friedrich Engels a August Bebel, 28 de outubro de 1884).<\/em><\/p>\n<p>O processo eleitoral n\u00e3o deve ser encarado como fen\u00f4meno pol\u00edtico isolado: como todo fato social, tem causas e, por seu turno, gera consequ\u00eancias. Cada elei\u00e7\u00e3o \u00e9 \u00fanica, assevera o Conselheiro Ac\u00e1cio de plant\u00e3o, e as din\u00e2micas locais e nacional s\u00e3o distintas entre si; mas \u00e9 certo que o controle de prefeituras e c\u00e2maras municipais pela direita, em todos os seus matizes, dos hidr\u00f3fobos em ascens\u00e3o aos fisiol\u00f3gicos de sempre, produzir\u00e1 efeitos que se far\u00e3o sentir nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2026, cada vez mais pr\u00f3ximas. E na elei\u00e7\u00e3o do pr\u00f3ximo Congresso.<\/p>\n<p>\u00c9 desnecess\u00e1rio p\u00f4r de manifesto o cen\u00e1rio do recesso ideol\u00f3gico-pol\u00edtico da esquerda brasileira, de que decorre, de modo natural e inequ\u00edvoco, o desastre eleitoral. Mas cabe delinear o quadro da clamorosa derrota deste ano: recuo no Nordeste (destacando-se a derrota contundente em Salvador, por W.O.); em Minas Gerais (destacando-se o desastre em Belo Horizonte); e consolida\u00e7\u00e3o da direita nos tr\u00eas estados do Sul. Desastre eleitoral no ABC paulista e nas grandes concentra\u00e7\u00f5es eleitorais do interior de SP, como Campinas e Araraquara. Na capital paulista, onde obtivemos nosso mais importante desempenho (o segundo turno com Guilherme Boulos) &#8212; maior cidade da Am\u00e9rica do Sul, maior concentra\u00e7\u00e3o industrial, cultural e tecnol\u00f3gica, onde Lula venceu em 2022 &#8212; nada menos do que 60% do eleitorado votaram com as duas fac\u00e7\u00f5es da extrema-direita.<\/p>\n<p>H\u00e1 dados positivos a celebrar, como o avan\u00e7o da representa\u00e7\u00e3o ind\u00edgena e quilombola, e o fato de o MST haver logrado, de forma in\u00e9dita, eleger 133 candidaturas \u00e0 verean\u00e7a e ao executivo municipal, sobretudo no interior do Brasil profundo, distribu\u00eddas por 19 estados. Mas esses avan\u00e7os alvissareiros n\u00e3o alteram o quadro geral.<\/p>\n<p>Os n\u00fameros eleitorais de 6 de outubro s\u00e3o ponto de refer\u00eancia para uma tentativa de investiga\u00e7\u00e3o das transforma\u00e7\u00f5es pol\u00edtico-ideol\u00f3gicas que se operam em nosso pa\u00eds; verdadeiros movimentos tect\u00f4nicos muitas vezes despercebidos na superf\u00edcie, o que induz o espectador desatento a confundir as apar\u00eancias com a ess\u00eancia dos fen\u00f4menos. Exemplar da incapacidade de os sism\u00f3grafos sociais registrarem essas mudan\u00e7as foi a incapacidade dos ditos quadros pol\u00edticos de compreender o significado dos movimentos de contesta\u00e7\u00e3o popular \u2013 as chamadas &#8220;jornadas de junho&#8221; de 2013 \u2013 que tomaram as principais cidades do pa\u00eds, anunciando as ra\u00edzes de um fen\u00f4meno que nos recus\u00e1vamos a reconhecer.<\/p>\n<p>Os n\u00fameros deste pleito, para al\u00e9m de indicador de um pronunciamento eleitoral, devem ser colhidos como corpo de an\u00e1lise do recente e r\u00e1pido e profundo processo social e pol\u00edtico brasileiro. A ess\u00eancia (de f\u00e1cil identifica\u00e7\u00e3o) \u00e9 essa: o pa\u00eds marcha para a direita, e n\u00e3o \u00e9 de hoje. O exerc\u00edcio \u00e9 procurar explica\u00e7\u00f5es, e, a partir delas, engendrar o enfrentamento. Como n\u00e3o estamos em face do acaso, nem muito menos da inger\u00eancia dos deuses do Olimpo, precisamos identificar como as for\u00e7as populares est\u00e3o se desenvolvendo entre n\u00f3s, para, a partir da\u00ed, podermos (porque devemos) rever estrat\u00e9gia e t\u00e1tica e, portanto, nosso discurso.<\/p>\n<p>O ponto de partida \u00e9 que a crise \u00e9 nossa. E um indicador, tr\u00e1gico, inquietante, \u00e9 o fato de a capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o popular da direita superar a da esquerda, e avan\u00e7ar, nas pegadas do recesso de nossa milit\u00e2ncia, na organiza\u00e7\u00e3o popular nas periferias, junto a trabalhadores e aos deserdados do capitalismo.<\/p>\n<p>Nada obstante a crise do capitalismo financeiro-monopolista, em guerra, que em breve nos atingir\u00e1 a todos, e os impactos do avan\u00e7o tecnol\u00f3gico nas rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, as teses socialistas v\u00eam, gradativamente, perdendo espa\u00e7o junto \u00e0s grandes massas. A direita protofascista conseguiu, nessas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es, o prod\u00edgio de, em pleno s\u00e9culo XXI, ressuscitar o anticomunismo, e a Faria Lima elegeu o pleno emprego como amea\u00e7a ao &#8220;equil\u00edbrio fiscal&#8221;, o mantra dos economistas a servi\u00e7o da especula\u00e7\u00e3o financeira. O cantoch\u00e3o da velha imprensa.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi por falta de avisos que trope\u00e7amos no abismo.<\/p>\n<p>Repetindo a incompet\u00eancia de 2013, continuamos, nos anos seguintes, nos negando a reconhecer as transforma\u00e7\u00f5es pol\u00edtico-ideol\u00f3gicas que caminhavam na contram\u00e3o de nossas propostas. Nos recus\u00e1mos a ver em 2014 o significado das gritantes dificuldades da reelei\u00e7\u00e3o de Dilma Rousseff, amea\u00e7ada pelo avan\u00e7o de uma candidatura e uma campanha de direita, j\u00e1 indicando os novos rumos da socialdemocracia. A tese: Dilma foi deposta n\u00e3o exatamente por n\u00e3o haver conseguido amealhar 247 votos no Congresso, mas porque, nas ruas, n\u00e3o encontramos apoio popular para alterar a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as congressual adversa. A elei\u00e7\u00e3o de Jair Bolsonaro, seu governo predador e a dif\u00edcil campanha de 2022 s\u00e3o desdobramentos naturais desse refluxo.<\/p>\n<p>Resistimos a reconhecer esses fatos e resistimos a procurar entend\u00ea-los. Demos o desastre como favas contadas, e assim, de uma forma ou de outra, terminamos por facilitar a progress\u00e3o da direita hidr\u00f3foba.<\/p>\n<p>Apressadamente festejamos a dific\u00edlima derrota da proposta protofascista em 2022 como uma vit\u00f3ria da esquerda. Rea\u00e7\u00e3o de \u00faltimo f\u00f4lego da democracia, a conten\u00e7\u00e3o do golpe continuado decorreu da derradeira carta na manga, a oportuna composi\u00e7\u00e3o da centro-esquerda, liderada por Lula, com setores da direita, com for\u00e7as pol\u00edticas conservadoras e liberais \u2013 sempre advers\u00e1rias da esquerda, mas que, naquele ensejo, temiam a proposta exacerbadamente autorit\u00e1ria e destrutiva. Os n\u00fameros justificariam a ang\u00fastia vivida e homologam a composi\u00e7\u00e3o da frente-ampla, mas n\u00e3o forneceram a Lula senha para salvar-se do labirinto em que se encontra atrapado.<\/p>\n<p>O espelho do Brasil real fez-se representar no atual Congresso, eleito naquelas mesmas elei\u00e7\u00f5es, o mais reacion\u00e1rio de quantos se contam na Rep\u00fablica. O resto \u00e9 hist\u00f3ria sabida, com a emerg\u00eancia da ditadura parlamentar do Centr\u00e3o, liderado pelo jagun\u00e7o de Alagoas.<\/p>\n<p>O resultado das elei\u00e7\u00f5es de 2022, n\u00e3o sendo nem um ponto de partida nem de chegada, \u00e9, por\u00e9m, o indicador do que poder\u00e3o ser as elei\u00e7\u00f5es de 2026, considerando: a) o quanto nelas est\u00e3o investindo as direitas (a direita negocista e a direita troglodita), aguerridas, agressivas, organizadas, e temo dizer, competentes, pois armadas de objetivo claro e catalizador, qual seja, a tomada do poder, como poss\u00edvel, pela via eleitoral (como em 2018) ou pelo golpe de m\u00e3o, como a frustrada intentona de janeiro de 2023; e b) quanto t\u00eam recuado nossas esquerdas, seja do ponto de vista ideol\u00f3gico, seja do ponto de vista da organiza\u00e7\u00e3o, seja do ponto de vista estrat\u00e9gico.<\/p>\n<p>O ponto crucial \u00e9 sempre o desvio ideol\u00f3gico.<\/p>\n<p>Paralisado, condicionado pela maioria reacion\u00e1ria do Congresso, nosso governo, quando n\u00e3o recua, \u00e9 obrigado a n\u00e3o avan\u00e7ar, e assim transita da centro-esquerda (proposta da campanha eleitoral) para o centro, frustrando as massas que dele ainda espera as mudan\u00e7as prometidas, hoje tornadas invi\u00e1veis em face da correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as de que depende para simplesmente sobreviver. E que, aparentemente conformado, n\u00e3o busca alterar.<\/p>\n<p><strong>O quadro pode piorar?<\/strong><br \/>\nPor sem d\u00favida que pode, se n\u00e3o houver a revis\u00e3o program\u00e1tica das esquerdas e do governo. O governo Lula, olhando de frente e com coragem a realidade f\u00e1tica, precisa ser um novo governo, amparado em um programa reconhec\u00edvel pelo pa\u00eds, corajosamente mudancista, refazendo pr\u00e1ticas, projetos e composi\u00e7\u00e3o em fun\u00e7\u00e3o de novas pr\u00e1ticas e projetos. E, sem poder abrir m\u00e3o das negocia\u00e7\u00f5es, decidir-se (\u00e9 bom lembrar-se que j\u00e1 est\u00e1 no encerramento do segundo ano de seu mandato) a dialogar com o povo, que em grande medida ainda acredita nele. A tarefa \u00e9 \u00e1rdua, pois se trata de trocar os pneus com o caminh\u00e3o andando. O tempo alimenta a ang\u00fastia. A habilidade, e mesmo a manha, continuam necess\u00e1rias, mas deixaram de ser suficientes, pois as novas circunst\u00e2ncias exigem tamb\u00e9m decis\u00e3o e coragem para mudar.<\/p>\n<p>A tarefa \u00e9 dos partidos, mas n\u00e3o apenas deles, pois a esquerda est\u00e1 comprometida com os destinos do governo que ajudou a eleger e tenta sustentar. Os fatos exigem, dos partidos e do governo, dos sindicatos e da milit\u00e2ncia, um sistem\u00e1tico trabalho de educa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, de sorte a fazer frente \u00e0 permanente lavagem cerebral a que s\u00e3o diuturna e sistematicamente submetidas as grandes massas, indefesas em face da grande m\u00eddia, aparelho ideol\u00f3gico da classe dominante, tanto quanto as redes sociais e a a\u00e7\u00e3o politizada e partidarizada de seitas religiosas postas a servi\u00e7o do atraso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;As elei\u00e7\u00f5es gerais n\u00e3o medem corretamente a for\u00e7a pol\u00edtica dos partidos por causa das v\u00e1rias influ\u00eancias burguesas, mas servem como um censo para indicar como as for\u00e7as populares est\u00e3o se desenvolvendo.&#8221; (Carta de Friedrich Engels a August Bebel, 28 de outubro de 1884). 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