{"id":345806,"date":"2025-01-17T00:43:51","date_gmt":"2025-01-17T03:43:51","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=345806"},"modified":"2025-01-17T04:45:49","modified_gmt":"2025-01-17T07:45:49","slug":"parto-da-promessa-de-lula-do-brasil-do-futuro-so-sai-a-forceps","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/parto-da-promessa-de-lula-do-brasil-do-futuro-so-sai-a-forceps\/","title":{"rendered":"Parto da promessa de Lula do Brasil do futuro s\u00f3 sai a f\u00f3rceps"},"content":{"rendered":"<p>Os sonhos e as esperan\u00e7as se desmancham no ar quando estamos apenas vencendo os primeiros 30 dias de 2025, promessa de proje\u00e7\u00e3o do ano que passou. Se parco \u00e9 o invent\u00e1rio do que temos por comemorar, extensa \u00e9 a pauta do que devemos temer, habitantes de na\u00e7\u00e3o dependente, de uma depend\u00eancia geopol\u00edtica e ideol\u00f3gica inserida na periferia do capitalismo. Somos uma prov\u00edncia no Sul Global para onde foram designados os subdesenvolvidos de ontem, ap\u00f3s a repagina\u00e7\u00e3o do mundo determinada pelo fim da Guerra Fria, proclamando a vit\u00f3ria da globaliza\u00e7\u00e3o e dos EUA.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 como, neste novo mundo que j\u00e1 nasce velho, ignorar nossa brasileir\u00edssima trag\u00e9dia hist\u00f3rico-geogr\u00e1fica, mas diante dela nos incumbe, como povo, sociedade e Estado, saber enfrentar os desafios que j\u00e1 nos chegam correndo com botas de sete l\u00e9guas. Ou deciframos a esfinge ou seremos devorados.<\/p>\n<p>Para bem compreender os tempos presentes, constru\u00e7\u00e3o de tempos passados (compreender para nele intervir), o primeiro passo \u00e9 a an\u00e1lise do cen\u00e1rio internacional, que nos lembra os piores momentos do s\u00e9culo passado, o qual, entre outras cat\u00e1strofes humanit\u00e1rias, nos legou duas guerras mundiais. Mais uma li\u00e7\u00e3o da Hist\u00f3ria: \u00e9 mediante guerras de toda ordem que se desenvolvem e se resolvem as disputas de hegemonia, e \u00e9 este o conflito de nossos dias, anunciante de embates ainda mais graves no amanh\u00e3 que podemos divisar sem o recurso das lentes do tempo.<\/p>\n<p>Se &#8220;l\u00e1 fora&#8221; s\u00e3o maus os press\u00e1gios, na prov\u00edncia continental os tempos de hoje cobram engenho e arte. E, sem d\u00favida, alguma aud\u00e1cia e coragem, predicado dos vencedores.<\/p>\n<p>O mundo, sob a \u00e9gide do capitalismo, parece haver optado pela regress\u00e3o, e nela investe com dedica\u00e7\u00e3o suicida. Faz d\u00e9cadas, a contar primacialmente do fim da Guerra Fria, tornada desnecess\u00e1ria com o suic\u00eddio da URSS e o fracasso das experi\u00eancias de capitalismo de Estado do Leste europeu, a classe trabalhadora, onde a ideologia neoliberal se fez pol\u00edtica de Estado \u2013 ou seja, praticamente em todo o mundo \u2013 vem sofrendo seguidas derrotas nos planos econ\u00f4mico, social, pol\u00edtico e cultural, acumulando recuos pol\u00edticos e revezes estrat\u00e9gicos que n\u00e3o podem ser reduzidas, t\u00e3o-s\u00f3, \u00e0s consequ\u00eancias anunciadas pelas novas rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, mais e mais condicionadas pela preemin\u00eancia do capital sobre o trabalho.<\/p>\n<p>Fruto das contradi\u00e7\u00f5es inerentes ao desenvolvimento do capitalismo financeiro monopolista, soma-se (e a\u00ed n\u00e3o se trata de crise) o acirramento das chamadas guerras comerciais, o aumento do n\u00famero de confrontos militares, o expansionismo terrorista do sionismo, a naturaliza\u00e7\u00e3o do genoc\u00eddio, a fal\u00eancia dos organismos internacionais, a come\u00e7ar pelo fracasso da ONU. Tudo em meio a uma crise ambiental cumulativa que parece sem solu\u00e7\u00e3o. Desta trag\u00e9dia j\u00e1 somos testemunha e v\u00edtima, e sabemos aonde pode levar o negacionismo.<\/p>\n<p>Este \u00e9 o nosso mundo de complexa fragilidade f\u00edsica e pol\u00edtica que mais e mais se assemelha \u00e0 casca de noz a que se referia Stephen Hawking. Desta nave somos passageiros sem acesso \u00e0 cabine de comando. Mas tudo o que nela ocorre nos diz respeito diretamente, pois interv\u00e9m diretamente em nosso destino, como planeta e humanidade.<\/p>\n<p>Os cord\u00e9is da globaliza\u00e7\u00e3o \u2013 fen\u00f4meno econ\u00f4mico, pol\u00edtico, militar e ideol\u00f3gico \u2013 est\u00e3o sob a \u00e9gide do maior concerto de poder jamais conhecido desde a longa era romana, que a paranoia do 3\u00ba Reich intentou refazer, ao pre\u00e7o conhecido. Os EUA caminham para o apogeu de seu decl\u00ednio, em plena crise pol\u00edtica, social e \u00e9tica, que se vem acentuando nas \u00faltimas d\u00e9cadas, ao tempo em que acirra a disputa pela recupera\u00e7\u00e3o da hegemonia global, o que pode nos levar \u00e0 terceira guerra mundial. Dela, se n\u00e3o sabemos qual ser\u00e1 o primeiro passo, e n\u00e3o sabemos mesmo se esse primeiro passo j\u00e1 n\u00e3o ter\u00e1 sido dado, temos certo como ser\u00e1 o \u00faltimo cap\u00edtulo, que talvez ningu\u00e9m possa registrar.<\/p>\n<p>\u00c9 sob tais condicionantes que forcejamos por construir nossa hist\u00f3ria, indecisos ainda sobre o que somos e o que queremos ser, carentes, ainda, de um projeto de pa\u00eds.<\/p>\n<p>Se raz\u00f5es objetivas nos dizem que conseguimos em 2022, mesmo a duras penas, deter as maiores amea\u00e7as conhecidas pelo processo pol\u00edtico-social desde 1964 \u2013 a possibilidade de reelei\u00e7\u00e3o do capit\u00e3o meliante \u2013, n\u00e3o \u00e9 racional supor que esmagamos a pe\u00e7onha. Aos candidatos a doutor Pangloss a realidade traz \u00e0 tona a composi\u00e7\u00e3o do Congresso eleito com Lula, as maquina\u00e7\u00f5es de dezembro de 2022, a intentona de 8 de janeiro de 2023 e as elei\u00e7\u00f5es de 2024, bem como as resist\u00eancias militares, as press\u00f5es e chantagens do grande capital, e um cen\u00e1rio internacional desconfort\u00e1vel sob todos os aspectos&#8230;. enfim, o concerto de adversidades desafiando um governo impedido de afirmar-se.<\/p>\n<p>A consagra\u00e7\u00e3o de Donald Trump, um dado a mais no entrecho, \u00e9 inquestion\u00e1vel testemunho, agora reiterado, da identifica\u00e7\u00e3o da sociedade estadunidense com o discurso e o programa neofascista, desenvolvido em plano internacional. Criminoso condenado pelo Tribunal de Nova York, denunciado por fraude e conspira\u00e7\u00e3o, mit\u00f4mano contumaz, o republicano retornar\u00e1 no pr\u00f3ximo dia 20 \u00e0 presid\u00eancia dos EUA, um pa\u00eds e uma sociedade visceralmente beligerantes, e assim assumir\u00e1 o comando da maior for\u00e7a militar jamais conhecida, prometendo a exaspera\u00e7\u00e3o da velha pol\u00edtica do Big Stick, que foi e \u00e9 a ess\u00eancia do imperialismo norte-americano. Sua elei\u00e7\u00e3o, na voragem de vota\u00e7\u00e3o consagradora, n\u00e3o deve ser vista como raio em c\u00e9u azul. Tamb\u00e9m n\u00e3o se trata, o presidente reeleito, de um estranho no ninho do establishment. Trump \u00e9 personagem fortemente identificado com o que se costuma chamar de americano m\u00e9dio. Os reais valores americanos est\u00e3o em seu discurso, que por isso mesmo foi referendado.<\/p>\n<p>De igual modo e respeitadas as distin\u00e7\u00f5es, a assun\u00e7\u00e3o de Jair Bolsonaro como l\u00edder nacional, e presidente quase reeleito, n\u00e3o deve ser vista como &#8220;um ponto fora da curva&#8221;, pois reflete a conquista das grandes massas brasileiras pelo discurso da extrema-direita, em n\u00edveis jamais suspeitados entre n\u00f3s, seja durante o Estado Novo, seja durante o apogeu internacional do nazi-fascismo e do integralismo, seja durante o mandarinato dos generais que em 1\u00ba de abril de 1964 assumiram diretamente o poder que sempre controlaram.<\/p>\n<p>O esbo\u00e7o de panorama nos lembra os idos do s\u00e9culo passado, com a avalanche neofascista se espalhando pela Europa e o resto do mundo. Se as similitudes n\u00e3o s\u00e3o boas, desanimadoras s\u00e3o as dessemelhan\u00e7as, pois o mundo que seria engolfado pelo nazi-fascismo vivia naquela altura os desdobramentos da Revolu\u00e7\u00e3o de 1917, a politiza\u00e7\u00e3o das massas, a emerg\u00eancia do sindicalismo e das for\u00e7as prolet\u00e1rias, a progress\u00e3o das ideias e dos movimentos sociais e pol\u00edticos, o crescimento dos partidos comunistas e de esquerda de um modo geral \u2013 um mundo de avan\u00e7os que se revitalizava e crescia na resist\u00eancia ao nazi-fascismo. O fim da guerra, com a derrota do Eixo, anunciava a vit\u00f3ria da democracia e a retomada dos sonhos, alimentando as mais audaciosas utopias.<\/p>\n<p>A confronta\u00e7\u00e3o daqueles tempos com o mundo de hoje revela o recesso da resist\u00eancia revolucion\u00e1ria, a vit\u00f3ria ideol\u00f3gica e pol\u00edtica do neoliberalismo, o tr\u00e2nsito da social-democracia para a direita, do trabalhismo para o conservadorismo. Na Inglaterra, o trabalhismo, outrora liderado pela esquerda conduzida por Clement Attlee e Michael Foot, salta para a direita ou centro-direita de Keir Starmer, e na Alemanha o rotundo fracasso de Olaf Scholz e dos socialdemocratas do SPD atapeta a estrada por onde avan\u00e7a o nazismo do AFD (Alemanha para os Alem\u00e3es), o que, com a ascens\u00e3o da ultradireita de Giorgia Meloni na It\u00e1lia, conforma a decad\u00eancia europeia e a ren\u00fancia hist\u00f3rica \u00e0 expectativa de um projeto alternativo ao capitalismo desenganado.<\/p>\n<p>O fascismo parece avan\u00e7ar sem encontrar resist\u00eancia \u00e0 altura.<\/p>\n<p>Assim chega ao fim o ciclo das democracias liberais e a promessa de avan\u00e7os pol\u00edticos. Encerra-se tamb\u00e9m a experi\u00eancia socialdemocrata, tornada desnecess\u00e1ria desde o colapso sovi\u00e9tico; sobrevive na Escandin\u00e1via como enclave de bem-estar social no capitalismo globalizado.<\/p>\n<p>Quando nos \u00e9 dado celebrar os 40 anos do fim da ditadura instaurada em 1\u00ba de abril 1964 \u2013 sem nos havermos libertado da preemin\u00eancia da caserna sobre a vida civil \u2013, registramos dois anos da intentona de 8 de janeiro 2023, um desdobramento inevit\u00e1vel de 2018, por seu turno uma das crias do golpe parlamentar de 2016. A &#8220;Nova Rep\u00fablica&#8221;, anunciada com a elei\u00e7\u00e3o de Tancredo Neves (frustrada na posse de Jos\u00e9 Sarney), terminara melancolicamente com a elei\u00e7\u00e3o de Jair Bolsonaro. Momentaneamente contidapelas elei\u00e7\u00f5es de 2022, a pe\u00e7onha chega a 2025 ainda muito forte, pol\u00edtica e eleitoralmente.<\/p>\n<p>Em todos os planos da vida institucional se estampa a persistente hegemonia da alian\u00e7a direita-extrema direita.<\/p>\n<p>O Brasil, na sua trag\u00e9dia pol\u00edtica que parece n\u00e3o ter fim, segue a trilha tra\u00e7ada por um mundo historicamente regredido, entusiasmado pela regress\u00e3o, a modernidade do atraso, a vit\u00f3ria do passado que parecia morto, expulsando de nossos tempos as expectativas de um futuro melhor.<\/p>\n<p>Este \u00e9 o mundo do terceiro mandato de Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, e essas s\u00e3o suas circunst\u00e2ncias. Um processo pol\u00edtico preso \u00e0 linearidade, um processo social sem for\u00e7as para alterar a ordem, que evita saltos, caudat\u00e1rio do passado que sobrevive no presente, impedindo o parto do futuro, eterna promessa que n\u00e3o se cumpre.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/p>\n<p><strong>Roberto Amaral, ex-ministro da Ci\u00eancia e Tecnologia de Lula, ex-presidente do PSB<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os sonhos e as esperan\u00e7as se desmancham no ar quando estamos apenas vencendo os primeiros 30 dias de 2025, promessa de proje\u00e7\u00e3o do ano que passou. 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