{"id":344963,"date":"2025-01-07T09:45:03","date_gmt":"2025-01-07T12:45:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=344963"},"modified":"2025-01-07T10:17:19","modified_gmt":"2025-01-07T13:17:19","slug":"o-belo-palacete-que-resistiu-ao-tempo-ate-virar-um-amontoado-de-lembrancas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/o-belo-palacete-que-resistiu-ao-tempo-ate-virar-um-amontoado-de-lembrancas\/","title":{"rendered":"O belo palacete que resistiu ao tempo at\u00e9 virar um amontoado de lembran\u00e7as"},"content":{"rendered":"<p>No quarteir\u00e3o final da rua, antes de se chegar \u00e0s faldas do morro por sobre o qual se ergue um grande mon\u00f3lito gran\u00edtico, famoso na cidade, estava ele: o palacete.<\/p>\n<p>Situado bem ao centro de um grande terreno, com pequeno aclive no final, muito elegante, delicado, gl\u00f3ria de seu tempo. Nos \u00faltimos anos, estava meio abandonado e relegado a uma mem\u00f3ria que ia se apagar por completo. Inevitavelmente. Pelo menos foi isso que intu\u00ed quando soube, em andan\u00e7as pelos bares do meu bairro, que sua propriet\u00e1ria, \u00fanica herdeira, filha solteira e sozinha, havia procurado algumas imobili\u00e1rias para avali\u00e1-lo.<\/p>\n<p>As laterais do terreno, repletas de \u00e1rvores, haviam dado espa\u00e7o suficiente para que estas crescessem altas e bem grossas. As copas acabaram por tocar o telhado. A certas horas do dia, o penhasco projetava sua sombra. Fez-me, v\u00e1rias vezes, lembrar a descri\u00e7\u00e3o do \u201cAteneu\u201d de Raul Pomp\u00e9ia, guardadas as devidas propor\u00e7\u00f5es por causa do tamanho, situa\u00e7\u00e3o e estilo.<\/p>\n<p>O alinhamento com a rua era guarnecido de muro de pedra e grades em forma de lan\u00e7a retorcida na ponta. No centro do gradil, um caprichoso port\u00e3o, quase em forma do contorno de asas de uma borboleta. \u00c0 esquerda da entrada, a alguns passos desse port\u00e3o, num plano ligeiramente superior e tamb\u00e9m cercado de um gradil decorativo, um torre\u00e3o utiliz\u00e1vel, pois no topo existia uma varanda circundante, guarnecido de janelas e encimado por uma estrutura met\u00e1lica revestida, em seus pain\u00e9is, por pequenas placas de ard\u00f3sia. Nunca imaginei o que haveria ali dentro, nem o vira habitado. Quando garoto, pensava que podia ser um posto de observa\u00e7\u00e3o. Mais tarde, passei a apostar na mera fun\u00e7\u00e3o est\u00e9tica. A passagem de acesso ao torre\u00e3o tinha o piso acabado com antigos ladrilhos hidr\u00e1ulicos, daqueles que foram moda h\u00e1 muitos anos e ainda hoje s\u00e3o artesanalmente fabricados. O padr\u00e3o dos ladrilhos era totalmente art nouveau, e formavam um lindo rendilhado, cheio de detalhes.<\/p>\n<p>Atravessando um jardim, que em seus dias de esplendor devia ser muito mais bonito, chegava-se \u00e0 escada, escalonada em semic\u00edrculos, de acesso \u00e0 varanda do primeiro piso, estendido por toda a fachada da casa, guarnecida por uma balaustrada de cimento com desenhos delicados que receberam apliques ao estilo do restante da obra. Bem no centro da balaustrada e acima, via-se um mascar\u00e3o feminino, bem parecido com esses das fontes Wallace, do Jardim Bot\u00e2nico, com um olhar sereno no infinito, mas de muito maior tamanho.<\/p>\n<p>O piso dessa extensa varanda era revestido de ladrilho hidr\u00e1ulico, com o mesmo delicado desenho do patamar em volta do torre\u00e3o.<\/p>\n<p>Na fachada, v\u00e1rios adornos de estilo ecl\u00e9tico. Causavam repulsa a certos observadores. Estilo franc\u00eas, alien\u00edgena. O genuinamente brasileiro \u00e9 o colonial, com suas janelinhas tortas, parecendo uma estrutura desconjuntada, ou o moderno, cimento armado apequenando o homem. O percurso entre esses dois estilos, no qual se encontrava a casa na minha rua, devia ser desprezado. Preferencialmente derrubado. Mas muitos h\u00e1 que s\u00e3o apaixonados pela est\u00e9tica incomum daqueles anos \u2013 grupo no qual me incluo.<\/p>\n<p>Todas as janelas que miram a rua est\u00e3o fechadas. Noto que algumas, nas laterais, est\u00e3o com as bandeiras para o lado de fora. H\u00e1 bem pouco sinal de vida na casa. \u00c0 esquerda, no fundo do terreno, uma pequena garagem. N\u00e3o sei se foi ali conservado algum autom\u00f3vel antigo, h\u00e1 muito n\u00e3o utilizado. Agu\u00e7o mais ainda minha imagina\u00e7\u00e3o. Em dois pontos diferentes do jardim, bancos de cimento revestidos de caquinhos de lou\u00e7a colorida.<\/p>\n<p>Minha vida de artista irresoluto n\u00e3o permitiria qualquer movimento em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 compra. Imaginei que o pre\u00e7o orbitaria na casa de alguns milh\u00f5es, como vinha ocorrendo toda vez em que os velhos casar\u00f5es do bairro davam lugar a incompreens\u00edveis amontoados de metal, vidro e pedra, umas naturais, outras artificiais para incrementar a fachada. Ainda pensei em me juntar com uma leva de outros artistas. Mas esses, como eu, n\u00e3o tinham dinheiro. Embora um ou outro pudesse nutrir o desejo pela conserva\u00e7\u00e3o da casa e sua posterior transforma\u00e7\u00e3o num ateli\u00ea-habita\u00e7\u00e3o, como j\u00e1 hav\u00edamos cogitado entre uma e outra cerveja. Sem a dureza de ter de brigar diuturnamente na vida para cumprir com a obriga\u00e7\u00e3o do aluguel, tendo, ainda, um lugar s\u00f3 nosso para desenvolver as ideias, ou livrando-nos das casas paternas onde as inspira\u00e7\u00f5es eram interrompidas pelos mais comezinhos problemas \u2013 o que era o meu caso.<\/p>\n<p>Quantas vezes estava a imaginar meus roteiros, dando forma a eles na anima\u00e7\u00e3o em computador, ou em quadrinhos, e minha m\u00e3e abria, sem bater, a porta do meu quarto para perguntar se a cal\u00e7a atr\u00e1s da porta do banheiro era para lavar. Se eu sabia o que tinha acontecido com a filha da Gra\u00e7a, minha prima. Na avalia\u00e7\u00e3o de minha m\u00e3e, a mo\u00e7a n\u00e3o estava dando para boa coisa. Estava eu compondo uma m\u00fasica, quase achando a linha mel\u00f3dica essencial, in\u00e9dita, um verdadeiro divisor de \u00e1guas na MPB e meu pai, chegado da padaria ou da banca de jornais, resolvia dividir comigo os assuntos conversados com o Sr. Ant\u00f4nio ou com o Quel\u00e9, porteiro do edif\u00edcio da tia Lurdes. Sr. Ant\u00f4nio e Quel\u00e9 falavam irremediavelmente de corrup\u00e7\u00e3o na pol\u00edtica, enquanto se gabavam de suas proezas de fiscal aposentado que ganhou toda propina que p\u00f4de na vida, e de zeloso funcion\u00e1rio do condom\u00ednio que vendia o material de limpeza achado em excesso na despensa da garagem&#8230;<\/p>\n<p>Eu, artista, precisava urgentemente de um lugar s\u00f3 para mim. Mas o dinheiro n\u00e3o dava. Ia tendo de submeter minha arte \u00e0 regula\u00e7\u00e3o parental, n\u00e3o podendo ser livre para cantar a qualquer hora do dia ou da noite, pois atrapalharia o sono dos velhos. Sempre tive a impress\u00e3o de que, se pudesse voar solto, qual passarinho, os acessos de inspira\u00e7\u00e3o e realiza\u00e7\u00e3o viriam muito mais constantes, regulares, e enfim poderia viver de minha arte. Na qual, ali\u00e1s, meus pais nunca acreditaram.<\/p>\n<p>Vida que segue&#8230;<\/p>\n<p>Desde que nasci, morei no mesmo local. Fui gera\u00e7\u00e3o de apartamento. Pr\u00e9dio velho, constru\u00eddo no final dos anos 60, certamente no lugar de um casar\u00e3o ou sobrado comercial de antigas eras. E, quando tomei consci\u00eancia de meu bairro, de minha rua, de minha vizinhan\u00e7a, sempre gastei as tardes andando por ali. Conhecia muitos vizinhos, meus contempor\u00e2neos na escola, nas idas \u00e0 praia, nas festinhas da adolesc\u00eancia. Conhecia tamb\u00e9m os pais de meus contempor\u00e2neos, av\u00f3s, av\u00f4s, e at\u00e9 eventuais primos que ali passavam dias nas f\u00e9rias. Fiz rela\u00e7\u00f5es de amizade, que mantinha at\u00e9 hoje, com muitos deles. Mas uma vizinha era total mist\u00e9rio. Livro trancado \u00e0 minha compreens\u00e3o. Tratava-se da herdeira da fabulosa casa, da qual s\u00f3 conseguira apurar o nome: dona Olga. Desconheci por muito tempo o sobrenome. Depois, colhendo informa\u00e7\u00f5es aqui e ali, pesquisando na Hemeroteca Digital Brasileira, em alguns jornais antigos, not\u00edcias sobre meu bairro e minha rua, fui achando tra\u00e7os de informa\u00e7\u00e3o e soube mais do que meus pais puderam informar. Meus av\u00f3s, daquela gera\u00e7\u00e3o antiga, talvez pudessem elucidar mais, pois sempre foram do bairro tamb\u00e9m. Mas, enquanto foram vivos, eu n\u00e3o tivera o interesse de perguntar.<\/p>\n<p>A dona da casa era Olga Proen\u00e7a de Barros, filha de diplomata.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia, descendente de portugueses que, desde a chegada, se estabeleceram naquele bairro, teve rico com\u00e9rcio, e pelo menos duas gera\u00e7\u00f5es cresceram ali. Dona Olga e a irm\u00e3, L\u00eddia, eram a terceira gera\u00e7\u00e3o. De L\u00eddia, nenhum tra\u00e7o mais. Informei-me com amigos pelos bares. Devia ter morrido h\u00e1 muito tempo, talvez ainda solteira&#8230;<\/p>\n<p>Na adolesc\u00eancia, lembro de ter visto, ainda que de longe, dona Olga. Sempre apressada, nunca acess\u00edvel, vi-a descer do \u00f4nibus um par de vezes, bem perto da casa magn\u00edfica, l\u00e1 entrando rapidamente.<\/p>\n<p>A casa, a julgar por seu estilo, fora constru\u00edda entre os idos de 1910, segundo consegui apurar, em terreno que pertenceu ao av\u00f4 de dona Olga. Uns 20 anos mais tarde, entraram a morar nela os membros daquela pequena fam\u00edlia quase desaparecida: Olga, talvez beb\u00ea de colo ainda, sua irm\u00e3 L\u00eddia, um pouco mais velha, e os pais, Orlando de Barros e Maria da Piedade.<\/p>\n<p>Tudo isso fui reconstituindo em conversas pelo bairro e em investiga\u00e7\u00f5es na imprensa da \u00e9poca. \u201cO Imparcial\u201d, \u201cA Noite\u201d, \u201cCareta\u201d&#8230; uma verdadeira incurs\u00e3o por not\u00edcias de tempos idos. O ineditismo do passado em pleno presente.<\/p>\n<p>Vi o an\u00fancio de falecimento de dona Maria da Piedade, quando mal completara 40 anos de idade. O cortejo f\u00fanebre sa\u00edra da mesma casa, em dire\u00e7\u00e3o ao cemit\u00e9rio de S\u00e3o Jo\u00e3o Batista. Missa de s\u00e9timo dia na Candel\u00e1ria.<\/p>\n<p>L\u00eddia era a ponta solta nesse enredo. N\u00e3o encontrava refer\u00eancias a respeito. Um dia, acessando para outra finalidade os arquivos de uma revista digitalizada, topei de forma acidental com a not\u00edcia: casa-se a filha do ministro Orlando de Barros com \u201cpromissor funcion\u00e1rio do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a\u201d. Lua-de-mel em Paris, viajando em navio a vapor. Fiquei radiante, afinal! Mais elementos no misterioso drama. Ent\u00e3o L\u00eddia chegara \u00e0 vida adulta. Talvez tenham ficado na casa apenas dona Olga e seu pai.<\/p>\n<p>No final dos anos 60, justamente o in\u00edcio da demoli\u00e7\u00e3o impiedosa de v\u00e1rias casas antigas da vizinhan\u00e7a, encontro o an\u00fancio de missa de s\u00e9timo dia de Orlando de Barros. Era julho de 1968, e consigo imaginar dona Olga sozinha naquela casa, a partir dali e para sempre. Situa\u00e7\u00e3o que talvez perdurasse at\u00e9 hoje. Simbolicamente, vai-se o imperador do palacete ecl\u00e9tico, \u2018art nouveau\u2019, moderno para sua \u00e9poca, cheio de comodidades, e com ele desaparecem tamb\u00e9m outras casas, s\u00f3lidas constru\u00e7\u00f5es, umas mais novas, outras mais antigas, todas testemunhas de um tempo que \u00e9 sepultado e desaparece em poeira.<\/p>\n<p>Pensei, pensei muito, e resolvi tra\u00e7ar um plano: aparecer l\u00e1, vestido de funcion\u00e1rio da imobili\u00e1ria. Digo que vou avaliar a casa a pedido de sua dona. Haveria tempo? Mas seria a \u00fanica maneira de entrar nela, de sentir sua atmosfera, tocar sua textura, entender que cheiro ela tem. Cresceu em mim, mais que curiosidade, verdadeiro fasc\u00ednio por aquela casa remota e agora entristecida, desde que a vi pela primeira vez, ou desde que me dei conta disso.<\/p>\n<p>As pessoas me interessavam menos nessa hist\u00f3ria que a pr\u00f3pria casa. Sempre fui fascinado pela obra. Agradou-me o estilo. Complexo, com alguns exageros, mas, sem sombra de d\u00favida, lindo. Era uma obsess\u00e3o estar ali, conhec\u00ea-la por dentro, entender sua disposi\u00e7\u00e3o interna, percorrer seus c\u00f4modos. Corresponderiam \u00e0 minha imagina\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>No dia seguinte \u00e0 ideia de me passar por corretor, fui para a rua e parei em frente da casa, como j\u00e1 havia feito tantas vezes. Fiquei observando do outro lado da rua, vendo o plano completo. Poderia rodar um filme ali. Um filme sobre a hist\u00f3ria da velha sozinha numa casa entristecida. A solit\u00e1ria dona Olga. A casa malcuidada, dentro e fora, pela falta de recursos financeiros ou mesmo de vontade. Porque, em algumas circunst\u00e2ncias, as grandes casas antigas herdadas n\u00e3o passam de um estorvo \u00e0s gera\u00e7\u00f5es seguintes, que n\u00e3o conseguem mant\u00ea-las. Fechada todo o tempo, sua propriet\u00e1ria vive quase num claustro, inacess\u00edvel, sem contato com vizinhos, sem parentes que lhe queiram.<\/p>\n<p>Pobre dona Olga, sentada numa cadeira de balan\u00e7o de palhinha rota, balan\u00e7ando suavemente, enquanto v\u00ea um antigo \u00e1lbum de fotos, a luz entrando por uma \u00fanica janela lateral aberta desce em cascata sobre sua silhueta magra e encurvada. Ouve-se o barulho do vento, um riso de crian\u00e7a. Ela se levanta, deposita o \u00e1lbum sobre uma velha marquesa de mogno, vai at\u00e9 a janela e contempla o jardim. L\u00e1 v\u00ea sua pr\u00f3pria imagem, quando menina, brincando e correndo. Rindo e sendo muito feliz. \u2018Close up\u2019 no rosto enrugado. Uma furtiva l\u00e1grima desce de seu olho direito. A c\u00e2mera vai se aproximando. A imagem se tornando s\u00e9pia. \u2018Fade out\u2019.<\/p>\n<p>Tomei a decis\u00e3o de tocar a campainha. Quem sabe ela n\u00e3o aceita meu interesse na hist\u00f3ria da casa. Ainda que interpretando um corretor de im\u00f3veis, puxo um assunto. Nutro minha incans\u00e1vel curiosidade por coisas desoladas e antigas, e dou oportunidade da velhinha vencer um pouco essa nuvem de solid\u00e3o amarga que lhe pesa sempre.<\/p>\n<p>Penso na vida vazia e incompleta que teve, abandonada naquela casa. Sem seus pais, sem sua irm\u00e3 com quem crescera junto e, por muitas vezes, deve ter sido sua companheira de brincadeiras naqueles jardins antigos. Se antes tinha \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o um time de criadas, agora precisava cuidar de toda a casa sozinha. Tarefa cada vez mais pesada com a idade, e por isso vinha o desleixo, vinha a apatia, a decrepitude.<\/p>\n<p>Tomei coragem de p\u00f4r em pr\u00e1tica meu plano. Voltei \u00e0 minha casa, preparei-me, vesti-me com a \u00fanica camisa social que tinha, uma cal\u00e7a preta, sapatos condizentes. Peguei a gravata vermelha de meu pai. Ao espelho, era o pr\u00f3prio corretor de imobili\u00e1ria. Funcion\u00e1rio exemplar, com pasta cheia de pap\u00e9is timbrados. Timbres que eu mesmo fizera, imprimindo em folhas cheias de escritos achados na internet o logotipo de uma grande imobili\u00e1ria, certamente consultada para avaliar e intermediar o neg\u00f3cio. Talvez um valor na ponta da l\u00edngua, dito cruamente. Bem abaixo do esperado por dona Olga. Assim ela desistiria da venda, morreria ao cabo de alguns anos, e deixaria a casa em paz, como um monumento, um marco em homenagem \u00e0 minha incessante curiosidade de garoto e homem.<\/p>\n<p>Achei-me rid\u00edculo e abandonei a personagem.<\/p>\n<p>Mil outros pensamentos foram passando por mim quando, umas duas tardes depois daquela \u00faltima observa\u00e7\u00e3o da casa e seu entorno, decidi-me novamente a partir em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 casa para, ap\u00f3s id\u00eantica prepara\u00e7\u00e3o, atuar como corretor.<\/p>\n<p>Chegando perto, percebi que o inevit\u00e1vel cartaz de VENDE-SE ainda n\u00e3o havia sido afixado em nenhum ponto das extensas grades do jardim. Supus que a avalia\u00e7\u00e3o e o andamento do neg\u00f3cio ainda n\u00e3o haviam sa\u00eddo do zero. E tinha raz\u00e3o.<\/p>\n<p>Toquei a campainha. N\u00e3o percebi nenhum movimento. Insisti. Bati palmas e esperei. Alguns minutos se passaram. Eu tinha medo que algu\u00e9m passasse pela rua, me reconhecesse e estragasse meu plano. Um pouco depois, aparece uma cabe\u00e7a conhecida numa janelinha da varanda. Dona Olga!<\/p>\n<p>Ela abriu a porta, dirigiu-se em dire\u00e7\u00e3o ao port\u00e3o e me perguntou o que desejava.<\/p>\n<p>\u201cSenhora, vim avaliar a casa, sou da corretora.\u201d<\/p>\n<p>\u201cEstranho&#8230; Esperava-o para o per\u00edodo da tarde. S\u00e3o onze da manh\u00e3! Mas entre, vamos ver o im\u00f3vel, senhor?&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u201cRog\u00e9rio.\u201d<\/p>\n<p>Dei o nome de Rog\u00e9rio, inventado ali na hora, e ela me apertou a m\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cEste jardim \u00e9 muito bonito, dona Olga. Talvez um pouco trabalhoso de manter?\u201d perguntei, j\u00e1 pretendendo chegar \u00e0s brincadeiras de inf\u00e2ncia que ela e a irm\u00e3 faziam no local, sob os olhos da falecida m\u00e3e ou de uma empregada.<\/p>\n<p>\u201cSem d\u00favida. J\u00e1 foi bem mais bonito. Hoje n\u00e3o cuido tanto. Por isso ele est\u00e1 assim, um pouco deteriorado. Mas \u00e9 o meu lugar preferido da casa. Ali\u00e1s, a torre tamb\u00e9m.\u201d<\/p>\n<p>\u201cAh, acho interessante que a senhora haja mencionado. Trata-se de uma torre mesmo. O que h\u00e1 nela?\u201d<\/p>\n<p>\u201cMeu pai a construiu apenas para tomar o caf\u00e9 da manh\u00e3 e ler seus jornais, entregar-se a alguns estudos. Ele foi do Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores. Era muito estudioso, consultor pessoal de v\u00e1rios ministros em assuntos delicados. Ali redigia cartas, dava pareceres, informava processos que trazia do Minist\u00e9rio.\u201d<\/p>\n<p>\u201cE a senhora n\u00e3o vai mais l\u00e1?\u201d \u2013 perguntei curioso.<\/p>\n<p>\u201cInfelizmente n\u00e3o confio mais na escada em caracol que leva ao pequeno escrit\u00f3rio l\u00e1 em cima. Por causa da falta de cuidados por anos a fio, e tamb\u00e9m pela falta de equil\u00edbrio. Mina sa\u00fade j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 a mesma. Estou com 86 anos.\u201d<\/p>\n<p>Oitenta e seis anos tinha dona Olga, mas na vivacidade de seus olhos verdes aparentava menos. Animei-me, pois percebi que ela n\u00e3o seria refrat\u00e1ria a tantas curiosidades que eu tinha. Sabendo levar o assunto, descobriria v\u00e1rias coisas. Acessaria os rec\u00f4nditos do palacete que sempre me intrigara.<\/p>\n<p>Fingindo nada saber, perguntei sobre a origem da casa, sua constru\u00e7\u00e3o. Dona Olga completou o que eu j\u00e1 conseguira descobrir nas incurs\u00f5es pela Hemeroteca e acrescentou alguns detalhes interessantes: que havia sido contratado um arquiteto franc\u00eas para elaborar a planta. Que a companhia construtora do im\u00f3vel acabou modificando, a pedido da fam\u00edlia, a parte interna, para dot\u00e1-la de um c\u00f4modo amplo na lateral direita para servir de biblioteca, n\u00e3o prevista no projeto original. Que os banheiros da casa eram muito modernos para a \u00e9poca, dotados de instala\u00e7\u00f5es a g\u00e1s que proviam de \u00e1gua quente todas as torneiras, mesmo na cozinha. E que, passados tantos anos, o sistema ainda funcionava perfeitamente. A escada interna, em m\u00e1rmore de carrara, era uma obra de arte. E foi com \u00e2nimo que ela me chamou para ir v\u00ea-la.<\/p>\n<p>Detive-me um segundo antes de subir a escada em semic\u00edrculo que levava \u00e0 varanda. Dali a poucos passos penetraria nos umbrais do mist\u00e9rio. Mist\u00e9rio que alimentava havia tantos anos, de conhecer por dentro aquela inacess\u00edvel mans\u00e3o. Dona Olga n\u00e3o adivinhou minha emo\u00e7\u00e3o, mas me fez entrar.<\/p>\n<p>\u201cEste piso, Sr. Rog\u00e9rio, era originalmente de t\u00e1buas corridas. Mas tivemos de substituir com os anos. Eu n\u00e3o achava nada pr\u00e1tico manter. Com o aval de meu pai, mandei p\u00f4r o \u2018parquet\u2019.\u201d<\/p>\n<p>O mosaico formado pelas pecinhas de madeira intercaladas era espetacular. Senti uma fisgada em meu cora\u00e7\u00e3o ao imaginar tudo aquilo virando p\u00f3 para a constru\u00e7\u00e3o de mais um monstrengo de vidro e pedra artificial na fachada, com varandas do indefect\u00edvel Blindex onde mal cabem duas pessoas e a m\u00e1quina do ar-condicionado.<\/p>\n<p>\u201cDeste corredor partem os c\u00f4modos aqui de baixo, Sr. Rog\u00e9rio. Ao fundo, a cozinha, que pouco modernizei ao longo desses anos. \u00c0 direita, a biblioteca. Ap\u00f3s ela, uma sala \u00edntima de visitas. \u00c9 onde hoje eu assisto televis\u00e3o. Aqui neste lado, o meu c\u00f4modo preferido, por causa da vista do jardim de tr\u00e1s da casa&#8230;\u201d Dona Olga fez uma pausa e pareceu olhar para o passado.<\/p>\n<p>\u201cMas isso tudo pouco importa, n\u00e3o \u00e9 mesmo? O interesse de hoje n\u00e3o est\u00e1 na casa, em seus c\u00f4modos, na solidez da constru\u00e7\u00e3o. Observe isso: paredes dobradas! V\u00e3o comprar e demolir tudo isso aqui, \u00e9 o que eu acho.\u201d<br \/>\n\u201cQuem sabe, dona Olga \u2013 respondi eu \u2013 algum entusiasta de im\u00f3veis antigos n\u00e3o compra e preserva este aqui? Seria uma pena derrub\u00e1-lo para p\u00f4r no lugar algo de nenhum valor arquitet\u00f4nico.\u201d<\/p>\n<p>\u201cMas de muito maior valor econ\u00f4mico, meu jovem\u201d \u2013 respondeu-me ironicamente dona Olga, fazendo com os dedos o sinal t\u00edpico de contar dinheiro.<\/p>\n<p>Ela me mostrou cada c\u00f4modo do andar de baixo. Eu perguntei timidamente sobre alguns itens: quadros, retratos, pe\u00e7as decorativas, diplomas e certificados em molduras nas paredes. E para tudo havia uma hist\u00f3ria e um porqu\u00ea. Eram homenagens a seu pai, algumas at\u00e9 de organiza\u00e7\u00f5es e governos estrangeiros, antepassados portugueses, parentes do Brasil, itens trazidos de v\u00e1rios pa\u00edses do mundo, alguns ainda da \u00e9poca de sua m\u00e3e, falecida cedo, no interior daquela casa, por conta de uma doen\u00e7a grave e repentina. N\u00e3o confessei que sabia parcialmente desse drama, mas foi ali que descobri a raz\u00e3o da morte prematura de dona Maria da Piedade. Havia belas pinturas a \u00f3leo nas paredes. Retratos e paisagens. Explicou dona Olga que havia feito todas. \u00c9 pintora. Uma artista talentosa, sem d\u00favida. Dava aulas. Surpreendi-me com essa informa\u00e7\u00e3o, nunca desconfiara.<\/p>\n<p>A excurs\u00e3o pelo segundo andar da casa foi t\u00e3o surpreendente para mim quanto os mist\u00e9rios elucidados no primeiro andar. Conheci os quartos, mais ou menos conservados como se desde os idos de 1930 nenhuma interven\u00e7\u00e3o mais dr\u00e1stica tivesse ocorrido em sua disposi\u00e7\u00e3o. Num deles, o de dona Olga, chamou-me a aten\u00e7\u00e3o um retrato em moldura de prata sobre a c\u00f4moda. Perguntei quem eram, j\u00e1 supondo a identidade das personagens retratadas. Dona Olga com sua irm\u00e3 durante um cruzeiro. Foram a Portugal, It\u00e1lia e Fran\u00e7a, pouco antes desta se casar. Dona Olga usava, na foto, um chap\u00e9u. Explicou-me detalhes sobre ele. Era o seu chap\u00e9u preferido. \u201cUm amor de chap\u00e9u\u201d nas palavras dela. Tinha apliques em madrep\u00e9rola e um penacho vermelho, ela disse. \u201cN\u00e3o usaria nada assim hoje em dia, mas era a moda ent\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Vi os modernos banheiros, constru\u00eddos com requinte, min\u00fasculas pastilhas de cer\u00e2mica no ch\u00e3o formando harm\u00f4nicos desenhos de flores, folhas e sereias. As torneiras com contornos que imitavam vegetais, tudo preservado de forma impressionante, dada a qualidade das coisas de antigamente.<\/p>\n<p>Ao final da an\u00e1lise do lado de dentro da casa, ela ainda me levou pelo quintal, que apenas parcialmente se via da rua. Notei o tamanho do terreno, e conclu\u00ed at\u00e9 o fato de a casa parecer bem mais conservada por dentro do que por fora. S\u00f3 me decepcionei em saber que, dentro do pequeno galp\u00e3o-garagem, n\u00e3o havia carro nenhum esquecido. Dona Olga nunca dirigira. Apenas seu pai, que trocava de autom\u00f3vel com certa frequ\u00eancia, tendo sido o \u00faltimo deles vendido por ocasi\u00e3o do seu invent\u00e1rio.<\/p>\n<p>Em tudo fiquei encantado. Estranhei, no entanto, o contraste entre a vivacidade e o carinho com que dona Olga me contava as hist\u00f3rias, enquanto me permitia penetrar em sua fortaleza particular, e um certo sentimento, que nela percebi, de que aquilo se tratava de um ciclo encerrado: era hora de dar passagem ao progresso, ainda que violento, a desprezar a hist\u00f3ria de vidas e cidades. O progresso passando por cima de tudo aquilo, inclemente.<\/p>\n<p>Dona Olga convidou-me a sentar numa saleta que servia de escrit\u00f3rio. Pesados m\u00f3veis antigos guarneciam a pe\u00e7a. As almofadas das cadeiras eram revestidas de um s\u00f3brio verde. \u00cdamos falar de neg\u00f3cios. Convenci-a em minha interpreta\u00e7\u00e3o de corretor de im\u00f3veis. Dotes de ator eu sabia ter.<\/p>\n<p>\u201cE ent\u00e3o, Sr. Rog\u00e9rio, qual base de pre\u00e7o devo pedir pelo im\u00f3vel? Est\u00e1 tudo acertado quanto ao registro. Quest\u00f5es documentais cristalinas.\u201d<\/p>\n<p>Ante aquele golpe fatal da \u00fanica pessoa que podia evitar a iminente viol\u00eancia contra a inocente casa, expus corajosa e francamente minha curiosidade:<\/p>\n<p>\u201cDona Olga, perdoe-me. N\u00e3o gostaria de ser grosseiro ou indiscreto, mas percebo sua vida solit\u00e1ria aqui dentro, os anos cultivando mem\u00f3rias antigas, a dificuldade em manter at\u00e9 aqui tudo arrumado. O isolamento, a falta de parentes. Talvez mesmo o fato de a senhora n\u00e3o haver se casado ou tido filhos apenas para se dedicar ao seu pai, depois \u00e0 casa. E agora se desfazer disso tudo? Dar adeus \u00e0s mem\u00f3rias, apag\u00e1-las? Permitir a demoli\u00e7\u00e3o de tantas hist\u00f3rias inscritas nessas paredes a nossa volta?\u201d<\/p>\n<p>Os olhos de dona Olga foram um misto de curiosidade e espanto ante minhas palavras. Na hora, percebi o excesso de confian\u00e7a de minha parte. At\u00e9 uma indelicadeza. Nada tinha com isso. Sequer era o corretor. Mas todos adivinhariam o destino da casa ap\u00f3s a venda. P\u00f3. Escombros. Era a \u00faltima cartada para salv\u00e1-la desse cruel destino.<\/p>\n<p>Enquanto falava a ela tudo o que pensava, mal percebi a presen\u00e7a discreta de uma pessoa, senhora de idade, que entrou e saiu do c\u00f4modo onde nos assentamos, e voltou ainda trazendo uma bandeja com um bule e tr\u00eas x\u00edcaras de caf\u00e9.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o dona Olga n\u00e3o estava t\u00e3o sozinha assim! Tinha uma governanta? Empregada?<\/p>\n<p>\u201cGostaria de apresentar-lhe minha irm\u00e3, Sr. Rog\u00e9rio. Esta \u00e9 L\u00eddia. Depois da morte de nosso pai, esta casa ficou para n\u00f3s duas. Ela n\u00e3o morou mais aqui ap\u00f3s se casar. Fiquei eu apenas. Nunca me casei porque preferi dedicar-me \u00e0 profiss\u00e3o. Sou professora aposentada de Artes. Lecionei na universidade por muitos anos. Agora minha irm\u00e3 \u00e9 vi\u00fava, os filhos crescidos. Ela tem netos, e eu, sobrinhos-netos. Muito queridos e pr\u00f3ximos. Estamos sempre juntos. Mas resolvemos, minha irm\u00e3 e eu, aproveitar a sa\u00fade que nos resta, os anos que ainda temos, viajando por a\u00ed. Nada melhor do que torrar essa casa que d\u00e1 tanto trabalho, e ir morar com minha irm\u00e3. Ela sempre insistiu nisso, e agora como ela est\u00e1 vi\u00fava&#8230; As mem\u00f3rias ficar\u00e3o para sempre, mas n\u00e3o dependem dessas paredes. Por isso, esteja tranquilo, Sr. Rog\u00e9rio. Isso n\u00e3o \u00e9 vingan\u00e7a de uma velha esquecida e solit\u00e1ria n\u00e3o&#8230;\u201d \u2013 e neste ponto dona Olga deu uma sonora gargalhada.<\/p>\n<p>Ao fim da gargalhada, soa a campainha. Hav\u00edamos ficado absortos nas reminisc\u00eancias, na visita \u00e0 casa.<\/p>\n<p>Era o corretor da imobili\u00e1ria, desta vez o de verdade, que vinha realmente avaliar a casa. Orientar dona Olga em seu neg\u00f3cio. Fiquei numa verdadeira saia-justa. Sem saber o que fazer para sair dali. Eram poucos minutos at\u00e9 ser descoberto. O tempo de dona L\u00eddia descer as escadas, se dirigir ao port\u00e3o e sinalizar a dona Olga minha impostura.<\/p>\n<p>Minha sorte foi que as duas juntas pediram licen\u00e7a e foram ver quem era no port\u00e3o. Na volta, n\u00e3o me encontraram. Sa\u00ed pelos fundos. Quando percebi que entravam pela sala, j\u00e1 mencionando n\u00e3o entenderem porque aquele corretor, agora o de verdade, tamb\u00e9m estava l\u00e1, eu escapei pelo quintal e fui me esconder atr\u00e1s do torre\u00e3o, analisando a possibilidade de pular o gradil de ferro e ganhar a rua. Al\u00e9m da \u00f3bvia falsidade, que podia me trazer problemas, escapava do constrangimento de me explicar.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi necess\u00e1rio. O port\u00e3o ficara destrancado e elas, entretidas pelo corretor de verdade, apenas achavam estranho e ralhavam com ele. Desorganiza\u00e7\u00e3o na imobili\u00e1ria!<\/p>\n<p>Tive a ideia de for\u00e7ar a porta do torre\u00e3o, enfrentar a escada enfermi\u00e7a e penetrar no \u00faltimo local desconhecido da casa \u2013 o escrit\u00f3rio, o gabinete de estudos e leituras de seu antigo dono.<\/p>\n<p>A porta cedeu facilmente \u00e0 for\u00e7a de meu ombro. Enquanto isso, dona L\u00eddia aparecera na varanda a me procurar. O corretor verdadeiro e dona Olga, quase ao mesmo tempo, apareceram na janela do quarto de cima. Estavam dando busca de mim pela casa. Fiquei com receio de chamarem a pol\u00edcia. N\u00e3o o fizeram. Mas at\u00e9 hoje n\u00e3o entenderam o que ocorreu.<\/p>\n<p>A velha casa foi vendida poucos meses depois dessa minha visita. Pelo menos satisfiz, para sempre, minha curiosidade.<\/p>\n<p>Contei que a porta do torre\u00e3o cedeu facilmente ao meu ombro. Estava, realmente, muito velha e rota. Bem como a escada espiralada em madeira que havia l\u00e1 dentro. A ilumina\u00e7\u00e3o natural, que entrava por tijolos de vidro dispostos em intervalos regulares nas paredes, n\u00e3o ajudava muito, pois esses tijolos estavam bastante empoeirados.<\/p>\n<p>Tive medo, mas subi devagar a escada que rangia de velha sob meus p\u00e9s. Cheguei a uma pequena saleta, com m\u00f3veis atulhados, dispostos de qualquer maneira, como coisas inserv\u00edveis. Muitas caixas contendo documentos, \u00e0s quais, abusando de minha estada ali, olhei rapidamente, buscando fotografias e coisas interessantes. Nada achei que me despertasse.<\/p>\n<p>Sa\u00ed dali rapidamente e n\u00e3o fui notado. Quando cheguei ao port\u00e3o, o corretor e as donas da casa j\u00e1 n\u00e3o procuravam por mim.<\/p>\n<p>Soube que, antes da venda da casa, as donas ainda apuraram um bom pre\u00e7o com o mobili\u00e1rio antigo que havia, bem como levaram para a casa de dona L\u00eddia todas as pe\u00e7as de fam\u00edlia que resolveram guardar como lembran\u00e7a. E esse acervo preservado se consistiu, principalmente, de retratos, alguns quadros e documentos.<\/p>\n<p>O resto da constru\u00e7\u00e3o teve, na hora que fora reservada, seu desigual embate com as picaretas e p\u00e1s mec\u00e2nicas.<\/p>\n<p>A primeira pe\u00e7a a cair foi o torre\u00e3o. L\u00e1 dentro, todas as coisas guardadas. Nada havia sido retirado de dentro dele.<\/p>\n<p>N\u00e3o notei quando l\u00e1 subi, mas numa caixa empoeirada e jogada de qualquer jeito, estava guardado o chap\u00e9u com o qual dona Olga fora fotografada durante o cruzeiro com a irm\u00e3, em plena juventude.<\/p>\n<p>At\u00e9 hoje lembro daquela foto e de suas palavras.<\/p>\n<p>\u201cUm amor de chap\u00e9u.\u201d<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/p>\n<p><strong>Daniel Marchi \u00e9 autor de A Verdade nos Seres, livro de poemas que pode ser adquirido diretamente atrav\u00e9s do e-mail danielmarchiadv@gmail.com<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No quarteir\u00e3o final da rua, antes de se chegar \u00e0s faldas do morro por sobre o qual se ergue um grande mon\u00f3lito gran\u00edtico, famoso na cidade, estava ele: o palacete. 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