{"id":342652,"date":"2024-12-07T00:19:04","date_gmt":"2024-12-07T03:19:04","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=342652"},"modified":"2024-12-07T09:23:09","modified_gmt":"2024-12-07T12:23:09","slug":"brasil-vive-ao-deus-dara-com-o-mal-estar-democratico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/brasil-vive-ao-deus-dara-com-o-mal-estar-democratico\/","title":{"rendered":"Brasil vive ao Deus dar\u00e1 com o mal-estar democr\u00e1tico"},"content":{"rendered":"<p><strong>&#8220;N\u00e3o h\u00e1, nunca houve, aqui, um povo livre, regendo seu destino na busca da pr\u00f3pria prosperidade. [&#8230;] N\u00f3s, brasileiros, somos um povo em ser, impedido de s\u00ea-lo.&#8221; \u2013<\/strong> Darcy Ribeiro, <em>O povo brasileiro.<\/em><\/p>\n<p>A precipita\u00e7\u00e3o de muitos nas celebra\u00e7\u00f5es \u00e0 &#8220;vit\u00f3ria das institui\u00e7\u00f5es&#8221; sobre os atentados do terrorismo que nos assola levou-os a deixar de lado o m\u00ednimo de reflex\u00e3o sobre a trag\u00e9dia do homem-bomba que, num simbolismo do qual por certo n\u00e3o guardou consci\u00eancia, se imolou aos p\u00e9s da est\u00e1tua da Justi\u00e7a que vigia a entrada do STF, aquele poder que, hoje, por um capricho hist\u00f3rico, ocupa o espa\u00e7o que nas democracias \u00e9 representado ora pela vigil\u00e2ncia do Congresso (aqui, por\u00e9m, comprometido com a direita e o neofascismo), ora pelo Executivo, hoje mais preocupado com o mantra do &#8220;ajuste fiscal&#8221; \u2013 que o governo originalmente comprometido com o desenvolvimento e o combate \u00e0s desigualdades assimilou por n\u00e3o ter for\u00e7as, pol\u00edticas e ideol\u00f3gicas, para enfrentar a press\u00e3o desencadeada pelo financismo predador da produ\u00e7\u00e3o e do desenvolvimento social.<\/p>\n<p>Essa superficialidade de an\u00e1lise, ou desaten\u00e7\u00e3o, impediu mesmo bons cronistas de ver no gesto do fan\u00e1tico um sintoma da intoxica\u00e7\u00e3o doutrin\u00e1ria de toda a vida a que foi e \u00e9 submetida grande parte de nossa popula\u00e7\u00e3o, desde que a dita grande imprensa e setores ponder\u00e1veis das for\u00e7as armadas abra\u00e7aram o projeto de tomada do poder pela direita, dominando cora\u00e7\u00f5es e mentes. Avan\u00e7o reacion\u00e1rio que n\u00e3o encontra a resist\u00eancia org\u00e2nica ou ideol\u00f3gica das nossas v\u00e1rias esquerdas, conquistadas pela ordem.<\/p>\n<p>Esta \u00e9, sem d\u00favida, a quest\u00e3o central. H\u00e1 um largo espectro de raz\u00f5es a ser invocado, raz\u00f5es que transitam do desamparo das utopias e da fal\u00eancia de organiza\u00e7\u00f5es e partidos revolucion\u00e1rios \u00e0 ades\u00e3o das esquerdas, sem cr\u00edtica, ao modo conservador de fazer pol\u00edtica. Isso implicou tanto a ren\u00fancia a programa especifico, pr\u00f3prio, alternativo ao capitalismo e ao statu quo, quanto o grave abandono do campo da luta ideol\u00f3gica, donde o recesso da milit\u00e2ncia.<\/p>\n<p>A direita reanimada e a esquerda encantada se confundiram no amor igual ao poder.<\/p>\n<p>Voltando: o essencial no epis\u00f3dio da Pra\u00e7a dos Tr\u00eas Poderes n\u00e3o \u00e9 seu autor material, mero t\u00edtere insuflado por uma cantilena que n\u00e3o compreendeu, pois falava contra seus interesses de vida e classe. O homem-bomba do dia 13\/11 deve ser visto como triste v\u00edtima da doutrina\u00e7\u00e3o da direita, levada a extremos pelo discurso neofascista, impune, e estimulada pela indisciplina militar, vista como guarda de seguran\u00e7a para desatinos, a exemplo da protegida ocupa\u00e7\u00e3o de quart\u00e9is, antessala da inf\u00e2mia de 8 de janeiro de 2023.<\/p>\n<p>A arte dos atentados est\u00e1 na ess\u00eancia do fascismo civil e militar, uma das modalidades da loucura pol\u00edtica assentada no desrespeito \u00e0 dignidade humana (por isso detesta os pobres dos quais se serve) e \u00e0 vida. Nos estertores do regime militar tivemos a insanidade do que ficou conhecido como o &#8220;Atentado do Riocentro&#8221; e as explos\u00f5es de artefatos, com v\u00edtimas civis, contra a OAB e a C\u00e2mara Municipal do Rio de Janeiro, todos em 1981. Em 1986, Jair Bolsonaro foi preso e respondeu a processo por tentar explodir bombas em quart\u00e9is da Vila Militar, em protesto, dizia o meliante, contra o que chamou de &#8220;baixos sal\u00e1rios&#8221; da corpora\u00e7\u00e3o. Antes do 8 de janeiro de 2023, outros celerados, no dia da posse de Lula e Alckmin, em a\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m apontadas como isoladas, praticaram a\u00e7\u00f5es violentas e atentados. Um deles, frustrado, visava a explodir o aeroporto de Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>S\u00e3o atos que podem ser considerados isolados somente na sua execu\u00e7\u00e3o, pois rebentos de uma intoxica\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica coletiva, ainda n\u00e3o dissipada.<\/p>\n<p>H\u00e1 muitos ovos chocados pela pestil\u00eancia, na sociedade e na caserna, como demonstra o hediondo plano de golpe de novembro de 2022, que n\u00e3o foi levado a cabo gra\u00e7as a uma dissid\u00eancia entre engalanados homens de farda. Assim se repete a hist\u00f3ria: os golpes de 1955 e 1961 n\u00e3o conheceram o sucesso porque os generais se dividiram. Na outra ponta est\u00e1 a unidade de 1964, que nos deu 21 anos de ditadura.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso encarar o fundo da causa: o mal-estar democr\u00e1tico constru\u00eddo pela prega\u00e7\u00e3o doutrin\u00e1ria \u2013 nos quart\u00e9is, nas tribunas, nos p\u00falpitos, nos meios de comunica\u00e7\u00e3o em geral, nas redes sociais, prega\u00e7\u00e3o prima da subvers\u00e3o, sem peias, sem limites pol\u00edticos ou \u00e9ticos, e, principalmente, sem contradit\u00f3rio, construindo frustra\u00e7\u00e3o, m\u00e3e da manipula\u00e7\u00e3o de consci\u00eancias. Sobretudo quando essa manipula\u00e7\u00e3o n\u00e3o conhece (como deixou de conhecer, no Brasil, o cantoch\u00e3o neofascista) o contrachoque das for\u00e7as progressistas. Estas, na sua variada morfologia, renunciando ao enfrentamento, cederam \u00e0 institucionalidade, por defini\u00e7\u00e3o conservadora, a defesa da democracia.<\/p>\n<p>Ao deus-dar\u00e1 (ou seja, a ningu\u00e9m) foi delegada a utopia socialista.<\/p>\n<p>A doutrina\u00e7\u00e3o reacion\u00e1ria n\u00e3o \u00e9 fen\u00f4meno de hoje: com graus vari\u00e1veis de intensidade, acompanha nossa hist\u00f3ria, e sempre teve nas for\u00e7as armadas do Estado brasileiro um foco de formula\u00e7\u00e3o doutrin\u00e1ria e agita\u00e7\u00e3o, vencendo os limites da conjura e da fratura constitucional. Foi assim em todas as oportunidades, como na desconstitui\u00e7\u00e3o do governo Vargas, na desmontagem do governo Jango, na implanta\u00e7\u00e3o da ditadura de 1964, e no acobertamento do rol de crimes pol\u00edticos e penais que se seguiram. A longa e permanente prega\u00e7\u00e3o, nos meios de comunica\u00e7\u00e3o e nas escolas militares, deitou no territ\u00f3rio da democracia uma s\u00e9rie de minas terrestres, prontas para explodir ao primeiro toque do passante desavisado. Sua desativa\u00e7\u00e3o depende da contraofensiva ideol\u00f3gica das organiza\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas, progressistas e de esquerda resistentes (incluindo partidos e sindicatos), at\u00e9 aqui na &#8220;zona de conforto&#8221;, passageiros da falsa perspectiva de que o impasse, desafio eminentemente pol\u00edtico, se resolver\u00e1 pela via do judici\u00e1rio.<\/p>\n<p>A aliena\u00e7\u00e3o j\u00e1 levou a esquerda brasileira a apostar na fidelidade democr\u00e1tica das for\u00e7as armadas, e, a partir desse fil\u00e3o, a crer que ora o general Lott, ora o &#8220;dispositivo militar do general Brasil&#8221;, asseguraria aos trabalhadores o imp\u00e9rio da democracia social.<\/p>\n<p>A sustenta\u00e7\u00e3o da democracia (e mais ainda o progresso social) n\u00e3o podia naqueles idos, como n\u00e3o pode agora, depender de um STF e de uma PF surpreendente e circunstancialmente republicanos, a refazerem os respectivos passados recentes, ora de omiss\u00e3o, ora de cumplicidade com o crime. Saudamos a resist\u00eancia do poder judici\u00e1rio (este \u00e9 o movimento correto, ditado pelas circunst\u00e2ncias), ao mesmo tempo em que precisamos ter presentes os idos de 2016, a trama golpista que, partindo da deposi\u00e7\u00e3o de Dilma Rousseff, culminou com a elei\u00e7\u00e3o de um desqualificado para a presid\u00eancia da Rep\u00fablica, substituindo um perjuro. Nada dessa trag\u00e9dia teria curso se n\u00e3o contasse com a b\u00ean\u00e7\u00e3o do STF de ent\u00e3o.<\/p>\n<p>O avan\u00e7o pol\u00edtico, que nos termos presentes \u00e9 a apenas a sustenta\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, depende do que chamamos de vontade nacional, por construir. Somos ainda um povo em busca de seu papel.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;N\u00e3o h\u00e1, nunca houve, aqui, um povo livre, regendo seu destino na busca da pr\u00f3pria prosperidade. 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