{"id":345252,"date":"2025-01-10T08:15:20","date_gmt":"2025-01-10T11:15:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=345252"},"modified":"2025-01-10T09:09:15","modified_gmt":"2025-01-10T12:09:15","slug":"rancor-por-conta-de-isqueiro-guida-e-jararaca-enrodilhada-dentro-do-peito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/rancor-por-conta-de-isqueiro-guida-e-jararaca-enrodilhada-dentro-do-peito\/","title":{"rendered":"&#8216;Rancor (por conta de isqueiro), Guida, \u00e9 jararaca enrodilhada dentro do peito&#8217;"},"content":{"rendered":"<p>Margarida, Guida, Marg\u00f4&#8230; nem sei como chamar-te hoje em dia. Como faz muita gente boa (e um punhado nem tanto), usei o Face para rastrear velhos amigos. Em 2021 encontrei-te em Portugal; pedi amizade \u2013 e simplesmente me ignoraste. N\u00e3o me bloqueaste, apenas conservaste um sil\u00eancio sobranceiro, que me magoou um bocado.<\/p>\n<p>\u201cSe calhar, Margarida esqueceu de mim\u201d, cheguei a pensar. Mas n\u00e3o, na boa e velha Abril Cultural hav\u00edamos constru\u00eddo mil cumplicidades. Tu me apresentaste Os vampiros, de Zeca Alfonso, can\u00e7\u00e3o de protesto lusa, e Le d\u00e9serteur, de Boris Vian, can\u00e7\u00e3o de protesto francesa. Desse modo, contribu\u00edste para dar um m\u00ednimo de lustre, de sofistica\u00e7\u00e3o ao ex-preso pol\u00edtico de Niter\u00f3i, chegado a plagas paulistanas em 1969.<\/p>\n<p>N\u00e3o lembro quando ziguezagueaste de volta \u00e0 Europa. Sei que esbarrei em ti em 1975, no caf\u00e9 A brasileira do Chiado, reduto de Fernando Pessoa.<\/p>\n<p>Conversamos por muito tempo, bebemos porradas de imperiais e coisas mais fortes, e depois fomos para a casa em que moravas com a tua filha.<\/p>\n<p>E a\u00ed foi um desastre. Antecipando uma can\u00e7\u00e3o que Caetano s\u00f3 escreveria mais tarde, \u201cna hora da cama, nada pintou direito\u201d. Est\u00e1vamos b\u00eabados e havia muita gente no leito, amigos queridos que se materializaram, com olhares de censura. A\u00ed desistimos e continuamos a conversar. Sobre a revolu\u00e7\u00e3o, claro, sobre sua trajet\u00f3ria editorial lisboeta, sobre seus amores lusos. N\u00e3o ousei competir com tantos gajos e gajas.<\/p>\n<p>No dia seguinte, no retorno de comboio a Lisboa, sua filha fuzilou-me, no vag\u00e3o lotado:<\/p>\n<p>&#8211; Minha m\u00e3e n\u00e3o h\u00e1-de casar consigo. H\u00e1-de casar com o Pasqualito!<\/p>\n<p>Todos olharam com desprezo para o sedutor que tentava desfazer um casal aben\u00e7oado pelo c\u00e9u. Fiquei vermelho como um piment\u00e3o, custei a rir do vexame.<\/p>\n<p>Prosseguindo na \u00e1rdua tarefa de sofisticar o botucudo, me apresentaste a algumas uisquerias famosas. Permaneci-lhes fiel, mesmo depois de perder o contato contigo, no in\u00edcio de 1976 ou pouco depois.<\/p>\n<p>Nosso encontro seguinte s\u00f3 ocorreu em 2000. Uma amiga para quem eu frilava num grande projeto editorial importou o teu passe. Come\u00e7amos a conversar, e de repente lan\u00e7aste a bomba:<\/p>\n<p>&#8211; Pode devolver o meu isqueiro?<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o estava com ele, s\u00f3 com o meu. Mostrei-o, expliquei a coisa, mas insististe:<\/p>\n<p>&#8211; Devolve o meu isqueiro.<\/p>\n<p>Senti-me ultrajado. N\u00e3o por tua confus\u00e3o, viv\u00edamos chapados na \u00e9poca.<\/p>\n<p>Mas pela arrog\u00e2ncia impl\u00edcita, \u201cmeu isqueiro sumiu, deve ter sido pego pelo brazuca\u201d. Ou, sei l\u00e1, como serias a editora no projeto, pretendias me colocar, \u00e0 bruta, na condi\u00e7\u00e3o de subordinado.<\/p>\n<p>S\u00f3 que n\u00e3o funcionou, Margarida. O isqueiro (que n\u00e3o estava comigo) n\u00e3o apareceu, pulei fora do projeto editorial, que deu chabu, e retornaste \u00e0 Europa. N\u00e3o sei quando. Continuamos com nossas vidas, reencontrei-te no Face, pedi amizade, me ignoraste. Como ignoraste minhas negativas ultrajadas no epis\u00f3dio do isqueiro.<\/p>\n<p>Mas o rancor, Margarida, \u00e9 uma jararaca enrodilhada dentro do peito, a transmutar ressentimento em pe\u00e7onha, pronta a dar o bote. H\u00e1 poucos dias, pedi-te novamente amizade, e te enviei este texto. Leia-o com aten\u00e7\u00e3o, por favor. Se o ignorares, se ignorares, arrogante, minha m\u00e3o estendida, embarco no primeiro avi\u00e3o para Lisboa. A cidade \u00e9 um ovinho, hei-de encontrar-te \u2013 e ent\u00e3o a serpente do ultraje lan\u00e7ar\u00e1 o ataque definitivo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Margarida, Guida, Marg\u00f4&#8230; nem sei como chamar-te hoje em dia. 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