{"id":341881,"date":"2024-11-28T01:51:44","date_gmt":"2024-11-28T04:51:44","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=341881"},"modified":"2024-11-28T01:54:44","modified_gmt":"2024-11-28T04:54:44","slug":"depois-de-toba-vizinhos-da-direita-e-esquerda-procuram-quincy-fonda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/depois-de-toba-vizinhos-da-direita-e-esquerda-procuram-quincy-fonda\/","title":{"rendered":"Depois de Toba, vizinhos da direita e esquerda procuram Quincy Fonda"},"content":{"rendered":"<p>Famoso contador de hist\u00f3rias, causos e similares, meu av\u00f4 paterno, Aristarco Pederneira, foi um grande mentiroso. Um dos mais ador\u00e1veis que j\u00e1 conheci. Suas mentiras eram s\u00e1bias, desinteressadas e at\u00e9 rom\u00e2nticas. Abominava a viol\u00eancia. Por isso, nem em sonho lembra um ex-presidente brasileiro. A parec\u00eancia com o mandat\u00e1rio era m\u00ednima: ele tamb\u00e9m era ex\u00edmio em evitar protagonismos nas situa\u00e7\u00f5es de prov\u00e1veis conflitos com os seus e, principalmente, com os outros. Cognitivamente, quero dizer intelectualmente, longe de ser alcan\u00e7ado por aquele que se diz o maior defensor da democracia desta d\u00e9cada, Aristarco criava fatos com a facilidade de um b\u00eabado no cio.<\/p>\n<p>Normalmente com o p\u00e9 esquerdo \u00e0 frente, brigava para que os fatos n\u00e3o se transformassem em fact\u00f3ides pr\u00f3ximos da chacota. Igual ao citado mandat\u00e1rio, tinha pouco cr\u00e9dito no item convencimento alheio, mas pelo menos sabia perder e primava pela simpatia e pela defesa da liberdade dos interlocutores, aos quais sempre dava o direito amplo e irrestrito de discordar de suas mirabolantes narrativas. Como jamais reclamou da falta de impress\u00e3o do que dizia, acho que a maioria dos relatos o teve como astro principal. At\u00e9 onde sei, contar hist\u00f3rias na terceira pessoa foi seu golpe mais conhecido. O dele pelo menos sempre dava certo.<\/p>\n<p>Por exemplo, como acreditar que o vizinho da casa da esquerda n\u00e3o era o pr\u00f3prio. Segundo o velho, o vizinho da direita tinha um cachorro da marca vira-lata e que respondia pelo nome de Toba. Com pouco mais de sete anos, o filho ca\u00e7ula do cidad\u00e3o sem nome, passava o dia inteiro enchendo o saco do Toba. Era Toba pula, Toba pega o pau, Toba finge de morto, Toba pega o osso. Dia ap\u00f3s dia, a m\u00e3e do moleque dizia que se ele n\u00e3o mudasse os modos acabaria doando o Toba. O garoto n\u00e3o parou: Toba rola, Toba finge de morto, Toba isso, Toba aquilo. Um dia o pai chega em casa e pergunta ao fedelho pela m\u00e3e. Chorando, o menino diz: Mam\u00e3e foi dar o Toba para o vizinho da esquerda.<\/p>\n<p>O pau quebrou, mas meu av\u00f4 n\u00e3o abriu m\u00e3o do Toba da vizinha. Como n\u00e3o h\u00e1 hist\u00f3ria sem moral, devo recomendar \u00e0 turma da direita o m\u00e1ximo de cuidado com o toba que se tem em casa. Bobeou, dan\u00e7ou, isto \u00e9, os da esquerda v\u00e3o l\u00e1 e cr\u00e9u. \u00c9 uma quest\u00e3o de intelecto. Deixando o toba alheio de lado, a sabedoria portuguesa do pai do meu pai n\u00e3o se limitava \u00e0s banalidades. Gra\u00e7as a seus conhecimentos da vida, meu tio mais novo ficou casado at\u00e9 a viuvez. Bastou uma frase curta e uma tapinha nas costas para ter a certeza do dever cumprido. Lembro como se fosse o dia em que o tio adentrou a resid\u00eancia do genitor para comunic\u00e1-lo que estava em vias de se desquitar da esposa. Na \u00e9poca n\u00e3o havia div\u00f3rcio. Meu av\u00f4 quis saber a raz\u00e3o: \u201cFaz seis meses que minha mulher n\u00e3o fala comigo\u201d. Dois segundos de reflex\u00e3o e veio a resposta. Pense bem, menino, mulher assim \u00e9 dif\u00edcil de arrumar\u201d.<\/p>\n<p>No sub\u00farbio carioca do s\u00e9culo passado, um m\u00ednimo de intelig\u00eancia significava o m\u00e1ximo de respeito. Aristarco Pederneira era do tipo que n\u00e3o refugava qualquer convite. Passou a pensar melhor depois que um de seus melhores amigos o convidou para estrelar um reclame (hoje comercial) de uma nova marca de biscoito caseiro. Texto pronto, gravador cassete em punho, luz, c\u00e2mera, a\u00e7\u00e3o: \u201cGostaria de informar aos familiares e amigos que sou o mais novo garoto propaganda do Cookie Piska. Eu provei e gostei. Voc\u00eas tamb\u00e9m v\u00e3o gostar. Sintam o gostinho do meu Cookie Piska. Ele \u00e9 gostoso e cheiroso. Quem come do meu Cookie Piska sempre quer mais. O tempo fechou. O tal amigo at\u00e9 hoje n\u00e3o sabe onde est\u00e1 seu Cookie Piska.<\/p>\n<p>Pedindo v\u00eania ao rei Roberto Carlos, Aristarco Pederneira nunca deixou de ser o cara. Foi com ele que assisti Jonny Weissmuller, o maior Tarzan dos cinemas, pegar a Jane com seu cip\u00f3 atr\u00e1s da moita. Tamb\u00e9m ao seu lado tive o prazer de acompanhar enlatado estrelados por uma fam\u00edlia \u00edmpar de artistas norte-americanos. Mestre dos faroestes e dos dramas, Henry Fonda, o patriarca, participou de mais de 50 filmes. Jane Fonda, a mais velha, continua na ativa aos 86 anos. Peter Fonda, o ca\u00e7ula, partiu em 2019. Ainda tem a neta Brigitte Fonda. Falta o irm\u00e3o do meio, com o qual Hollywood e o mundo perderam o contato faz anos. Paci\u00eancia. Por falta de intelecto, o que posso dizer? Quincy Fonda!<\/p>\n<p><strong>*Wenceslau Ara\u00fajo \u00e9 Editor-Chefe de Notibras<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Famoso contador de hist\u00f3rias, causos e similares, meu av\u00f4 paterno, Aristarco Pederneira, foi um grande mentiroso. Um dos mais ador\u00e1veis que j\u00e1 conheci. 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