{"id":344559,"date":"2025-01-02T05:12:58","date_gmt":"2025-01-02T08:12:58","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=344559"},"modified":"2025-01-02T06:30:17","modified_gmt":"2025-01-02T09:30:17","slug":"irmao-dado-vidas-distintas-ate-a-descoberta-que-a-morte-e-branca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/irmao-dado-vidas-distintas-ate-a-descoberta-que-a-morte-e-branca\/","title":{"rendered":"Irm\u00e3o dado, vidas distintas, at\u00e9 a descoberta que a morte \u00e9 branca"},"content":{"rendered":"<p><strong>Akin<\/strong><br \/>\nAo chegar em casa, a m\u00e3e o abra\u00e7ou. Um abra\u00e7o longo, apertado e molhado pelas l\u00e1grimas que escorreram dos olhos de ambos. J\u00e1 era noite. Uma sexta-feira, 10 de maio de 2019. Domingo, dia 12, Dia das M\u00e3es, passariam juntos, o que n\u00e3o acontecia h\u00e1 dois anos. Tempo que esteve confinado na Unidade de Interna\u00e7\u00e3o para menores de Santa Maria. Teve bom comportamento e recebeu o pr\u00eamio, que para ele foi o melhor da vida: passar aquele final de semana com a fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Amava os quatro irm\u00e3os, mas possu\u00eda verdadeira adora\u00e7\u00e3o por Elza. Mulher negra, empregada dom\u00e9stica, diarista, catadora de latinha, lavadeira, cozinheira, faxineira, pai, m\u00e3e, \u00e0s vezes servente de pedreiro e sempre honesta.<\/p>\n<p>Akin levantou-se cedo no s\u00e1bado, decidido a arranjar um bico qualquer. Depois de dois anos, quase tr\u00eas, n\u00e3o podia deixar passar em branco o Dia das M\u00e3es. Provavelmente, aquele vestido florido, que vira a m\u00e3e a cobi\u00e7ar tantas vezes na Loja da Ene, n\u00e3o estava mais \u00e0 venda. E pouco importava, pois j\u00e1 deveria estar fora de moda. Compraria outro ou, quem sabe, uma bijuteria bonita, brilhante, que a m\u00e3e mostraria para as amigas, dizendo orgulhosa que foi seu filho que lhe dera.<\/p>\n<p>Pensou no seu Almeida, dono do lava a jato. Se a procura pelos servi\u00e7os estivesse alta, talvez ele o contratasse para ajudar nas lavagens dos carros. Lembrava-se de que, desde os seis anos, quando ele come\u00e7ou o neg\u00f3cio, simplesmente para ajud\u00e1-lo, o homem permitia que Akin lavasse os tapetes e pneus dos ve\u00edculos. As gorjetas de pouqu\u00edssimos reais invariavelmente levava para a m\u00e3e, que se transformavam em p\u00e3es comprados em uma padaria pr\u00f3xima ao barraco em que moravam.<\/p>\n<p>Seu Almeida sentiu a decep\u00e7\u00e3o estampada no rosto de Akin, quando lhe negou o pedido de trabalho, mas nada podia fazer. A fama de ladr\u00e3o do rapaz havia se espalhado por toda a Santa Maria. Contrat\u00e1-lo poderia espantar os clientes. Al\u00e9m do mais, sua equipe de lavadores estava completa.<\/p>\n<p>No mercadinho, tamb\u00e9m lhe disseram que n\u00e3o precisavam de empacotadores. Ningu\u00e9m tinha grama para cortar ou necessitava de um \u201coreia\u201d para servir de servente nas obras.<\/p>\n<p>De cora\u00e7\u00e3o pesaroso, decepcionado, come\u00e7ou a duvidar que conseguiria comprar o presente para Elza. Passava das 16h e ele, desistindo de encontrar alguma coisa para fazer, resolveu voltar para casa, quando ouviu seu nome ser chamado.<\/p>\n<p>Biriba foi o seu companheiro nos furtos que cometera nas casas do Gama. Cumprimentaram-se, tocando com os antebra\u00e7os e depois as costas das m\u00e3os, um no outro. Akin lhe contou que no dia anterior havia sa\u00eddo do centro de interna\u00e7\u00e3o, das suas desventuras naquele dia, e da frustra\u00e7\u00e3o por n\u00e3o ter dinheiro para comprar o presente do Dia das M\u00e3es para Elza.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o esquenta, mano! \u2013 disse Biriba. \u2013 Vai rolar hoje, na Tenda da UnB, um rock doideira. Os filhinhos de papai v\u00e3o t\u00e1 tudo l\u00e1. J\u00e1 juntei um pessoal a\u00ed. Tamo junto, eu, Figura e mais quatro chegados. \u00c0 noite vamos l\u00e1. Vamos meter as m\u00e1quinas neles e fazer uma arrecada\u00e7\u00e3o. Vai ser um verdadeiro arrast\u00e3o. Num vai ter pol\u00edcia! Os playboy n\u00e3o quer. Se quiser, mano, tu t\u00e1 dentro e garante o presente da mam\u00e3e.<\/p>\n<p><strong>Amir<\/strong><br \/>\nEle sempre se considerou uma pessoa de sorte. Nascido em uma fam\u00edlia pobre, foi adotado com apenas duas semanas de vida. Apesar de nunca ter conhecido seus pais biol\u00f3gicos, sabia que fora agraciado por Deus ao ser adotado, conforme sua m\u00e3e adotiva lhe fez ver. Da m\u00e3e biol\u00f3gica, a \u00fanica coisa que possu\u00eda conhecimento \u00e9 que ela havia lhe dado o nome Amir, por causa de um pr\u00edncipe Sua\u00edli.<\/p>\n<p>No come\u00e7o, principalmente na escola, os colegas estranharam seus pais brancos. Ele, para encerrar conversas, dizia que seu av\u00f4 por parte de pai era negro e sua m\u00e3e branca, o que seus cabelos lisos e longos podiam confirmar, apesar de a pele dele ser escura. Estranhamente e de forma improv\u00e1vel, nunca se sentiu objeto de discrimina\u00e7\u00e3o de quem quer que fosse. Possuidor de um carisma que a todos encantava, sempre estava bem vestido com roupas de grife e cal\u00e7ados de marca, que certamente custavam o sal\u00e1rio mensal de muitos trabalhadores e lhe emprestavam um \u201car de riquinho\u201d.<\/p>\n<p>A esmagadora maioria branca dos seus colegas de sala, pelos col\u00e9gios pagos em que estudou, o respeitavam e o admiravam, pois sempre era um dos primeiros da turma.<\/p>\n<p>Aos doze anos, falava fluentemente o ingl\u00eas e j\u00e1 se virava no franc\u00eas e espanhol. Aos quinze anos, montou sua banda de rock, influenciado pelo Led Zeppelin, Queen e Legi\u00e3o Urbana. Em 2019, ano em que completaria 17 anos, passou no vestibular e ingressou na UnB. Cursaria Direito, mas tinha d\u00favida se realmente era o que queria fazer da vida.<\/p>\n<p>A desembargadora Nat\u00e1lia sempre incentivou e cobrou de Amir o desenvolvimento liter\u00e1rio e o gosto pelas artes, que acabaram por se tornar a grande paix\u00e3o da vida dele. Quando adotou o menino, alguns amigos lhe repreenderam, afirmando que uma mulher branca e na posi\u00e7\u00e3o dela n\u00e3o deveria adotar uma crian\u00e7a negra. Em resposta, a pessoa recebia a seguinte pergunta: \u201cVoc\u00ea \u00e9 Crist\u00e3o?\u201d. Alguns se calavam, percebendo o alcance da argui\u00e7\u00e3o. Outros afirmavam que sim, fazendo com que a magistrada continuasse: \u201cTem certeza?\u201d.<\/p>\n<p>A alegria de Amir naquele s\u00e1bado contagiou os pais, que, de idade avan\u00e7ada, viviam praticamente para o filho. A felicidade dele era b\u00e1lsamo para suas almas. Ficavam a lhe observar na frente do espelho da sala, vestido dos p\u00e9s \u00e0 cabe\u00e7a de preto, o ensaio particular e perform\u00e1tico realizado para sua apresenta\u00e7\u00e3o, que ocorreria \u00e0 noite na UnB. Realmente \u2013 conjecturavam entre si \u2013 o filho possu\u00eda talento, referendado por uma voz maravilhosa e bem colocada. Se quisesse, se tornaria um astro do rock, babavam os \u201cvelhos corujas\u201d.<\/p>\n<p><strong>A festa<\/strong><br \/>\nDuas bandas j\u00e1 haviam se apresentado e agora o espa\u00e7o do palco da Tenda da UnB era dos Malucos do Cerrado, comandados pelo vocalista e guitarrista Amir. A banda era considerada a grande promessa na busca de reviver o majestoso passado do rock brasiliense.<\/p>\n<p>A primeira m\u00fasica apresentada e composta pelo astro do grupo foi uma balada pesada, meio psicod\u00e9lica, chamando a aten\u00e7\u00e3o para a corrup\u00e7\u00e3o e os desmandos dos pol\u00edticos, levando a galera \u00e0 loucura, que dan\u00e7ava e cantava junto com a banda.<\/p>\n<p>A segunda era uma ode ao amor. Falava das estrelas e dos amores perdidos sob elas. Falava de reconquista e esperan\u00e7a. Falava da vida a dois.<\/p>\n<p>A terceira era r\u00e1pida, dan\u00e7ante, enojava-se com a mis\u00e9ria, com a discrimina\u00e7\u00e3o, com o descaso. Amir desfilava a can\u00e7\u00e3o com os olhos fechados, viajando em suas pr\u00f3prias letras e na melodia eletrizante criada por sua banda.<\/p>\n<p>Os membros dos Malucos do Cerrado somente perceberam a confus\u00e3o quando esta fronteirou-se do palco. A Tenda parecia estar sob um terremoto. Os jovens corriam e, principalmente, as garotas gritavam assustadas, \u00e0 beira da histeria. Outras choravam, paralisadas pelo medo. Alguns estavam de bra\u00e7os abertos e levantados para o c\u00e9u. No meio da bagun\u00e7a, ouviram tiros, e muitos se jogaram ao ch\u00e3o. Sorte que eles foram dados para o alto, com o intuito de controlar a multid\u00e3o.<\/p>\n<p>Akin aproxima-se do palco, aponta sua arma para a banda e, dirigindo-se a Amir, empurra-o e pega o microfone. Em seguida, ordena:<\/p>\n<p>\u2013 Todo mundo pro ch\u00e3o sen\u00e3o leva bala!<\/p>\n<p>Os que tentaram fugir deram com a cara nas portas fechadas e controladas pela quadrilha, composta por oito membros. Sem cerim\u00f4nias, os bandidos passaram a recolher os pertences de valor das suas v\u00edtimas.<\/p>\n<p>Amir julga que \u00e9 seu dever intervir e tentar serenar os \u00e2nimos. Vira-se para Akin e pede que tenha calma. Biriba, que tamb\u00e9m j\u00e1 subira ao palco, diz:<\/p>\n<p>\u2013 Cala a boca, bicha imunda!<\/p>\n<p>Entretanto, Amir quer retrucar e ensaia a argumenta\u00e7\u00e3o. Biriba percebe e n\u00e3o gosta. Biriba aponta a arma para Amir, que se paralisa. Biriba observa o rapaz e n\u00e3o v\u00ea medo em sua face. Ent\u00e3o, ele se irrita com aquilo. Biriba puxa o gatilho. A bala se aloja no peito de Amir, que \u00e9 jogado para fora do palco pelo impacto do proj\u00e9til.<\/p>\n<p>Akin grita:<\/p>\n<p>\u2013 Voc\u00ea ficou maluco? N\u00e3o precisava pipocar o rapaz! \u2013 disse, atordoado.<\/p>\n<p>Biriba aponta a arma dele para Akin, que abaixa a sua. Biriba, calmamente, desvia a arma da dire\u00e7\u00e3o de Akin e ordena a retirada. Ele e a quadrilha correm para fora. Akin retorna a si e tamb\u00e9m foge.<\/p>\n<p><strong>Elza<\/strong><br \/>\nH\u00e1 quase dezessete anos, Elza cometeu o ato que mais lhe machucava na vida. E no Dia das M\u00e3es, as dores se tornavam mais fortes e do\u00eda uma dor dolorida \u2013 era assim que ela conseguia descrever \u2013 sufocante, de uma<br \/>\nang\u00fastia que lhe fechava o peito e at\u00e9 a impedia de respirar.<\/p>\n<p>Quando lhe diziam que ela era uma grande mulher, m\u00e3e como poucas, e a admiravam por ser t\u00e3o religiosa, apesar da situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil que sempre viveu, n\u00e3o sabiam eles que ela e Deus n\u00e3o tinham a mesma opini\u00e3o. Pior: conheciam a verdade.<\/p>\n<p>Elza, h\u00e1 quase dezessete anos, trocou o filho mais velho por um sal\u00e1rio m\u00ednimo. Melhor: vendeu o filho mais velho por um sal\u00e1rio que n\u00e3o durou um m\u00eas. A empreitada fora ajustada por sua patroa na \u00e9poca. Am\u00e9rica lhe prop\u00f4s, sem cerim\u00f4nias, o acerto. O dinheiro enviado pela ju\u00edza infecunda estava com ela, contado e recontado. \u00c0 noite, foi at\u00e9 o barraco da empregada. Sorrateiramente, colocaram a caixa de papel\u00e3o com a crian\u00e7a dentro do carro. Apenas uma coisa exigiu: o menino deveria continuar com o mesmo nome, Amir. Queria que seu filho tivesse algo dado por ela. Al\u00e9m de que, o irm\u00e3o de Amir chamava-se Akin. Acreditava que os nomes combinavam, como g\u00eameos.<\/p>\n<p>Elza levantou cedo da cama. O dia, ensolarado, era condizente com aquela data, parecendo que a natureza era part\u00edcipe daquela comemora\u00e7\u00e3o. Talvez o sol fosse filho de algu\u00e9m. Por que n\u00e3o? Tudo n\u00e3o foi criado por Deus?<\/p>\n<p>Os quatro filhos vieram cumpriment\u00e1-la e abra\u00e7\u00e1-la pelo Dia das M\u00e3es. Estranhou a aus\u00eancia de Akin. Antes, percebeu que o rapaz n\u00e3o estava na cama dele. Todavia, seu cora\u00e7\u00e3o logo sossegou. O rapaz, naquele momento,<br \/>\nentrava em casa carregando alguns pacotes. Mostrou a galinha que comprara. Estava depenada, faltando apenas ser cortada e cozida para ser servida no almo\u00e7o. Todos ficaram felizes.<\/p>\n<p>Quando Akin tirou do bolso o pequeno pacote em papel de presente, a m\u00e3e e os irm\u00e3os entreolharam-se surpresos. Prontamente, o bonito cord\u00e3o de prata com a imagem da Virgem Maria passou a enfeitar o pesco\u00e7o e o colo de Elza, que, de tanta felicidade por ter o filho de volta, pelo mimo, e podemos dizer pela galinha, que brevemente seria comida, esqueceu-se de perguntar onde o filho mais velho conseguira o dinheiro\u2026<\/p>\n<p><strong>Nat\u00e1lia<\/strong><br \/>\nEspa\u00e7o e tempo se curvaram sob os seus p\u00e9s, e o universo a reduziu a nada. Era mentira; flores n\u00e3o possu\u00edam perfume. N\u00e3o existia c\u00e9u, apenas a profundeza da imensid\u00e3o, imensur\u00e1vel, esmagadora, atordoante. Os dias nunca tiveram cor, sempre foram noites tenebrosas. O amor? Uma mentira que sempre ca\u00eda por terra. Ah! E os homens? C\u00e3es vis. Vira-latas em busca de qualquer osso atirado. Animais \u00e0 beira da bestialidade, esperando um sinal que lhes permitisse desfilar suas torpezas. Ali, tudo era branco. Esmagadoramente branco. Aventais brancos, sapatos brancos, dentes brancos, macas brancas, len\u00e7\u00f3is brancos. A morte era branca!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Akin Ao chegar em casa, a m\u00e3e o abra\u00e7ou. Um abra\u00e7o longo, apertado e molhado pelas l\u00e1grimas que escorreram dos olhos de ambos. J\u00e1 era noite. Uma sexta-feira, 10 de maio de 2019. Domingo, dia 12, Dia das M\u00e3es, passariam juntos, o que n\u00e3o acontecia h\u00e1 dois anos. 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