{"id":343147,"date":"2024-12-16T06:33:03","date_gmt":"2024-12-16T09:33:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=343147"},"modified":"2024-12-16T06:33:53","modified_gmt":"2024-12-16T09:33:53","slug":"cordelista-do-ceara-espalha-clubes-de-livros-pelo-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/cordelista-do-ceara-espalha-clubes-de-livros-pelo-brasil\/","title":{"rendered":"Cordelista do Cear\u00e1 espalha Clubes de Livros pelo Brasil"},"content":{"rendered":"<p>Leitora insaci\u00e1vel desde a adolesc\u00eancia, a escritora, cordelista e poeta Jarid Arraes quis ir al\u00e9m da leitura e da escrita em sua rela\u00e7\u00e3o com os livros. O desejo de compartilhar seu interesse pela literatura de horror foi o que a levou, no in\u00edcio deste ano, a fundar o Encruzilhada, um clube de leitura dedicado a discutir os mais diversos aspectos que uma boa hist\u00f3ria de terror pode abordar.<\/p>\n<p>\u201cQueria mostrar para as pessoas que muitas quest\u00f5es complexas, quest\u00f5es sociais e discuss\u00f5es sobre a nossa exist\u00eancia, foram representadas na literatura de horror. Ent\u00e3o, criei o clube para me aproximar de outras pessoas que tamb\u00e9m gostam de horror, mas n\u00e3o s\u00f3. No clube existem muitas pessoas que at\u00e9 ent\u00e3o nunca tinham lido nada de horror\u201d.<\/p>\n<p>Nascida em Juazeiro do Norte, no Cear\u00e1, a autora de Redemoinho em dia quente, Hero\u00ednas Negras Brasileiras em 15 cord\u00e9is e Corpo desfeito compartilha que o cordel, a escola e a internet foram importantes para o seu acesso \u00e0 literatura. \u201cFui usando a internet para ter mais acesso, porque na minha cidade n\u00e3o tinha livraria onde eu pudesse comprar livros\u201d.<\/p>\n<p>Os clubes de leitura, para a escritora, s\u00e3o importantes porque criam comunidades de leitores que conseguem ampliar o seu alcance e atrair novas pessoas. Isso porque quem n\u00e3o se interessa na mesma medida pela leitura, ao ver pessoas conhecidas participando de reuni\u00f5es com outros leitores, pode se interessar e querer fazer parte. \u201cPara mim, ent\u00e3o, a coisa mais importante dos clubes de leitura \u00e9 o fator da comunidade\u201d, afirma.<\/p>\n<p><strong>Clubes de leitura<\/strong><br \/>\nSegundo a professora do Departamento de Letras da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Marcia Lisb\u00f4a Costa de Oliveira, os clubes s\u00e3o historicamente espa\u00e7os de encontro. Eles ocorrem de forma coletiva e dial\u00f3gica, mesmo quando s\u00e3o organizados por institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas ou privadas.<\/p>\n<p>\u201cOs clubes de leitura podem aproximar dos livros aqueles que atualmente se posicionam como n\u00e3o-leitores. Ler com um grupo que se re\u00fane a partir de certas afinidades \u00e9 um grande est\u00edmulo tamb\u00e9m ao desenvolvimento de uma postura cr\u00edtica diante dos textos e do mundo, pelo contato com diferentes conhecimentos e m\u00faltiplos pontos de vista&#8221;, ressalta.<\/p>\n<p>Um exemplo \u00e9 o Clube de Leitura do Centro Cultural do Banco do Brasil (CCBB), no Rio de Janeiro. O clube, criado durante a pandemia, come\u00e7ou com um pequeno grupo de leitores em 2022. No ano seguinte, de acordo com informa\u00e7\u00f5es do CCBB, a quantidade de p\u00fablico cresceu 163%, chegando a 1.243 pessoas. Entre mar\u00e7o e novembro deste ano, foram aproximadamente 1.100 pessoas participando dos encontros.<\/p>\n<p>As reuni\u00f5es ocorrem com media\u00e7\u00e3o e curadoria de Suzana Vargas, autora de Leitura: Uma Aprendizagem de Prazer, que ressalta o potencial dos encontros como atividade cultural.<\/p>\n<p>\u201cO objetivo \u00e9 despertar as pessoas para o prazer da leitura. Sempre defendi a tese que n\u00e3o importa o suporte da leitura, o importante \u00e9 que o leitor perceba que ler \u00e9 prazeroso, que ler \u00e9 uma quest\u00e3o de forma\u00e7\u00e3o e aprendizagem\u201d, destaca.<\/p>\n<p>Ao longo de 2024, v\u00e1rios escritores passaram pelo CCBB, sendo os \u00faltimos autores Itamar Vieira Junior, de Torto Arado, Salvar o Fogo e Doramar ou a odisseia: Hist\u00f3rias;, Jefferson Ten\u00f3rio, de Estela sem Deus, O Avesso da Pele e De onde eles v\u00eam; e Frei Betto, de Jesus militante: Evangelho e projeto pol\u00edtico no Reino de Deus e Jesus rebelde: Mateus, o Evangelho da ruptura.<\/p>\n<p>\u201cAcredito muito na leitura como prazer, ent\u00e3o, quando colocamos a leitura no CCBB, tanto na forma de roda de leitura como na forma de clube, estamos colocando a leitura como forma de lazer dentro de um centro cultural\u201d, destaca Vargas.<\/p>\n<p><strong>Desafios<\/strong><br \/>\nConforme a 6\u2060\u00aa edi\u00e7\u00e3o da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, o pa\u00eds teve uma redu\u00e7\u00e3o de 6,7 milh\u00f5es de leitores. Divulgado em 2024, o levantamento realizado pelo Instituto Pr\u00f3-Livro tamb\u00e9m trouxe que a propor\u00e7\u00e3o de n\u00e3o-leitores foi maior que a de leitores, pela primeira vez na s\u00e9rie hist\u00f3rica. Nos tr\u00eas meses anteriores \u00e0 pesquisa, 53% das pessoas n\u00e3o leram nem parte de um livro \u2014 seja impresso ou digital \u2014 de qualquer g\u00eanero, incluindo livros did\u00e1ticos e religiosos. Considerando apenas livros inteiros lidos no mesmo per\u00edodo, o percentual foi de 27%.<\/p>\n<p>Um dos principais desafios para a forma\u00e7\u00e3o de leitores, segundo Jarrid Arraes, \u00e9 justamente o acesso ao livro. \u201c\u00c9 conseguirmos transformar a literatura em algo interessante e acess\u00edvel para todas as pessoas, porque muitas t\u00eam ideia que os livros e a literatura s\u00e3o coisas muito intelectuais, muito inalcan\u00e7\u00e1veis e s\u00f3 pessoas de determinada classe podem se relacionar com a literatura\u201d, diz. \u201cNa verdade, acho que j\u00e1 temos muitos exemplos de pessoas que criam literatura que pode ser mais relacion\u00e1vel com as pessoas\u201d, completa.<\/p>\n<p>A cordelista enfatiza a necessidade de demonstrar \u00e0s pessoas que elas podem se identificar com a literatura, que tamb\u00e9m pode atuar como entretenimento e divertimento.<\/p>\n<p>\u201cPrecisamos tirar a literatura de um pedestal e publicar mais pessoas com mais diversidade, de diferentes regi\u00f5es do Brasil e que escrevem de maneiras diferentes para existir uma democratiza\u00e7\u00e3o da literatura, come\u00e7ando pelo pr\u00f3prio mercado editorial. Se n\u00e3o conseguimos fazer com que a literatura seja comum e de todos no mercado editorial, como vamos conseguir fazer isso em sociedade?\u201d.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da identifica\u00e7\u00e3o com a literatura, M\u00e1rcia Oliveira aponta para fatores socioecon\u00f4micos, ressaltando caracter\u00edsticas do cotidiano da maioria dos brasileiros. De acordo com a professora, \u201cquem trabalha muito, ganha pouco, passa horas no deslocamento entre casa e trabalho, tem pouco acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o de qualidade e a livros sem custo ou a baixo custo, sejam impressos ou digitais, dificilmente se apropriar\u00e1 da leitura, quando sequer lhe sobra tempo para viver\u201d.<\/p>\n<p>Outro ponto relevante para M\u00e1rcia \u00e9 o acesso \u00e0 renda: apesar de existirem clubes de leitura em espa\u00e7os que n\u00e3o exigem a aquisi\u00e7\u00e3o de livros ou o pagamento de mensalidades para participar, fazer parte deles ainda demanda tempo dos leitores, nem sempre abundante.<\/p>\n<p>\u201cNo Brasil, os livros sempre foram e ainda s\u00e3o para poucos. Construir uma cultura de leitura poderia ser uma grande transforma\u00e7\u00e3o, mas isso leva tempo. Precisamos de pol\u00edticas de estado que fomentem o acesso \u00e0 leitura e garantam a disponibilidade de materiais, para al\u00e9m da leitura escolar, assim como da mobiliza\u00e7\u00e3o da sociedade civil organizada para tentar mudar o cen\u00e1rio atual, em que quase metade da popula\u00e7\u00e3o brasileira n\u00e3o tem o direito \u00e0 leitura garantido\u201d, avalia.<\/p>\n<p>Segundo o 9\u00ba Painel de Varejo de Livros no Brasil, produzido pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL), o pre\u00e7o m\u00e9dio do livro no pa\u00eds subiu 12,20%, atingindo R$ 51,48. Em compara\u00e7\u00e3o, o sal\u00e1rio m\u00ednimo em 2024 \u00e9 de R$ 1.412,00<\/p>\n<p><strong>Incentivo \u00e0 leitura<\/strong><br \/>\nA pesquisa realizada pelo Instituto Pr\u00f3-Livro em 208 munic\u00edpios tamb\u00e9m trouxe dados sobre o consumo de livros com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 identidade de g\u00eanero, idade e regi\u00e3o. Os resultados indicam que maioria dos leitores corresponde ao g\u00eanero feminino (50,4%), sendo a faixa et\u00e1ria de 11 a 13 anos a que mais l\u00ea (81%). Nesse ponto, o relat\u00f3rio aponta que livros did\u00e1ticos tamb\u00e9m foram considerados para a investiga\u00e7\u00e3o, podendo ser um dos motivos para a maior propor\u00e7\u00e3o de leitores com essa idade.<\/p>\n<p>Quanto ao aspecto geogr\u00e1fico, a Regi\u00e3o Sul apresentou a maior propor\u00e7\u00e3o de leitores (53%). Em seguida, surgem as regi\u00f5es Norte (48%), Centro-Oeste (47%), Sudeste (46%) e Nordeste (43%), destacando-se com a menor quantidade.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 dif\u00edcil explicar essa diferen\u00e7a, tendo em vista a complexidade dos fatores envolvidos, por\u00e9m, \u00e9 not\u00f3ria a disparidade entre as regi\u00f5es brasileiras. Essa pode ser uma pista para o entendimento da distribui\u00e7\u00e3o entre leitores e n\u00e3o-leitores no Brasil. A Regi\u00e3o Sul, em contraponto \u00e0 Regi\u00e3o Nordeste, apresenta um dos mais baixos \u00edndices de analfabetismo do pa\u00eds (3%) e tem a terceira maior renda per capita m\u00e9dia do pa\u00eds\u201d, observa M\u00e1rcia.<\/p>\n<p>Diante dos dados apresentados pela pesquisa, a professora refor\u00e7a a necessidade de pol\u00edticas de estado voltadas para o fomento \u00e0 leitura, com foco, principalmente, na forma\u00e7\u00e3o de professores, bibliotec\u00e1rios e agentes de leitura, al\u00e9m da import\u00e2ncia de programas de implementa\u00e7\u00e3o de bibliotecas p\u00fablicas e de amplia\u00e7\u00e3o dos acervos liter\u00e1rios em escolas. \u201cAssim como espa\u00e7os comunit\u00e1rios de diferentes perfis, al\u00e9m de campanhas de valoriza\u00e7\u00e3o da leitura como fonte de prazer e acesso a diferentes formas de conhecimento\u201d.<\/p>\n<p>Professora do Instituto de Letras da Universidade Federal Fluminense (UFF), Ana Isabel Borges afirma que \u201cqualquer atividade que aproxime as pessoas \u00e0 leitura \u00e9 positiva, sem d\u00favida\u201d, incluindo os clubes de leitura. \u201cAcredito que os clubes de leitura podem funcionar bem, se conseguirem reunir pessoas para conversar sobre o que est\u00e3o lendo. N\u00e3o basta informar \u2018estou lendo isso\u2019 ou \u2018estou lendo aquilo\u2019: \u00e9 preciso trocar ideias\u201d.<\/p>\n<p>A pesquisadora afirma que, para que o n\u00famero de leitores no Brasil cres\u00e7a e volte a ser superior \u00e0 quantidade de n\u00e3o-leitores, \u00e9 preciso oferecer melhores condi\u00e7\u00f5es de vida, como jornadas de trabalho de, no m\u00e1ximo, oito horas di\u00e1rias, sal\u00e1rios que correspondam ao atual custo de vida e \u201cum pouco de seguran\u00e7a no futuro\u201d, para diminuir os n\u00edveis de ansiedade e estresse entre os brasileiros. \u201cSem \u00f3cio n\u00e3o existe leitura nem outro uso n\u00e3o \u2018produtivo\u2019 do tempo, \u00e9 s\u00f3 trabalhar e dormir\u201d, conclui.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Leitora insaci\u00e1vel desde a adolesc\u00eancia, a escritora, cordelista e poeta Jarid Arraes quis ir al\u00e9m da leitura e da escrita em sua rela\u00e7\u00e3o com os livros. 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