{"id":341076,"date":"2024-11-16T06:46:17","date_gmt":"2024-11-16T09:46:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=341076"},"modified":"2024-11-16T06:49:36","modified_gmt":"2024-11-16T09:49:36","slug":"lula-precisa-montar-cavalo-que-passa-selado-e-coicear-os-golpistas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/lula-precisa-montar-cavalo-que-passa-selado-e-coicear-os-golpistas\/","title":{"rendered":"Lula precisa montar cavalo que passa selado e coicear os golpistas"},"content":{"rendered":"<p><em>&#8220;Os fil\u00f3sofos at\u00e9 agora apenas interpretaram o mundo de diferentes maneiras; cabe agora transform\u00e1-lo.&#8221; (Karl Marx, 1845, Teses sobre Feuerbach)<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o basta contemplar a realidade, como as estrelas de Bilac. \u00c9 preciso estud\u00e1-la, conhec\u00ea-la, avan\u00e7ando sobre as apar\u00eancias que escondem sua ess\u00eancia. S\u00f3 assim surge o mundo real, produto hist\u00f3rico, rico em suas fontes sociais e econ\u00f4micas. Mesmo o conhecimento da\u00ed decorrente n\u00e3o pode ser visto como obra acabada: sua vida decorre de seu papel como instrumento de interven\u00e7\u00e3o do homem na realidade: s\u00f3 assim \u00e9 poss\u00edvel transformar o mundo, e este \u00e9 o destino do ser humano, sujeito hist\u00f3rico. Contemplando os tempos de hoje parece pertinente lembrar aos nossos fil\u00f3sofos que a afirma\u00e7\u00e3o \u2013 laureada pela unanimidade de sua aceita\u00e7\u00e3o \u2013 segundo a qual o mundo, e nele o Brasil, foi engolfado por uma onda de conservadorismo pol\u00edtico, se \u00e9 verdadeira, n\u00e3o encerra toda a verdade. Falta-nos a explica\u00e7\u00e3o desse conceito de conservadorismo urbe et orbe, falta-nos investigar suas causas, posto que n\u00e3o \u00e9 obra nem de Deus nem do diabo, mas fen\u00f4meno pol\u00edtico-social.<\/p>\n<p>A cr\u00edtica \u2013 seja jornal\u00edstica, seja filos\u00f3fica \u2013d\u00e1 um passo atr\u00e1s quando se depara com o crucial, e se recusa a enfrentar o que fazer diante do mundo que fotografa: a ascens\u00e3o da direita e do protofascismo em termos quase planet\u00e1rios, e, entre n\u00f3s, a triste admiss\u00e3o de que a direita, em seu vasto espectro, \u00e9 a for\u00e7a pol\u00edtica e eleitoral hegem\u00f4nica. E, se \u00e9 assim, por que \u00e9 assim? De novo: como explicar esses movimentos pol\u00edtico-sociais profundos, largos e t\u00e3o r\u00e1pidos? De novo, a pergunta essencial: o que fazer, para al\u00e9m de simplesmente registrar a realidade?<\/p>\n<p>Este terreno, pobre, tanto do ponto de vista te\u00f3rico e especulativo, foi recentemente irrigado pelas interven\u00e7\u00f5es de dois pol\u00edticos atentos no engenho de dar explica\u00e7\u00f5es para fen\u00f4menos pol\u00edticos que nos incomodam. Ambos, de uma forma e de outra, se referem ao fracasso da democracia liberal com pretens\u00f5es sociais no enfrentamento dos desafios impostos pelo que chamamos de capitalismo financeiro monopolista, a for\u00e7a governante, regente imperial, independentemente das na\u00e7\u00f5es, dos pa\u00edses e dos Estados.<\/p>\n<p>Michelle Bachelet, ex-presidente do Chile por dois mandatos, explica a ascens\u00e3o do autoritarismo e da direita a partir do fracasso da experi\u00eancia democr\u00e1tica, um quase determinismo quando nossos governos n\u00e3o entregam os resultados prometidos ou n\u00e3o atendem \u00e0s expectativas de suas popula\u00e7\u00f5es. Bachelet n\u00e3o se refere ao papel desestabilizador do capitalismo, fen\u00f4meno que n\u00e3o est\u00e1 adstrito aos pa\u00edses pobres, como mostra a cr\u00f4nica contempor\u00e2nea, mas lembra que o fracasso de governos democr\u00e1ticos abre caminho para a gera\u00e7\u00e3o de conflitos, de epis\u00f3dios de viol\u00eancia e instabilidade pol\u00edtica, que, como sabemos, se resolvem nas solu\u00e7\u00f5es autorit\u00e1rias, golpes militares e mesmos interven\u00e7\u00f5es das grandes pot\u00eancias. Cabe lembrar a lufada de revoltas, ent\u00e3o ditas democr\u00e1ticas, que caracterizaram nos anos 2010 e 2012 a &#8220;primavera \u00e1rabe&#8221;. O saldo, hoje, afora revolu\u00e7\u00f5es civis inconclusas, s\u00e3o os golpes de Estado no Egito e na Tun\u00edsia.<\/p>\n<p>Algo pode nos lembrar os idos brasileiros de junho de 2013 e seus desdobramentos em nossa vida pol\u00edtica, como o golpe de 2016 e a ascens\u00e3o do bolsonarismo, contido em 2022. Antes tiv\u00e9ramos o fracasso do monetarismo do ministro Joaquim Levy e a crise econ\u00f4mica que implicou queda do PIB (1,9 %), infla\u00e7\u00e3o em 2012 e infla\u00e7\u00e3o e recess\u00e3o em 2015.<\/p>\n<p>Segue-se uma hist\u00f3ria consabida, que come\u00e7a com o golpe de 2016 e a elei\u00e7\u00e3o de Bolsonaro em 2018, e que insiste sua perman\u00eancia entre n\u00f3s, tornando contempor\u00e2neos o ontem e o hoje. Mas a crise das democracias liberais tamb\u00e9m se instala quando governos de esquerda ou centro-esquerda (ou os socialdemocratas europeus) s\u00e3o dominados pelo neoliberalismo, que, num arca\u00edsmo, \u00e9 a pedra de toque das forma\u00e7\u00f5es ocidentais, passando por cima de suas origens e compromissos pol\u00edtico-populares. Em nenhuma sociedade as consequ\u00eancias se fizeram esperar. Desde 2022 a primeira-ministra da It\u00e1lia \u00e9 a fascista Giorgia Meloni, do Fratelli d&#8217;Italia, e na Alemanha, governada por um partido socialdemocrata que abra\u00e7ou o liberalismo econ\u00f4mico e o belicismo da OTAN, so\u00e7obra o gabinete de Olaf Scholz, enquanto avan\u00e7am os partidos de direita e de extrema-direita, de extra\u00e7\u00e3o neonazista, como o AfD (Alternativa para a Alemanha).<\/p>\n<p>Nem a ascens\u00e3o do bolsonarismo, nem o referendum que acaba de consagrar Donald Trump, podem significar a surpresa de um raio em c\u00e9u azul. Trump \u00e9 t\u00e3o americano quanto a torta de ma\u00e7\u00e3, e seus eleitores n\u00e3o s\u00e3o extraterrestres. Esse retorno que s\u00f3 a n\u00f3s surpreendeu guarda rela\u00e7\u00e3o direta com o fracasso de Biden, e anuncia com pompa e circunst\u00e2ncia os \u00faltimos vagidos da democracia liberal. Nos pr\u00f3ximos anos teremos um imp\u00e9rio ainda mais pr\u00f3ximo do Big Stick, mas certamente menos c\u00ednico, embora mais mentiroso.<\/p>\n<p>Por muito tempo as principais lideran\u00e7as das esquerdas brasileiras, oriundas ou n\u00e3o do partid\u00e3o, confundiram determinismo hist\u00f3rico, que n\u00e3o \u00e9 uma lei nem um dogma, como um destino tra\u00e7ado por Zeus: o comunismo passou a ser tido como uma fatalidade, seu advento independeria da a\u00e7\u00e3o humana. Pod\u00edamos ficar quietos e tranquilos. O pretenso cientificismo revolucion\u00e1rio descambava, e descamba ainda, para o pensamento m\u00e1gico, \u00e0s vezes messi\u00e2nico, e nos afasta da realidade concreta. Principalmente nos afasta da milit\u00e2ncia, da organiza\u00e7\u00e3o das massas e da batalha ideol\u00f3gica. A que a classe dominante jamais renunciou.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia da luta social, notadamente em seus aspectos mais tr\u00e1gicos, mostra que as mudan\u00e7as hist\u00f3ricas s\u00e3o processos sociais levados a cabo pelas grandes massas organizadas, a partir de um projeto revolucion\u00e1rio compreens\u00edvel e que corresponde aos seus interesses. Abandonamos a milit\u00e2ncia e a organiza\u00e7\u00e3o e a eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel pol\u00edtico das massas. Jamais nos perguntamos se nossa vis\u00e3o de mundo correspondia ao Brasil real, e jamais nos perguntamos se nossas utopias correspondiam aos sonhos de nossa gente: proletariado transformado em precarizado, camponeses sem terra e sem trabalho, trabalhadores desterrados das linhas de produ\u00e7\u00e3o, multid\u00f5es expulsas do campo e da cidade onde habitam seus socav\u00f5es, e &#8220;ganham a vida&#8221; nos termos do &#8220;Deus dar\u00e1&#8221;.<\/p>\n<p>Parte de nossas organiza\u00e7\u00f5es de esquerda, originalmente revolucion\u00e1rias, entenderam que o projeto origin\u00e1rio, embora reafirmado pelo fracasso do capitalismo, era, por\u00e9m, um projeto de um futuro a perder de vista, inevit\u00e1vel ainda, mas remoto. A alternativa foi adaptar projeto e meios de sobreviv\u00eancia \u00e0s condi\u00e7\u00f5es concretas do projeto pol\u00edtico-eleitoral pautado pela classe dominante. As veleidades revolucion\u00e1rias cederam prioridade \u00e0 pol\u00edtica real.<\/p>\n<p>O senador Bernie Sanders, l\u00edder socialista, \u00e9 cr\u00edtico contundente da hegemonia pol\u00edtica e econ\u00f4mica e militar dos EUA. Sua lucidez e sua coragem lembram Noam Chomsky, fonte da resist\u00eancia intelectual de nossos dias. Em declara\u00e7\u00e3o recentemente divulgada, ele explica porque a classe trabalhadora abandonou o Partido Democrata, de Biden e Kamala: &#8220;Primeiro, [o Partido democrata] perdeu o apoio da classe trabalhadora branca e, agora, tamb\u00e9m de trabalhadores latinos e negros. Enquanto a lideran\u00e7a Democrata defende o statu quo, o povo americano est\u00e1 furioso e quer mudan\u00e7as. E eles est\u00e3o certos&#8221;.<\/p>\n<p>Ouso enxergar li\u00e7\u00f5es a serem colhidas, quando nos damos ao trabalho de identificar as consequ\u00eancias da deser\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica de governos originalmente de esquerda, esmagados pelas conting\u00eancias hist\u00f3ricas que imp\u00f5em ao vitorioso uma correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as adversas ao seu programa. O que nos faz presentes as ang\u00fastias do presidente Lula em seu labirinto de hoje.<\/p>\n<p>Antigo l\u00edder sindical, eleito por uma coaliz\u00e3o de centro-esquerda que compunha com setores da direita, o presidente se v\u00ea acossado pelas press\u00f5es da classe dominante (vivas em seu governo e em seu partido) para executar reformas neoliberais contra as quais sempre lutou. Formam uma frente de ferro o ministram do pensamento econ\u00f4mico, os procuradores do grande capital, o servilismo de nossas elites colonizadas: como alto-falante, a grande imprensa cada vez pior, exercendo seu papel de aparelho ideol\u00f3gico da classe dominante, propriet\u00e1ria de suas m\u00e1quinas e de seu texto.<\/p>\n<p>Volta \u00e0 tona o pensamento m\u00e1gico. O Banco Central doutrina que o pleno emprego (o sonho de qualquer democracia social que se preze) e o crescimento do sal\u00e1rio m\u00ednimo s\u00e3o inflacion\u00e1rios, e decreta aumento de juros sem ter a quem dar satisfa\u00e7\u00e3o. E todos sabemos que a eleva\u00e7\u00e3o dos juros aumenta o custo da d\u00edvida p\u00fablica e inibe investimentos. Mas beneficia a banca, em S\u00e3o Paulo e em Walt Street. E a Faria Lima, que se alimenta na especula\u00e7\u00e3o, promulga seu programa m\u00ednimo: redu\u00e7\u00e3o de investimentos e gastos p\u00fablicos \u2013 em pa\u00eds que precisa crescer, gerando e distribuindo renda. Um programa falso, sem base emp\u00edrica, porquanto no contrapelo da hist\u00f3ria de pa\u00edses que lograram o crescimento e a distribui\u00e7\u00e3o de riqueza.<\/p>\n<p>Vejamos quais os gastos p\u00fablicos que a perversa classe dominante brasileira prescreve reduzir ou eliminar: o Bolsa Fam\u00edlia, a previd\u00eancia social, o \u00edndice de reajuste do sal\u00e1rio m\u00ednimo, o Benef\u00edcio de Presta\u00e7\u00e3o Continuada, o FGTS&#8230; Nenhuma palavra sobre a imoralidade das emendas parlamentares, que, s\u00f3 este ano, representaram uma sangria de quase R$ 46 bilh\u00f5es. Nenhuma palavra sobre as despesas do Poder Judici\u00e1rio, um dos mais caros do mundo! A Petrobras acaba de distribuir R$ 45 bilh\u00f5es em dividendos, percebidos pelos acionistas sem pagar um s\u00f3 centavo de IR! E isso n\u00e3o espanta.<\/p>\n<p>Entre janeiro e agosto, pelo menos R$ 98 bilh\u00f5es foram transformados em incentivos tribut\u00e1rios, beneficiando mais de mil empresas. Para a banca e seus porta-vozes, isso n\u00e3o \u00e9 inflacion\u00e1rio, mas o reajuste do sal\u00e1rio m\u00ednimo \u00e9. Essa absurda ren\u00fancia fiscal, por\u00e9m, \u00e9 intoc\u00e1vel, como intoc\u00e1vel \u00e9 o gasto, em 2023, de R$ 50 bilh\u00f5es com os fardados inativos. E ningu\u00e9m fala, no governo e fora dele, pensando em aumentar os ingressos, em introduzir a cobran\u00e7a de Imposto de Exporta\u00e7\u00e3o sobre as commodities, que independe de legisla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Neste cen\u00e1rio desafiador, o governo Lula e as esquerdas em geral terminam a semana com dois trunfos a explorar: a bel\u00edssima mobiliza\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora, encampada por PSOL e PT, pelo fim da desumana escala 6&#215;1 (resultando em uma PEC que at\u00e9 setores da direita se veem instados a apoiar), e a tr\u00e1gica reedi\u00e7\u00e3o do atentado do Riocentro, desta feita em plena Pra\u00e7a dos Tr\u00eas Poderes, que pode encerrar a press\u00e3o da extrema-direita e do ministro da Defesa por uma anistia aos golpistas do 8 de janeiro.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso montar no cavalo que passa selado, inclusive para afastar as amea\u00e7as golpistas, perenes e multifacetadas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Os fil\u00f3sofos at\u00e9 agora apenas interpretaram o mundo de diferentes maneiras; cabe agora transform\u00e1-lo.&#8221; (Karl Marx, 1845, Teses sobre Feuerbach) N\u00e3o basta contemplar a realidade, como as estrelas de Bilac. \u00c9 preciso estud\u00e1-la, conhec\u00ea-la, avan\u00e7ando sobre as apar\u00eancias que escondem sua ess\u00eancia. S\u00f3 assim surge o mundo real, produto hist\u00f3rico, rico em suas fontes sociais [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":331924,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[95],"class_list":["post-341076","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil","tag-capa"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/341076","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=341076"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/341076\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":341080,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/341076\/revisions\/341080"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/331924"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=341076"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=341076"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=341076"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}