{"id":338390,"date":"2024-10-11T06:10:02","date_gmt":"2024-10-11T09:10:02","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=338390"},"modified":"2024-10-11T06:10:02","modified_gmt":"2024-10-11T09:10:02","slug":"lembrancas-de-uma-noite-suja-longe-do-furacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/lembrancas-de-uma-noite-suja-longe-do-furacao\/","title":{"rendered":"Lembran\u00e7as de  uma noite suja longe do furac\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>No Brasil da politicalha, dif\u00edcil dormir, acordar, escrever, mandar o Bernardo \u00e0s compras (quero dizer molhar o biscoito), sem pensar em pol\u00edtica. Como pol\u00edtica faz mal ao f\u00edgado e ao Alain Delon periquiteiro, eu tento. Tenho conseguido porque decidi viver a vida s\u00f3 pensando naquiiiilo. Nada mais do que pensar. N\u00e3o \u00e0 toa, desisti de dar aulas de geometria e fundei a Igreja Quadrangular do Tri\u00e2ngulo Redondo. Me embrenhei na religi\u00e3o, mas jamais escondi que, nas noites mal dormidas, meu sonho era outro. Ainda pequenino, logo ap\u00f3s Pedro \u00c1lvares Cabral ter chegado por aqui, me lembro bem que j\u00e1 sonhava gerenciando uma casa de facilidade, daquelas em que, antes de requerer fal\u00eancia, a gente consome o estoque.<\/p>\n<p>Sonhos de uma noite suja de ver\u00e3o bem longe do furac\u00e3o Milton. Falo de facilidade, pois, mesmo menino, j\u00e1 achava o termo lenoc\u00ednio grosseiro, na mesma propor\u00e7\u00e3o em que, com dez dedos, me avaliava mais esperto do que aqueles que tinham somente nove. \u00c0s vezes, pelado em frente ao espelho, jurava que havia nascido com 11 dedos. Besteira. Enquanto pregava no p\u00falpito do quadril\u00e1tero arredondado de minha rent\u00e1vel igreja, torcia para que chegasse logo a sexta-feira, dia em que at\u00e9 a virtude prevarica. Na madrugada de quinta-feira, j\u00e1 me imaginava na perdi\u00e7\u00e3o. A resposta para os necess\u00e1rios car\u00f5es maternos estava na ponta da l\u00edngua ou no fim de um dos 11 dedos: \u201cPerfei\u00e7\u00e3o \u00e9 coisa de menininha tocadora de piano\u201d. Tudo a ver com os dedos.<\/p>\n<p>Ao meu pai supostamente severo, dizia que \u00e9 f\u00e1cil parecer perfeito quando n\u00e3o se est\u00e1 fazendo nada. Era o caso dele, cujo sonho era fazer o mesmo que eu tinha sonhado para a sexta-feira. O velho era um cara s\u00e9rio, mas, especificamente nessas ocasi\u00f5es, a falsidade era tamanha que eu me projetava para o Paraguai. Bom mesmo era meu av\u00f4, o s\u00e1bio Aristarco Pederneira. N\u00e3o havia tempo ruim para o chefe do cl\u00e3. No calor, ele vadiava. Chovia, punha a galocha para pisar sem medo na casa de Maria do Bolinho, vizinha da constru\u00e7\u00e3o geminada. No frio, se limitava a enfiar a pantufa no recesso do lar.<\/p>\n<p>Menos sorte teve meu tio-av\u00f4 Ladislau Pederneira. Mudo de nascen\u00e7a, gostava de cutucar silenciosamente em terreno alheio. E pouco se importava se a areia a ser cavoucada era made in China, isto \u00e9, meio barro, meio tijolo, com buraco apenas no verso. Entre os dias de prazer intenso, mas sem gritos, houve um de triste lembran\u00e7a. L\u00e1 por mil novecentos e outubro, a fam\u00edlia acordou sobressaltada, mas radiante e feliz com o sucedido. Ainda que monossilabicamente, Ladislau havia falado. E alto. No quarto escuro, pego no flagrante pelo marido da falsa loura, ele sentiu uma m\u00e3o potente apertando-lhe as gl\u00e2ndulas ovais. O sujeito perguntou tr\u00eas vezes quem era o intruso.<\/p>\n<p>Sem resposta, na quarta tentativa, o corno apertou ainda mais os gr\u00e3os do velho. Agora com as duas m\u00e3os. Algo como dois minutos depois dos ovos espremidos, a derradeira pergunta: Quem est\u00e1 a\u00ed? \u201c\u00c9 o mudo, porra!\u201d Dois segundos de grito e meia hora de porrada. Eis a raz\u00e3o pela qual decidi criar a Igreja Quadrangular do Tri\u00e2ngulo Redondo. Foi pura birra com o corno das m\u00e3os grossas e violentas, tamb\u00e9m afamado e difamado pastor da Igreja Presbicheriana Daquilo Cor de Rosa. Apesar do boom arrecadat\u00f3rio da igreja, o epis\u00f3dio me desestimulou a cerrar fileiras no mundo sacro. S\u00f3 pensava no que n\u00e3o pertencia ao \u00e2mbito do sagrado.<\/p>\n<p>Sabia que profanar minha alma inocente era uma quest\u00e3o de tempo. Tamb\u00e9m sabia que a maior mentira do mundo \u00e9 algu\u00e9m dizer que o imundo \u00e9 limpo e o profano santo. Sabia, mas n\u00e3o acreditava. S\u00f3 acreditei quando resolvi misturar arte com a vida. Foi a\u00ed que, fugindo de Milton e de Katrina, me dei conta da profundidade da pintora e escultora brasileira Lygia Clark, para quem o er\u00f3tico vivido como profano e a arte vivida como sagrada se fundem numa \u00fanica experi\u00eancia. Percebi a tempo que o sagrado e o profano eram dois amigos insepar\u00e1veis, at\u00e9 que o fanatismo os apartou. Por isso, larguei de vez a dedica\u00e7\u00e3o \u00e0 igreja para me dedicar, de fato e de direito, \u00e0 minha casa de divers\u00e3o na Fl\u00f3rida, singelamente batizada de Fados &amp; Fuckings.<\/p>\n<p><strong>*Wenceslau Ara\u00fajo \u00e9 Editor-Chefe de<em> Notibras<\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No Brasil da politicalha, dif\u00edcil dormir, acordar, escrever, mandar o Bernardo \u00e0s compras (quero dizer molhar o biscoito), sem pensar em pol\u00edtica. Como pol\u00edtica faz mal ao f\u00edgado e ao Alain Delon periquiteiro, eu tento. Tenho conseguido porque decidi viver a vida s\u00f3 pensando naquiiiilo. Nada mais do que pensar. 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