{"id":343197,"date":"2024-12-16T07:33:50","date_gmt":"2024-12-16T10:33:50","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=343197"},"modified":"2024-12-16T20:59:23","modified_gmt":"2024-12-16T23:59:23","slug":"devaneios-de-um-instante-vividos-na-companhia-de-paul","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/devaneios-de-um-instante-vividos-na-companhia-de-paul\/","title":{"rendered":"Devaneios de um instante vividos na companhia de Paul"},"content":{"rendered":"<p>Quando dei por mim, j\u00e1 est\u00e1vamos correndo como loucos pelas ruas de Nova York. Aquele in\u00edcio de inverno trouxe mudan\u00e7as inimagin\u00e1veis. Depois de muitos anos pude vivenciar os pequenos prazeres da vida. Jamais pensei que iria sentir o ar fresco da manh\u00e3 brincando no meu rosto e a liberdade do vento circulando pela minha pele. Por um breve minuto hesitei. Apesar do cansa\u00e7o e do perigo n\u00e3o desistiria.<\/p>\n<p>O futuro me era desconhecido, mas o passado. Ah! O passado estava deixando para tr\u00e1s, \u00e0s pressas. As \u00fanicas coisas que levava era uma bolsa, o m\u00e1ximo de roupas que consegui vestir e as minhas mem\u00f3rias.<\/p>\n<p>Sim, mem\u00f3rias que carregarei por onde for. Mem\u00f3rias de uma prisioneira. \u00c9 isso mesmo, uma mulher que era obrigada a flutuar num aqu\u00e1rio min\u00fasculo distraindo passageiros entediados, briguentos, problem\u00e1ticos&#8230; daquele infeliz e \u00e0s vezes mau cheiroso trem. A minha presen\u00e7a contribu\u00eda para diminuir a dist\u00e2ncia, a morosidade que \u00e9 viajar neste tipo de transporte; o barulho do apito ao aproximar da plataforma de embarque e desembarque, o cheiro da fuma\u00e7a, os trilhos e sua eterna e repetitiva melodia, as curvas sinuosas; enfim, enfim&#8230;<\/p>\n<p>Passava os dias, tardes, noites bailando tal qual uma sereia, s\u00f3 que vestida. Ao inv\u00e9s de seduzir o ing\u00eanuo p\u00fablico com minha voz, seduzia-os com a minha dan\u00e7a. No lugar do mar, um aqu\u00e1rio. Os espectadores ficavam extasiados, encantados, com a minha pessoa. Via os olhares brilhantes, cobi\u00e7osos, estarrecidos, incr\u00e9dulos, invejosos, furiosos &#8230; Olhos, sempre olhos a me despir e a me cobrir.<\/p>\n<p>Algumas miradas ficaram impressas nas minhas retinas molhadas, ora de l\u00e1grimas, ora pela \u00e1gua do aqu\u00e1rio.<\/p>\n<p>Lembro-me de que est\u00e1vamos passando por S\u00e3o Petersburgo, na R\u00fassia e o meu olhar congelado mirrou o de uma senhora que vendia legumes em plena pra\u00e7a. A neve cobria praticamente tudo, mas ela tal qual a neve resistia. Luta desigual: sobreviv\u00eancia versos fen\u00f4menos naturais. Apesar das condi\u00e7\u00f5es impr\u00f3prias o seu rosto transmitia alegria, dignidade e esperan\u00e7a. Por um instante nossos olhares se cruzaram, a\u00ed percebi o quanto era privilegiada. Trabalhava num ambiente seguro, \u00e1gua temperada e at\u00e9 um certo conforto.<\/p>\n<p>Tinha mais vantagem do que aquela senhora de meia idade que estava enfrentando o inverno rigorosa e ainda por cima sem luvas. Um misto de ironia, pensei!<\/p>\n<p>Pe\u00e7o a Paul para descansarmos um pouco, a corrida me tirou o f\u00f4lego, ou foi a emo\u00e7\u00e3o da sensa\u00e7\u00e3o de liberdade? N\u00e3o sei porque associei liberdade ao M\u00e9xico. Sim, M\u00e9xico lindo e querido se moro longe de ti, me diga que estou dormindo, (ouso iniciar uma can\u00e7\u00e3o) &#8230; Pa\u00eds ex\u00f3tico. Fiquei surpresa e ao mesmo tempo tenebrosa ao ver aquela mulher mo\u00e7a de olhar brilhante e imponente. Ela era como eu, uma atra\u00e7\u00e3o tur\u00edstica. Mas, o seu diferencial era que trabalhava na estrada, ao ar livre. Despertava a aten\u00e7\u00e3o devido a um detalhe: seu chap\u00e9u adornado de iguanas.<\/p>\n<p>Sim, iguanas multicoloridas, de tamanhos variados, e vivas. Enfeitavam a cabe\u00e7a dessa destemida guerreira. Arrepio s\u00f3 de pensar nestes bichos com seus olhos espertos e ousados. Penso que no \u00edntimo gostavam de ser atra\u00e7\u00e3o, roubavam a cena. Tomaram gosto pela fama e me parece que at\u00e9 davam um sorrisinho ir\u00f4nico, aquele meio de lado. Rindo dos espectadores at\u00f4nitos por tanta impon\u00eancia.<\/p>\n<p>Avistamos uma pra\u00e7a. Aquelas \u00e1rvores me reportaram \u00e0 minha inf\u00e2ncia, mais precisamente aos meus seis anos, interpretando Maria, da pe\u00e7a Jo\u00e3o e Maria. Esqueci a fala, justamente no momento que descobr\u00edamos que estamos perdidos na floresta. Imediatamente improvisei, fechei os olhos e inclinei a cabe\u00e7a para o alto, dando a impress\u00e3o de contempla\u00e7\u00e3o. Um vento gelado como este levanta parte do meu vestido e do capuz. A plateia vibra. Como fui elogiada, naquele momento sabia que seria atriz e viveria hist\u00f3rias que n\u00e3o me pertenciam. Ganharia o mundo com a for\u00e7a do meu talento. Doce ilus\u00e3o, mal sabia o que me aguardava. Afasto estes pensamentos.<\/p>\n<p>Continuamos o trajeto. Ao passarmos por uma barbearia avisto os irm\u00e3os Garbosos, eram chamados e conhecidos por este apelido. Dupla de comediantes, devido a agenda lotada, utilizavam dos servi\u00e7os do trem para viajar de uma cidade a outra. Quando estavam presentes a viagem ficava mais interessante e alegre. Ningu\u00e9m conseguia ficar s\u00e9rio. At\u00e9 eu, a triste bailarina do aqu\u00e1rio, discretamente soltava v\u00e1rias gargalhadas. As bolhas espelhavam causando uma atmosfera surreal em tempo real.<\/p>\n<p>Tudo que estava vivendo, \u00e0s vezes me deixava fraca. Isto me fez pensar numa das cenas que mais me tocaram. Quando pass\u00e1vamos pelo Haiti vi com os meus pr\u00f3prios olhos lacrimosos a situa\u00e7\u00e3o desoladora na qual o pa\u00eds ficou depois do tuf\u00e3o. Sim, foi desolador cruzar com o olhar resistente de um garoto.<\/p>\n<p>Diante daquela situa\u00e7\u00e3o ele ainda tinha for\u00e7as para ajudar seus familiares a reconstruir o pouco que restara. Confesso, aquela lembran\u00e7a me deu for\u00e7as para seguir. Toda vez que me sinto desanimada lembro daquela crian\u00e7a e me recomponho.<\/p>\n<p>Ah! A vida \u00e9 mesmo estranha. Paul lembrou que tinha um dinheiro para receber de seu amigo chin\u00eas e tivemos que desviar a rota e agora estamos no bairro Chinatown. Pela janela da loja de Mei Xin vejo os olhares pequeninos, curiosos e interrogativos nos observando. Um arrepio percorre a minha coluna.<\/p>\n<p>Lembro do nosso trajeto na China e de como as pessoas ficavam encantadas querendo me tocar. Quase fui vendida para um rico comerciante chin\u00eas. Ele comandava aquela prov\u00edncia e n\u00e3o queria liberar a nossa viagem. Foi muito dif\u00edcil a negocia\u00e7\u00e3o. Paguei um pre\u00e7o alt\u00edssimo por isso.<\/p>\n<p>Vislumbro uma movimenta\u00e7\u00e3o. Seguro no bra\u00e7o de Paul. Ele inicia uma discuss\u00e3o com Mei Xin. Duas crian\u00e7as se aproximam, observo que do outro lado da rua um homem sentado est\u00e1 atento ao que se passa aqui dentro, um outro escuta &#8230; de onde estou n\u00e3o d\u00e1 para ver direito. De repente&#8230; ouvimos um disparo&#8230; Paul pega na minha m\u00e3o e sa\u00edmos correndo, sem olhar para tr\u00e1s e sem o dinheiro.<\/p>\n<p>Corremos o mais r\u00e1pido que aguentamos e assim, lembro do dia que conheci Paul, meu amado Paul. Ele estava comemorando o natal. Era um entardecer pregui\u00e7oso, a neve tinha cessado. Ele e os amigos novi\u00e7os foram comemorar do lado de fora do mosteiro. Estavam brincando, cantando distraidamente. A roda girava, um dos novi\u00e7os estava no meio. Ao me perceber Paul discretamente se desvencilhou dos outros, e veio ao meu encontro. Desde aquele momento seguimos correndo. Correndo dos outros, correndo contra os outros, correndo pelos outros, sempre em frente, sem saber como tudo isso vai acabar. Mas um dia tem que acabar. Sei que ao correr ao lado de Paul, corro para e com os bra\u00e7os da liberdade. Mas, ser\u00e1 que existe liberdade?<\/p>\n<p>No meio dos carros e das buzinas, ou\u00e7o ao longe:<\/p>\n<p>&#8211; Ei, voc\u00eas dois. Parem a\u00ed! \u00c9 a&#8230;<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/p>\n<p><strong>Devaneios de um instante. Rosilene Souza. (Do corpo ao corpus Colet\u00e2nea organizada por Edna Domenica. Palho\u00e7a, SC: Rocha Solu\u00e7\u00f5es Gr\u00e1ficas, 2022, pp 55-57).<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando dei por mim, j\u00e1 est\u00e1vamos correndo como loucos pelas ruas de Nova York. Aquele in\u00edcio de inverno trouxe mudan\u00e7as inimagin\u00e1veis. Depois de muitos anos pude vivenciar os pequenos prazeres da vida. 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