{"id":341711,"date":"2024-11-25T06:06:31","date_gmt":"2024-11-25T09:06:31","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=341711"},"modified":"2024-11-25T06:35:41","modified_gmt":"2024-11-25T09:35:41","slug":"lucas-desenha-as-jangadas-que-caymmi-lanca-ao-mar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/lucas-desenha-as-jangadas-que-caymmi-lanca-ao-mar\/","title":{"rendered":"Lucas desenha as jangadas que Caymmi lan\u00e7a ao mar"},"content":{"rendered":"<p>Lucas, tatuador nascido nas ruas quentes de Jaboat\u00e3o dos Guararapes, sempre teve uma rela\u00e7\u00e3o peculiar com as cores e as hist\u00f3rias que elas podem contar. Nas tardes abafadas de um dos bairros da cidade que gira em torno do universo da regi\u00e3o metropolitana do Recife, onde o barulho do com\u00e9rcio se mistura ao riso das crian\u00e7as, ele transforma corpos em telas, eternizando sentimentos em pele. Mas \u00e9 quando o Sol come\u00e7a a dar sinais de despedida que ele encontra outra voca\u00e7\u00e3o: transforma-se em grafiteiro volunt\u00e1rio, um contador de hist\u00f3rias em muros desgastados pelo tempo.<\/p>\n<p>Nessas ocasi\u00f5es, Lucas se dedica a pintar jangadas. Mas n\u00e3o s\u00e3o jangadas quaisquer; s\u00e3o as que Dorival Caymmi cantou, que enfrentam o mar como companheiras de aventuras. Para ele, essas pequenas e fr\u00e1geis embarca\u00e7\u00f5es s\u00e3o mais do que um s\u00edmbolo nordestino; representam a ess\u00eancia de um povo que navega pela vida com coragem e poesia.<\/p>\n<p>Nesse fim de semana, uma parede cinza no fim da rua ganhou vida sob as m\u00e3os de Lucas. A tinta dan\u00e7ava no ritmo de suas mem\u00f3rias: o mar verde esmeralda que ele viu de verdade pela primeira vez na inf\u00e2ncia e o som do viol\u00e3o que ecoava nas fitas velhas do pai. Em cada pincelada, Lucas parecia ouvir Caymmi sussurrando: \u201cVai jangadeiro, vai buscar no mar o p\u00e3o de cada dia&#8230;\u201d. Eram as jangadas entrando nas \u00e1guas, com os pescadores anunciando que iriam pescar e que, se Deus quiser, um peixe bom iriam pegar.<\/p>\n<p>Os vizinhos, vendo o trabalho de Lucas, paravam, curiosos. Dona C\u00e9lia, que vende tapioca ali perto, foi a primeira a elogiar:<\/p>\n<p>\u2014 \u00d4, menino, parece que a parede quer mesmo sair navegando!<\/p>\n<p>Lucas sorriu, t\u00edmido, e usava os pinc\u00e9is com mais entusiasmo. Para ele, o grafite n\u00e3o era s\u00f3 arte; significava um chamado. Como o artista define, tratava-se de devolver beleza a muros que antes s\u00f3 refletiam abandono. Estava criando sonhos em quem passava, lembrando que, mesmo nas dificuldades, h\u00e1 sempre espa\u00e7o para poesia.<\/p>\n<p>Quando ele terminou, o c\u00e9u j\u00e1 apresentava tons alaranjados, e a jangada parecia ganhar vida sob a t\u00eanus luz deixada para tr\u00e1s pelo Sol, que seguia para o outro lado do Atl\u00e2ntico. Ele limpou as m\u00e3os na cal\u00e7a jeans, olhou o resultado e suspirou. Amanh\u00e3, outro muro o esperaria. E, quem sabe, Dorival voltaria para inspir\u00e1-lo, mandando outra jangada ao mar, carregada de hist\u00f3rias para serem contadas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lucas, tatuador nascido nas ruas quentes de Jaboat\u00e3o dos Guararapes, sempre teve uma rela\u00e7\u00e3o peculiar com as cores e as hist\u00f3rias que elas podem contar. 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