{"id":344036,"date":"2024-12-26T10:04:18","date_gmt":"2024-12-26T13:04:18","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=344036"},"modified":"2024-12-26T10:04:18","modified_gmt":"2024-12-26T13:04:18","slug":"letras-fragmentadas-se-unem-em-poemas-que-dao-forma-a-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/letras-fragmentadas-se-unem-em-poemas-que-dao-forma-a-vida\/","title":{"rendered":"&#8216;Letras fragmentadas se unem em poemas que d\u00e3o forma \u00e0 vida&#8217;"},"content":{"rendered":"<p>Luciana Moraes \u00e9 poeta carioca, autora dos livros \u201cTentei chegar aqui com estas m\u00e3os\u201d (2022, Ed. Isto Edi\u00e7\u00f5es) e \u201cFlor de sangue\u201d (2024, Ed. Libertinagem). Ela j\u00e1 apareceu aqui em <strong>Notibras,<\/strong> com seus belos e vibrantes poemas. Desta vez concedeu-me esta profunda entrevista, que compartilho com os leitores:<\/p>\n<p><strong>A poesia pode ser uma ferramenta poderosa para expressar emo\u00e7\u00f5es e pensamentos complexos. Como voc\u00ea usa a poesia para processar e comunicar suas experi\u00eancias emocionais e intelectuais?<\/strong><\/p>\n<p>Para mim, existe um simbolismo que move o signo escrito, algo que sempre investiga (sonora e imageticamente) a possibilidade de enuncia\u00e7\u00e3o e amplia\u00e7\u00e3o de nossa identidade, como uma \u201cc\u00e2mara de ecos\u201d de Waly Salom\u00e3o (poema presente em seu livro \u201cAlgaravias\u201d). Assim, ele dizia: \u201cAgora, entre meu ser e o ser alheio \/ a linha de fronteira se rompeu.\u201d<\/p>\n<p>Sob meu olhar, a poesia vibra, sem fronteiras e g\u00eaneros, em diferentes sonoridades, em versos funcionando por (des)constru\u00e7\u00e3o dos sentidos, met\u00e1foras, com o desejo de resgatar alguma magia e pot\u00eancia, em sintonia com aquela \u201cvoz corporal\u201d do teatro artaudiano. O exerc\u00edcio po\u00e9tico serve, nesse sentido, como uma reentr\u00e2ncia, concavidade inconsciente que recebe o \u201cverbo ansiado\u201d e d\u00e1 a luz ao \u201cfilho que vem do instante\/uni\u00e3o do brilho com o breu\u201d (versos do meu poema \u201cgr\u00fatero\u201d, presente em \u201cTentei chegar aqui com estas m\u00e3os\u201d). Ou seja, esse \u00e9 o meu trabalho, aperfei\u00e7oamento constante: a verbaliza\u00e7\u00e3o como um instrumento escritural por nosso n\u00e3o apagamento hist\u00f3rico, latejando no corpo.<\/p>\n<p>A poesia habita no entrela\u00e7amento das sensa\u00e7\u00f5es do corpo. Ainda que haja um persistente \u201cestado de desencaixe social\u201d sentido por mim, acredito que os polos opostos se aglutinam na escrita e criam \u201cponte\u201d com a vida ao redor, em linguagens diversas, como as \u201cfolhas vivas\u201d, o \u201cabra\u00e7o folheado\u201d e o \u201cdevir-ser-finca\u201d (presentes no livro \u201cFlor de sangue\u201d).<\/p>\n<p>Talvez seja uma l\u00edrica da natureza, n\u00e3o tanto conhecida, mas que condensa questionamentos e presen\u00e7as por neologismos, an\u00e1foras e outras figuras de linguagem; entre par\u00eanteses e outros sinais de pontua\u00e7\u00e3o, alguns riscos da linguagem que podem ser ind\u00edcios de novas formas de vida se criando; pela linguagem r\u00edtmica que sente a natureza, ao mesmo tempo que pretende conhecer melhor a natureza de nossas a\u00e7\u00f5es e as a\u00e7\u00f5es da natureza em n\u00f3s \u2013 em conson\u00e2ncia com o que Baruch Spinoza refletia acerca da consci\u00eancia entre a a\u00e7\u00e3o e liberdade humana: os dois elementos fundamentais para a exist\u00eancia da \u00e9tica. Sempre penso na poesia com \u00e9tica e est\u00e9tica.<\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 o papel da mem\u00f3ria em sua poesia?<\/strong><\/p>\n<p>Cuidar do espa\u00e7o pr\u00f3prio, por meio de cada um dos sentidos, em di\u00e1logo com a vida e com as obras de arte, transitar por entre as atmosferas da solitude e solid\u00e3o. Para mim, a mem\u00f3ria tanto existe pelas recorda\u00e7\u00f5es entranhadas, quanto pela intui\u00e7\u00e3o e percep\u00e7\u00e3o do vivido em cada momento presente. Mem\u00f3ria \u00e9 tocar no fundo do sil\u00eancio da falta e dar voz a um novo desejo de exprimir nosso olhar autoral, no sentido daquele que protagonize a po\u00e9tica em sintonia com as transi\u00e7\u00f5es dos dias. A mem\u00f3ria \u00e9 recomposi\u00e7\u00e3o cont\u00ednua, pelo anseio por reencontros com a vida, no presente. Recordo minha hist\u00f3ria com m\u00e3e, o percurso delicado da sa\u00fade, com a instabilidade respirat\u00f3ria e o processo do adoecimento, t\u00e3o dif\u00edcil. Todo o desejo de sopro de vida, da poesia, era para mim, para ela, o gosto do viver, ante as imin\u00eancias do porvir. Percebo que esta necessidade singela, com todas as sensa\u00e7\u00f5es no corpo, permanece em mim e em minha tessitura po\u00e9tica, entremeada por poemas que abra\u00e7am e outros que subsistem pelo questionamento vital.<\/p>\n<p>A mem\u00f3ria talvez busque a conscientiza\u00e7\u00e3o de nossa humanidade, diante da beleza e da fragilidade, em cada rasgo da perda. A mem\u00f3ria como uma convoca\u00e7\u00e3o \u00e0 vida que sai pelos poros. Tanto \u00e1gua quanto sopro. O que fica em n\u00f3s. A dor e a beleza do n\u00e3o saber mais. A escrita vive nessa reconstru\u00e7\u00e3o, com a solitude, mas tamb\u00e9m com o \u00e2nimo do pr\u00f3prio sopro (em di\u00e1logo com a \u201cVida das plantas\u201d, de Emanuele Coccia), se fazendo presente quando nos desabituamos de alguma rotina e habitamos em outro &#8221;espa\u00e7o&#8221;. Este outro \u201cespa\u00e7o\u201d \u00e9 uma mem\u00f3ria que se reinventa com a linguagem.<\/p>\n<p>Por exemplo, pelo escavamento dos arqu\u00e9tipos da Mulher selvagem, com o livro da Clarissa P\u00ednkola (\u201cMulheres que correm com os lobos\u201d), percebo a multiplicidade de formas que a mulher pode assumir, desde os prim\u00f3rdios da hist\u00f3ria do inconsciente, como mulher-loba e mulher-\u00e1rvore: \u201cEla \u00e9 a for\u00e7a da vida-morte-vida; \u00e9 a incubadora (&#8230;) Ela estimula os humanos a continuarem a ser multil\u00edngues\u201d. \u00c9 nesse sentido de multilinguagem e metalinguagem que persisto em minha mem\u00f3ria-escrita, onde recomponho o passado e o presente, fissurando a cronologia e linearidade das no\u00e7\u00f5es humanas. As pot\u00eancias f\u00eameas perpassam o meu registro po\u00e9tico e permanecem nas elabora\u00e7\u00f5es do meu amor pela linguagem (e pela admira\u00e7\u00e3o da for\u00e7a materna). As hist\u00f3rias particular e coletiva vivem em constante movimento, e as vejo como p\u00e1ssaros transitantes na ventania, pairando entre a revolta e a resili\u00eancia, porque somos seres atravessados pelas mais variadas emo\u00e7\u00f5es diante daquilo que nos \u00e9 inesquec\u00edvel, por ser tamb\u00e9m paradoxal.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea tem algum poeta ou escritor que seja uma grande influ\u00eancia em sua obra? Como a leitura de suas obras afeta sua pr\u00f3pria escrita?<\/strong><\/p>\n<p>Hilda Hilst, com \u201cCantares\u201d que nos servem de acesso ritual\u00edstico \u00e0 poesia. A viv\u00eancia corporal de sua escrita s\u00f3 me faz confirmar como \u00e9 envolvente aquilo que h\u00e1 de multilinguagem na l\u00edngua e no fazer po\u00e9tico.<\/p>\n<p>A sinestesia de um verso, \u201cverso escuro\u201d, com outro, \u201cbarcas carregando a vida\u201d. A imers\u00e3o em sua obra me coloca diante de experi\u00eancias sens\u00f3rias variadas, reverberando associa\u00e7\u00f5es entre: nascimento, paix\u00e3o, cumplicidade, desespero, admira\u00e7\u00e3o, fugacidade e consci\u00eancia do \u201cser-mortal\u201d.<\/p>\n<p>E nesse sentido, sempre me recordo de Kafka tamb\u00e9m \u2013 escritor mais que especial, pela peculiaridade e desconcerto de suas palavras \u2013 que me marcou desde o ensino fundamental, com seu livro \u201cMetamorfose\u201d. A poesia vive, para mim, nesse \u201cdesmembramento\u201d ou \u201cdesdobramento\u201d, pelas tentativas de reescrita narrativa, bem como ele dizia, em resist\u00eancia: \u201cUm livro deve ser o machado que quebra o mar gelado em n\u00f3s\u201d.<\/p>\n<p>Ambos, acredito que me provocaram interesse desde sempre, pela desestabiliza\u00e7\u00e3o da linguagem, por ressaltarem o poder da animalidade em n\u00f3s, desejante de uma outra humanidade, mais presente e viva. Mesmo que nem sempre conscientemente, eu tendo a partir dessa atmosfera partilhadas por eles, tanto na viv\u00eancia de ser \u201cca\u00e7a\u201d quanto de ser \u201cca\u00e7ador\u201d. As fronteiras se borram, no campo ampliado dessas escritas que \u201cp\u00f5em em xeque\u201d a ideia de um \u201ceu\u201d apenas. Fazemos parte de um todo; por meio de cada personagem e eu-l\u00edrico, \u201catravessamos as grandes espirais\u201d hilstianas.<\/p>\n<p>Partindo da ideia de \u201cdesnudamento da escrita\u201d, com a crueza da voz urgente de Hilda Hilst, que diz ao leitor para olh\u00e1-la com menos altivez e com mais aten\u00e7\u00e3o, posso realmente sentir essa outra vida l\u00edquida, se descortinando na poesia, desentranhada, em di\u00e1logo com a fome de viver em presen\u00e7a, entre texturas, palavras, l\u00ednguas e aromas. Sua trama po\u00e9tica guarda cantos e desencantos, de eros em movimento e questionamento, nos diferentes estados do eu-l\u00edrico. Por isso, me vejo envolvida e dialogando com sua escrita, principalmente com meus poemas \u201cRecome\u00e7o port\u00e1til ou deriva\u00e7\u00e3o kintsugi\u201d e \u201cSim\u201d, imersos nessas \u201cgrandes espirais\u201d do desejo de renova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Se voc\u00ea pudesse escolher um lugar ou ambiente que inspirasse um novo conjunto de poemas, qual seria e por qu\u00ea? Voc\u00ea j\u00e1 teve alguma experi\u00eancia que tenha desencadeado uma onda de criatividade em sua escrita?<\/strong><\/p>\n<p>Praia, provavelmente, seria a op\u00e7\u00e3o que escolheria. Geralmente, a onda de criatividade ocorre quando menos esperamos. E assim foi, para mim, em momentos tanto de alegria quanto de tristeza. Principalmente no momento posterior \u00e0 pandemia, quando estava retomando \u00e0 vida social, mas vivenciava o luto antecipat\u00f3rio, por conta do agravamento da sa\u00fade de m\u00e3e&#8230; A criatividade, de forma intensa, substancial, foi quando eu acordava na poltrona do hospital, olhava para o c\u00e9u, t\u00e3o lindo, logo que amanhecia, e via aquela aurora t\u00e3o peculiar numa janela lateral&#8230; Entre as cores rosa e lil\u00e1s. Por quest\u00f5es de minutos, as nuvens, de fato, estavam l\u00e1, convidando todos para uma experi\u00eancia de encantamento, de esperan\u00e7a, mesmo naquele espa\u00e7o (infelizmente de dor, de forte desencanto). Lembro de eu ter dito algo do c\u00e9u para ela, al\u00e9m do registro que guardei em foto. E um poema, acabei produzindo, durante aquela experi\u00eancia luminosa, de um dia nascendo (\u201ct\u00e3o inaugural\u201d) \u2013 que invadia a vis\u00e3o, irrompendo em tudo.<\/p>\n<p>Os momentos falam por eles mesmos, por isso, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o simples de verbalizar, mas os cen\u00e1rios s\u00e3o os mais variados, conforme vivemos \u201ccom o corpo no mundo\u201d, e as inspira\u00e7\u00f5es se entrecruzam, literalmente pelos movimentos no cotidiano, inspirando, transpirando, sentindo, por vezes, \u00e0 flor da pele o \u201cmist\u00e9rio do planeta\u201d. Neste \u201cjogo de cintura\u201d e originalidade de ser quem se quer ser, t\u00e3o poeticamente presentes, na m\u00fasica dos Novos Baianos.<\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 o significado da intimidade em sua poesia?<\/strong><\/p>\n<p>Ela \u00e9 uma necessidade de partilha de tudo aquilo que h\u00e1 de peculiar, especial e sens\u00edvel entre os seres vivos. Pelas multiplicidades sensoriais que as palavras guardam. Seja por meio do del\u00edrio ou da consci\u00eancia, ela vive pelos desdobramentos de uma for\u00e7a \u201cparticular\u201d exteriorizada; nesta semeadura verbal, n\u00e3o se ignora as evid\u00eancias da natureza da linguagem e das origens dos sentidos na pele. A reinven\u00e7\u00e3o da poesia vem por esse fator de intimidade, por querer ser c\u00famplice desse mist\u00e9rio, entre as perdas e os ganhos do caminho. Como dizia Henri Michaux, \u201ctodo tra\u00e7o \u00e9 uma cicatriz\u201d. E, assim, justamente para mim, a comunh\u00e3o pela qual a poesia anseia nunca cessa de ser convocada em n\u00f3s, atrav\u00e9s um olhar mais aprofundado e contemplativo, pelo tra\u00e7o que delineamos continuamente no pensamento, simbolizando a express\u00e3o do nosso \u00edntimo estado no papel, no mundo.<\/p>\n<p>Portanto, a intimidade \u00e9 tudo aquilo que deseja reaprender a comunica\u00e7\u00e3o com a vida. Em sintonia com a fil\u00f3sofa Anne Dufourmantelle, eu diria que esta palavra integra as \u201cPot\u00eancias da suavidade\u201d. Aquele que experimenta o n\u00e3o saber e o saber num conjunto, se aproxima desse \u00edntimo, se familiarizando com o desconhecido. A intimidade n\u00e3o \u00e9 exatamente o que se guarda, mas o que se exp\u00f5e principalmente, nas escolhas, na linguagem. \u00c9 como querer estender uma rede, torcendo pelo melhor cen\u00e1rio poss\u00edvel, e fazendo-se poss\u00edvel em seu ritmo pr\u00f3prio. Um misto de humildade com animalidade. Ela vive, aflora quando o tempo po\u00e9tico e a voz do \u00e2mago dialogam entre si, com o desejo de participa\u00e7\u00e3o cont\u00ednua entre outros seres; ela \u00e9 o que escapa, mas o que tamb\u00e9m se resgata, por seu desejo de organicidade sincera.<\/p>\n<p><strong>Como Luciana Moraes se descobriu escritora?<\/strong><\/p>\n<p>Para mim, a escrita funciona como um meio de revis\u00e3o cr\u00edtica da vida, um trajeto em que se tateia objetos conhecidos e desconhecidos, entre a mem\u00f3ria e a imagina\u00e7\u00e3o, com o desejo sinest\u00e9sico do olhar. Como uma recorda\u00e7\u00e3o das palavras m\u00e1gicas que se embrenham na nossa eterna casa de inf\u00e2ncia e trazem algo novo para o presente, na leitura em presentifica\u00e7\u00e3o ou transfigura\u00e7\u00e3o do que vivemos. H\u00e1 muitas hist\u00f3rias na passagem do cotidiano, vibra\u00e7\u00f5es no corpo que transita entre as possibilidades de apreender as muitas identidades sociais, incorporando-as posteriormente, sentindo-as nas vielas do poema.<\/p>\n<p>Desde pequena, quando comecei a pensar sobre a tentativa de recriar minha hist\u00f3ria (talvez 10 anos), a partir de algum inc\u00f4modo, busquei inventar di\u00e1logos com realidade, com a natureza, ao meu modo, com di\u00e1rios por meio de anota\u00e7\u00f5es em caderninhos ou peda\u00e7os de papel. Era mais uma esp\u00e9cie de cataloga\u00e7\u00e3o do que ocorrera no dia. Mesmo assim, a escrita da poesia j\u00e1 existia antes, de um modo intrigante, pelo estranhamento nos pensamentos, diante de situa\u00e7\u00f5es di\u00e1rias; e ela foi algo que veio com o tempo, de forma mais concreta com a observa\u00e7\u00e3o dos momentos dos dias, mas tamb\u00e9m pelas descobertas com grupos de escritores, presencialmente e online. Por isso, considero que comecei a escrever mesmo, reconhecendo melhor a minha voz, me definindo mais como autora, em 2016, com 23 anos.<\/p>\n<p><strong>Fale-me um pouco sobre sua forma\u00e7\u00e3o profissional\/acad\u00eamica.<\/strong><\/p>\n<p>Em 2021 finalizei minha gradua\u00e7\u00e3o em Letras (portugu\u00eas-literatura) pela Unirio (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro), um espa\u00e7o que ampliou bastante meu olhar cr\u00edtico, provocando em mim v\u00e1rias reflex\u00f5es sobre a vida e as artes. Recorrentemente, em cada trajeto de sa\u00edda e chegada na Urca (bairro carioca onde se situa a universidade), havia um desejo de transfigura\u00e7\u00e3o da minha hist\u00f3ria pela linguagem. Tanto pelos desafios particulares, durante a \u00e9poca de estudo, quanto pela pr\u00f3pria vontade de rever conceitos e produzir algo novo, com uma viv\u00eancia liter\u00e1ria crescente.<\/p>\n<p>Revis\u00e3o e tradu\u00e7\u00e3o eram os caminhos que eu desejava, at\u00e9 pelo momento de lockdown pand\u00eamico em que viv\u00edamos. Eu mantive minha inten\u00e7\u00e3o de viver mais o universo liter\u00e1rio, nas minhas possibilidades de intersec\u00e7\u00e3o dos conte\u00fados e abordagens com novos grupos, ap\u00f3s minha experi\u00eancia acad\u00eamica. E assim, persigo novas oportunidades com a \u201cpalavra-corpo\u201d traduzindo sensa\u00e7\u00f5es e po\u00e9ticas, por meio de estudos nas \u00e1reas da literatura, do audiovisual e da performance.<\/p>\n<p><strong>Como surgiu seu primeiro livro, que t\u00e3o intimamente dialoga com as artes?<\/strong><\/p>\n<p>O primeiro livro foi sendo maturado durante o processo de enclausuramento da pandemia, mas vale ressaltar que, um ano antes, eu j\u00e1 tencionava criar um projeto com poemas de di\u00e1logo ecfr\u00e1stico, inspirada numa disciplina da faculdade: \u201cdi\u00e1logos interart\u00edsticos\u201d. A palavra \u201cecfrase\u201d deriva do grego \u201cekphrasis\u201d, que significa descri\u00e7\u00e3o. Indo na contram\u00e3o da doutrina horaciana do \u201cUt pictura poiesis\u201d (\u201co poema \u00e9 como um quadro\u201d), na qual justamente est\u00e1 inserida a ideia de descri\u00e7\u00e3o pela mimesis, eu deixo meu exerc\u00edcio po\u00e9tico estar entre a descri\u00e7\u00e3o do vis\u00edvel e do invis\u00edvel, como quem segue numa corpografia do entretempo, no intuito de ressignifica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Quatro palavras-obsess\u00f5es do meu fazer po\u00e9tico s\u00e3o: tempo, mem\u00f3ria, corpo e voz. Elas s\u00e3o constantemente revisitadas, por meio de uma autocr\u00edtica que repensa conceitos pela experi\u00eancia e experimenta\u00e7\u00e3o (tens\u00e3o dos sentidos e interpreta\u00e7\u00f5es). Venho desenvolvendo \u201ctradu\u00e7\u00f5es intersemi\u00f3ticas\u201d\/\u201cdi\u00e1logos ecfr\u00e1sticos\u201d h\u00e1 alguns anos. Como uma pintura verbal que pode se associar a diferentes formatos visuais, pela dan\u00e7a do pensamento: m\u00e3os que s\u00e3o flores, fios de cabelos como linhas de esta\u00e7\u00f5es subterr\u00e2neas, ritmos que s\u00e3o passos nas ruas, p\u00e1ssaros e constela\u00e7\u00f5es que giram nos olhos etc.<\/p>\n<p>Procuro os caminhos da escrita como a atmosfera clariceana de Um sopro de vida: \u201cIsto n\u00e3o \u00e9 um lamento, \u00e9 um grito de ave de rapina\u201d. \u00c9 este desejo de um ato dial\u00f3gico, tecendo uma escritura de um tempo com outro, no sentido de transgredir as representa\u00e7\u00f5es do mundo que escondem o mal-estar cristalizado, para provocar uma dissolu\u00e7\u00e3o dos padr\u00f5es de linguagem. O \u201cgauche\u201d de Drummond \u00e9 uma \u00f3tima refer\u00eancia que envolve o meu olhar autoral, esse estado do ser que se move na escrita compreendendo-nos como \u201cbichos da terra\u201d, na busca pela \u201cinsuspeitada alegria\u201d no poss\u00edvel \u201cacorde do violetempo\u201d.<\/p>\n<p>A escrita funciona no livro como uma revis\u00e3o cr\u00edtica da vida, um trajeto em que se tateia objetos conhecidos e desconhecidos, entre a mem\u00f3ria e a imagina\u00e7\u00e3o, com as artes visuais e a sinestesia no olhar. Tateio o que est\u00e1 por tr\u00e1s do \u201cObjeto gritante\u201d clariceano (uma das vers\u00f5es anteriores da obra \u201c\u00c1gua viva\u201d. Como Bachelard (em \u201cA po\u00e9tica do espa\u00e7o\u201d) analisa a po\u00e9tica associativa de \u201cIluminuras\u201d, de Rimbaud:<\/p>\n<p>\u201cQuando damos aos objetos a amizade que conv\u00e9m, n\u00e3o abrimos mais um arm\u00e1rio sem estremecer um pouco. Sob sua madeira roxa, o arm\u00e1rio \u00e9 uma am\u00eandoa branca. Abri-lo \u00e9 viver um acontecimento da brancura.\u201d<\/p>\n<p>Esta permanente busca por um \u201cprinc\u00edpio de mundo\u201d em mim, como um \u201calvo grito de rapina\u201d, parece estar em sintonia com o que tropicalista Waly Salom\u00e3o tamb\u00e9m dizia: \u201ctenho fome de tudo que n\u00e3o sou\u201d. S\u00e3o muitas as hist\u00f3rias, na passagem do cotidiano, e as possibilidades de apreender suas identidades sociais fazem parte do nosso aprendizado po\u00e9tico.<\/p>\n<p>Percebo que \u201cTentei chegar aqui com estas m\u00e3os\u201d foi uma \u201ctravessia interm\u00eddias\u201d, pelo deslocamento do olhar, imerso nos instantes do escrever-pintar clariceano, na ideia de metapicturalidade (imagens de obras art\u00edsticas ou outras imagens em presen\u00e7a, por um efeito de descri\u00e7\u00e3o pictural), a partir de minha leitura de \u201c\u00c1gua viva\u201d. Os textos de Clarice possuem diferentes estados, identidades, e de modo semelhante, meu livro assume modos variados de estar no mundo (entre o ser animal, vegetal, humano, inumano), em di\u00e1logo com os dias que passam. Trato de questionamentos similares ao conto \u201cO ovo e a galinha\u201d e \u00e0 obra \u201c\u00c1gua viva\u201d, por querer a captura da sombra por tr\u00e1s das palavras e objetos, deixando os significados mais fluidos e subjetivos.<\/p>\n<p>Se eu pensar nas provoca\u00e7\u00f5es incendi\u00e1rias de \u201cManchar a mem\u00f3ria do fogo\u201d, de Raquel Gaio (que me moveram na confec\u00e7\u00e3o do meu livro, nas possibilidades de magnetizar e costurar ideias de poemas d\u00edspares\/semelhantes \u00e0s obras visuais que selecionei para criar o di\u00e1logo ecfr\u00e1stico), \u00e9 poss\u00edvel lembrar que seu livro nos faz deslocar o olhar a todo momento, como se atravess\u00e1ssemos o animal em n\u00f3s, e segu\u00edssemos com ele. Na perspectiva po\u00e9tica de um deus fragment\u00e1rio, multiplicado num espelho \u00e0s avessas, com relampejos em trajetos sem demarca\u00e7\u00f5es claras, pelos cap\u00edtulos da vida, tocando com o corpo e a voz, muitos aromas e texturas das l\u00ednguas de fogo de nossa origem. Sem pudor, fazendo delas a morada na palavra, eu tamb\u00e9m persisto no movimento de adentrar as chagas de nossa hist\u00f3ria individual e coletiva, em diferentes prismas. Assim, vamos habitando o caos da linguagem f\u00eamea, com toda a escurid\u00e3o que movimenta nossos sentidos guardando saberes sutis que lutam pela n\u00e3o estagna\u00e7\u00e3o, diante do absurdo tempo em que vivemos.<\/p>\n<p>Na contracorrente do tempo linear ocidental, busquei conhecer um pouco mais as l\u00ednguas do tupi, yorub\u00e1 e maxacali, me aliando aos seus tempos espiralados. \u201cTapuat\u00f3\u201d, por exemplo, presente num poema, significa descobrir. Minha escrita tende a ser essa busca por novos itiner\u00e1rios e horizontes, diante de nossa sociedade fraturada. \u201cTentei chegar\u201d \u00e9 a reescrita po\u00e9tica em diferentes vers\u00f5es de si mesma; \u00e1gua-viva que se regenera entre \u201cpresen\u00e7as-aus\u00eancias\u201d e \u201cpaisagens sonoras\u201d.<\/p>\n<p><strong>Qual foi a inspira\u00e7\u00e3o para dar unidade aos poemas que comp\u00f5em seu segundo livro?<\/strong><\/p>\n<p>A poesia, para mim, reflete acerca dos humores e rumores de cada tempo, de cada \u00e9poca, n\u00e3o como uma interpreta\u00e7\u00e3o decisiva dos fatos. Poesia \u00e9 composi\u00e7\u00e3o oposta \u00e0 doen\u00e7a, pois cuida de um outro estado mental, do inevit\u00e1vel ato de liberdade do pensamento, do rompante com um \u201ceu\u201d apenas, com o prazer e o desprazer, funcionando em cada momento em que se elabora novas imagens e experi\u00eancias com a realidade, dialogando, desconstruindo e reconstruindo a narrativa, imersa numa opini\u00e3o aut\u00f4noma, diversificada em associa\u00e7\u00f5es cr\u00edticas. Como a colet\u00e2nea \u201cEscrever\u201d, de Marguerite Duras, a linguagem escrita se abriga em muitas conex\u00f5es, como um estado de pulsar no \u201ccora\u00e7\u00e3o da casa\u201d, naquilo que h\u00e1 de sangu\u00edneo, nas aproxima\u00e7\u00f5es (das mais sutis \u00e0s mais gritantes) do estado de aten\u00e7\u00e3o aos acontecimentos da vida. Como \u00e9 percept\u00edvel em seus ensaios, a fus\u00e3o da pot\u00eancia existente na solid\u00e3o com outras formas de ver o amor, entre a sensibilidade e a viol\u00eancia, na linguagem viva que compomos, seja junto aos outros, seja tamb\u00e9m quando sozinhos (quando nos permitimos tocar no desconhecido, defendido por Duras).<\/p>\n<p>Assim, persigo em \u201cflor de sangue\u201d o sublime do subliminar, a beleza do que \u00e9 simples, como o andarilho, no \u00faltimo t\u00f3pico de Nietzsche em \u201cHumano, demasiado humano, envolvido por seus caminhos reflexivos na Hist\u00f3ria, no sentido de viver uma \u201cfilosofia da manh\u00e3\u201d, ou seja, viver sempre aquilo que guarda \u201ca il\u00f3gica rela\u00e7\u00e3o fundamental com todas as coisas\u201d.<\/p>\n<p>Os seres autotr\u00f3ficos, as plantas, nos ensinam sobre a exist\u00eancia poss\u00edvel a partir do pr\u00f3prio alimento que comp\u00f5em. Desse modo, me inspiro na ideia de autopoiese: \u201ccriar a si mesmo\u201d, pela etimologia, e entendida por Humberto Maturana e Francisco Varela, neurobi\u00f3logos e pesquisadores, como uma opera\u00e7\u00e3o cognitiva constru\u00edda social e comunicativamente. A \u201cflor de sangue\u201d, assim como muitos livros de poesia, literatura, obras art\u00edsticas, v\u00eam como um fruto gerado por minhas inquieta\u00e7\u00f5es e sonhos. A realidade que existe diante de n\u00f3s e as reflex\u00f5es a partir dela nos desconstroem e reconstroem, em movimento, como uma dan\u00e7a-ritual, pelo consciente rito em nossos dias.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, tamb\u00e9m me interesso pela escrita peculiar e ir\u00f4nica de Robert Walser, tendo dedicado a primeira se\u00e7\u00e3o do livro a ele. E com leituras de livros como \u201cOni\u00e1: um lugar cintilante\u201d, de Vicente Franz Cecim, \u00e9 poss\u00edvel pensar e viver uma poesia, pulsando na complexidade e suavidade , que se alarga numa dimens\u00e3o para al\u00e9m do vis\u00edvel. Com seu territ\u00f3rio al\u00e9m-Amaz\u00f4nico, do \u201cAndara, o livro invis\u00edvel\u201d, na experi\u00eancia de sua caminhada na natureza, e frente ao desconhecido de tudo. De modo semelhante me vejo neste \u201cespa\u00e7o-entre\u201d, em outras linguagens a serem descobertas, como as serpentes entranhadas na terra e na selva; o espanto do ser em cada espa\u00e7o, na escuta dos outros seres, a roda de samsara, os ouroboros, desde os prim\u00f3rdios das narrativas, como que nos questionando sobre as possibilidades de uma vida que se manifeste mais pelo ato de agrega\u00e7\u00e3o do que desagrega\u00e7\u00e3o. Um mundo de signos e significados que prefere dar reformula\u00e7\u00f5es po\u00e9ticas \u00e0 vida, para que n\u00e3o vivenciemos apenas o relato jornal\u00edstico dos acontecimentos.<\/p>\n<p>Emanuelle Coccia, nos exp\u00f5e uma importante quest\u00e3o: a casa onde habitamos tamb\u00e9m nos habita, com toda particularidade que h\u00e1 em cada \u201cobjeto-sujeito\u201d e pessoas conosco. Existem muitas linguagens, personalidades, universos que se procriam numa morada, e por isso, \u00e9 preciso nos atentar para o modo como criamos nossos h\u00e1bitos, como escolhemos ou n\u00e3o escolhemos conscientes a nossa administra\u00e7\u00e3o de energia (seja pela comida ou pela intera\u00e7\u00e3o com cada ser). A linguagem que performamos vai moldando o nosso \u201chabitat\u201d, ou seja, a conex\u00e3o ou a desconex\u00e3o com o nosso interior vai definindo o que \u00e9 a linguagem do \u201cmorar e do ser-morada\u201d. A energia continua se propagando enquanto estamos vivos e enquanto sentimos o que h\u00e1 nessa interrela\u00e7\u00e3o, ou ainda, ela existe, mesmo que possamos n\u00e3o a sentir em alguns momentos. Contudo, o pensamento sempre atravessa a rede neuronal do c\u00e9rebro e vibra de diferentes modos pelas c\u00e9lulas do corpo todo. O corpo se \u201cpensa-sente\u201d pelo movimento, se reconhece enquanto h\u00e1 presen\u00e7a, mesmo que \u201cmicropresen\u00e7as\u201d. Isso tudo tende a desembocar, naturalmente, na<br \/>\nescrita.<\/p>\n<p>Em di\u00e1logo com Heidegger e Coccia, a \u201cFlor de sangue\u201d surge desse desejo de reinven\u00e7\u00e3o, de participar da totalidade do mundo, como uma viagem que aflora em nosso olhar. A flor que n\u00e3o \u00e9 ornamento, que conhece as outras virtudes, como est\u00e1 na poesia de Jo\u00e3o Cabral; uma labuta interna, na lama, nas fezes. \u00c9 preciso adubar a vida. Como quem deixa tocar um tape, gravador de tape que jamais foi usado, do ano de 1984, e deseja habitar em comunh\u00e3o com a Hist\u00f3ria, pela comunica\u00e7\u00e3o e surpresa.<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s da ideia de morada da linguagem, interligando-se aos autores Emanuele Coccia e Ailton Krenak, \u00e9 preciso pensar na palavra como um alimento, mas tamb\u00e9m sujeito-morada nossa, na medida em que vivenciamos sua energia em n\u00f3s, ou para al\u00e9m de n\u00f3s. E ingerimos a vida, n\u00e3o s\u00f3 com as rela\u00e7\u00f5es humanas, mas em cada parcela da morada que desvendamos em nossa tessitura de linguagem. O sil\u00eancio tamb\u00e9m diz muito. Entre o que n\u00e3o h\u00e1 e o que poderia haver. As energias poderiam saltar para uma performance em como\u00e7\u00e3o. Qual? Como? Vivem na pergunta, pelos poros.<\/p>\n<p>Naquilo que se comove pelo movimento, naquilo que traz semente e planta. Planta. \u00c0s vezes, nas micropresen\u00e7as, podemos viver essa como\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Com o \u201cmar-rom\u201d que perpassa \u201cFlor de sangue\u201d, buscando uma ritual\u00edstica que retumba independente de n\u00f3s, livremente na morada da minha linguagem, eu dedico a obra \u00e0 minha m\u00e3e, a Nina Simone tamb\u00e9m, e a tantas outras mulheres corajosas que viveram no limiar, nos espa\u00e7os-entre, no poss\u00edvel e no imposs\u00edvel, frente \u00e0s diferentes adversidades e ao c\u00e2ncer, e emanaram o calor de uma voz que dan\u00e7a, por provir do sol, das for\u00e7as antag\u00f4nicas da cria\u00e7\u00e3o \u201cmar-rom\u201d, intracorp\u00f3rea e extracorp\u00f3rea.<\/p>\n<p>A \u201cflor de sangue\u201d, que realmente existe, \u00e9 uma planta que serve para muitos tratamentos de sa\u00fade, como hidropisia e feridas mal cicatrizadas.<\/p>\n<p>No entanto, pelo que \u00e9 dito, faz-se necess\u00e1rio alguns cuidados com o bulbo, uma vez que ele cont\u00e9m subst\u00e2ncias nocivas, e pode provocar a morte se for manuseado inadequadamente. Desse modo, com a ideia de estagna\u00e7\u00e3o e reden\u00e7\u00e3o, al\u00edvio e aniquila\u00e7\u00e3o, vejo a simbologia no sangue, nas flores e nas m\u00e3os, que pretendi colocar nesta pequena obra.<\/p>\n<p>Ela est\u00e1 em sintonia com as reflex\u00f5es de Deleuze e Guattari sobre o \u201cCorpo sem \u00f3rg\u00e3os\u201d artaudiano, na perspectiva da desterritorializa\u00e7\u00e3o do corpo. Al\u00e9m da vis\u00e3o de \u201cheterotopia\u201d foucaultiana \u2013 a flor de sangue, para mim, faz parte desses espa\u00e7os materiais e subjetivos que n\u00e3o se enquadram no status quo, normas sociais do autoritarismo. Ela vive no embrion\u00e1rio, no que se reergue, pelas cinzas, pelo adubo, pelas m\u00e3os que cuidam de um novo espa\u00e7o. A neurodiverg\u00eancia sa\u00fada a flor que carregamos dentro de n\u00f3s.<\/p>\n<p><strong>Tem novos lan\u00e7amentos ou atividades em vista?<\/strong><\/p>\n<p>Haver\u00e1 um evento de bate-papo sobre autismo e mulheres, onde eu, Betine Daniel e outras poss\u00edveis autoras estaremos tamb\u00e9m com livros de poesia, para um debate final (\u201cencontro com escritoras\u201d, na Casa Sebo 11, em Laranjeiras, RJ, no in\u00edcio de 2025).<\/p>\n<p>Futuramente, penso em uma plaquete relacionada a um elemento da natureza que vem me instigando. Outra plaquete, com um projeto de tradu\u00e7\u00e3o no qual tenho pensado. Uma poss\u00edvel antologia neurodivergente por vir, tamb\u00e9m, em sintonia com algumas autoras interessadas.<\/p>\n<p>Em suma, eu gostaria de pensar e pesquisar mais sobre as possibilidades de desconstru\u00e7\u00e3o das po\u00e9ticas neurodivergentes, sejam elas produzidas em outros formatos de livros\/exposi\u00e7\u00f5es de arte\/multim\u00eddias\/centros culturais, sejam elas presentes no \u00e2mbito da dan\u00e7a\/performance.<\/p>\n<p>Aproveitando que vem surgindo mais oportunidade para a voz das mulheres, al\u00e9m dos movimentos sociais que se interligam a n\u00f3s.<\/p>\n<p><strong>Como se trabalha no campo da literatura e se pensa acerca da aten\u00e7\u00e3o para com a escrita, partindo da ideia do \u201cautismo leve\u201d, em sua perspectiva?<\/strong><\/p>\n<p>Sob esse aspecto, a aten\u00e7\u00e3o para com a escrita significa, para mim, sempre querer estar viva para aprender com as sensa\u00e7\u00f5es e tens\u00f5es do dia a dia, ajustando o olhar ao redor e ao mundo interior, produzindo novos sentidos, recobrando os sentidos, com sonoridades po\u00e9ticas imaginadas: retirando a \u201catmosfera do embotamento\u201d. Pois poder aflorar a voz e aperfei\u00e7oar a linguagem \u00e9 como andar de bicicleta. Com tens\u00e3o e distens\u00e3o nos mexemos, enquanto o redemoinho circunda, sem sabermos o que vir\u00e1. Mas a voz permanece e se faz valer.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luciana Moraes \u00e9 poeta carioca, autora dos livros \u201cTentei chegar aqui com estas m\u00e3os\u201d (2022, Ed. Isto Edi\u00e7\u00f5es) e \u201cFlor de sangue\u201d (2024, Ed. Libertinagem). Ela j\u00e1 apareceu aqui em Notibras, com seus belos e vibrantes poemas. 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