{"id":339799,"date":"2024-10-31T06:53:02","date_gmt":"2024-10-31T09:53:02","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=339799"},"modified":"2024-10-31T06:55:09","modified_gmt":"2024-10-31T09:55:09","slug":"madeixas-de-doralina-tinham-o-brilho-da-alma-de-uma-crianca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/madeixas-de-doralina-tinham-o-brilho-da-alma-de-uma-crianca\/","title":{"rendered":"Madeixas de Doralina tinham o brilho da alma de uma crian\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p>Numa incerta manh\u00e3, desacordada dos dias cont\u00ednuos e inquietantes vividos em seus tantos anos de gra\u00e7a e gl\u00f3ria, Doralina envereda-se em seu inimagin\u00e1vel despertar: seus cabelos haviam desaparecido. (Antonio Gil Neto).<\/p>\n<p>No quarto, ainda em semiescurid\u00e3o, tenta controlar o p\u00e2nico que rapidamente se avolumava em seu peito! O que teria acontecido? Abrupta, afasta as cortinas. N\u00e3o se preocupa em cobrir suas vergonhas, ansiosa por encontrar sobre a cama os fios perdidos de seus longos e vistosos cabelos, mas n\u00e3o v\u00ea um \u00fanico que seja. Como poderia uma cabeleira toda desaparecer? Aquilo n\u00e3o fazia o menor sentido! Com as m\u00e3os apalpando a cabe\u00e7a completamente lisa, sente um vazio absurdo no lugar dos seus belos cabelos ruivos&#8230; Ou seriam loiros? Ou azuis? (Cassiano Silveira).<\/p>\n<p>A aus\u00eancia da lembran\u00e7a aumenta sua agonia. (Antonio Gil Neto).<\/p>\n<p>O que estava acontecendo? Tenta encadear seus pensamentos de forma l\u00f3gica, mas &#8230; (Cassiano Silveira).<\/p>\n<p>Algo a impede. Tenta novamente recompor, passo a passo, as a\u00e7\u00f5es preparat\u00f3rias para o descanso noturno. Limpara a pele do rosto e pesco\u00e7o com o creme de limpeza e o lencinho demaquilante, lavara o rosto cuidadosamente, passara o creme nutritivo. A imagem da qual lembrava ter visto no espelho era a de uma pessoa com uma touca de banho na cabe\u00e7a. (Edna Domenica Merola).<\/p>\n<p>A lua dilui-se inconstante namorando a madrugada a respirar seu devagar. (Antonio Gil Neto).<\/p>\n<p>Que estranha imagem se esfacelando: imagem-sorvete, derretendo&#8230; Essa n\u00e3o sou eu&#8230; Mas seria quem? \u2e3a disse Doralina, num daqueles di\u00e1logos internos capazes de nos enlouquecer. Lembra-se de que deixara o banheiro como quem deixa um sarc\u00f3fago. Joga-se na imensa cama super size, cobre-se, busca carneirinhos saltando cercas e somente apaga ap\u00f3s o efeito dos dois comprimidos de Lexotan. Vieram os sonhos. (Gilberto Motta).<\/p>\n<p>E a vis\u00e3o do vazio. (Edna Domenica Merola).<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Foi caindo,<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>caindo,<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>caindo&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>de repente se viu correndo alegremente pelos campos arenosos, avermelhados e poeirentos de Marte. Naqueles distantes e felizes dias primaveris, seus belos, cheirosos, macios e longos cabelos bailavam ao sabor do vento que sibilava redemoinhos de p\u00f3 acobreados em seu ser risonho. Aquela dan\u00e7a, ora fren\u00e9tica, ora lenta, resultava em gargalhadas estonteantes e girat\u00f3rias. Sentia as car\u00edcias marotas e \u00e0s vezes ousadas do vento que insistia em despentear suas madeixas caprichosamente penteadas. O perfume cor de top\u00e1zio que exalava de suas melenas embriagava o ambiente cambaleante. At\u00e9 que, de s\u00fabito, se viu refletida&#8230; (Rosilene Souza).<\/p>\n<p>Nas \u00e1guas negras de um lago profundo. Conversando consigo mesma, Doralina busca desatar seus pr\u00f3prios n\u00f3s, talvez seu pr\u00f3prio eu. O reflexo lhe conta seu passado, lhe cospe suas culpas e lhe acusa de seus medos. As ondula\u00e7\u00f5es na superf\u00edcie l\u00edquida viscosa aumentam em frequ\u00eancia e amplitude, at\u00e9 seus punhos irromperem em vagalh\u00f5es furiosos de liberta\u00e7\u00e3o. Ap\u00f3s a tormenta, vem a bonan\u00e7a, n\u00e3o necessariamente a reden\u00e7\u00e3o. (Cassiano Silveira).<\/p>\n<p>Algu\u00e9m, algo indiz\u00edvel a espia aprisionado no sil\u00eancio das horas salteadas. O torpor de Doralina se aquieta.<\/p>\n<p>Do sonho abrupto, c\u00e9lere, voraz, a claridade do sol da manh\u00e3 ilumina sua coragem desnuda.<\/p>\n<p>Encolhe os ombros sem sinal de perplexidade. Desarranca o choro embutido do que nem se pode pensar. Assegura-se nos pensamentos mais precisos. Preciosos. Teme o momento seguinte numa esp\u00e9cie de desmoronamento geral.<\/p>\n<p>O som de um violino distante lateja mi\u00fado na janela, em canto de p\u00e1ssaro buscando novo ninho.<\/p>\n<p>As m\u00e3os de Doralina repousam no colo como benesses. Passa ent\u00e3o de leve os dedos pela calv\u00edcie como quem brinca pela primeira vez com os l\u00edquidos, os v\u00edtreos, as p\u00e9talas. O plastificado do cr\u00e2nio feito nudez de frio, mais o ins\u00f3lito, a convida para uma ventura como quem muda de lugar inquieto, distante.<\/p>\n<p>Desperta da jaula de suas pr\u00f3prias mem\u00f3rias, seus atos arrebanhados. Acolhe-se apenas nas delicadezas. Pelos seus olhos exalam larguezas e esp\u00edrito bom.<\/p>\n<p>Dona do espa\u00e7o fica de c\u00f3coras ao espelho feito sapo faminto. Gosta do que v\u00ea. Meio circo, meio selvagem. Nem quer ser de pedra. Sua auto-observa\u00e7\u00e3o esgota-se: o abismo ou o voo. Surpresa-se. Na verdade, precipita-se em vasta velocidade. Como se a dor fosse unicamente perder os cabelos. Doralina \u00e9 algu\u00e9m desejando andar facilmente pelos caminhos de alguma eternidade.<\/p>\n<p>Leve levanta-se. Coloca o rosto no lago refletido e sente algo irracional e ditoso impulsionando. \u00c9 uma for\u00e7a, uma Rapunzel ao contr\u00e1rio. Sua fantasia \u00e9 sua realidade nua. Traria um beb\u00ea no peito. Em torno dele j\u00e1 brincavam outras crian\u00e7as. Ela e o beb\u00ea dos sonhos teriam a cabe\u00e7a nua para registrar outras hist\u00f3rias.<\/p>\n<p>Seu ventre \u00e9 uma festa. (Antonio Gil Neto).<\/p>\n<p>Seu cora\u00e7\u00e3o borbulha.<\/p>\n<p>Sua mente fa\u00edsca futuros poss\u00edveis, caminhos e novas experi\u00eancia: Doralina agora \u00e9 livre e pode ser quem quiser! (Cassiano Silveira).<\/p>\n<p>Impregnada de algu\u00e9ns&#8230; (Antonio Gil Neto).<\/p>\n<p>Vai ao encontro do mundo. Desliza no asfalto como a bailarina mais perfeita do peda\u00e7o: irresist\u00edvel e inigual\u00e1vel como uma deusa dos sonhos, desejos e libido. Mesmo sem suas madeixas, sua alma brilha como a de uma menina. (Marlene Xavier Nobre).<\/p>\n<p><strong>*Escritores colaboradores do <em>Caf\u00e9 Liter\u00e1rio<\/em> (Antonio Gil Neto, Cassiano Silveira, Edna Domenica Merola, Gilberto Motta, Marlene Xavier Nobre e Rosilene Souza)<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Numa incerta manh\u00e3, desacordada dos dias cont\u00ednuos e inquietantes vividos em seus tantos anos de gra\u00e7a e gl\u00f3ria, Doralina envereda-se em seu inimagin\u00e1vel despertar: seus cabelos haviam desaparecido. (Antonio Gil Neto). No quarto, ainda em semiescurid\u00e3o, tenta controlar o p\u00e2nico que rapidamente se avolumava em seu peito! O que teria acontecido? Abrupta, afasta as cortinas. 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