{"id":339947,"date":"2024-11-02T08:59:48","date_gmt":"2024-11-02T11:59:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=339947"},"modified":"2024-11-02T08:59:48","modified_gmt":"2024-11-02T11:59:48","slug":"saudade-e-pior-que-pobreza-diz-idosa-em-situacao-de-rua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/saudade-e-pior-que-pobreza-diz-idosa-em-situacao-de-rua\/","title":{"rendered":"&#8220;Saudade \u00e9 pior que pobreza&#8221;, diz idosa em situa\u00e7\u00e3o de rua"},"content":{"rendered":"<p>Uma lona preta desgastada, apoiada por madeiras fincadas na terra, em \u00e1rea de cal\u00e7ada, cobre a vida da aposentada baiana Luzia Cavalcante, de 67 anos. \u201cMas estar na rua n\u00e3o \u00e9 a minha maior dor. Pior que a pobreza \u00e9 a saudade\u201d, lamenta.<\/p>\n<p>Com a vassoura na m\u00e3o, a mulher nascida em Campo Alegre de Lourdes (BA) buscava afastar a poeira jogada pelos carros que passam acelerados por uma via expressa na Asa Norte, em Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>\u201cEu varro a rua na frente de casa para passar o tempo. Todos os anos, preparo minha cabe\u00e7a para o Dia de Finados (2), o meu pior dia da vida\u201d. \u00c9 quando ela vai visitar os t\u00famulos do marido Raimundo, falecido com c\u00e2ncer de es\u00f4fago, h\u00e1 28 anos, e do filho Jo\u00e3o, assassinado aos 18 anos, em 2019.<\/p>\n<p>Foi pela mem\u00f3ria do filho que Luzia passou tr\u00eas dias buscando doa\u00e7\u00e3o e empr\u00e9stimo para juntar R$ 3 mil e conseguir sepultar o corpo do rapaz em um cemit\u00e9rio de Planaltina (DF). Teve dificuldades de pedir ajuda porque n\u00e3o sabe escrever sobre a dor e a necessidade que estava passando.<\/p>\n<p>\u201cPenso neles a toda hora. Tem gente que nos v\u00ea vivendo na rua e pensa que a gente \u00e9 acostumado a viver na dor. Eu nunca me acostumei a viver sem eles\u201d, lamentou.<\/p>\n<p>At\u00e9 a morte do rapaz, eles viviam em uma casa \u201chumilde\u201d na cidade de Vian\u00f3polis (GO).<\/p>\n<p><strong>Luto<\/strong><br \/>\nMas a dor e \u201coutros motivos&#8221; levaram parte da fam\u00edlia a viver em uma barraca na rua. Levantamento do Instituto de Pesquisa e Estat\u00edstica do Distrito Federal (IPE-DF), divulgado no ano passado, mostra que o n\u00famero de pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua nessa unidade federativa \u00e9 de 2.938.<\/p>\n<p>A morte de familiares \u00e9 citada como um dos principais motivos que levam pessoas para essa condi\u00e7\u00e3o. Em todo o Brasil, segundo o Minist\u00e9rio dos Direitos Humanos e da Cidadania, s\u00e3o 236,4 mil.<\/p>\n<p>A correria de Luzia envolve tentar cuidar dos outros nove filhos que ficaram, incluindo a ca\u00e7ula que sofre de anemia profunda e n\u00e3o anda. A barraca onde vivem foi instalada pr\u00f3xima ao hospital p\u00fablico na Asa Norte em que a jovem de 18 anos faz tratamento.<\/p>\n<p>\u201cAmanh\u00e3 \u00e9 dia de ir ao cemit\u00e9rio. Segunda \u00e9 para ir ao hospital\u201d. Atualmente, ela sobrevive com o Benef\u00edcio de Presta\u00e7\u00e3o Continuada (BPC), do governo federal, e tenta, nos dias que volta a Goi\u00e1s, cultivar a ro\u00e7a na casa de amigos. Ela queria cuidar mais dos t\u00famulos em que os amores da vida dela est\u00e3o enterrados.<\/p>\n<p><strong>Invisibilidade<\/strong><br \/>\nLuzia n\u00e3o sabia, mas, no Distrito Federal, onde ela vive, h\u00e1 a possibilidade de que pessoas em vulnerabilidade recorram ao sepultamento social. A secretaria de Desenvolvimento Social garante que divulga o servi\u00e7o para o p\u00fablico-alvo. S\u00e3o exigidos para o benef\u00edcio documentos oficiais, como o comprovante de renda, que n\u00e3o pode ultrapassar 50% do sal\u00e1rio m\u00ednimo na casa da pessoa.<\/p>\n<p>Conforme explica a professora de servi\u00e7o social Larissa Matos, do Centro Universit\u00e1rio de Bras\u00edlia (Ceub), pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua, mesmo vivendo em \u00e1reas urbanas, \u00e0 vista da multid\u00e3o da metr\u00f3pole, est\u00e3o invisibilizadas, inclusive pelas pol\u00edticas p\u00fablicas e pela sociedade. Assim, tamb\u00e9m invisibilizadas tamb\u00e9m na situa\u00e7\u00e3o de luto.<\/p>\n<p>\u201cA fragilidade em que vivem pode aprofundar ainda mais os sentimentos da perda e as lembran\u00e7as de um outro momento de vida\u201d, diz a pesquisadora.<\/p>\n<p><strong>Saudade di\u00e1ria<\/strong><br \/>\nOutra baiana na capital do Brasil, que define a vida como uma \u201csaudade di\u00e1ria\u201d, \u00e9 Maria dos Santos, de 60 anos. Ela, que mudou de Xique-Xique (BA) para a capital do pa\u00eds quando era adolescente, diz que a perda dos pais de forma precoce fez tamb\u00e9m com que perdesse a casa e o rumo da vida.<\/p>\n<p>Maria tamb\u00e9m vive sob uma lona, ao lado de uma obra na capital.<\/p>\n<p>\u201cQuando eles eram vivos, t\u00ednhamos uma ro\u00e7a. Eles est\u00e3o enterrados em Goi\u00e1s. N\u00e3o tenho como ir l\u00e1 ver. N\u00e3o tenho dinheiro para viajar. At\u00e9 queria, mas n\u00e3o d\u00e1\u201d, lamenta.<\/p>\n<p>Por falar em saudades, o pernambucano Sebasti\u00e3o de Lima, de 59 anos, que vive sob uma lona na Asa Sul, diz que sonha todos os dias com a m\u00e3e, que morreu h\u00e1 tr\u00eas d\u00e9cadas. \u201cO corpo dela est\u00e1 enterrado l\u00e1 em Olinda (PE). N\u00e3o tenho como visitar. Mas eu queria. Era ela a pessoa que me dava carinho na vida. Tudo piorou depois\u201d. N\u00e3o seguiu na escola e s\u00f3 podia trabalhar para sobreviver.<\/p>\n<p>Ele hoje trabalha com reciclagem, mas tem dificuldades de recolher materiais com as m\u00e3os. O homem sofreu um acidente h\u00e1 20 anos enquanto consertava uma cerca. No ano seguinte, sofreu com a morte de um irm\u00e3o e um sobrinho de 14 anos de idade.<\/p>\n<p>\u201cEles foram enterrados em cova rasa, mas \u00e9 em um lugar longe daqui. Fico s\u00f3 no meu barraco chorando e rezando por eles no dia dos mortos\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma lona preta desgastada, apoiada por madeiras fincadas na terra, em \u00e1rea de cal\u00e7ada, cobre a vida da aposentada baiana Luzia Cavalcante, de 67 anos. \u201cMas estar na rua n\u00e3o \u00e9 a minha maior dor. Pior que a pobreza \u00e9 a saudade\u201d, lamenta. 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