{"id":341623,"date":"2024-11-23T14:28:41","date_gmt":"2024-11-23T17:28:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=341623"},"modified":"2024-11-23T14:28:41","modified_gmt":"2024-11-23T17:28:41","slug":"bolsonaro-nao-gosta-de-ser-presidente-ele-quer-mesmo-e-ser-ditador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/bolsonaro-nao-gosta-de-ser-presidente-ele-quer-mesmo-e-ser-ditador\/","title":{"rendered":"&#8216;Bolsonaro n\u00e3o gosta de ser presidente, ele quer mesmo \u00e9 ser ditador&#8217;"},"content":{"rendered":"<p>O projeto pol\u00edtico de Jair Messias Bolsonaro e de seus filhos \u00e9 dar o golpe nas institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas, assumir mais poderes em detrimento do Legislativo e do Judici\u00e1rio e controlar os meios de comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O plano est\u00e1 desenhado e hoje, felizmente, \u00e9 grande o n\u00famero de pessoas que sa\u00edram do ceticismo inicial e j\u00e1 veem que a democracia corre perigo com o capit\u00e3o que comanda generais.<\/p>\n<p>H\u00e1 poucos dias, perguntado se queria dar um golpe, Bolsonaro respondeu que quem quer dar um golpe n\u00e3o conta. N\u00e3o negou.<\/p>\n<p>O pol\u00eamico e perigoso comportamento de Bolsonaro diante da pandemia do coronav\u00edrus \u00e9 parte de seu projeto de golpe. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 desequil\u00edbrio mental, ignor\u00e2ncia, irresponsabilidade e desprezo pela vida. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 preocupa\u00e7\u00e3o com o futuro da economia e em manter o apoio de empres\u00e1rios aliados para se manter no poder. \u00c9 tudo isso, mas tamb\u00e9m parte de um projeto pol\u00edtico estruturado.<\/p>\n<p>Neste artigo, procuro mostrar quais s\u00e3o os antecedentes desse projeto pol\u00edtico, como Bolsonaro tem agido para conseguir seu objetivo e como pretende consumar o golpe nas institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas.<\/p>\n<p><strong>1. \u201cEle nunca escondeu quem \u00e9\u201d<\/strong><br \/>\nTDe uma coisa n\u00e3o podem acusar Jair Bolsonaro: de ter escondido das pessoas quem ele \u00e9, o que pensa e o que pretende para o Brasil. Bolsonaro \u00e9 transparente desde que se tornou um homem p\u00fablico, ao liderar movimentos de reivindica\u00e7\u00e3o salarial no Ex\u00e9rcito e ser acusado de planejar a\u00e7\u00f5es terroristas. Foi obrigado a pedir reforma e enveredou na vida pol\u00edtica, como vereador, em 1988.<\/p>\n<p>Bolsonaro sempre se revelou um desequilibrado, provavelmente portador de um transtorno mental que n\u00e3o sabemos qual \u00e9. Seus atos, seu comportamento e at\u00e9 seu olhar revelam isso, e in\u00fameros psic\u00f3logos e psicanalistas j\u00e1 arriscaram considerar que possa ser psicopata, sociopata, man\u00edaco-depressivo, paran\u00f3ico, megaloman\u00edaco, narcisista e outras qualifica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Sabe-se que o encerramento prematuro de sua carreira militar \u00e9 motivo de enorme frustra\u00e7\u00e3o, pois desde novo ele ansiava comandar tropas, dar ordens e ser obedecido sem questionamentos. Teria sido expulso do Ex\u00e9rcito por indisciplina e inadequa\u00e7\u00e3o \u00e0 carreira militar, mas foi salvo por um acordo para que pedisse para sair e evitasse a desonra expl\u00edcita.<\/p>\n<p>Ser tratado como deputado irrelevante durante 28 anos \u00e9 a raz\u00e3o maior de seu ressentimento diante da pol\u00edtica e dos pol\u00edticos. Bolsonaro foi um deputado med\u00edocre, sem atua\u00e7\u00e3o no plen\u00e1rio, nas comiss\u00f5es e nos bastidores, ignorado por jornalistas, tratado por colegas como figura folcl\u00f3rica e tosca, que s\u00f3 aparecia ao soltar frases a favor da ditadura e de torturadores.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o tinha participa\u00e7\u00e3o nos n\u00facleos decis\u00f3rios do Legislativo, n\u00e3o estava entre os beneficiados por empres\u00e1rios inescrupulosos que encharcavam as m\u00e3os de parlamentares com dinheiro il\u00edcito. Tinha de se contentar com a corrup\u00e7\u00e3o t\u00edpica do baixo clero: empregar parentes, amigos e milicianos; fraudar a verba indenizat\u00f3ria com notas frias; ganhar \u201cextras\u201d com as \u201crachadinhas\u201d no gabinete; e receber contribui\u00e7\u00f5es ilegais para o caixa dois nas elei\u00e7\u00f5es, o que, ali\u00e1s, o colocou entre os beneficiados pela \u201clista de Furnas\u201d. Poucos empres\u00e1rios, de extrema-direita ou fabricante de armas, colaboravam com o sustento dele e dos filhos.<\/p>\n<p>Como todo frustrado e ressentido, Bolsonaro, pelo que dizem alguns que o conheceram melhor, sonhava com a revanche: o dia em que militares e pol\u00edticos tivessem de se submeter a seu comando e passasse a ser respeitado pelos grandes empres\u00e1rios. Almejava tamb\u00e9m se vingar dos jornalistas que o desprezavam.<\/p>\n<p>\u00c0s frustra\u00e7\u00f5es e ressentimentos que atormentam Bolsonaro ainda se somam os traumas familiares, causados por rela\u00e7\u00f5es tempestuosas, separa\u00e7\u00f5es conflituosas e dificuldades na conviv\u00eancia com os filhos, e que explicam desde a intera\u00e7\u00e3o complexa com o filho Carlos at\u00e9 a misoginia e a fixa\u00e7\u00e3o por narrativas repletas de imagens que remetem a casamento, sexo e atributos f\u00edsicos das chamadas partes \u00edntimas.<\/p>\n<p>A propalada venera\u00e7\u00e3o \u00e0 fam\u00edlia, constante em seus discursos, pode ser uma compensa\u00e7\u00e3o \u00e0s vicissitudes por que passou, mas pode ser tamb\u00e9m s\u00f3 um discurso para agradar conservadores e fundamentalistas religiosos. Se a pr\u00e1tica \u00e9 o crit\u00e9rio da verdade, por\u00e9m, Bolsonaro e fam\u00edlia tradicional crist\u00e3 n\u00e3o s\u00e3o compat\u00edveis.<\/p>\n<p><strong>2. \u201cBolsonaro sempre defendeu a ditadura\u201d<\/strong><br \/>\nAs complica\u00e7\u00f5es mentais, existenciais e familiares de Bolsonaro n\u00e3o fazem com que ele seja apenas um louco desvairado que n\u00e3o sabe o que faz nem tenha no\u00e7\u00e3o das suas repercuss\u00f5es. E n\u00e3o o absolvem de nada. O capit\u00e3o indisciplinado que se tornou comandante-em-chefe das For\u00e7as Armadas tem, convivendo com sua loucura, um pensamento pol\u00edtico estruturado e um projeto de poder coerente com as convic\u00e7\u00f5es que sempre manifestou. E que s\u00e3o de conhecimento p\u00fablico h\u00e1 mais 30 anos.<\/p>\n<p>Bolsonaro sempre defendeu a ditadura militar que vigorou no Brasil de 1964 a 1985, elogiou os generais-presidentes e seus governos e exaltou os que torturaram e assassinaram militantes pol\u00edticos, oposicionistas, insatisfeitos e at\u00e9 quem nunca se manifestou contra o autoritarismo. Por v\u00e1rias vezes demonstrou admira\u00e7\u00e3o por ditadores sanguin\u00e1rios e corruptos, como Augusto Pinochet, do Chile, e Alfredo Stroessner, do Paraguai, entre outros. Aplaudiu o autogolpe dado por Alberto Fujimori no Peru e at\u00e9 mesmo a ascens\u00e3o ao poder do coronel Hugo Ch\u00e1vez na Venezuela \u2014 imaginou que, por ser militar, o l\u00edder bolivariano seria de direita.<\/p>\n<p>J\u00e1 pr\u00e9-candidato a presidente, o deputado repetiu incessantemente suas convic\u00e7\u00f5es autorit\u00e1rias e repressivas. Chegou a homenagear um torturador not\u00f3rio ao votar pelo impeachment de Dilma Rousseff. Seus primeiros seguidores fan\u00e1ticos repetiam os mantras contra a democracia e pela restaura\u00e7\u00e3o dos governos militares como solu\u00e7\u00e3o para os in\u00fameros problemas do pa\u00eds, em especial para combater a corrup\u00e7\u00e3o e a criminalidade.<\/p>\n<p>Parecia, no princ\u00edpio, um candidato da extrema-direita em busca de espa\u00e7o pol\u00edtico, a r\u00e9plica brasileira dos pol\u00edticos e antipol\u00edticos ultraconservadores que ganhavam espa\u00e7o em outros pa\u00edses. N\u00e3o era o candidato dos que, desde as manifesta\u00e7\u00f5es de 2013 e especialmente desde a elei\u00e7\u00e3o de 2014, articulavam a destitui\u00e7\u00e3o de Dilma Rousseff e o fim das gest\u00f5es comandadas pelo PT. Era o que se denominava um outsider, o candidato \u00e0 margem dos velhos esquemas pol\u00edticos.<\/p>\n<p>Dilma foi derrubada do governo por uma ampla coaliz\u00e3o pol\u00edtica e empresarial de centro e centro-direita que soube mobilizar grande parcela da popula\u00e7\u00e3o e cuja maioria dos integrantes havia apoiado ou participado \u2014muitos, entusiasticamente \u2014dos governos dela e de Lula. Esses grupos viram que existiam condi\u00e7\u00f5es objetivas e subjetivas para assumir diretamente o poder, sem se submeter \u00e0 hegemonia petista.<\/p>\n<p>A coaliz\u00e3o contra Dilma, o PT e a esquerda recorreu ao impeachment, instrumento constitucional que permite um julgamento fundamentalmente pol\u00edtico do presidente, sendo acess\u00f3ria a argumenta\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica e jur\u00eddica, usada para legitimar a destitui\u00e7\u00e3o. Se o presidente n\u00e3o tem maioria parlamentar, o impeachment \u00e9 aprovado. Se tem maioria, como Donald Trump, \u00e9 rejeitado. N\u00e3o importa o crime cometido.<\/p>\n<p>A coaliz\u00e3o constitu\u00edda com o prop\u00f3sito espec\u00edfico de derrubar a esquerda do poder recebeu o respaldo ativo dos Departamentos de Estado e de Justi\u00e7a dos Estados Unidos, cujo governo n\u00e3o escondia a preocupa\u00e7\u00e3o com a crescente inser\u00e7\u00e3o internacional do Brasil e com a presen\u00e7a crescente de empresas brasileiras em outros pa\u00edses. N\u00e3o estavam gostando tamb\u00e9m da participa\u00e7\u00e3o do Brasil na forma\u00e7\u00e3o de alian\u00e7as alheias e at\u00e9 contr\u00e1rias aos interesses dos Estados Unidos: os novos organismos multilaterais na Am\u00e9rica Latina, dominados por governantes \u00e0 esquerda, e, sobretudo, o Brics, acr\u00f4nimo para a uni\u00e3o de Brasil, R\u00fassia, \u00cdndia, China e \u00c1frica do Sul.<\/p>\n<p>O impeachment era favorecido por v\u00e1rios fatores, mas, sobretudo, pelos muitos erros da pol\u00edtica econ\u00f4mica de Dilma e pelas pesadas den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o, que atingiam v\u00e1rios partidos, mas eram propositadamente concentradas no PT. A coaliz\u00e3o soube explorar ao m\u00e1ximo, com intensa cobertura da imprensa, as consequ\u00eancias das pol\u00edticas governamentais equivocadas e a revolta da popula\u00e7\u00e3o diante da corrup\u00e7\u00e3o generalizada.<\/p>\n<p>Papel fundamental para o sucesso do impeachment foi a atua\u00e7\u00e3o dos ju\u00edzes e procuradores envolvidos nas opera\u00e7\u00f5es contra a corrup\u00e7\u00e3o, em especial na denominada Lava Jato, comandada de fato, e ilegalmente, pelo ent\u00e3o juiz S\u00e9rgio Moro. O que inicialmente parecia ser uma saud\u00e1vel e elogi\u00e1vel ofensiva contra corruptos de todos os matizes mostrou ser, com o tempo, uma opera\u00e7\u00e3o pol\u00edtica coordenada com o projeto da coaliz\u00e3o e dirigida a alvos escolhidos, sintonizada com interesses pol\u00edticos e comerciais do governo estadunidense e com grande apoio da popula\u00e7\u00e3o cansada da corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O plano era colocar o vice Michel Temer na presid\u00eancia, iniciar a execu\u00e7\u00e3o de medidas econ\u00f4micas ultraliberais de ajuste fiscal e dar uma guinada moderada na pol\u00edtica externa, com o distanciamento de governos latino-americanos \u00e0 esquerda e aproxima\u00e7\u00e3o com os Estados Unidos. Depois, em 2018, eleger um pol\u00edtico da coaliz\u00e3o para derrotar a esquerda, que dificilmente teria Lula como candidato, e dar prosseguimento a essas pol\u00edticas. Temer e seu partido, o MDB, achavam que ele poderia ser o candidato.<\/p>\n<p>Mas outros partidos tamb\u00e9m tinham seus candidatos e a coaliz\u00e3o funcionou como tal somente at\u00e9 a decreta\u00e7\u00e3o do impeachment de Dilma. Temer logo foi acusado de corrup\u00e7\u00e3o, n\u00e3o conseguiu cumprir integralmente o que havia sido planejado, perdeu aliados e sua reelei\u00e7\u00e3o foi inviabilizada. Os partidos pol\u00edticos que participaram da coaliz\u00e3o apresentaram v\u00e1rios candidatos \u00e0 presid\u00eancia em 2018. Dividiram-se pensando em voltar a se unir no segundo turno caso o PT chegasse l\u00e1, e assim, sem querer, come\u00e7aram a viabilizar a vit\u00f3ria de Bolsonaro.<\/p>\n<p><strong>3. \u201cImagem falsa de antipol\u00edtico\u201d<\/strong><br \/>\nO ent\u00e3o deputado Bolsonaro apoiou com estrid\u00eancia o impeachment, mas nunca se aliou aos que o comandaram . Procurou se distanciar do governo de Temer para ser coerente com seu discurso e imagem de outsider, advers\u00e1rio das velhas pr\u00e1ticas e m\u00e9todos pol\u00edticos, inimigo visceral dos corruptos, militar preparado para enfrentar a viol\u00eancia e os criminosos. Manteve a linha de n\u00e3o se envolver com partidos, para ele apenas instrumentos para disputar elei\u00e7\u00f5es. Na pr\u00e9-campanha, trocou o Patriota pelo PSL, depois de passar por outros sete partidos em sua vida pol\u00edtica.<\/p>\n<p>A ascens\u00e3o de Bolsonaro deve-se em grande parte ao sentimento, de grande parcela da popula\u00e7\u00e3o, de desencanto e rejei\u00e7\u00e3o \u00e0 pol\u00edtica, aos pol\u00edticos e aos partidos, disseminado a partir das manifesta\u00e7\u00f5es de 2013 e intensificado diante das in\u00fameras den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o. Embora tenha sido vereador e deputado por 30 anos, Bolsonaro conseguiu construir a imagem, falsa, de antipol\u00edtico. Apesar de ter sido um parlamentar ineficiente e sem conhecimento da realidade nacional, visivelmente despreparado e sem racioc\u00ednio l\u00f3gico e coer\u00eancia, conseguiu convencer muita gente de que seria capaz de resolver os grav\u00edssimos problemas do pa\u00eds.<\/p>\n<p>No in\u00edcio de 2018, o maior problema do centro e da centro-direita, dividida entre v\u00e1rios candidatos, n\u00e3o era a posi\u00e7\u00e3o de Bolsonaro em segundo lugar nas pesquisas, mas n\u00e3o muito longe dos demais. O problema era a lideran\u00e7a de Lula, apesar das den\u00fancias e da condena\u00e7\u00e3o contra ele, e mesmo estando as esquerdas tamb\u00e9m divididas, com quatro candidatos. Essa quest\u00e3o foi resolvida em abril com a pris\u00e3o de Lula, apressada por S\u00e9rgio Moro e por seus aliados do TRF 4, em Porto Alegre, para inviabilizar sua candidatura.<\/p>\n<p>At\u00e9 6 de setembro de 2018, a o centro e a centro-direita acreditavam que pelo menos um de seus candidatos, o tucano Geraldo Alckmin, com grande estrutura de campanha e muito tempo na televis\u00e3o, conseguiria superar Bolsonaro e disputar o segundo turno com Fernando Haddad, do PT. Alckmin estava em forte ofensiva contra Bolsonaro, para super\u00e1-lo, quando ocorreu o epis\u00f3dio que decidiu a elei\u00e7\u00e3o: a facada em Juiz de Fora, em circunst\u00e2ncias estranhas e at\u00e9 hoje n\u00e3o esclarecidas.<\/p>\n<p>A estocada perpetrada por Ad\u00e9lio Bispo, e que esteve longe de ser profunda e mortal, era o que Bolsonaro precisava para ganhar a presid\u00eancia da Rep\u00fablica. Tornou-se v\u00edtima, recebendo a solidariedade de quem at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o pensava em votar nele, e inibindo os advers\u00e1rios. Ganhou tempo e espa\u00e7o na televis\u00e3o e em todos os meios de comunica\u00e7\u00e3o, aparecendo mais do que os demais candidatos juntos. Livrou-se do que seria seu maior tormento na campanha, os debates na TV, alegando que seu estado de sa\u00fade n\u00e3o permitia que comparecesse, enquanto cumpria outros compromissos que exigiam mais de suas condi\u00e7\u00f5es f\u00edsicas, mas menos do c\u00e9rebro.<\/p>\n<p>Alckmin teve de mudar sua estrat\u00e9gia de campanha e Bolsonaro, em pesquisa Datafolha, pulou de 28% em 4 de setembro para 36% em 18 de setembro. Ficou claro que o segundo turno seria entre Haddad, em crescimento desde seu lan\u00e7amento tardio em uma estrat\u00e9gia equivocada de Lula, e Bolsonaro, cada vez mais firme na lideran\u00e7a. Esse era o melhor cen\u00e1rio para o ent\u00e3o deputado, pois o sentimento antipetista era grande e ele sabia que os que haviam se unido para derrubar Dilma e o PT n\u00e3o iriam permitir que o partido voltasse ao governo depois de tanto esfor\u00e7o para destron\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Foi assim que, ainda no primeiro turno, muitos empres\u00e1rios e pol\u00edticos liberais e de centro e centro-direita, ansiosos por derrotar o PT, verem finalmente executadas as medidas econ\u00f4micas que pregavam e acreditando que o j\u00e1 anunciado ministro Paulo Guedes faria isso, abandonaram seus candidatos originais (Alckmin, Henrique Meirelles, Jo\u00e3o Amo\u00eado, Alvaro Dias) e passaram a apoiar Bolsonaro, na esperan\u00e7a de que ele j\u00e1 vencesse no primeiro turno. Militares de altas patentes, antes resistentes a Bolsonaro e favor\u00e1veis a outros candidatos \u00e0 direita, passaram tamb\u00e9m a apoi\u00e1-lo, temendo a vit\u00f3ria do PT.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos dias de campanha ainda houve um esfor\u00e7o de eleitores de centro-esquerda e democratas para que Ciro Gomes, do PDT, conseguisse superar Haddad e ir para o segundo turno \u2014 entendiam que ele teria melhores condi\u00e7\u00f5es de derrotar Bolsonaro. Mas o resultado foi o esperado: Bolsonaro e Haddad disputariam a final. Fora Ciro, com 12%, os demais candidatos tiveram resultados de apenas um d\u00edgito.<\/p>\n<p>Bolsonaro, por\u00e9m, n\u00e3o gostou do resultado. Queria ter vencido logo, para sair fortalecido politicamente e n\u00e3o ter de fazer alian\u00e7as para o segundo turno, at\u00e9 porque isso poderia prejudicar sua imagem de refrat\u00e1rio \u00e0 pol\u00edtica tradicional. Suas poss\u00edveis paran\u00f3ia e megalomania se manifestaram ao achar que tinha havido fraude para impedir sua vit\u00f3ria, uma tese tamb\u00e9m bem conveniente para seu projeto pol\u00edtico.<\/p>\n<p><strong>4. \u201cSer presidente \u00e9 pouco pra ele\u201d<\/strong><br \/>\nApesar da boa margem \u00e0 frente de Haddad (46% a 29,3%) e de saber que a oposi\u00e7\u00e3o ao PT iria lhe garantir os votos da centro-direita, Bolsonaro teve medo de ser derrotado no segundo turno e recorreu \u00e0 amea\u00e7a: se perdesse, seria porque teria havido fraude, e n\u00e3o aceitaria os resultados. Em ocasi\u00f5es anteriores, ele havia manifestado suas restri\u00e7\u00f5es \u00e0s urnas eletr\u00f4nicas.<\/p>\n<p>J\u00e1 nesse momento, antes mesmo do resultado das elei\u00e7\u00f5es, Bolsonaro mostrava a inten\u00e7\u00e3o que depois se transformaria em um projeto estruturado: chegar ao poder a qualquer custo, com o apoio de seus seguidores fan\u00e1ticos e incondicionais, dos refrat\u00e1rios \u00e0 volta da esquerda ao governo e das For\u00e7as Armadas historicamente antiesquerdistas. Se perdesse nas urnas, o que era improv\u00e1vel, ganharia nas ruas e nos quart\u00e9is.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi preciso recorrer ao golpe. Diante da amea\u00e7a que para ela representava o PT, o centro e a centro-direita votaram em Bolsonaro e os que n\u00e3o queriam nem o capit\u00e3o nem o PT n\u00e3o votaram, anularam o voto ou marcaram branco. Bolsonaro teve 55,2% dos votos v\u00e1lidos, contra 44,8% de Haddad. Mas 30,9% dos eleitores se abstiveram, votaram em branco ou anularam o voto. Bolsonaro recebeu, realmente, 39% dos votos dos brasileiros e das brasileiras \u2014 o que n\u00e3o tira a legitimidade de sua elei\u00e7\u00e3o, mas mostra o real tamanho de seu eleitorado em 2018.<\/p>\n<p>Os que votaram em Bolsonaro n\u00e3o sendo bolsonaristas convictos ou de extrema-direita sabiam muito bem em quem e no que estavam votando. Sabiam que ele \u00e9 desequilibrado, que defende a ditadura e a tortura, que tem posi\u00e7\u00f5es e posturas autorit\u00e1rias, que \u00e9 despreparado para exercer a presid\u00eancia. Demonstra\u00e7\u00f5es claras do despreparo eram nada falar sobre economia, alegando n\u00e3o entender do assunto, e fugir dos debates com outros candidatos e das perguntas inc\u00f4modas de rep\u00f3rteres.<\/p>\n<p>Na verdade, o voto dessa parcela de eleitores em Bolsonaro foi um voto contra o PT e a esquerda e a favor das reformas ultraliberais prometidas por Paulo Guedes, um economista da escola de Chicago desprezado por seus colegas liberais que exerceram cargos em outros governos. Guedes prometia colocar o pa\u00eds nos par\u00e2metros do ultraliberalismo desejado pelo chamado \u201cmercado\u201d e parecia que teria ascend\u00eancia sobre Bolsonaro. Os empres\u00e1rios acreditaram.<\/p>\n<p>Como pretexto para justificar o voto em algu\u00e9m notoriamente pr\u00f3ximo \u00e0s ideias fascistas e com reiteradas demonstra\u00e7\u00f5es de ignor\u00e2ncia e despreparo, os que nele votaram alegavam que, no exerc\u00edcio da presid\u00eancia, Bolsonaro iria mudar seu comportamento e se adaptar aos ritos e decoro do cargo, al\u00e9m de flexibilizar suas rela\u00e7\u00f5es com os pol\u00edticos que dizia desprezar e dar liberdade de a\u00e7\u00e3o a seus ministros \u201ct\u00e9cnicos\u201d. Que uma coisa era o candidato, outra seria o presidente da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi o que aconteceu. Na presid\u00eancia, Bolsonaro nada mudou em rela\u00e7\u00e3o ao que sempre foi, pessoal e politicamente. Tem sido coerente com o que pensa e sempre fez. Comprovou seu despreparo e ignor\u00e2ncia, sua incompet\u00eancia, sua intoler\u00e2ncia, seu autoritarismo e, principalmente, sua sede de poder e avers\u00e3o \u00e0s pr\u00e1ticas da democracia.<\/p>\n<p>Ao se eleger, Bolsonaro achou que no governo faria o que quisesse. Mas viu que h\u00e1 limites: a Constitui\u00e7\u00e3o, as leis, o Congresso, o Supremo Tribunal Federal, os \u00f3rg\u00e3os fiscalizadores, a imprensa e a rea\u00e7\u00e3o da sociedade civil e da popula\u00e7\u00e3o. Foi tomado de indigna\u00e7\u00e3o por, entre outras coisas, n\u00e3o poder proibir radares em rodovias, despenalizar o n\u00e3o uso de cadeirinhas para crian\u00e7as nos ve\u00edculos e acabar com a publica\u00e7\u00e3o de balan\u00e7os nos jornais. Para que, ent\u00e3o, foi eleito presidente, se n\u00e3o poderia adotar medidas que, em sua vis\u00e3o limitada, s\u00e3o t\u00e3o relevantes?<\/p>\n<p>Sempre com coer\u00eancia diante de seus princ\u00edpios e posi\u00e7\u00f5es, Bolsonaro e seus filhos, seguindo o que pensa o guia te\u00f3rico deles, o aparentemente transtornado mental Olavo de Carvalho, formularam o que \u00e9 seu verdadeiro projeto de poder: um golpe nas institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas para assumir mais poderes em detrimento do Legislativo e do Judici\u00e1rio, sem a imprensa para cobrar e perturbar e com a sociedade civil e o povo contidos em suas manifesta\u00e7\u00f5es. Olavo tamb\u00e9m n\u00e3o esconde isso.<\/p>\n<p>Bolsonaro logo viu que ser presidente \u00e9 pouco para ele e aumentou sua convic\u00e7\u00e3o de que os problemas do Brasil s\u00f3 ser\u00e3o resolvidos se ele for um ditador, como os generais do passado, e n\u00e3o um presidente que n\u00e3o faz o que quer. A partir desse projeto \u00e9 poss\u00edvel entender o sentido de v\u00e1rias a\u00e7\u00f5es do governo Bolsonaro.<\/p>\n<p><strong>5. A estrat\u00e9gia de Bolsonaro &amp; filhos<\/strong><br \/>\nNem tudo o que faz Bolsonaro visando construir as condi\u00e7\u00f5es para o golpe tem apenas esse objetivo. Mas muitas a\u00e7\u00f5es convergem para isso. Para dar o golpe, Bolsonaro conta com alguns elementos essenciais, sem ordem de import\u00e2ncia:<\/p>\n<p>\u2013 Um ambiente de conflitos sociais, com manifesta\u00e7\u00f5es populares, a\u00e7\u00f5es violentas, saques e confrontos entre grupos pol\u00edticos e deles com a pol\u00edcia.<\/p>\n<p>\u2013 Uma base social de apoio popular fiel, disposta e violenta, mesmo que minorit\u00e1ria na sociedade.<\/p>\n<p>\u2013 O apoio incondicional, ao governo federal, de policiais militares e, secundariamente, de policiais civis e federais.<\/p>\n<p>\u2013 A exist\u00eancia de grupos de civis armados que defendam o governo e seus adeptos e confrontem com firmeza os advers\u00e1rios pol\u00edticos.<\/p>\n<p>\u2013 A desmoraliza\u00e7\u00e3o do Congresso Nacional, dos pol\u00edticos e dos partidos perante a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2013 A desmoraliza\u00e7\u00e3o do Supremo Tribunal Federal e de seus ministros.<\/p>\n<p>\u2013 A perda de confiabilidade e credibilidade da imprensa tradicional e dos jornalistas, com o fortalecimento de ve\u00edculos sob controle do bolsonarismo, especialmente emissoras de televis\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2013 O apoio do governo dos Estados Unidos e, secundariamente, de vizinhos sul-americanos, para o imediato reconhecimento da nova situa\u00e7\u00e3o decorrente do golpe.<\/p>\n<p>\u2013 O apoio pol\u00edtico e financeiro de setores do empresariado.<\/p>\n<p>\u2013 O apoio das For\u00e7as Armadas.<\/p>\n<p>Bolsonaro e seus filhos t\u00eam trabalhado para viabilizar todas essas condi\u00e7\u00f5es. Algumas vezes, de forma velada, outras de forma escancarada. Exemplos:<\/p>\n<p>\u2013 A grande presen\u00e7a de oficiais das For\u00e7as Armadas, especialmente do Ex\u00e9rcito, na estrutura da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, nos minist\u00e9rios e em in\u00fameros \u00f3rg\u00e3os do governo.<\/p>\n<p>\u2013 O claro favorecimento aos militares na reforma da Previd\u00eancia, mantendo e at\u00e9 ampliando seus privil\u00e9gios e vantagens em rela\u00e7\u00e3o ao pessoal civil.<\/p>\n<p>\u2013 Os altos investimentos nas For\u00e7as Armadas, apesar das restri\u00e7\u00f5es fiscais e or\u00e7ament\u00e1rias que prejudicam setores essenciais, como sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e pesquisa cient\u00edfica.<\/p>\n<p>\u2013 O apoio a aumentos salariais e a reivindica\u00e7\u00f5es dos policiais militares e civis, federais e rodovi\u00e1rios, chegando at\u00e9 mesmo a incentivar e sustentar o motim de policiais militares no Cear\u00e1.<\/p>\n<p>\u2013 A libera\u00e7\u00e3o de armas para os civis, com aumento das possibilidades de obt\u00ea-las e da quantidade que cada pessoa pode ter, possibilitando \u00e0s mil\u00edcias terem armas legalizadas e se organizarem legalmente em clubes de ca\u00e7a e escolas de tiro.<\/p>\n<p>\u2013 O incentivo \u00e0 posse de armas por propriet\u00e1rios rurais e a coniv\u00eancia com o assassinato de l\u00edderes camponeses e ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>\u2013 As constantes agress\u00f5es, amea\u00e7as e hostilidades contra \u00f3rg\u00e3os de imprensa e contra jornalistas.<\/p>\n<p>\u2013 A campanha sistem\u00e1tica contra a Rede Globo e contra a Folha de S. Paulo, que pretende destruir, literalmente, para favorecer, entre outras, as aliadas Record, SBT, Rede TV e agora, ao que tudo indica, CNN.<\/p>\n<p>\u2013 Os ataques ao Congresso Nacional e ao Supremo Tribunal Federal e a convoca\u00e7\u00e3o de manifesta\u00e7\u00f5es contra os poderes Legislativo e Judici\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u2013 As declara\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis ao golpe militar de 1964, \u00e0 ditadura que se seguiu, \u00e0 repress\u00e3o pol\u00edtica, \u00e0 censura e aos assassinatos e torturas e ao ato institucional n\u00famero 5.<\/p>\n<p>\u2013 A ostensiva articula\u00e7\u00e3o com governos \u00e0 direita na Am\u00e9rica do Sul e na Europa, a sustenta\u00e7\u00e3o aos opositores na Venezuela, as agress\u00f5es contra Cuba e o alinhamento autom\u00e1tico e apoio incondicional a Trump e \u00e0 pol\u00edtica externa dos Estados Unidos, mesmo quando h\u00e1 vis\u00edveis preju\u00edzos econ\u00f4micos e diplom\u00e1ticos para o Brasil.<\/p>\n<p>\u2013 Os benef\u00edcios ao sistema banc\u00e1rio e a empres\u00e1rios aliados ao governo, com flexibiliza\u00e7\u00e3o de medidas regulat\u00f3rias e de prote\u00e7\u00e3o ao trabalho e ao meio ambiente e a n\u00e3o cobran\u00e7a de multas.<\/p>\n<p>\u2013 As declara\u00e7\u00f5es no sentido de ser necess\u00e1rio editar novo AI-5 caso haja no Brasil manifesta\u00e7\u00f5es como as que ocorriam no Chile antes da pandemia.<\/p>\n<p>\u2013 Diversas decis\u00f5es e o discurso voltados exclusivamente para seus adeptos, visando mant\u00ea-los agregados e dispostos a defend\u00ea-lo.<\/p>\n<p>\u2013 A cria\u00e7\u00e3o da Alian\u00e7a pelo Brasil, partido sob seu total controle e comando, instrumento pol\u00edtico importante para organizar e mobilizar seus adeptos.<\/p>\n<p>Vistas isoladamente, essas medidas podem ser tidas como decorr\u00eancias naturais de pol\u00edticas de um governo de extrema-direita que flerta com o fascismo. Mas quando se conhece os antecedentes de Bolsonaro, seu pensamento e suas atitudes, ficam claras suas inten\u00e7\u00f5es. O comportamento dele diante da pandemia que assola o mundo s\u00f3 refor\u00e7a essa convic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>6. \u201cCometeu crime de responsabilidade\u201d<\/strong><br \/>\nBolsonaro sabe que seu governo ser\u00e1 julgado pelos eleitores principalmente pelo desempenho na economia. E que o apoio do empresariado e do \u201cmercado\u201d depende de ter sucesso nesse campo. At\u00e9 o in\u00edcio da pandemia, os resultados econ\u00f4micos e financeiros eram p\u00edfios e insuficientes para sustentar um crescimento razo\u00e1vel do pa\u00eds. O desemprego e a informalidade j\u00e1 estavam altos e havia um clima de decep\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A pandemia surpreendeu Bolsonaro, que ainda por cima fez uma desastrosa viagem aos Estados Unidos que levou \u00e0 contamina\u00e7\u00e3o de 25 membros de sua comitiva e, muito provavelmente, embora sem confirma\u00e7\u00e3o oficial, dele pr\u00f3prio e de sua mulher, Michelle. Diante da perplexidade inicial do governo federal, governadores e prefeitos come\u00e7aram a tomar medidas para tentar conter o alcance da pandemia, e isso desagradou Bolsonaro, por v\u00e1rios motivos:<\/p>\n<p>\u2013 A perspectiva de uma recess\u00e3o econ\u00f4mica, em decorr\u00eancia da pandemia, e de n\u00e3o haver condi\u00e7\u00f5es para a necess\u00e1ria recupera\u00e7\u00e3o at\u00e9 2022, quando haver\u00e1 elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u2013 A press\u00e3o de empres\u00e1rios aliados, alguns dos quais se manifestando publicamente, contra a aplica\u00e7\u00e3o de medidas de distanciamento social recomendadas por autoridades mundiais e locais de sa\u00fade, e que levou \u00e0 interrup\u00e7\u00e3o de muitas atividades produtivas e, assim, do faturamento de empresas e de aut\u00f4nomos.<\/p>\n<p>\u2013 A resist\u00eancia de Guedes e da \u00e1rea econ\u00f4mica do governo a adotar, a exemplo de outros pa\u00edses, medidas eficazes para apoiar as empresas e assegurar renda para trabalhadores inativos, desempregados, aut\u00f4nomos, informais e pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua, o que implica desembolso de recursos p\u00fablicos e, na vis\u00e3o da equipe econ\u00f4mica, dificultar\u00e1 ainda mais a retomada da economia.<\/p>\n<p>Ao lado disso, como viu que n\u00e3o teria comando absoluto sobre todas as a\u00e7\u00f5es contra a pandemia, pois muitas est\u00e3o sob gest\u00e3o dos governadores e prefeitos, alguns dos quais poder\u00e3o ser candidatos contra ele, Bolsonaro resolveu afirmar sua autoridade pelo conflito, n\u00e3o pela uni\u00e3o, contestando decis\u00f5es que contrariam sua postura de p\u00f4r a economia e a sustentabilidade de empresas acima da sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Antevendo os problemas que ter\u00e1 pela frente depois da pandemia, Bolsonaro tenta se desvincular das responsabilidades pelos resultados do combate e pela inevit\u00e1vel recess\u00e3o econ\u00f4mica que se seguir\u00e1. Se as consequ\u00eancias da pandemia forem graves, dir\u00e1 que a culpa \u00e9 dos governadores e dos prefeitos que tomaram medidas dr\u00e1sticas que de nada adiantaram e ainda prejudicaram a economia e causaram desemprego.<\/p>\n<p>Se as consequ\u00eancias forem mais brandas, Bolsonaro atribuir\u00e1 os m\u00e9ritos a ele e a seu governo e dir\u00e1 que a recess\u00e3o e o desemprego foram causados pela \u201chisteria\u201d e pelo \u201calarmismo\u201d dos governadores e prefeitos. Quer ganhar em qualquer cen\u00e1rio e acusar os que podem vir a enfrent\u00e1-lo em 2022.<\/p>\n<p>Mas, ao mesmo tempo, ao contestar as autoridades internacionais e brasileiras de sa\u00fade e os advers\u00e1rios pol\u00edticos, Bolsonaro procura manter seus seguidores unidos, insuflando-os a questionar as medidas restritivas e se colocarem ao lado dele contra os \u201cinimigos\u201d. Se a pandemia levar a uma situa\u00e7\u00e3o em que a deteriora\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de vida das pessoas, principalmente das mais pobres e vulner\u00e1veis, provoque manifesta\u00e7\u00f5es de rua, protestos e saques, Bolsonaro precisar\u00e1 de seus adeptos e responsabilizar\u00e1 os defensores do distanciamento social.<\/p>\n<p>Assim, as posi\u00e7\u00f5es irrespons\u00e1veis que Bolsonaro tem defendido em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pandemia s\u00e3o, em boa parte, decorrentes de seu desequil\u00edbrio mental, de sua ignor\u00e2ncia e de sua postura contra a ci\u00eancia, mas n\u00e3o se limitam a isso. S\u00e3o pensadas e t\u00eam em vista seu fortalecimento pol\u00edtico e a cria\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es para o almejado golpe. Para ele, crise e insatisfa\u00e7\u00e3o popular formam o caldo de cultura ideal para isso.<\/p>\n<p>Com a medida provis\u00f3ria que praticamente revoga a Lei de Acesso \u00e0 Informa\u00e7\u00e3o, Bolsonaro tentou dar mais um passo para aumentar os poderes e impedir que o governo seja fiscalizado pela imprensa. Mas a MP servia tamb\u00e9m para impedir que os resultados dos testes dele e de sua mulher para detectar o coronav\u00edrus fossem revelados.<\/p>\n<p>E por que Bolsonaro esconde os laudos? Porque provavelmente deram positivo, e mesmo assim ele foi \u00e0s ruas, em 15 de mar\u00e7o, cumprimentou manifestantes e pegou em seus celulares. Propagou o v\u00edrus e cometeu um crime de responsabilidade.<\/p>\n<p><strong>7. \u201cImpeachment n\u00e3o interessa hoje a l\u00edderes\u201d<\/strong><br \/>\nSe as condi\u00e7\u00f5es para o golpe j\u00e1 existissem, Bolsonaro j\u00e1 o teria dado. A demora o irrita e a pandemia criou uma situa\u00e7\u00e3o nova que traz, para ele, riscos e oportunidades. Bolsonaro poderia sair maior ou menor dessa crise, mas o importante, para seus planos, \u00e9 que sua base social de apoio, que inclui os empres\u00e1rios mais \u00e0 direita, esteja s\u00f3lida e seus advers\u00e1rios \u2014 que s\u00e3o todos os que n\u00e3o estejam incondicionalmente ao seu lado \u2014 enfraquecidos.<\/p>\n<p>Bolsonaro conta com conflitos de rua entre seus adeptos e a esquerda, porque sabe que os que se colocam no centro n\u00e3o v\u00e3o \u00e0s ruas quando o clima esquenta \u2014 limitam-se a manifesta\u00e7\u00f5es pac\u00edficas e de prefer\u00eancia aos domingos. Conta com a PM ao seu lado e, em condi\u00e7\u00f5es extremas, os milicianos armados podem ajudar a reprimir seus opositores. Acha que se a briga for com a esquerda, o empresariado, setores \u00e0 direita e meios de comunica\u00e7\u00e3o, mesmo alguns que tanto hostiliza, estar\u00e3o ao seu lado.<\/p>\n<p>Esse cen\u00e1rio, para os bolsonaristas, \u00e9 o que acontecer\u00e1 se houver tentativa de submet\u00ea-lo a impeachment, o que, nas previs\u00f5es deles, n\u00e3o ocorrer\u00e1 durante a pandemia. Al\u00e9m de n\u00e3o ser um momento adequado, o Congresso n\u00e3o est\u00e1 se reunindo presencialmente e os opositores n\u00e3o podem ir para as ruas. E o impeachment n\u00e3o interessa hoje a l\u00edderes parlamentares que preferem acreditar no desgaste do presidente at\u00e9 2022.<\/p>\n<p>Pois as elei\u00e7\u00f5es de 2022 s\u00e3o o limite tra\u00e7ado por Bolsonaro para o golpe. Ele quer disputar o segundo turno com um candidato do PT, por isso aposta na polariza\u00e7\u00e3o com esse partido e com a esquerda. Se at\u00e9 as elei\u00e7\u00f5es n\u00e3o houver como concretizar o golpe, o per\u00edodo p\u00f3s-eleitoral \u00e9 considerado decisivo. Se Bolsonaro ganhar a elei\u00e7\u00e3o, estar\u00e1 forte para colocar seus militantes nas ruas e a\u00ed h\u00e1 duas hip\u00f3teses: se tiver feito maioria no Congresso, aprovar\u00e1 as medidas autorit\u00e1rias que quiser e depois pressionar\u00e1 o Supremo, j\u00e1 com ministros nomeados por ele, a n\u00e3o criar caso; se n\u00e3o tiver maioria, aproveitar\u00e1 o recesso do Legislativo e do Judici\u00e1rio para dar o golpe, com seus adeptos nas ruas e em conflito com a esquerda.<\/p>\n<p>Se perder as elei\u00e7\u00f5es, Bolsonaro, como j\u00e1 se sabe, alegar\u00e1 que houve fraude e radicalizar\u00e1: militantes e milicianos nas ruas, com apoio das pol\u00edcias, e exigir\u00e1 novo pleito, j\u00e1 que as urnas eletr\u00f4nicas n\u00e3o possibilitam a recontagem. Espera que a esquerda reaja, especialmente se o vencedor for de seu campo, e estar\u00e1 instalado o cen\u00e1rio em que ele conta com a interven\u00e7\u00e3o das For\u00e7as Armadas a seu favor, como presidente ainda no cargo. Anular o pleito e estender o mandato, sustentado pelos militares, \u00e9 o passo seguinte.<\/p>\n<p>Bolsonaro sabe que a parte mais dif\u00edcil desse plano \u00e9 conquistar o apoio das For\u00e7as Armadas para uma aventura golpista. Mas acredita que os militares ficar\u00e3o sem alternativa e optar\u00e3o por ele. Como \u00e9 megaloman\u00edaco e pensa ser indestrut\u00edvel por ter sido atleta, n\u00e3o conta com uma resist\u00eancia da sociedade civil mais forte que a a\u00e7\u00e3o de seus militantes, milicianos e policiais, nem com uma rea\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria dos militares. H\u00e1, por\u00e9m, um fator fora de seu controle que o preocupa: Trump perder a elei\u00e7\u00e3o em novembro. Bolsonaro n\u00e3o pensa na hip\u00f3tese de ter de deixar a presid\u00eancia antes de 2022, mesmo com seu progressivo isolamento pol\u00edtico.<\/p>\n<p>O plano de Bolsonaro pode dar ou n\u00e3o certo porque h\u00e1 muitas vari\u00e1veis em jogo e muito tempo pela frente, sujeito a tempestades e pandemias. Ele agora est\u00e1 jogando no tudo ou nada para neutralizar advers\u00e1rios e manter o apoio de sua base. Sabe que h\u00e1 riscos, mas se considera um super-homem. Os que se op\u00f5em a ele e defendem a manuten\u00e7\u00e3o da democracia precisam estar preparados para impedir que avance. E, mesmo que pensem que o projeto de golpe n\u00e3o existe ou n\u00e3o tem chances de sucesso, descartar cen\u00e1rios nunca \u00e9 bom na disputa pol\u00edtica.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;..<\/p>\n<p>* <strong>H\u00e9lio Doyle, professor aposentado da Universidade de Bras\u00edlia (Unb), \u00e9 jornalista e analista pol\u00edtico. Tamb\u00e9m foi secret\u00e1rio dos governos Cristovam Buarque e Rodrigo Rollemberg, no Distrito Federal, e primeiro presidente da EBC com Lula3<\/strong><\/p>\n<p>** <strong>Texto publicado originalmente no Congresso em Foco, no dia 2 de abril de 2020<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O projeto pol\u00edtico de Jair Messias Bolsonaro e de seus filhos \u00e9 dar o golpe nas institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas, assumir mais poderes em detrimento do Legislativo e do Judici\u00e1rio e controlar os meios de comunica\u00e7\u00e3o. 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