{"id":340432,"date":"2024-11-08T08:10:30","date_gmt":"2024-11-08T11:10:30","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=340432"},"modified":"2024-11-08T08:10:30","modified_gmt":"2024-11-08T11:10:30","slug":"como-a-vida-e-uma-piada-devemos-escrever-sempre-com-bom-humor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/como-a-vida-e-uma-piada-devemos-escrever-sempre-com-bom-humor\/","title":{"rendered":"&#8216;Como a vida \u00e9 uma piada, devemos escrever sempre com bom humor&#8217;"},"content":{"rendered":"<p>Gilberto Motta nasceu e cresceu em um pequeno circo-teatro no interior de S\u00e3o Paulo. Formou-se em Jornalismo e virou rep\u00f3rter de r\u00e1dio e TV, escritor e professor universit\u00e1rio. Aposentado, vive no que ele convencionou chamar de &#8216;pequena cabana&#8217;.<\/p>\n<p>Essa cabana, na realidade, \u00e9 ap\u00eandice de uma pousada na Guarda do Emba\u00fa, Santa Catarina. \u00c9 l\u00e1 onde ele escreve suas obras, com caracter\u00edsticas pr\u00f3prias, recheadas, muitas vezes, de bom humor, &#8216;pois \u00e9 assim que devemos viver&#8217;, afirma na entrevista a seguir:<\/p>\n<p><strong>Fale um pouco sobre voc\u00ea, seu nome (se quiser, pode falar apenas o art\u00edstico), onde nasceu, onde mora, sobre sua trajet\u00f3ria como escritor.<\/strong><\/p>\n<p>Sou Gilberto Motta: paulista caipira l\u00e1 do interior, Sert\u00e3ozinho, onde nasci quando o circo-teatro de meus pais passava pela pequena cidade. Cresci entre o picadeiro e palco at\u00e9 os oito anos. Com o golpe de 64, a vida de artistas populares de meus \u201capertou\u201d e eles compraram um hotel em Tup\u00e3, onde vivi at\u00e9 os 19 anos. Da\u00ed para a capital, S\u00e3o Paulo, foi o caminho natural: cursinhos, vestibular e intenso envolvimento com os movimentos culturais, art\u00edsticos e com a pol\u00edtica estudantil. Louco por cinema escrevendo desesperadamente.<\/p>\n<p><strong>Como a escrita surgiu na sua vida?<\/strong><\/p>\n<p>Desde que me lembro, quando ainda tinha o desejo de aprender a ler e a escrever. Inventava hist\u00f3rias e pedia para meu irm\u00e3o e minha m\u00e3e escrev\u00ea-las. A coisa veio direta do circo, do l\u00fadico, do prazer, do picadeiro, do palco e da m\u00fasica que a arte mambembe oferecia a um menino no come\u00e7o da vida.<\/p>\n<p><strong>De onde vem a inspira\u00e7\u00e3o para a constru\u00e7\u00e3o dos seus textos?<\/strong><\/p>\n<p>Penso que de duas vertentes b\u00e1sicas: do cotidiano &#8211; e a\u00ed entra o rep\u00f3rter\/jornalista que sou ao longo da vida profissional-, e da literatura de inven\u00e7\u00e3o\/fic\u00e7\u00e3o. Tenho tamb\u00e9m um pezinho na mirada narrativa das mem\u00f3rias, no cinema, na m\u00fasica, teatro. Sou fascinado por hist\u00f3rias orais.<\/p>\n<p><strong>Como a sua forma\u00e7\u00e3o ou sua hist\u00f3ria de vida interferem no seu processo de escrita?<\/strong><\/p>\n<p>A primeira forma\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica, no circo teatro, foi decisiva. Tudo era viv\u00eancia l\u00fadica, criativa e repleta de narrativas. Tive o privil\u00e9gio de cursar comunica\u00e7\u00e3o social\/jornalismo na C\u00e1sper L\u00edbero de S\u00e3o Paulo; curso referencial com \u00f3timos mestres educadores. E sempre lendo e escrevendo, experimentando v\u00e1rios g\u00eaneros. Da literatura, passando pelo teatro, letras de m\u00fasica e roteiros audiovisuais. Depois fiz o mestrado na UFSC e reinventei-me professor. Estou com 68 anos de vida e pelo menos a 55 venho trilhando esta estrada.<\/p>\n<p><strong>Quais s\u00e3o os seus livros favoritos?<\/strong><\/p>\n<p>Pois ent\u00e3o, toda escolha termina por excluir. Vamos ficar na literatura brasileira: Grande Sert\u00e3o: Veredas (Guimar\u00e3es Rosa); Mem\u00f3rias P\u00f3stumas de Br\u00e1s Cubas (Machado de Assis); Mem\u00f3rias do C\u00e1rcere (Graciliano Ramos); Incidente em Antares (\u00c9rico Ver\u00edssimo); Catatau (Paulo Leminski); Viva o Povo Brasileiro (Jo\u00e3o Ubaldo Ribeiro); Cem Anos de Solid\u00e3o (Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez); A obscena Senhora D (Hilda Hilst) e tudo de Drummond, Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto, Clarice Lispector e os contos de Tobias Barreto, Rubem Fonseca e Murilo Rubi\u00e3o, al\u00e9m das cr\u00f4nicas insuper\u00e1veis de Rubem Braga e Louren\u00e7o Diaf\u00e9ria.<\/p>\n<p><strong>Quais s\u00e3o seus autores favoritos?<\/strong><\/p>\n<p>Seis fundamentais: Machado de Assis; Guimar\u00e3es Rosa; Euclides da Cunha; Clarice Lispector; Mill\u00f4r Fernandes e Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez.<\/p>\n<p><strong>O que \u00e9 mais importante no seu processo de escrita? A inspira\u00e7\u00e3o ou a concentra\u00e7\u00e3o? Precisa esperar pela inspira\u00e7\u00e3o chegar ou a escrita \u00e9 um h\u00e1bito constante?<\/strong><\/p>\n<p>Quando mais jovem, a inspira\u00e7\u00e3o era total; a base intuitiva, metaf\u00edsica, surrealista mesmo. Com o tempo, a coisa foi sendo lapidada e o processo de reflex\u00e3o, planejamento, m\u00e9todo entrou no meu cotidiano. H\u00e1 anos que aprendi m-e apreendi- a disciplina do \u201ch\u00e1bito constante\u201d. Aquele lance de \u201c99% transpira\u00e7\u00e3o e 1% inspira\u00e7\u00e3o\u201d, entende? Mas n\u00e3o fecho como regra, pois procuro cultivar o meu lado an\u00e1rquico como fonte de prazer e \u201cjuventude\u201d. Sem transgress\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 literatura nem vida nem nada.<\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 o tema mais presente nos seus escritos? E por que voc\u00ea escolheu esse assunto?<\/strong><\/p>\n<p>Acho que aquela mirada da incompletude, da estrada, dos seres \u2013 como eu (sic!) que vagam entre o nascer e morrer. Um breve sopro de tempo. Aprendi cedo, com Walter Benjamin e os poetas Beats o lance do \u201cvagabundismo liter\u00e1rio\u201d. O cotidiano me fascina e me apavora. Depois que li Kafka, sinto que nunca mais deixei de ser uma barata tonta que trocou a caneta pelo teclado do notebook.<\/p>\n<p><strong>Para voc\u00ea, qual \u00e9 o objetivo da literatura?<\/strong><\/p>\n<p>Provocar reflex\u00f5es. Desconstruir para construir infinitas possibilidades libertando a imagina\u00e7\u00e3o. E o princ\u00edpio do prazer, do choque, pois sem esses lances a coisa fica besta, sem sabor, sem gra\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea est\u00e1 trabalhando em algum projeto neste momento?<\/strong><\/p>\n<p>Reescrevendo alguns contos e cr\u00f4nicas para viabilizar alguns livros jamais editados. Brigando todas as manh\u00e3s para concluir uma novela\/fic\u00e7\u00e3o com refer\u00eancias hist\u00f3ricas (\u201cAs M\u00e3os de Guevara\u201d) que escrevo desde 1997.<\/p>\n<p><strong>Quais livros formaram quem voc\u00ea \u00e9 hoje? O Jos\u00e9 Seabra sempre cita Camilo Castelo Branco como seu escritor predileto, o Daniel Marchi tem fascina\u00e7\u00e3o pelo Augusto Frederico Schmidt, e o Eduardo Mart\u00ednez aponta Machado de Assis como a sua maior refer\u00eancia liter\u00e1ria. Voc\u00ea tamb\u00e9m deve ter as suas prefer\u00eancias. Quem s\u00e3o? E h\u00e1 algum ou alguns escritores e poetas contempor\u00e2neos que voc\u00ea queira citar?<\/strong><\/p>\n<p>J\u00e1 falei aqui da metamorfose que vivi \u2013e vivo- depois de topar com o Kafka. Creio que n\u00e3o viveria sem a literatura cinematogr\u00e1fica libert\u00e1ria de Fellini e de Glauber Rocha. A m\u00fasica e o r\u00e1dio e suas cr\u00f4nicas faladas tamb\u00e9m marcam a minha forma\u00e7\u00e3o. Cresci leitor de Gib\u00eds, dos jornais \u201cnanicos\u201d como o Pasquim, o Sol, Lampi\u00e3o, mas o que me desvelou o mundo fant\u00e1stico e suas possibilidades foram os contos de Murilo Rubi\u00e3o. Tudo misturado com o sert\u00e3o de Guimar\u00e3es Rosa, sem d\u00favida.<\/p>\n<p><strong>Como \u00e9 ser escritor hoje em dia?<\/strong><\/p>\n<p>Continua sendo um salto no trap\u00e9zio sem rede de prote\u00e7\u00e3o. A can\u00e7\u00e3o \u201cBeatriz\u201d, de Chico Buarque e Edu Lobo resume bem o que digo aqui. Como diz a minha querida amiga e parceira escritora de m\u00e3o cheia, Edna Domenica, \u201cescrever \u00e9 uma empreitada existencial desafiadora [&#8230;], uma tarefa \u00e1rdua, um afeto prazeroso, um ato de cidadania\u201d. E concluo com o Rosa, na abertura do Grande Sert\u00e3o: Veredas: \u201c\u00e9 o diabo na rua no meio do redemoinho\u201d.<\/p>\n<p><strong>Qual a sua avalia\u00e7\u00e3o sobre o Caf\u00e9 Liter\u00e1rio, a nova editoria do Notibras?<\/strong><\/p>\n<p>Trabalho de f\u00f4lego e qualidade. S\u00e3o iniciativas liter\u00e1rias editoriais inovadoras nas plataformas digitais; um sopro potente capaz de oxigenar a nossa criatividade no desafio como narradores, contadores de hist\u00f3rias\/est\u00f3rias que \u00e9 o que somos. Produtores liter\u00e1rios solit\u00e1rios que atrav\u00e9s deste projeto nos reconhecemos e nos identificamos no outro, nos parceiros, no fazer coletivo.<\/p>\n<p><strong>Tem alguma coisa que eu n\u00e3o perguntei e voc\u00ea gostaria de falar?<\/strong><\/p>\n<p>Gostaria de lembrar, mesmo no contraponto da contradi\u00e7\u00e3o, o fundamental exerc\u00edcio de coragem de seguirmos vivendo \u2013 e escrevendo &#8211; \u201csem perdermos o bom humor\u201d. Sem ele, a barra fica fod\u00e1sticamente piramidal e mais pesada.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gilberto Motta nasceu e cresceu em um pequeno circo-teatro no interior de S\u00e3o Paulo. Formou-se em Jornalismo e virou rep\u00f3rter de r\u00e1dio e TV, escritor e professor universit\u00e1rio. Aposentado, vive no que ele convencionou chamar de &#8216;pequena cabana&#8217;. 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