{"id":342034,"date":"2024-11-30T00:18:42","date_gmt":"2024-11-30T03:18:42","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=342034"},"modified":"2024-11-30T07:59:44","modified_gmt":"2024-11-30T10:59:44","slug":"bosco-e-jair-opostos-de-santiago-tem-muitas-historias-para-contar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/bosco-e-jair-opostos-de-santiago-tem-muitas-historias-para-contar\/","title":{"rendered":"Bosco e Jair, opostos de Santiago, t\u00eam muitas hist\u00f3rias para contar"},"content":{"rendered":"<p>Em um canto da praia, sob a sombra generosa de um coqueiral, Bosco e Jair, dois amigos de longa data e viv\u00eancias acumuladas, ajeitam-se ao redor de uma mesa previamente preparada por N\u00eago, dono, junto com a esposa Fau, do aconchegante bar da paradis\u00edaca Itapuama. O calor, embora moderado pela sombra das folhas dos coqueiros e um guarda-sol, aquece as recorda\u00e7\u00f5es que come\u00e7am a deles fluir. S\u00e3o personagens reais, o oposto de Santiago, criado por Ernest Hemingway. Suas hist\u00f3rias de pescador, embora haja quem as digam improv\u00e1veis, s\u00e3o fant\u00e1sticas, contadas com tamanha seriedade que convencem quem as ouve.<\/p>\n<p>&#8220;Rapaz, um dia desses, l\u00e1 pras bandas de Gaibu&#8221;, disse Bosco, com aquele ar de mist\u00e9rio t\u00edpico de quem est\u00e1 prestes a narrar uma grande proeza, &#8220;joguei a rede, e quando puxei, veio um robalo com mais de metro e 10 quilos; t\u00e3o grande que a jangada quase virou!\u201d O narrador faz uma pausa estrat\u00e9gica, para dar peso ao relato. \u201cEra um robalo bravo, parece que olhava pra mim com raiva, como se dissesse \u2018t\u00e1 pensando que vai me pegar f\u00e1cil?\u2019.\u201d<\/p>\n<p>Jair, conhecendo o jeito de Bosco, segurava o riso. \u00c9 claro que o robalo n\u00e3o era t\u00e3o grande assim, mas ele n\u00e3o perderia a chance de entrar na brincadeira. \u201cE voc\u00ea conseguiu domar o bicho?\u201d perguntou, com a mesma express\u00e3o solene.<\/p>\n<p>\u201cOxe, se consegui!\u201d respondeu Bosco, inchando o peito. \u201cDei um jeito nele e levei pra casa. Quando a vizinhan\u00e7a viu o tamanho, ningu\u00e9m acreditava.&#8221;<\/p>\n<p>Jair, com a cabe\u00e7a balan\u00e7ando, pede para relatar uma experi\u00eancia pr\u00f3pria. &#8220;Pois te digo uma, Bosco. L\u00e1 pra cima, em Barra de Jangada, uma vez pesquei um xar\u00e9u com 1 metro e 10, pesando 23 quilos. Peixe esperto, brigou com meu anzol, s\u00f3 faltava falar. Eu tentava puxar, e o danado ia desviando da linha, parecia que conhecia as artimanhas todas. S\u00f3 consegui pegar porque cantei pra ele dormir.&#8221;<\/p>\n<p>Os dois caem na risada. Sabem que as hist\u00f3rias s\u00e3o exageradas, mas a gra\u00e7a est\u00e1 justamente nos detalhes absurdos, nas inven\u00e7\u00f5es que, ao longo dos anos, se tornaram quase reais para eles. \u00c9 a magia das velhas hist\u00f3rias de pescador, contadas com o prazer de quem viveu \u2013 ou quase viveu \u2013 cada momento.<\/p>\n<p>Ao final do dia, com o sol se pondo, com a praia e o bar envoltos em uma luz suave, Bosco e Jair se despedem, prometendo se encontrar no dia seguinte para relembrar outras fa\u00e7anhas. Cada um volta para casa com a sensa\u00e7\u00e3o de que, mesmo que o tempo passe, as boas hist\u00f3rias permanecem \u2013 grandes e indom\u00e1veis como a maior das pescadas (a amarela) que chega a pesar mais de 20 quilos.<\/p>\n<p>O certo \u00e9 que, ao contr\u00e1rio da luta solit\u00e1ria de Santiago com o mar, que Hemingway magistralmente narrou, nas areias quentes do litoral pernambucano, os dois velhos amigos vivem em harmonia com o oceano, sem pressa, sem grandes batalhas. Para eles, o mar n\u00e3o \u00e9 um oponente, mas um companheiro sereno, de longas tardes pregui\u00e7osas.<\/p>\n<p>Bosco e Jair beiram os 70 anos. Pescam juntos desde o tempo em que as t\u00eamporas eram negras e o peito inflava de sonhos. Aposentados, descobriram em Itapuama um ref\u00fagio para o corpo e a alma, um lugar onde, finalmente, o rel\u00f3gio deixou de governar a vida.<\/p>\n<p>Todas as manh\u00e3s, quando o sol ainda se despede da noite, eles caminham \u00e0 beira-mar, com os p\u00e9s descal\u00e7os sentindo a textura da areia, num ritual de reconhecimento di\u00e1rio daquele espa\u00e7o que aprenderam a chamar de lar. \u00c9 uma rotina sem grandes emo\u00e7\u00f5es \u2014 mas h\u00e1 certa beleza em saber exatamente o que o dia reserva. Bosco carrega uma vara de pescar, mais pelo gesto que pela expectativa de pegar algo; Jair tem na cabe\u00e7a um chap\u00e9u surrado e um sorriso de quem fez as pazes com o tempo.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-342039 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/bosco.peixe_.jpgccb9d880-6d9a-45f0-a8cf-7504404e8111-300x243.jpg\" alt=\"\" width=\"488\" height=\"395\" srcset=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/bosco.peixe_.jpgccb9d880-6d9a-45f0-a8cf-7504404e8111-300x243.jpg 300w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/bosco.peixe_.jpgccb9d880-6d9a-45f0-a8cf-7504404e8111-1024x829.jpg 1024w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/bosco.peixe_.jpgccb9d880-6d9a-45f0-a8cf-7504404e8111-768x622.jpg 768w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/bosco.peixe_.jpgccb9d880-6d9a-45f0-a8cf-7504404e8111.jpg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 488px) 100vw, 488px\" \/><\/p>\n<p>Diferentes de Santiago, que enfrentava o mar como quem se p\u00f5e contra um advers\u00e1rio poderoso, Bosco e Jair olham para o oceano como quem cumprimenta um amigo antigo. O mar \u00e9, para eles, um porto de calmaria, onde as ondas v\u00eam e v\u00e3o sem pressa, convidando \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o, \u00e0 conversa, ao riso f\u00e1cil.<\/p>\n<p>Sentados \u00e0 sombra, saboreando uma Devassa gelada, contam hist\u00f3rias do passado, algumas que j\u00e1 se tornaram quase folcl\u00f3ricas entre eles. Cada um tem seu papel nesse teatro \u00edntimo. Jair com sua risada f\u00e1cil, que ecoa ao longe, e Bosco com suas pausas dram\u00e1ticas, como se fosse preparar o palco para a mem\u00f3ria que vir\u00e1. Juntos, tecem um tecido de lembran\u00e7as, entrela\u00e7ando o que viveram e o que gostariam de ter vivido.<\/p>\n<p>Quando o sol se p\u00f5e, despontando uma aquarela de tons alaranjados no c\u00e9u, eles recolhem suas coisas, prontos para o caminho de volta. Nada de grandioso aconteceu \u2014 e essa \u00e9 a beleza. N\u00e3o se luta mais contra o tempo ou o mar; agora, \u00e9 uma conviv\u00eancia pac\u00edfica, onde cada onda, cada brisa, refor\u00e7a a certeza de que eles n\u00e3o precisam mais vencer o oceano. Est\u00e3o, finalmente, em paz com ele e consigo mesmos.<\/p>\n<p>Jamais ser\u00e3o lembrados como velhos que conversavam com o mar, n\u00e3o para conquist\u00e1-lo, mas para fazer parte dele. O oceano, em troca, os acolhe, guardando as pegadas que ficam na areia e as hist\u00f3rias que transferem para quem os v\u00ea, os ouve. Tamb\u00e9m ao contr\u00e1rio de Santiago, aqui conto um conto sem aumentar um ponto. Na sexta, 29, Bosco e Jair compartilharam no jantar o mesmo prato: uma pereroba, com pouco mais de dois quilos, retirada das \u00e1guas ap\u00f3s uma longa luta onde as armas foram o anzol e a vontade de vencer.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em um canto da praia, sob a sombra generosa de um coqueiral, Bosco e Jair, dois amigos de longa data e viv\u00eancias acumuladas, ajeitam-se ao redor de uma mesa previamente preparada por N\u00eago, dono, junto com a esposa Fau, do aconchegante bar da paradis\u00edaca Itapuama. 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