{"id":345360,"date":"2025-01-12T00:07:57","date_gmt":"2025-01-12T03:07:57","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=345360"},"modified":"2025-01-11T16:49:20","modified_gmt":"2025-01-11T19:49:20","slug":"cursinho-em-periferia-amplia-horizontes-de-professores-e-alunos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/cursinho-em-periferia-amplia-horizontes-de-professores-e-alunos\/","title":{"rendered":"Cursinho em periferia amplia horizontes de professores e alunos"},"content":{"rendered":"<p>Na estrada de Jadson Franklin, de 21 anos, a paisagem reveste-se de sol a pino, asfalto quente e barulhos que atravessam a janela e a mem\u00f3ria. Ele segue o caminho com pressa no olhar e livros nas m\u00e3os. No percurso de quase 100 quil\u00f4metros da cidade em que vive, na agrestina Bom Jardim (PE) para a litor\u00e2nea Recife, o estudante de Letras da Universidade de Pernambuco (UPE) tem compromisso que o soergue e o emociona a cada s\u00e1bado. Ele se transforma em professor volunt\u00e1rio em um curso pr\u00e9-vestibular gratuito no bairro do Ibura, na periferia da capital pernambucana.<\/p>\n<p>Percorrer a estrada para uma a\u00e7\u00e3o de solidariedade consiste, para ele, em um exerc\u00edcio de gratid\u00e3o e esperan\u00e7a. A cada dia de aula, chegam a ele sentimentos que n\u00e3o podem ser traduzidos com exatid\u00e3o pela Gram\u00e1tica, a disciplina que ele ensina para mais de 100 jovens que vivem em vulnerabilidade no bairro em que moram mais de 50 mil pessoas. O Pr\u00e9-Vestibura, criado pela pr\u00f3pria comunidade, \u00e9 um exemplo de projeto social nascido para enfrentar limita\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Todos os s\u00e1bados, no projeto, sobram agradecimentos por parte dos alunos (antes, durante e depois das aulas), inclusive neste dia 11, Dia Internacional do Obrigado. Nessa estrada, as \u201crecompensas\u201d em forma de abra\u00e7os e \u201cobrigados\u201d surgiram para al\u00e9m do que imaginava quando foi convidado para ser professor por uma amiga do curso.<\/p>\n<p><strong>Os primeiros das fam\u00edlias<\/strong><br \/>\nInscrevem-se estudantes que n\u00e3o t\u00eam dinheiro para pagar ensino privado, mas sonham, em geral, em serem os primeiros de suas fam\u00edlias a chegarem ao ensino superior. Como foi o caso do pr\u00f3prio Jadson, com pai, pedreiro, e a m\u00e3e, dom\u00e9stica.<\/p>\n<p>Foi essa fam\u00edlia \u201cextremamente humilde\u201d, como ele define, e tamb\u00e9m os mestres que conheceu no caminho que o impulsionaram a atravessar a estrada do conhecimento. O caminho faz lembrar versos do conterr\u00e2neo Jo\u00e3o Cabral de Melo Net (1920 &#8211; 1999) na poesia \u201cDuas \u00c1guas\u201d. \u201cLado a lado com gente\/no meu andar sem rumor\/N\u00e3o \u00e9 estrada curta\/mas \u00e9 a estrada melhor\/porque na companhia de gente \u00e9 que sempre vou\u201d.<\/p>\n<p>\u201cEu costumo dizer que eu sou fruto da educa\u00e7\u00e3o da minha fam\u00edlia e da boa vontade de muitos professores que passaram por minha vida\u201d. Ele, que sempre estudou em rede p\u00fablica, pensava que os professores poderiam chegar em sala de aula e se restringir em transmitir os conte\u00fados.<\/p>\n<p>\u201cMas muitos iam al\u00e9m. Chegavam a mim e me encorajavam. Hoje, do lugar que estou, posso fazer um pouco do que fizeram por mim, como se fosse uma repara\u00e7\u00e3o\u201d. Ele passou a enxergar na estrada de outros estudantes os mesmos solavancos que enfrentou para chegar ao ensino superior. Desconfian\u00e7as, preconceitos, tempo escasso para estudar atravessado pela necessidade de emprego, ainda que prec\u00e1rio\u2026 Hoje, para se manter, participa de projetos acad\u00eamicos que rendem bolsas para pesquisa.<\/p>\n<p><strong>Espa\u00e7o p\u00fablico<\/strong><br \/>\nO curso pr\u00e9-vestibular funciona atualmente numa estrutura municipal, o audit\u00f3rio do Centro Comunit\u00e1rio da Paz (Compaz) no Ibura, cedida para o projeto, que nasceu no ano de 2020. A ideia foi criada a partir de conversas de amigos sens\u00edveis \u00e0s dificuldades da comunidade. Em 2025, est\u00e3o abertas 130 vagas (que \u00e9 o n\u00famero de cadeiras dispon\u00edveis no audit\u00f3rio utilizado).<\/p>\n<p>Um dos criadores da iniciativa, o universit\u00e1rio Wilber Mateus, estudante e professor de Hist\u00f3ria, de 26 anos de idade, tem a expectativa de que mais de mil pessoas se inscrevam. Para selecionar, a equipe leva em conta informa\u00e7\u00f5es dos candidatos que demonstram comprometimento com as aulas. Um princ\u00edpio do projeto, segundo ele, \u00e9 que o trabalho coletivo pode ser um alicerce de transforma\u00e7\u00e3o. Ele pr\u00f3prio tamb\u00e9m tem um caminho de correrias. Precisa equilibrar o tempo entre o curso universit\u00e1rio e o dia a dia de quem trabalha de \u201cfaz-tudo\u201d numa pizzaria do bairro. Criado pela m\u00e3e gar\u00e7onete e pela av\u00f3, dom\u00e9stica, Wilber sabe que cada segundo de esfor\u00e7o precisa ser valorizado. \u201cEu trabalho para conseguir uma estabilidade melhor\u201d. Ele sabe que essa \u00e9 uma realidade da maioria dos estudantes: buscar n\u00e3o desistir dos estudos por causa da carga elevada de trabalho para pagar as contas.<\/p>\n<p>A idealizadora do projeto foi a universit\u00e1ria de ci\u00eancias sociais Barbara Kananda, hoje com 25 anos, nascida e criada na mesma comunidade. \u201cAcabei me enxergando numa realidade em que a maioria de n\u00f3s, jovens de periferia, precisa sair do nosso bairro para o centro para poder estudar em um cursinho\u201d. Foi ela que fez a organiza\u00e7\u00e3o das aulas e buscou espa\u00e7o para que tudo acontecesse. \u201cHoje eu fa\u00e7o parte da administra\u00e7\u00e3o e busco a\u00e7\u00f5es e parcerias para o projeto (o que inclui tentar recursos para pagar o \u00f4nibus de professores volunt\u00e1rios ou palestras para tratar de sa\u00fade)\u201d.<\/p>\n<p><strong>Al\u00e9m do conte\u00fado<\/strong><br \/>\nO Pr\u00e9-Vestibura tem como foco a prepara\u00e7\u00e3o para o Exame Nacional do Ensino M\u00e9dio (Enem), mas, de acordo com o que pensa Wilber, B\u00e1rbara e os professores envolvidos no projeto, a principal inten\u00e7\u00e3o \u00e9 ampliar a vis\u00e3o de mundo. \u201cL\u00e1 trabalhamos para garantir esperan\u00e7a a esses jovens. Escolas ultrapassadas acabam matando o sonho dos alunos. No cursinho, trabalhamos com outra din\u00e2mica\u201d.<\/p>\n<p>Ele, inclusive, gosta de se fantasiar de personagens para fazer atividades l\u00fadicas sobre hist\u00f3ria. Um apoio vocacional ocorrer\u00e1 na semana que vem, dia 13, quando os resultados do Enem ser\u00e3o publicados e os alunos dever\u00e3o analisar se as suas notas s\u00e3o compat\u00edveis com as faculdades e cursos que desejam.<\/p>\n<p>Mais do que esse tipo de apoio, h\u00e1 uma aten\u00e7\u00e3o social e psicol\u00f3gica, com palestras e oficinas que ajudam a valorizar os direitos humanos, com pautas sobre combate ao racismo e \u00e0 homofobia, sobre necessidade de cuidados com a sa\u00fade mental e discuss\u00f5es sobre preven\u00e7\u00e3o a v\u00edcios. Falar de si mesmo \u00e9 uma aula cujo conte\u00fado n\u00e3o cai no Enem, mas pode mudar as respostas sobre cada um.<\/p>\n<p>O professor de sociologia Claudio Valente, que tamb\u00e9m faz parte da equipe de coordena\u00e7\u00e3o do projeto, valoriza o fato que, al\u00e9m dos cuidados program\u00e1ticos, o cursinho trate sobre as realidades de vulnerabilidade do bairro e os processos de desenvolvimento e emancipa\u00e7\u00e3o da comunidade.<\/p>\n<p>\u201cEu sempre fui uma pessoa muito cr\u00edtica da realidade que eu vivia\u201d, afirma. Na faculdade, recorda que ouviu da professora que n\u00e3o seria poss\u00edvel mudar o mundo. \u201cUma ficha caiu pra mim. Eu n\u00e3o poderia mudar o mundo, mas pelo menos o meu bairro eu poderia tentar\u201d.<\/p>\n<p>Ele, que foi criado por m\u00e3e solo, valorizava o que ela fazia, trabalhando como lojista em shopping e tendo pouco tempo para descanso. Durante o ensino m\u00e9dio, Claudio, para ajudar nas contas de casa, fazia bicos como pintor. Mas, enquanto andava pela cidade, ficava incomodado com o transporte demorado, o esgoto a c\u00e9u aberto, ver amigos sendo presos e at\u00e9 assassinado. \u201cConversar sobre a realidade \u00e9 fundamental para a forma\u00e7\u00e3o intelectual e humana\u201d, afirma. Valente se orgulha de professores atuais j\u00e1 terem sido alunos do cursinho.<\/p>\n<p><strong>&#8220;Olhos brilhando&#8221;<\/strong><br \/>\nUm dos novos professores que j\u00e1 foi aluno do projeto \u00e9 o atual universit\u00e1rio em engenharia da computa\u00e7\u00e3o Thayso Guedes, de 20 anos. No cursinho, ele d\u00e1 aula de matem\u00e1tica, uma das disciplinas mais temidas pelos vestibulares. Principalmente, segundo ele, por quem deseja seguir as carreiras de humanas e da sa\u00fade. \u201cAcho diferente quando me chamam de professor e at\u00e9 de senhor, depois da aula e no meio da rua na comunidade, me pedindo ajuda com quest\u00f5es. Eles me agradecem. Eu fico surpreso e feliz\u201d.<\/p>\n<p>Ele estudou no cursinho em 2022 e ouviu dos professores e dos colegas de sala que poderia ter voca\u00e7\u00e3o para explicar o que ningu\u00e9m entendia. \u201cEu mesmo amei o pr\u00e9-vestibular porque era tudo muito interdisciplinar\u201d, recorda. Sentiu a responsabilidade quando o professor Kleber Germano pediu que ele ajudasse os colegas nas corre\u00e7\u00f5es dos exerc\u00edcios. \u201cDisseram de brincadeira que eu iria ser o professor do ano seguinte. Eu levei a s\u00e9rio e me inscrevi como professor volunt\u00e1rio\u201d, sorri.<\/p>\n<p>Kleber se empolgou com o pupilo. \u201c\u00c9 muito gratificante trabalhar ao lado desse rapaz com potencial grandioso\u201d. Hoje, o ex e o novo professor dividem as aulas de matem\u00e1tica do cursinho. As aulas da disciplina s\u00e3o nos primeiros hor\u00e1rios. Por isso, Thayso acorda antes das 7h, pega um \u00f4nibus e gosta de chegar antes de todos para deixar tudo preparado. Durante a semana, ele tamb\u00e9m estagia para conseguir recursos para manter o dia a dia e a vida de volunt\u00e1rio. O padrasto \u00e9 aut\u00f4nomo e a m\u00e3e, dom\u00e9stica. Ele n\u00e3o v\u00ea a hora de se formar, conseguir um trabalho remunerado, mas n\u00e3o pretende deixar a vida de doa\u00e7\u00e3o aos s\u00e1bados.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m ex-aluna do pr\u00e9-vestibular, Maysa Ribeiro, de 20 anos, universit\u00e1ria de enfermagem, foi convidada para ensinar Biologia como volunt\u00e1ria durante a pandemia, em 2020, e no ano seguinte. Como j\u00e1 estagia em unidade de sa\u00fade, ela busca organizar o hor\u00e1rio com o objetivo de manter o s\u00e1bado dispon\u00edvel para realizar a atividade que a encanta. \u201cEu gosto de ver os olhinhos dos alunos brilhando pra mim depois que entenderam o assunto que eu expliquei. A primeira vez que eu recebi um elogio, eu falei que nunca mais iria querer sair daquele lugar\u201d.<\/p>\n<p><strong>Hist\u00f3rica desigualdade<\/strong><br \/>\nPesquisador da \u00e1rea de educa\u00e7\u00e3o, o professor Thiago Santos, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), contextualiza que a situa\u00e7\u00e3o de comunidades, como a do Ibura, pode simbolizar as desigualdades que ocorrem no pa\u00eds, marcado por uma l\u00f3gica historicamente racista, com pessoas colocadas \u00e0 margem e empurradas para condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias de sobreviv\u00eancia, incluindo a falta de acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Isso explicaria o fato de a comunidade ter que buscar se organizar por si pr\u00f3pria. Al\u00e9m disso, as pessoas seriam levadas a n\u00e3o entender que t\u00eam direitos garantidos tamb\u00e9m v\u00edtimas de uma l\u00f3gica da pobreza e escassez de servi\u00e7os. \u201cO Estado deve surgir como entidade forte para a supera\u00e7\u00e3o de um panorama de desigualdade (&#8230;). \u00c9 a consci\u00eancia da possibilidade do acesso ao direito que faz com que os sujeitos queiram ter o direito\u201d, diz o pesquisador, que \u00e9 negro, nascido e criado em favelas de Peixinhos, na cidade de Olinda (PE), e Frei Dami\u00e3o, em Abreu e Lima (PE).<\/p>\n<p>\u201cPor meio da educa\u00e7\u00e3o, eu tive a possibilidade de perceber que a minha vida poderia mudar e, consequentemente a vida dos sujeitos que moravam na mesma favela onde eu cresci. Majoritariamente, quando eu falava que morava na favela, as pessoas tinham medo de chegar perto de mim\u201d, exemplifica o pesquisador. Apesar dos preconceitos que vivenciou no caminho, ele diz que foi na favela que aprendeu a respeitar as pessoas e a \u201cser gente\u201d.<\/p>\n<p>\u201cEu trago para os meus alunos a conscientiza\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o \u00e9 sobre a discrimina\u00e7\u00e3o do ambiente, onde os sujeitos est\u00e3o, que vai definir o que eles podem ou n\u00e3o ser, mas \u00e9 a possibilidade do acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o que vai diferenci\u00e1-los enquanto sujeitos que t\u00eam ou n\u00e3o a consci\u00eancia desse direito\u201d. Por isso, ele considera que propor pr\u00e9-vestibulares gratuitos em comunidades \u00e9 tamb\u00e9m uma ferramenta para a supera\u00e7\u00e3o das desigualdades.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na estrada de Jadson Franklin, de 21 anos, a paisagem reveste-se de sol a pino, asfalto quente e barulhos que atravessam a janela e a mem\u00f3ria. Ele segue o caminho com pressa no olhar e livros nas m\u00e3os. 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