{"id":344228,"date":"2024-12-30T01:45:20","date_gmt":"2024-12-30T04:45:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=344228"},"modified":"2024-12-30T07:51:16","modified_gmt":"2024-12-30T10:51:16","slug":"ze-peinha-e-as-frutas-roubadas-de-paulo-freire-ariano-suassuna-e-do-doutor-luiz-de-franca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/ze-peinha-e-as-frutas-roubadas-de-paulo-freire-ariano-suassuna-e-do-doutor-luiz-de-franca\/","title":{"rendered":"Z\u00e9 Peinha e as frutas roubadas de Paulo Freire, Ariano Suassuna e do doutor Luiz de Fran\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p>No bairro de Casa Forte dos anos 60, no Recife, entre ruas sombreadas por mangueiras centen\u00e1rias e muros que escondiam segredos de quintais, viveu Z\u00e9 Peinha, um menino franzino e travesso, filho do respeit\u00e1vel Seu Geraldo. Tinha o olhar vivo, de quem \u00e0s vezes via mais do que devia, e a agilidade de um gato escorregadio, sempre pronto para a pr\u00f3xima travessura.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia muro alto o bastante para conter sua inquieta curiosidade. O alvo favorito de suas aventuras eram as mangas gra\u00fadas do quintal do vizinho, um velho amigo de seu pai. Eram mangas que, segundo ele, tinham um gosto especial, temperadas pelo risco e pela adrenalina de serem colhidas em segredo. &#8220;A manga roubada \u00e9 sempre mais doce&#8221;, dizia ele, com a sabedoria de seus escassos oito anos.<\/p>\n<p>Certa vez, enquanto saboreava, furtivo, uma dessas mangas furtadas, foi flagrado por ningu\u00e9m menos que o grande Paulo Freire, o vizinho-fil\u00f3sofo que costumava passar horas refletindo sob a sombra daquelas mesmas \u00e1rvores.<\/p>\n<p>\u2014 Menino, por que voc\u00ea n\u00e3o come as mangas do seu quintal? \u2014 indagou, com aquele tom sereno que misturava pedagogia e curiosidade.<\/p>\n<p>Z\u00e9 Peinha, sem pestanejar, respondeu: \u2014 Porque as do vizinho t\u00eam o recheio da aventura.<\/p>\n<p>Paulo Freire riu, como quem aprende algo novo, e deixou o menino seguir com seu trof\u00e9u. N\u00e3o seria ele a cortar as asas de uma inf\u00e2ncia t\u00e3o criativa.<\/p>\n<p>Em outra oportunidade, foi a vez de Ariano Suassuna peg\u00e1-lo no flagra. O escritor, sempre atento aos detalhes da vida cotidiana, avistou o garoto pendurado no muro e decidiu intervir:<\/p>\n<p>\u2014 Z\u00e9 Peinha, se eu te der um pux\u00e3o de orelha, vai doer mais ou menos que o do teu pai? \u2014 perguntou, com um sorriso maroto, mas de tom firme.<\/p>\n<p>O menino, surpreso e sem resposta pronta, soltou a manga, escorregou do muro e saiu em disparada, jurando nunca mais invadir aquele quintal. Mas promessas de crian\u00e7a s\u00e3o como folhas ao vento: mudam de dire\u00e7\u00e3o ao menor sinal de tenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Depois daquele dia, Z\u00e9 Peinha decidiu moderar suas aventuras. Passou a colher apenas as carambolas que se atreviam a ultrapassar os limites do quintal do doutor Luiz de Fran\u00e7a, pendendo para a rua como quem oferecia um convite \u00e0 transgress\u00e3o. Eram travessuras mais discretas, mas ainda assim cheias de sabor.<\/p>\n<p>Hoje, Z\u00e9 Peinha \u00e9 um homem de cabelos prateados, que, saudosista, vez ou outra volta a andar pelas ruas de Casa Forte. Quando passa pelos velhos muros de sua inf\u00e2ncia, sente o cora\u00e7\u00e3o aquecido pelas lembran\u00e7as. O gosto das mangas roubadas ainda parece mais doce em sua mem\u00f3ria, temperado pelo encanto de um tempo em que a vida era simples, e os muros do mundo, baixos o suficiente para serem superados com um salto.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No bairro de Casa Forte dos anos 60, no Recife, entre ruas sombreadas por mangueiras centen\u00e1rias e muros que escondiam segredos de quintais, viveu Z\u00e9 Peinha, um menino franzino e travesso, filho do respeit\u00e1vel Seu Geraldo. 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