{"id":343982,"date":"2024-12-26T04:54:21","date_gmt":"2024-12-26T07:54:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=343982"},"modified":"2024-12-26T05:42:06","modified_gmt":"2024-12-26T08:42:06","slug":"recordacoes-de-um-ex-monge-cervejista-que-nunca-ficou-sujo-na-rodinha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/recordacoes-de-um-ex-monge-cervejista-que-nunca-ficou-sujo-na-rodinha\/","title":{"rendered":"Recorda\u00e7\u00f5es de um ex-monge cervejista que nunca ficou sujo na rodinha"},"content":{"rendered":"<p>Com a aproxima\u00e7\u00e3o do fim de mais um ano, preciso me confessar publicamente. Do grelhado de pestanas aparadas, no sub\u00farbio do Rio, at\u00e9 o gelado no pau, em Portugal, j\u00e1 experimentei de tudo nessa vida louca. Antes que maldem de mim, foi quase tudo. M\u00e3o naquilo e aquilo naquilo de outro fulano ou ciclano, jamais. Segui os ensinamentos de um presidente que mal entrou e saiu. Foi-se, mas deixou enraizado no meu eu o que hoje digo para n\u00f3s: tudo que fiz <em>Fi-lo porque Qui-lo<\/em>. E n\u00e3o se fala mais nisso. Ponto final. Tamb\u00e9m n\u00e3o quero \u2013 em verdade n\u00e3o devo \u2013 denominar de vagabas meus amigos que ainda hoje vivem \u00e0 custa dos pais, av\u00f3s e padrinhos.<\/p>\n<p>Alguns mais afoitos criaram coragem e fizeram como o hoje rei Charles III, que s\u00f3 pensou em trabalhar depois dos 60 anos. A rainha Elizabeth bem que tentou, mas malhou em ferro frio. N\u00e3o tive ber\u00e7o, mas se tivesse certamente n\u00e3o teria esse desprendimento. Por isso, comecei cedo, mais precisamente quando as Lojas Ducal ainda vendiam ternos de tergal em 36 presta\u00e7\u00f5es. O carn\u00ea era t\u00e3o robusto como meu patrim\u00f4nio de aspirante a <em>oficce-boy<\/em>. De t\u00e3o ruim, a beca acabava na terceira ou quarta parcela. Devi \u00e0 empresa de confec\u00e7\u00e3o de d\u00e9cima-terceira linha at\u00e9 seu fechamento, em mil novecentos e D. Jo\u00e3o VI.<\/p>\n<p>Isso ocorreu no mesmo dia em que passei a dever \u00e0 Impec\u00e1vel Mar\u00e9 Mansa, loja parecida com uma dessas tendinhas de secos e molhados que, durante um surto de soberba, inventam de tamb\u00e9m vender roupas masculinas. Ali\u00e1s, por falta de dividendos e de moeda corrente, dever sempre foi o meu forte. Tive d\u00edvidas impag\u00e1veis com a casa de facilidades, com o Ponto Frio Bonz\u00e3o, com a Mesbla e com as Casas da Banha. At\u00e9 o primeiro gravador de fitas K-7 tive de devolver bem antes que ele se transformasse em barganha com o pastor da igreja evang\u00e9lica que frequentava e da qual fui expulso por falta de recolhimento do d\u00edzimo. Devi, mas nunca neguei.<\/p>\n<p>Detalhes que n\u00e3o v\u00eam ao caso. Magro desde menino, de frente eu lembrava o mapa do Chile. De costas, uma t\u00e1bua de passar roupa. O problema era a posi\u00e7\u00e3o de perfil. N\u00e3o me achavam. Desandei a comer como uma impinge ap\u00f3s passar a ser chamado pelos amigos do prim\u00e1rio e do ginasial de cesta b\u00e1sica, pois n\u00e3o tinha carne. Nada que incomodasse. A amizade acima de tudo. Fazia qualquer neg\u00f3cio para n\u00e3o ficar sujo na rodinha. Felizmente sa\u00ed do outro lado sem precisar escorregar no Melhoral, ser ungido pela pomada Min\u00e2ncora ou dan\u00e7ar na boquinha da garrafa.<\/p>\n<p>Rezei na cartilha dos monges tibetanos e n\u00e3o me arrependo. A filosofia que carrego no lombo envelhecido \u00e9 a mesma da juventude: dinheiro n\u00e3o traz felicidade, mas compra cerveja que \u00e9 quase a mesma coisa. Em decorr\u00eancia do <em>cervejismo<\/em>, passei a ler sobre os males da bebida. Parei de ler logo ap\u00f3s concluir a segunda p\u00e1gina. Dei sorte porque a primeira estava em branco. Fui precoce em muitas coisas. A primeira namorada, por exemplo, conheci na casa de Madame Dolores, a prostituta mais velha a se vender nas redondezas. Me perdoem a liberdade, mas lembro de um cliente ter perguntado \u00e0 madame se ela fazia 69. Seca e na bucha, a resposta foi imediata: &#8220;Fa\u00e7o em outubro. Quem te contou?<\/p>\n<p>A segunda surgiu em meados da sexta ou s\u00e9tima d\u00e9cada do s\u00e9culo passado. Ainda n\u00e3o havia atingido o sonhado <em>fifteen<\/em>, a marca dos 15 anos. Sem eu saber, os mesmos amigos com os quais eu n\u00e3o queria confus\u00e3o apelidaram a acanhada menina de Mentira. A tradu\u00e7\u00e3o veio cerca de 30 anos depois. Diziam que ela era muito feia para ser verdade. Tadinha! No jogo de purrinha, jurei amizade eterna a todos aqueles que comigo levaram a vida no arame. Descumpri a jura recentemente, exatamente no dia em que descobri que eles descobriram meu novo apelido. Tudo era uma brincadeira. Ficou s\u00e9rio por conta de um carinhoso lisonjeio da patroa. Num desses dias de alegria geral, ela resolveu me chamar de meu doce. Rindo de orelha a orelha, quis saber se era doce de c\u00f4co ou de leite. Nenhum dos dois. Para ela, eu, que j\u00e1 fui rapadura, hoje n\u00e3o passo de maria mole.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/p>\n<p><strong>*Wenceslau Ara\u00fajo \u00e9 Editor-Chefe de Notibras<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com a aproxima\u00e7\u00e3o do fim de mais um ano, preciso me confessar publicamente. Do grelhado de pestanas aparadas, no sub\u00farbio do Rio, at\u00e9 o gelado no pau, em Portugal, j\u00e1 experimentei de tudo nessa vida louca. Antes que maldem de mim, foi quase tudo. M\u00e3o naquilo e aquilo naquilo de outro fulano ou ciclano, jamais. 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