{"id":340461,"date":"2024-11-09T06:22:19","date_gmt":"2024-11-09T09:22:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=340461"},"modified":"2024-11-09T06:24:06","modified_gmt":"2024-11-09T09:24:06","slug":"lula-ainda-vai-precisar-do-oxigenio-que-maduro-deu-ao-pais-na-pandemia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/lula-ainda-vai-precisar-do-oxigenio-que-maduro-deu-ao-pais-na-pandemia\/","title":{"rendered":"Lula ainda vai precisar do oxig\u00eanio que Maduro deu ao Pa\u00eds na pandemia"},"content":{"rendered":"<p>O imperdo\u00e1vel veto do governo brasileiro \u00e0 entrada da Venezuela no BRICS+ n\u00e3o surpreende. H\u00e1 ra\u00edzes muito profundas que confrontam os projetos regionais e internacionais do Itamaraty e do governo Bolivariano.<\/p>\n<p>Esse conflito, ora latente, ora manifesto, ocorreu independentemente do que Lula pensasse durante seus primeiros oito anos de mandato. Depois de muitos atritos diplom\u00e1ticos, a verdade \u00e9 que as rela\u00e7\u00f5es entre Bras\u00edlia e Caracas s\u00f3 se normalizariam ap\u00f3s a derrota da ALCA em novembro de 2005.<\/p>\n<p>Mas os ressentimentos entre os dois governos, e especialmente entre os respectivos minist\u00e9rios das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, eram como aquelas brasas cobertas de cinzas, aparentemente apagadas, mas bastava uma brisa para reavivar o fogo. E o vento soprava forte nas estepes de Kazan.<\/p>\n<p>Para os diplomatas do subimperialismo brasileiro \u2013 apelo a esta caracteriza\u00e7\u00e3o de Ruy Mauro Marinii \u2013 a posi\u00e7\u00e3o internacional de Ch\u00e1vez, o seu hiperativismo incans\u00e1vel e o tom fortemente anti-imperialista do seu discurso e da sua pr\u00e1tica concreta (como a cria\u00e7\u00e3o da Petrocaribe, por exemplo), provocou desde o in\u00edcio uma rejei\u00e7\u00e3o mal disfar\u00e7ada entre os quadros dirigentes do Itamaraty.<\/p>\n<p>Deve-se levar em conta que, diferentemente da grande maioria dos pa\u00edses, a \u201cautonomia relativa\u201d de que goza o Itamaraty dentro do aparato estatal brasileiro faz com que suas defini\u00e7\u00f5es e propostas em muitas ocasi\u00f5es prevale\u00e7am sobre aquelas que poderiam ser adotadas pelo presidente do pa\u00eds. o dia, especialmente quando ele \u00e9 um civil. Esta poderosa burocracia subimperial rege a sua conduta por um axioma: coincid\u00eancia, acompanhamento (ou pelo menos n\u00e3o confronto) com a pol\u00edtica externa dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>O objetivo deste alinhamento t\u00e1cito com Washington \u00e9 preservar a estabilidade da ordem neocolonial na Am\u00e9rica do Sul e, na medida do poss\u00edvel, impedir o surgimento de governos anti-imperialistas ou, quando isso for imposs\u00edvel, atuar como fator moderador. Em troca, a Casa Branca d\u00e1 sua b\u00ean\u00e7\u00e3o \u00e0 lideran\u00e7a do Brasil na regi\u00e3o e ainda abre as portas para colocar seus representantes em determinadas \u00e1reas do quadro institucional do p\u00f3s-guerra, como a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio, por exemplo<\/p>\n<p><strong>Ch\u00e1vez<\/strong><br \/>\nFoi por esta raz\u00e3o que a crescente proemin\u00eancia internacional de Hugo Ch\u00e1vez submeteu o pacto selado entre Bras\u00edlia e Washington a fortes tens\u00f5es. Durante grande parte do primeiro mandato de Lula (2003-2007) os embates entre Caracas e Bras\u00edlia foram ineg\u00e1veis. A administra\u00e7\u00e3o republicana solicitou repetidas vezes que Bras\u00edlia intercedesse para acalmar as \u00e1guas que agitava o l\u00edder bolivariano e que pouco depois adquirisse renovado vigor com o avan\u00e7o do primeiro ciclo progressista e as elei\u00e7\u00f5es que catapultaram figuras como Evo Morales para o presid\u00eancia, Rafael Correa, Cristina Fern\u00e1ndez, Fernando Lugo, Tabar\u00e9 V\u00e1zquez e \u201cMel\u201d Zelaya, e posteriormente com a cria\u00e7\u00e3o da UNASUL.<\/p>\n<p>Washington foi t\u00e3o longe em seus esfor\u00e7os para fazer Lula \u201cacalmar\u201d Ch\u00e1vez a ponto de enviar Condoleezza Rice ao Brasil para que ele intercedesse junto ao l\u00edder bolivariano para que Caracas n\u00e3o expulsasse o acordo de coopera\u00e7\u00e3o militar entre os Estados Unidos e a Venezuela assinado um h\u00e1 alguns anos, trinta anos e, al\u00e9m disso, descobrir as \u201craz\u00f5es pelas quais Ch\u00e1vez comprou 70 mil fuzis da Espanha\u201d. \u00c9 claro que essa media\u00e7\u00e3o n\u00e3o teve efeito.<\/p>\n<p>As diverg\u00eancias entre Bras\u00edlia e Caracas continuaram por muito tempo. List\u00e1-los seria t\u00e3o longo quanto tedioso. Lembremos apenas dois: a rejei\u00e7\u00e3o do governo Lula \u00e0 implementa\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica do Banco do Sul, fundado solenemente em dezembro de 2007, mas paralisado desde o seu nascimento, especialmente devido \u00e0 relut\u00e2ncia brasileira; ou a recusa obstinada do Brasil em admitir a Venezuela no Mercosul.<\/p>\n<p>Diante deste cen\u00e1rio, o comportamento da delega\u00e7\u00e3o brasileira em Kazan esteve dentro do previs\u00edvel. A aus\u00eancia de Lula devido a um estranho \u201cacidente dom\u00e9stico\u201d continuar\u00e1 sendo uma das grandes inc\u00f3gnitas da C\u00fapula de Kazan. Talvez a infeliz vota\u00e7\u00e3o do Brasil na ONU condenando a \u201cinvas\u00e3o russa\u201d na Ucr\u00e2nia tenha tido alguma influ\u00eancia.<\/p>\n<p>Mas a verdade \u00e9 que com o veto \u00e0 entrada da Venezuela como membro associado do BRICS+, categoria em que entraram Bol\u00edvia e Cuba, o prest\u00edgio internacional do Brasil e a necess\u00e1ria solidariedade entre os pa\u00edses latino-americanos foram seriamente prejudicados. O governo Lula cedeu \u00e0s press\u00f5es conservadoras da sua pr\u00f3pria coliga\u00e7\u00e3o governamental e dos Estados Unidos, para quem manter a Venezuela isolada \u00e9 essencial para continuar impunemente o seu criminoso bloqueio contra aquele pa\u00eds. Atac\u00e1-lo sozinho n\u00e3o \u00e9 o mesmo que faz\u00ea-lo quando ele j\u00e1 \u00e9 membro do BRICS+.<\/p>\n<p>O ocorrido desacredita o Brasil e faz seu governo parecer um parceiro d\u00f3cil de Washington atuando na Am\u00e9rica Latina, favorecendo a desconex\u00e3o, para n\u00e3o dizer a \u201cdesintegra\u00e7\u00e3o\u201d, entre os pa\u00edses da regi\u00e3o, o que alimenta suspeitas sobre as futuras inten\u00e7\u00f5es do Itamaraty no pa\u00eds. arena internacional.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que a a\u00e7\u00e3o de Lula em Kazan \u00e9 um \u201cveto suicida\u201d, porque enfraquece a influ\u00eancia internacional do Brasil, n\u00e3o s\u00f3 na Am\u00e9rica Latina, mas globalmente. O analista brasileiro Jos\u00e9 Lu\u00eds Fiori disse-o claramente: \u201cuma Am\u00e9rica do Sul dividida est\u00e1 a perder relev\u00e2ncia geopol\u00edtica e geoecon\u00f4mica e as suas pequenas unidades \u2018exportadoras prim\u00e1rias\u2019, no seu isolamento, s\u00e3o completamente irrelevantes no quadro geopol\u00edtico global\u201d. A alternativa seria construir um eixo entre Brasil, Argentina e Venezuela, mas foi isso que foi quebrado este ano com a rejei\u00e7\u00e3o de Milei \u00e0 incorpora\u00e7\u00e3o da Argentina ao BRICS+ e o veto brasileiro \u00e0 entrada da Venezuela naquela organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Com o seu veto, o governo brasileiro privou o BRICS+ da enorme vantagem que a incorpora\u00e7\u00e3o em suas fileiras do pa\u00eds que possui a maior reserva comprovada de petr\u00f3leo do mundo daria a este grupo.<\/p>\n<p>Objetivamente: enfraqueceu os BRICS+, com a aprova\u00e7\u00e3o de Washington. Por isso acredito que esse veto n\u00e3o ter\u00e1 vida longa e que Lula acabar\u00e1 esnobado, porque poucos erros podem ser mais graves no mundo de hoje do que deixar essa enorme reserva de petr\u00f3leo \u00e0 merc\u00ea do tapa que os Estados Unidos poderiam dar, algo que nem a China, a R\u00fassia e mesmo a \u00cdndia veriam com bons olhos.<\/p>\n<p>O que acontece \u00e9 que o Itamaraty n\u00e3o acredita que o conselho internacional j\u00e1 tenha se transformado em um sistema multipolar e da\u00ed a sua decis\u00e3o equivocada de vetar a entrada da Venezuela no BRICS+. Ele continua a apostar no decl\u00ednio da hegemonia americana e numa apodrecida \u201cordem mundial baseada em regras\u201d com a qual os Estados Unidos defendem os seus interesses nacionais.<\/p>\n<p>O Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores bolivariano tem raz\u00e3o quando descreve o veto como \u201cum gesto hostil, que se soma \u00e0 pol\u00edtica criminosa de san\u00e7\u00f5es que foi imposta a um povo corajoso e revolucion\u00e1rio\u201d. Dizer que \u201cadere\u201d, em cuidadosa linguagem diplom\u00e1tica, equivale a dizer que o Brasil agiu como um pe\u00e3o diligente de Washington, validando as mais de 900 medidas coercitivas unilaterais que afetam aquele pa\u00eds irm\u00e3o e demonstrando uma dolorosa falta de solidariedade.<br \/>\nBolsonaro e Lula<\/p>\n<p><strong>Bolsonaro e Lula<\/strong><br \/>\nLula n\u00e3o descobriu que durante a pandemia, durante o governo do vergonhoso Jair Bolsonaro, pessoas morriam nos hospitais de Manaus por falta de oxig\u00eanio e o presidente Nicol\u00e1s Maduro ordenou o envio de 107 m\u00e9dicos e seis caminh\u00f5es-tanque com um total de 136 mil litros de oxig\u00eanio para atender a dram\u00e1tica situa\u00e7\u00e3o dos hospitais daquela cidade? Ser\u00e1 este o pagamento do Brasil por esse gesto de solidariedade? Veto lament\u00e1vel e imperdo\u00e1vel.<\/p>\n<p>O Presidente Lula ter\u00e1 um trabalho dif\u00edcil pela frente se quiser que o seu pa\u00eds recupere a sua credibilidade e influ\u00eancia, n\u00e3o s\u00f3 na ordem regional da Am\u00e9rica Latina e das Cara\u00edbas, mas tamb\u00e9m junto dos principais parceiros do BRICS+, fundamentalmente China, R\u00fassia e \u00cdndia.<\/p>\n<p>Certamente n\u00e3o demorar\u00e1 muito para que esse veto fat\u00eddico seja derrubado, e o presidente brasileiro ter\u00e1 de suportar uma amarga rejei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O imperdo\u00e1vel veto do governo brasileiro \u00e0 entrada da Venezuela no BRICS+ n\u00e3o surpreende. H\u00e1 ra\u00edzes muito profundas que confrontam os projetos regionais e internacionais do Itamaraty e do governo Bolivariano. Esse conflito, ora latente, ora manifesto, ocorreu independentemente do que Lula pensasse durante seus primeiros oito anos de mandato. 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