{"id":343696,"date":"2024-12-23T02:11:12","date_gmt":"2024-12-23T05:11:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=343696"},"modified":"2024-12-23T08:10:33","modified_gmt":"2024-12-23T11:10:33","slug":"antigas-partituras-de-almerinda-ganham-vida-no-piano-com-apoio-da-unb","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/antigas-partituras-de-almerinda-ganham-vida-no-piano-com-apoio-da-unb\/","title":{"rendered":"Antigas partituras de Almerinda ganham vida no piano com apoio da UnB"},"content":{"rendered":"<p>Os olhos da aluna sorriem enquanto o som do piano domina a sala e os seus sentidos. A professora toca, ensina, mas, neste lugar, tamb\u00e9m aprende. As notas da m\u00fasica Noturno saem dos dedos da pianista Renata Sica e se espalham pela sala de uma casa na cidade de Araras (SP). Maria Jos\u00e9 Febraro, de 75 anos, flutua no tempo ao saber que aquela a obra foi composta por uma mulher negra como ela, com sonhos suados parecidos com os dela, com as conquistas de vez em quando e com os n\u00e3os de todos os dias.<\/p>\n<p>A autora da m\u00fasica foi a sufragista, datil\u00f3grafa e sindicalista Almerinda Farias Gama (1899-1999). Almerinda foi uma trabalhadora alagoana hist\u00f3rica, invisibilizada no s\u00e9culo 20 e uma figura at\u00e9 ent\u00e3o desconhecida para a professora que tocava, para a aluna que ouvia e para o mundo. As duas sabem que est\u00e3o diante de uma partitura hist\u00f3rica com as marcas amareladas do tempo.<\/p>\n<p>A primeira a perceber que tinha uma rel\u00edquia diante de si foi a pesquisadora Cibele Ten\u00f3rio, doutoranda em hist\u00f3ria pela Universidade de Bras\u00edlia (UnB). Foi Cibele quem encontrou as partituras arquivadas na Escola Nacional de M\u00fasica, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).<\/p>\n<p><strong>Ritmos<\/strong><br \/>\nCibele lan\u00e7ar\u00e1, no ano que vem, uma biografia sobre Almerinda Farias (pela editora Todavia). Essa biografia nasceu de uma pesquisa de mestrado na UnB, sob orienta\u00e7\u00e3o da professora Teresa Marques. No percurso para conhecer mais de Almerinda, Cibele descobriu que a sufragista tinha paix\u00e3o pelo piano e havia criado m\u00fasicas de variadas inspira\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u201cFalamos de uma personagem que foi esquecida\u201d, diz a pesquisadora. Cibele explica que Almerinda, em uma entrevista em 1984, recordou que a av\u00f3 paterna ensinou franc\u00eas, prendas dom\u00e9sticas e aula b\u00e1sica de piano. \u201cEla disse que nunca ingressou em um conservat\u00f3rio na inf\u00e2ncia. (&#8230;) Depois, quando era idosa e se aposentou como datil\u00f3grafa, voltou a se dedicar ao piano, o instrumento da inf\u00e2ncia\u201d, afirma Cibele.<\/p>\n<p><strong>\u201cVai estragar os dedos\u201d<\/strong><br \/>\nA trajet\u00f3ria de Almerinda encanta e comove Maria Jos\u00e9, que tamb\u00e9m conheceu o piano na inf\u00e2ncia. \u201cSaber dessa hist\u00f3ria de luta, de uma mulher negra como eu, me deu mais vontade de aprender piano\u201d, diz Maria Jos\u00e9. A mulher que hoje ouve o instrumento, j\u00e1 escutou dos patr\u00f5es da m\u00e3e, empregada dom\u00e9stica em um s\u00edtio, que n\u00e3o deveria chegar perto do piano da casa. \u201cDisseram que, se eu tocasse, poderia estragar meus dedos\u201d, recorda.<\/p>\n<p>Hoje, os dedos e o cora\u00e7\u00e3o da ex-lavradora e empregada dom\u00e9stica encontram notas \u2013 as teclas brancas \u2013 e seus bem\u00f3is e sustenidos \u2013 as pretas \u2013 gra\u00e7as \u00e0 vizinha musicista Renata Sica. \u201cEu fiquei tocada quando o Instituto do Piano Brasileiro divulgou a descoberta das partituras. Eu queria tocar. E foi como viajar no tempo\u201d, conta a professora.<\/p>\n<p><strong>Conhecendo Almerinda<\/strong><br \/>\nA divulga\u00e7\u00e3o da descoberta das partituras desconhecidas ocorreu a partir da descoberta de Cibele Ten\u00f3rio. Cibele se emocionou quando viu as partituras em suas m\u00e3os e depois, ao ouvir a aquele papel amarelado virando m\u00fasica na execu\u00e7\u00e3o de Renata. \u201c\u00c9 como se tivesse encontrando com Almerinda\u201d. Mais do que documentos, a m\u00fasica, na pr\u00e1tica, faz reviver a personagem. Deixou de ser s\u00f3 hist\u00f3ria no livro e passou a ser vida entoada.<\/p>\n<p>\u201cA Almerinda tocava piano quando era crian\u00e7a. Tamb\u00e9m teve a vida toda nas teclas da m\u00e1quina de escrever. \u00c9 como se ela tivesse trocado as teclas. Inverteu, na inf\u00e2ncia, as teclas do piano para as da datilografia. Na velhice, voltou para as teclas em preto e branco\u201d. A pesquisadora explica que Almerinda disse, aos 85 anos de idade, que havia, ao longo da vida, feito mais de 90 m\u00fasicas.<\/p>\n<p>As can\u00e7\u00f5es foram para a Escola Nacional de M\u00fasica, no Rio de Janeiro. Cibele localizou 29 obras e conseguiu acesso e libera\u00e7\u00e3o para que o material fosse divulgado. \u201cA maioria tem versos e t\u00eam a letrinha dela. S\u00e3o de g\u00eaneros variados, como bai\u00e3o, valsa, samba\u2026. Como ela afirmou que havia mais de 90 trabalhos, h\u00e1 ainda muito o que vasculhar\u201d.<\/p>\n<p>As partituras n\u00e3o t\u00eam datas identificadas e tratam sobre amor, lendas amaz\u00f4nicas (Almerinda morou em Bel\u00e9m) e at\u00e9 can\u00e7\u00f5es de ninar. \u201cEu comecei primeiro conhecendo a figura p\u00fablica, uma ativista pelo direito das mulheres. Depois, descobri as partituras\u201d. Os pap\u00e9is eram uma conquista, mas os sons levaram a descoberta a uma outra dimens\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Divulga\u00e7\u00e3o<\/strong><br \/>\nOs sons se tornaram poss\u00edveis tamb\u00e9m porque a pesquisadora levou as partituras para o Instituto do Piano Brasileiro para que pudesse haver divulga\u00e7\u00e3o dos materiais. \u201cA gente j\u00e1 publicou mais de 4 mil v\u00eddeos de partituras de compositores brasileiros [an\u00f4nimos]\u201d.<\/p>\n<p>Depois de veiculado na p\u00e1gina do instituto, pianistas se interessaram em fazer que a m\u00fasica n\u00e3o ficasse somente em pap\u00e9is antigos. \u201cAs m\u00fasicas da Almerinda s\u00e3o simples. Podem ser tocadas em ambiente dom\u00e9stico ou recitais\u201d, diz o presidente do instituto, Henrique Dias. Ele explica que as can\u00e7\u00f5es funcionam no piano solo, mas tamb\u00e9m podem e devem ser cantadas.<\/p>\n<p>\u201cO que mais me chamou aten\u00e7\u00e3o foi ver o ecletismo dessa intelectual. Mostra que mente vivaz e afiada que ela era\u201d, diz o pianista. Para Cibele Ten\u00f3rio, a sensa\u00e7\u00e3o de ouvir foi diferente. Mais do que m\u00e9todo, pap\u00e9is e teoria, h\u00e1 sentimentos que a pesquisadora n\u00e3o consegue explicar racionalmente.<\/p>\n<p>\u201cMeu encontro com a Almerinda tamb\u00e9m \u00e9 proporcionado pela ancestralidade. Sou filha de uma mulher negra e a minha pesquisa \u00e9, de alguma maneira, um reencontro com a minha m\u00e3e [que faleceu quando a pesquisadora era adolescente]\u201d. O resgate \u00e9 para que as pessoas n\u00e3o sejam esquecidas.<\/p>\n<p><strong>Revolucion\u00e1ria<\/strong><br \/>\nPesquisadora do Programa Avan\u00e7ado de Cultura Contempor\u00e2nea, do Departamento de Letras da UFRJ, a professora K\u00e1tia Santos entende que hist\u00f3rias como a de Almerinda, trabalhadora negra que nasceu 11 anos ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o da escravatura, s\u00e3o situa\u00e7\u00f5es at\u00edpicas e revolucion\u00e1rias. K\u00e1tia avalia que, mesmo dentro das pr\u00f3prias fam\u00edlias negras, a arte acaba n\u00e3o podendo ser a prioridade porque a sobreviv\u00eancia sempre foi o mais importante. A conquista de Almerinda n\u00e3o foi simples.<\/p>\n<p>\u201cAs mulheres negras s\u00e3o as que mais sofrem a opress\u00e3o [&#8230;] Elas t\u00eam sempre que se juntar para tentar fazer valer um espa\u00e7o para elas. Mas a base de tudo isso, para que essas pessoas tenham oportunidade de saber se t\u00eam essas aptid\u00f5es, se querem fazer isso, \u00e9 garantir a educa\u00e7\u00e3o\u201d, considera K\u00e1tia Santos.<\/p>\n<p>Para ela, a hist\u00f3ria de Almerinda mostra uma necessidade cidad\u00e3. \u201cEla queria exercer a arte tamb\u00e9m. Isso \u00e9 muito importante\u201d. Essa necessidade agora \u00e9 da professora Renata, que resolveu tocar e gravar as m\u00fasicas da sufragista. Uma necessidade tamb\u00e9m para a aluna de piano Maria Jos\u00e9. \u201cDesde crian\u00e7a, eu amei piano. Mas eu era muito pobre e n\u00e3o tinha possibilidade de estudar. Agora, eu consigo. Almerinda \u00e9 mais uma inspira\u00e7\u00e3o para mim\u201d. O sil\u00eancio foi desfeito.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os olhos da aluna sorriem enquanto o som do piano domina a sala e os seus sentidos. A professora toca, ensina, mas, neste lugar, tamb\u00e9m aprende. As notas da m\u00fasica Noturno saem dos dedos da pianista Renata Sica e se espalham pela sala de uma casa na cidade de Araras (SP). 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