{"id":343317,"date":"2024-12-18T07:15:51","date_gmt":"2024-12-18T10:15:51","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=343317"},"modified":"2024-12-18T07:15:51","modified_gmt":"2024-12-18T10:15:51","slug":"falso-astro-do-fuck-you-amansa-o-leao-e-escapa-de-ser-vitima-da-castracao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/falso-astro-do-fuck-you-amansa-o-leao-e-escapa-de-ser-vitima-da-castracao\/","title":{"rendered":"Falso astro do fuck you amansa o le\u00e3o e escapa de ser v\u00edtima da castra\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 coisas na vida que a gente n\u00e3o explica. Algumas nem Freud parou um dia para pensar sobre elas. Passei anos namorando com os olhos aquela reluzente e colorid\u00edssima lata cil\u00edndrica de biscoitos acomodada sobre a m\u00e1quina de costura de minha m\u00e3e. Sonhava com uma das rosquinhas, mas nunca me atrevi a mexer no que supunha ser o lanchinho di\u00e1rio de dona Guigui. Hiperbolicamente, quase morri de desgosto ao descobrir que ali s\u00f3 havia agulhas, linhas, bot\u00f5es, alfinetes, dedais, sianinhas e demais babilaques utilizados por uma costureira. Jamais perguntei, mas ainda hoje acho que naquela lata, se um dia teve algum biscoito, n\u00e3o foi para o meu bico.<\/p>\n<p>Pobre, mas feliz e sem medo da pobrice, nasci e me criei beijando o asfalto, mas bem pr\u00f3ximo da comunidade do Barbantinho Cheiroso, vizinha dos ajuntamentos Man\u00e9 Pelado e Cal\u00e7a Arriada. Cresci no meio de uma rapaziada de responsa. Como migo, poucos dessas comunas conseguiram comer biscoitos recheados enquanto crian\u00e7a. Respeitado e admirado, logo passei a ser conhecido como Professor e, na sequ\u00eancia, por Wenceslau CB. Quase virei samba enredo da escola carnavalesca local quando descobriram que eu era tempor\u00e3o de 11 meses e meio.<\/p>\n<p>Antes de continuar com a saga, devo aos leitores e eleitores uma brev\u00edssima explica\u00e7\u00e3o. Na verdade, duas. Wenceslau CB era como me definiam por escrito. Na viva voz, a pron\u00fancia queria &#8211; e quer \u2013 dizer t\u00e3o somente Wenceslau Sangue Bom. A varia\u00e7\u00e3o fon\u00e9tica esteve e est\u00e1 por conta da mania do povo sem tempo em abreviar determinadas palavras e express\u00f5es. Mudam inclusive o som. Quanto ao termo Professor, soube j\u00e1 rapaz que a motiva\u00e7\u00e3o foi a conclus\u00e3o do pr\u00e9-prim\u00e1rio em tr\u00eas anos e meio. Me orgulho de ter sido r\u00e1pido no aprendizado. Tenho amigos de inf\u00e2ncia que at\u00e9 hoje tentam se formar. Outros se mant\u00e9m muito bem empregados na estiva, na padaria, na funer\u00e1ria ou no circo mambembe dos irm\u00e3os espanh\u00f3is Ramiro e Manolo, localizado na subida do Man\u00e9 Pelado.<\/p>\n<p>Por falta de apoio log\u00edstico e da mil\u00edcia local, o Estado e o Munic\u00edpio j\u00e1 tentaram de tudo, mas n\u00e3o conseguem tirar a envelhecida lona do local de origem: um brejo apinhado de sapos, r\u00e3s e algumas cobras. Importante dizer que o picadeiro do circo serviu de altar para v\u00e1rios casamentos na regi\u00e3o, a maioria deles no sistema comunit\u00e1rio. Dizem os mais velhos que vem da\u00ed aquele velho ditado informando que malandro \u00e9 o sapo que casa e leva a mulher para o brejo. A hist\u00f3ria era minha, mas, como todo final feliz tem de ter uma gra\u00e7a, lembro que o primeiro le\u00e3o que vi na vida era o bichano de estima\u00e7\u00e3o do Manolo. Velho e desdentado como o dono, o bicho \u00e0s vezes assustava a rapaziada.<\/p>\n<p>Em um dia de casa cheia, algo como 17 pagantes e 143 bic\u00f5es, entre eles um cidad\u00e3o com deformidade f\u00edsica, o le\u00e3o fugiu da jaula sem trinco e partiu no rumo da plateia. Me recordo de ter ouvido algu\u00e9m gritar repetidas vezes &#8220;olha o aleijado, olha o aleijado&#8221;. J\u00e1 do lado de fora, ouvi um sujeito, desesperado e manquitolando a menos de dez km por hora, gritar a plenos pulm\u00f5es: &#8220;Porra, calem a boca. Deixem o le\u00e3o escolher&#8221;. Mostrei a picanha e consegui amansar a fera. Sou depois que o bichano foi expulso da arena sem aviso pr\u00e9vio. Em decorr\u00eancia de uma den\u00fancia de propaganda enganosa advinda da Cal\u00e7a Arriada, o circo foi fechado por duas semanas pelo Procon da \u00e9poca. \u00c9pico, an\u00f4malo, at\u00edpico e inabitual, o motivo se mant\u00e9m na meiuca da expectativa e da realidade. Folclore ou fato, o acontecido ser\u00e1 eternamente lembrado pelos remanescentes das tr\u00eas comunidades.<\/p>\n<p>Sem o conhecimento de Manolo, Ramiro anunciou a grande atra\u00e7\u00e3o da noite: um Sex Symbol do bairro vizinho, contratado para dar mil funhanhadas ao vivo e em cores no meio do picadeiro. Casa lotada, come\u00e7a o fuck you p\u00fablico. Meia hora de show e o camarada, ap\u00f3s completar 999 raquetadas, cai duro no palco. Composta majoritariamente por senhoras recatadas e do lar, a plateia n\u00e3o perdoou: &#8220;Bicha, bicha, bicha&#8221;. O artista sequer teve tempo de informar ao respeit\u00e1vel p\u00fablico que, 15 minutos antes do in\u00edcio do espet\u00e1culo, o ensaio fora uma perfei\u00e7\u00e3o. Por via das d\u00favidas e obviamente com pavor de ser circuncidado a frio ou castrado no toco, desapareci das comunidades sem atingir os p\u00edncaros da gl\u00f3ria. Era eu o astro enganador. Consegui me livrar, mas mantenho o medo de encontrar uma das f\u00e3s revoltadas. Mudei de ramo. Hoje sou dono de sauna. Ganho dinheiro com o suor dos outros. Ramiro e Manolo dormem o sono dos justos. Do circo restam apenas hist\u00f3rias que s\u00f3 ser\u00e3o contadas quando eu der o \u00faltimo beijo no asfalto.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/p>\n<p><strong>*Wenceslau Ara\u00fajo \u00e9 Editor-Chefe de Notibras<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 coisas na vida que a gente n\u00e3o explica. Algumas nem Freud parou um dia para pensar sobre elas. Passei anos namorando com os olhos aquela reluzente e colorid\u00edssima lata cil\u00edndrica de biscoitos acomodada sobre a m\u00e1quina de costura de minha m\u00e3e. 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