{"id":338549,"date":"2024-10-13T08:48:39","date_gmt":"2024-10-13T11:48:39","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=338549"},"modified":"2024-10-13T08:50:19","modified_gmt":"2024-10-13T11:50:19","slug":"no-recife-espinheiro-no-bairro-era-jardim-florido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/no-recife-espinheiro-no-bairro-era-jardim-florido\/","title":{"rendered":"No Recife, Espinheiro no bairro era jardim florido"},"content":{"rendered":"<p>Durante uma longa viagem de carro, onde a \u00fanica companhia era eu mesmo, fui brindado por uma playlist que montei sem nem perceber o quanto ela me representava. As m\u00fasicas, muitas delas da d\u00e9cada de 80, embalaram meus pensamentos enquanto me lembrava do dia 11 de abril de 1985. Para a maioria, esse dia n\u00e3o traz nenhuma mem\u00f3ria especial, mas para mim, marcou o in\u00edcio da minha vida profissional. Aos 17 anos, rec\u00e9m-aprovado na faculdade de Direito de Pernambuco, comecei a trabalhar no saudoso Bandepe \u2014 o Banco do Estado de Pernambuco.<\/p>\n<p>E voc\u00ea pode perguntar: o que a playlist tem a ver com isso? No in\u00edcio, eu tamb\u00e9m n\u00e3o via liga\u00e7\u00e3o, mas aos poucos me dei conta de que minha vida \u00e9, at\u00e9 hoje, marcada por aquelas m\u00fasicas e pelas pessoas que moldaram quem eu sou.<\/p>\n<p>Lembro perfeitamente da minha apresenta\u00e7\u00e3o na pequena ag\u00eancia do Bandepe, no Shopping Espinheiro \u2014 um pequeno mall de bairro. Cheguei meio perdido, sem saber o que esperar, e me disseram que procurasse o gerente geral, Fl\u00e1vio Roberto Maciel Schetinni. Fui arrumado como um garoto de 17 anos que tinha acabado de passar no vestibular, ainda com o cabelo curto, resultado da promessa que fiz. Quando cheguei, Schetinni me olhou com um sorriso ir\u00f4nico e soltou uma daquelas frases que voc\u00ea nunca esquece: &#8220;Seu cabelo parece um pentelho de cu de urso!&#8221; Essa foi minha recep\u00e7\u00e3o! Eu esperava algo mais formal, mas ali entendi que aquele seria um lugar diferente. E estava certo.<\/p>\n<p>Comecei sob a supervis\u00e3o de Marcos Botelho, que dividia comigo uma mesa improvisada, composta de uma porta apoiada em dois bereaus. Ali datilograf\u00e1vamos balan\u00e7os e balancetes, e a sensa\u00e7\u00e3o era a mesma de estar em uma sala de aula, apertada, ca\u00f3tica, mas com uma energia incr\u00edvel. A ag\u00eancia era pequena, mas cheia de vida, e logo se mudaria para um espa\u00e7o maior na Rua da Hora.<\/p>\n<p>Aquelas pessoas e aquele ambiente eram \u00fanicos. Schetinni, com seu jeito irreverente e parecido com o jeito italiano do ator F\u00falvio Stefanini, me ensinou desde cedo que o trabalho pode ser leve e, ao mesmo tempo, eficiente. E assim, naquela bagun\u00e7a organizada, fiz amigos e mem\u00f3rias que carrego at\u00e9 hoje. De Elias Bispo, recebi o primeiro incentivo a escrever, algo que at\u00e9 hoje teimo em fazer. Fiz amigos insepar\u00e1veis, como Bruno, Helena, Mulatinho e Fred. Vivi paix\u00f5e sinceras com Gilberta e T\u00e2nia. Admirei a eleg\u00e2ncia de Roberta e Virg\u00ednia. E me diverti demais com Rizete, Ilma, Wilson e Marco Mota.<\/p>\n<p>Os almo\u00e7os com Fernando Coelho eram acompanhados de risadas e, claro, o infal\u00edvel rum Montilla. Ol\u00edmpio, com sua seriedade, n\u00e3o tolerava meus atrasos, mas mesmo assim, me ensinou muito. Jalva foi a primeira a me chamar de chefe, e isso, confesso, me marcou profundamente. E Darci? Ah, Darci de Albuquerque Aleluia, nossa telefonista, com uma voz que ningu\u00e9m superava.<\/p>\n<p>As lembran\u00e7as de pessoas como Dona Eurides, nossa copeira, e o vigilante Ferreira s\u00e3o t\u00e3o vivas quanto os sandu\u00edches que Dona Eurides preparava para n\u00f3s. Luiz Henrique, o querido Lula, que s\u00f3 tomava Coca sem g\u00e1s, e Ad\u00e3o, mestre em ensinar, completam esse time que faz parte da minha hist\u00f3ria. Era uma mistura de personalidades, habilidades e afeto, que transformavam aquela ag\u00eancia em um sucesso, apesar do caos aparente.<\/p>\n<p>E como n\u00e3o falar de Bosco, que era um dos grandes personagens daquele lugar? Uma mistura de Dr. Smith, da s\u00e9rie &#8220;Perdidos no Espa\u00e7o&#8221;, com um cirandeiro at\u00f4mico. Seu jeito de cantar \u201c&#8230;.eu fui a praia do Janga&#8230;\u201d era a alegria do fim do dia. O velho Bosco era uma esp\u00e9cie de curandeiro da tristeza. N\u00e3o era peixe, era a encarna\u00e7\u00e3o de Iemanj\u00e1 em pele de um homem bom! Bosco tinha a capacidade de tirar a carga dos ombros de qualquer um, transformando o ambiente ao seu redor. Para mim, ele era mais que um colega, era uma presen\u00e7a que dava sentido \u00e0quela jornada.<\/p>\n<p>Se passaram quase 40 anos desde aquele dia, e, claro, muitos j\u00e1 se foram. A maioria eu perdi o contato, mas suas presen\u00e7as ainda ecoam em mim, como as notas das m\u00fasicas da minha playlist. De vez em quando, me pego pensando naqueles tempos e em como foi importante conviver com essa turma. Certamente esqueci de citar algu\u00e9m, mas isso n\u00e3o quer dizer que os n\u00e3o lembrados agora n\u00e3o foram importantes para mim. A mem\u00f3ria, \u00e0s vezes, falha, e o turbilh\u00e3o de lembran\u00e7as \u00e9 t\u00e3o grande que n\u00e3o consigo transformar tudo em texto de uma s\u00f3 vez.<\/p>\n<p>Ainda vou escrever mais sobre essas pessoas t\u00e3o queridas e sobre os clientes que, mais do que clientes, faziam parte da equipe. Aquela ag\u00eancia do Bandepe era um reduto de gente dedicada, bagun\u00e7ada, mas eficiente. N\u00e3o tenho d\u00favidas de que a minha hist\u00f3ria com eles merece muitos outros cap\u00edtulos.<\/p>\n<p>Por agora, vou apanhando meu t\u00e1xi para a esta\u00e7\u00e3o lunar da saudade. Beijos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante uma longa viagem de carro, onde a \u00fanica companhia era eu mesmo, fui brindado por uma playlist que montei sem nem perceber o quanto ela me representava. As m\u00fasicas, muitas delas da d\u00e9cada de 80, embalaram meus pensamentos enquanto me lembrava do dia 11 de abril de 1985. 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