{"id":340729,"date":"2024-11-12T04:48:10","date_gmt":"2024-11-12T07:48:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=340729"},"modified":"2024-11-12T04:50:46","modified_gmt":"2024-11-12T07:50:46","slug":"nem-sempre-o-que-pensamos-e-mesmo-o-que-fazemos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/nem-sempre-o-que-pensamos-e-mesmo-o-que-fazemos\/","title":{"rendered":"Nem sempre o que pensamos \u00e9 mesmo o que fazemos"},"content":{"rendered":"<p>Ser ou n\u00e3o ser, eis a quest\u00e3o. Extra\u00edda da pe\u00e7a de teatro Hamlet, de Willian Shakespeare, a frase tem tudo a ver com o imagin\u00e1rio popular. Assim como eu, ningu\u00e9m do povo nasceu com a inten\u00e7\u00e3o de descobrir a p\u00f3lvora, tampouco de provar a exist\u00eancia de um teorema. Ali\u00e1s, o que s\u00e3o os teoremas? Na filosofia, s\u00e3o proposi\u00e7\u00f5es que t\u00eam demonstra\u00e7\u00f5es e, por isso, podem ser comprovadas como verdadeiras. Na matem\u00e1tica, \u00e9 uma dedu\u00e7\u00e3o l\u00f3gica que pode ser provada a partir de dedu\u00e7\u00f5es baseadas em afirma\u00e7\u00f5es autoevidentes. Como eles n\u00e3o me interessam, prefiro ficar com o racioc\u00ednio do povo, cuja imagina\u00e7\u00e3o limita as d\u00favidas \u00e0 l\u00f3gica de que uma coisa \u00e9 uma coisa, outra coisa \u00e9 outra coisa. N\u00e3o sei se me entendem, mas, como sou das antigas, penso numa coisa e, sem o necess\u00e1rio f\u00f4lego, acabo fazendo outra coisa.<\/p>\n<p>Entenderam? Eu n\u00e3o consigo explicar, mas posso adiantar que, mesmo as duas coisas sendo \u201ccoisas\u201d, ainda assim elas n\u00e3o representam a mesma coisa. O que quero dizer \u00e9 que, quando as duas coisas se encontram, nem sempre d\u00e1 boa coisa. Eis a raz\u00e3o pela qual permane\u00e7o sem a solucion\u00e1tica de minha problem\u00e1tica. Em s\u00edntese, eu e meu amor nascemos um para o outro. S\u00f3 falta quem nos apresente. \u00c9 algo parecido com a mo\u00e7a que ficou surda de um ouvido, sentiu tremores nas pernas e c\u00e2imbra na altura da virilha, percebeu que o olho come\u00e7ou a piscar sozinho e, sem saber por que, chorou copiosamente. Ela est\u00e1 doente em estado terminal? Claro que n\u00e3o!<\/p>\n<p>Perdoem-me a insensibilidade e a rudeza, mas ou ela estava assistindo a mais um terr\u00edvel jogo do Vasco da Gama ou acabara de tremelicar ap\u00f3s a funhanhada do dia. Esta \u00e9 a minha dedu\u00e7\u00e3o. Seja l\u00e1 o que for, nada mais real do que um tes\u00e3o euf\u00f3rico com toques de dem\u00eancia. \u00c9 bom que n\u00e3o esque\u00e7amos que, por tr\u00e1s de toda a\u00e7\u00e3o, h\u00e1 sempre uma hist\u00f3ria. A minha \u00e9 antiga e me remete \u00e0 fase em que tinha certeza de que pensar demais deixava qualquer um isolado do mundo. Senti que estava errado quando, de dez palavras que pronunciava, somente nove eram entendidas por aqueles que j\u00e1 haviam experimentado a mesma situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Diz minha pr\u00f3pria lenda que bastava sonhar com mitos e reis que dava le\u00e3o na cabe\u00e7a. Meninos muito enfeitadinhos era batata: veado no primeiro pr\u00eamio da s\u00e9ria e imperturb\u00e1vel loteria do mago da contraven\u00e7\u00e3o Castor de Andrade. Ganhei v\u00e1rias vezes. O lucro eu usava para me enfatiotar na Bemoreira\/Ducal, de onde sa\u00eda pronto para os bailinhos mela cueca nos sub\u00farbios do Rio 40 graus. Tudo ao som do Ursinho blau-blau. Como o povo da \u00e9poca n\u00e3o tinha preocupa\u00e7\u00e3o com o cigarrinho do capeta, muito menos com o p\u00f3 do Peix\u00e3o, os jovens como preferiam cheirar coisas bem melhores. Nada daquiiiiiiiiiiiiiiilo. Normalmente a prefer\u00eancia era pelo cangote rasgado das meninas. Tudo era preto no branco, com lacinhos cor de rosa.<\/p>\n<p>Avan\u00e7ar o sinal significava ser obrigado a casar na marra. Por isso, a maioria optava pelo cutuque sem a pipocada atr\u00e1s do carvalho. \u00c9 o saudosismo do t\u00fanel do tempo. \u00c9 dele que saem hist\u00f3rias de conquistas e de realiza\u00e7\u00f5es que n\u00e3o se apagam da mem\u00f3ria dos mais fragilizados, independentemente do pior dos males do s\u00e9culo: a Intelig\u00eancia Artificial. Essa tal \u00e9 aquela coisa que faz a Jojo Todynho parecer de corpo e alma com a Xuxa Meneghel depois do Ayrton Senna e antes do Pel\u00e9. Nesse caso, n\u00e3o h\u00e1 hip\u00f3tese de uma coisa ter sido outra coisa. Como na vida de teoremas improv\u00e1veis e sem prova alguma sempre h\u00e1 d\u00favidas entre tes\u00e3o e tens\u00e3o, fico com a incontest\u00e1vel tese de que perigo e prazer despencam do mesmo galho. Na vers\u00e3o do povo de hoje, o melhor da coisa \u00e9 coisar.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que, \u00e0s vezes, sinto na pele que a vida s\u00f3 \u00e9 dura para quem \u00e9 mole. Triste \u00e9 viver sem ter vivido. O melhor da exist\u00eancia \u00e9 concluir que, depois de tantos anos de experi\u00eancia, somos divergentes por defini\u00e7\u00e3o. Por mais que tentemos, n\u00e3o conseguimos entender a praticidade dos jovens de agora. Eles s\u00e3o mais eloquentes do que os de minha \u00e9poca. Tive certeza disso quando, indagado pela sobrinha mais nova sobre o que dar ao namorado de apenas uma semana, recomendei uma gravata ou um sapato. Como resposta, ouvi que, al\u00e9m de n\u00e3o ser careta, ele (o namorado) s\u00f3 usava t\u00eanis. Sem op\u00e7\u00e3o, sugeri que ela transasse com ele. A nova resposta me calou para sempre: \u201cN\u00e3o vou dar presente repetido\u201d. Como Wenceslau tamb\u00e9m se d\u00e1 mal, fico por aqui antes que reconhe\u00e7am meu atraso f\u00edsico, emocional, temporal e sexual. \u00c9 por isso que, dependendo do interlocutor, digo sempre \u2013 e com eco \u2013 que conversa que n\u00e3o entendo, minhoca l\u00e1.<\/p>\n<p><strong>*Wenceslau Ara\u00fajo \u00e9 Editor-Chefe de <em>Notibras<\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ser ou n\u00e3o ser, eis a quest\u00e3o. Extra\u00edda da pe\u00e7a de teatro Hamlet, de Willian Shakespeare, a frase tem tudo a ver com o imagin\u00e1rio popular. Assim como eu, ningu\u00e9m do povo nasceu com a inten\u00e7\u00e3o de descobrir a p\u00f3lvora, tampouco de provar a exist\u00eancia de um teorema. Ali\u00e1s, o que s\u00e3o os teoremas? 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