{"id":342677,"date":"2024-12-07T11:14:19","date_gmt":"2024-12-07T14:14:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=342677"},"modified":"2024-12-07T12:17:52","modified_gmt":"2024-12-07T15:17:52","slug":"daqueles-tempos-distantes-como-baby-eu-sei-que-e-assim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/daqueles-tempos-distantes-como-baby-eu-sei-que-e-assim\/","title":{"rendered":"Daqueles tempos distantes como &#8216;Baby, eu sei que \u00e9 assim&#8230;&#8217;"},"content":{"rendered":"<p>\u2013 Ontem fomos ao cinema ver o que muitos j\u00e1 viram: o filme &#8221; Ainda estou aqui&#8221;. E foram muitos os sentimentos que surgiram&#8230; N\u00e3o devido a cenas expl\u00edcitas de viol\u00eancia. Mas trouxe \u00e0 tona: a \u00e9poca, os tanques, os carros, os milicos, as fam\u00edlias e a vida da \u00e9poca&#8230; foi como entrar no t\u00fanel do tempo&#8230; (Ta\u00eds Palhares)<\/p>\n<p>\u2013 Durante 21 anos n\u00e3o usei agenda na bolsa. Como n\u00e3o existia celular para as pessoas comuns, foi uma grande priva\u00e7\u00e3o de liberdade. (<strong>Edna Domenica<\/strong>)<\/p>\n<p>\u2013 Eu estava na faculdade de Jornalismo no final dos anos 70. T\u00ednhamos medo dos \u201cratos&#8221; infiltrados na nossa turma. Alunos que tamb\u00e9m faziam Direito era um sinal que dev\u00edamos nos cuidar. Uma colega de turma<br \/>\ncometeu a seguinte p\u00e9rola: uma das minhas colegas mais pr\u00f3ximas era bem ativista, ia nas manifesta\u00e7\u00f5es, etc&#8230; A\u00ed, a outra colega disse bem contente: fulana, dei teu nome pro meu tio que trabalha no DOPS pra ver se n\u00e3o est\u00e1s na lista deles! (<strong>Br\u00edgida Poli<\/strong>)<\/p>\n<p>\u2013 Que amiga da on\u00e7a! Ela queria o namorado da amiga? (<strong>Edna Domenica<\/strong>)<\/p>\n<p>\u2013 No caso, acho que n\u00e3o. Ela n\u00e3o teria contado se tivesse m\u00e1s inten\u00e7\u00f5es. Foi ingenuidade, n\u00e3o t\u00ednhamos plena no\u00e7\u00e3o do perigo que corr\u00edamos. (<strong>Br\u00edgida Poli)<\/strong><\/p>\n<p>\u2013 Eu era aluna da faculdade de Letras que funcionava num dos &#8220;barrac\u00f5es\u201d como o da Escola de Comunica\u00e7\u00e3o e Artes, na mesma \u00e9poca em que Wladimir Herzog lecionava jornalismo. Anos antes do meu ingresso, todas as faculdades de Ci\u00eancias Humanas tinham sido retiradas do pr\u00e9dio de alvenaria da Rua Maria Ant\u00f4nia depois do confronto de alunos da USP com os da Universidade Mackenzie. Provavelmente, em 1971 ou 1972, aconteceu algo que ainda n\u00e3o entendi exatamente at\u00e9 agora. Uma aluna da Filosofia aparecia no hor\u00e1rio de intervalo l\u00e1 no barrac\u00e3o de Letras e tentava fazer v\u00ednculos comigo e amigas. Lembro-me de que as colegas de turma se esquivavam. E uma delas me falou, em particular, que aquela pessoa n\u00e3o era da nossa faculdade. Alguns dias depois disso, a mo\u00e7a da Filosofia sumiu. \u00c0s vezes penso que ela procurava uma informante para futura a\u00e7\u00e3o da oposi\u00e7\u00e3o ao regime ditatorial. Costumavam recrutar pessoas com apar\u00eancia burguesa. Eu tinha essa cara, porque usava roupas de boutique e sapato ortop\u00e9dico (o mesmo do uniforme do colegial). Penso que sumiu ao constatar que eu era totalmente inadequada para a miss\u00e3o. Ou ser\u00e1 que ela &#8220;caiu&#8221;? (<strong>Edna Domenica<\/strong>)<\/p>\n<p>\u2013 O filme apertou meu cora\u00e7\u00e3o. E voltou uma lembran\u00e7a do medo do que poderia acontecer comigo e meu marido, em Porto Alegre, em 1978. Hernann fotografava bastante. Fez uma foto do pr\u00e9dio com uma linda fachada hist\u00f3rica do QG militar. Viram-nos tirando a foto e nos levaram para dentro do quartel. N\u00e3o sab\u00edamos o que fariam. Ficamos um bom tempo l\u00e1. Ao final, confiscaram o filme e nos liberaram. Passei um sufoco, porque meu marido, cidad\u00e3o alem\u00e3o, n\u00e3o chegou a se dar conta do risco que n\u00f3s corremos. Recentemente, voltei l\u00e1 e fotografei o tal pr\u00e9dio do QG. Agora pode! (<strong>Clara Am\u00e9lia de Oliveira<\/strong>)<\/p>\n<p>\u2013 E tem gente que prega a volta de um tempo em que as pessoas eram detidas \u00e0 toa&#8230; Dizem:&#8221; ah, eu n\u00e3o ia ser preso porque n\u00e3o ia fazer nada de errado&#8230;&#8221; (<strong>Br\u00edgida Poli<\/strong>)<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9ramos suspeitas por dirigir um Fusca vermelho, por estudar ou lecionar em universidades. Por isso teve cenas que me deram falta de ar, a exemplo dos closes nos personagens torturadores. O que normalizou minha respira\u00e7\u00e3o foram as cenas na praia e as m\u00fasicas. (<strong>Edna Domenica<\/strong>)<\/p>\n<p>\u2013 Linda trilha sonora! A can\u00e7\u00e3o do Erasmo \u00e9 de rasgar o cora\u00e7\u00e3o&#8230; (<strong>Br\u00edgida Poli<\/strong>)<\/p>\n<p>\u2013 Sim. \u00c9 muito adequado ao contexto atual o contido nos versos da letra da m\u00fasica (composi\u00e7\u00e3o de Roberto e Erasmo Carlos) &#8221; \u00c9 preciso dar um jeito, meu amigo&#8221;: &#8220;Mas estou envergonhado\/Com as coisas que eu vi\/ Mas n\u00e3o vou ficar calado\/ No conforto, acomodado\/ Como tantos por a\u00ed&#8221; Como Caetano Veloso, tive que aceitar e me resignar perante aquela realidade: &#8220;Baby. \/Eu sei que \u00e9 assim&#8221;. As lembran\u00e7as das injustas resigna\u00e7\u00f5es permanecem ao lado das imagens aterrorizantes do passado. Pois \u00e9 baby, somos mem\u00f3rias que ficaram. &#8220;Baby, Baby, h\u00e1 quanto tempo!&#8221;. Elas ainda est\u00e3o aqui. (<strong>Edna Domenica<\/strong>).<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/p>\n<p><strong>Coletivo de autores: Br\u00edgida Poli, Clara Am\u00e9lia de Oliveira, Edna Domenica e Ta\u00eds Palhares<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2013 Ontem fomos ao cinema ver o que muitos j\u00e1 viram: o filme &#8221; Ainda estou aqui&#8221;. E foram muitos os sentimentos que surgiram&#8230; N\u00e3o devido a cenas expl\u00edcitas de viol\u00eancia. 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