{"id":346010,"date":"2025-01-20T07:30:35","date_gmt":"2025-01-20T10:30:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=346010"},"modified":"2025-01-20T07:47:16","modified_gmt":"2025-01-20T10:47:16","slug":"doutor-criado-em-favela-ve-o-mais-professores-como-resgate-de-esperancas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/doutor-criado-em-favela-ve-o-mais-professores-como-resgate-de-esperancas\/","title":{"rendered":"Doutor criado em favela v\u00ea o &#8216;Mais Professores&#8217; como resgate de esperan\u00e7as"},"content":{"rendered":"<p>A casa da tia Sandra era um dos melhores lugares do mundo para o menino recifense Thiago Santos. Por um motivo simples: ela era a \u00fanica da fam\u00edlia com emprego fixo. A av\u00f3 teve dez filhos. Mas era na casa de Sandra, na cidade de Abreu e Lima, que tinha um espa\u00e7o \u201craro\u201d: o banheiro. A estrutura da casa e o saber dela fizeram brilhar os olhos de Thiago, ent\u00e3o morador da favela de Frei Dami\u00e3o, na mesma cidade da tia. Sandra havia cursado magist\u00e9rio e conseguido trabalhar como professora. O sonho do menino, ent\u00e3o, ganhava o contorno de uma casa, mas tamb\u00e9m de uma sala de aula.<\/p>\n<p>O garoto pensou, ent\u00e3o, que queria ser professor para tamb\u00e9m ter um dia direito a essa dignidade. \u201cAtualmente, eu quero continuar a ser docente para que todos possam ter banheiro em suas casas e muito mais\u201d, diz Thiago, hoje aos 31 anos, que \u00e9 doutor em educa\u00e7\u00e3o e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Ele \u00e9 pesquisador do laborat\u00f3rio em pol\u00edticas p\u00fablicas, educa\u00e7\u00e3o e sociedade na institui\u00e7\u00e3o, e forma novos professores.<\/p>\n<p>Como especialista no tema, ele lamenta, entretanto, que \u201cmuitos estudantes\u201d de licenciatura e tamb\u00e9m profissionais desistem da profiss\u00e3o por causa da desvaloriza\u00e7\u00e3o da carreira docente. Por isso, nesse cen\u00e1rio, ele entende que o programa Mais Professores, anunciado pelo governo federal na \u00faltima semana, pode fazer salvar e resgatar esperan\u00e7as de profissionais \u2013 e tamb\u00e9m de alunos. \u201cJ\u00e1 vi muita gente desistindo da carreira\u201d, lamenta.<\/p>\n<p>Atualmente, o professor universit\u00e1rio ouve dos alunos sobre o que faz a paix\u00e3o pela profiss\u00e3o renascer ou ficar fr\u00e1gil. \u201cEu visualizo a necessidade de uma conversa constante sobre esse tema. Os alunos devem entender o valor da profiss\u00e3o e lutar pela valoriza\u00e7\u00e3o da carreira\u201d, defende.<\/p>\n<p><strong>Recursos<\/strong><br \/>\nO governo defendeu que os pontos principais do programa s\u00e3o a sele\u00e7\u00e3o para o ingresso na doc\u00eancia, a atratividade para as licenciaturas, a aloca\u00e7\u00e3o de professores, o aperfei\u00e7oamento da forma\u00e7\u00e3o docente e a valoriza\u00e7\u00e3o da carreira. \u201cDe modo geral, minha avalia\u00e7\u00e3o \u00e9 positiva sobre o programa\u201d, disse o pesquisador. Ele cita que a pol\u00edtica p\u00fablica pode melhorar a parceria do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o (MEC) com as universidades e tamb\u00e9m fortalecer a rela\u00e7\u00e3o federativa em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, do munic\u00edpio at\u00e9 o governo federal.<\/p>\n<p>Entre as a\u00e7\u00f5es da pol\u00edtica p\u00fablica, est\u00e3o previstas a cria\u00e7\u00e3o da Prova Nacional Docente (PND), que ser\u00e1 realizada anualmente para a sele\u00e7\u00e3o de professores, e o P\u00e9-de-Meia Licenciaturas (bolsa de atratividade e forma\u00e7\u00e3o para a doc\u00eancia), que oferecer\u00e1 aux\u00edlio financeiro mensal para estudantes permanecerem em cursos de forma\u00e7\u00e3o de professores.<\/p>\n<p>Ele considera a aloca\u00e7\u00e3o de recursos para estudantes que tiveram um bom rendimento no Exame Nacional do Ensino M\u00e9dio (notas acima de 650 de m\u00e9dia) como um acerto. \u201cIsso vai fazer com que as pessoas que tiraram boas m\u00e9dias no Enem tenham direito a se inscrever para ter subs\u00eddio do governo federal.&#8221; Segundo o programa, alunos v\u00e3o ser apoiados desde o in\u00edcio at\u00e9 o final da conclus\u00e3o do seu curso. Receber\u00e3o bolsa de R$ 1.050 por m\u00eas (R$ 700 para sacar a cada m\u00eas e R$ 350 para uma poupan\u00e7a).<\/p>\n<p><strong>Dificuldades<\/strong><br \/>\nPor outro lado, o professor argumenta que h\u00e1 desafios imediatos para a efetividade do programa. Ele entende que h\u00e1 um cen\u00e1rio de desvaloriza\u00e7\u00e3o da profiss\u00e3o docente, desrespeito flagrante ao piso salarial do magist\u00e9rio e tamb\u00e9m falta de planos de cargos e carreiras que sejam atrativas para novos professores. O professor lamenta, inclusive, que munic\u00edpios priorizem festas com custosas contrata\u00e7\u00f5es de artistas em detrimento da melhoria salarial para os trabalhadores da educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cA carreira docente no Brasil acaba por n\u00e3o ser atrativa porque n\u00e3o h\u00e1 uma valoriza\u00e7\u00e3o salarial, e o plano de cargos e carreiras n\u00e3o \u00e9 efetivado ou inexiste em muitos munic\u00edpios\u201d, afirma o pesquisador. Ele acrescenta que j\u00e1 existe no entender de estudantes que ser professor n\u00e3o \u00e9 bom porque causa cansa\u00e7o e por n\u00e3o proporcionar qualidade de vida, como em outras profiss\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>\u201cN\u00e3o resolve sozinho\u201d<\/strong><br \/>\nSob a mesma \u00f3tica, o presidente do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de S\u00e3o Paulo (Apeoesp), F\u00e1bio Moraes, entende que o governo apresentou um programa necess\u00e1rio para a valoriza\u00e7\u00e3o da doc\u00eancia para evitar a possibilidade de falta de professores. Mas, ele entende que, por si s\u00f3, o Mais Professores n\u00e3o vai resolver todos os problemas. \u201cOs professores da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica est\u00e3o vinculados aos estados e aos munic\u00edpios. Que os prefeitos e os governadores entendam o recado do governo federal que \u00e9 necess\u00e1rio valorizar a profiss\u00e3o docente.\u201d<\/p>\n<p>A diretoria da Confedera\u00e7\u00e3o Nacional dos Trabalhadores em Educa\u00e7\u00e3o (CNTE) tamb\u00e9m destacou, em nota, que vislumbra desafios imediatos, como a libera\u00e7\u00e3o dos docentes para acessarem os cursos de forma\u00e7\u00e3o continuada e de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. \u201cOutro desafio ser\u00e1 garantir a ades\u00e3o dos entes p\u00fablicos \u00e0 prova nacional do MEC para contrata\u00e7\u00e3o efetiva de professores\u201d, aponta a entidade.<\/p>\n<p>Para efetiva\u00e7\u00e3o do programa, a confedera\u00e7\u00e3o prop\u00f5e ajustes, incluindo condicionar repasses federais \u00e0 ades\u00e3o de estados e munic\u00edpios a essas pol\u00edticas de valoriza\u00e7\u00e3o dos profissionais. A entidade afirmou que \u00e9 fundamental a luta pela valoriza\u00e7\u00e3o do piso e das carreiras do magist\u00e9rio e pela implementa\u00e7\u00e3o do piso do funcion\u00e1rios. Al\u00e9m disso, aguarda a publica\u00e7\u00e3o da portaria do MEC, que, seguindo a legisla\u00e7\u00e3o atual, elevaria o piso para R$ 4.867,77.<\/p>\n<p><strong>Disparidades<\/strong><br \/>\nA entidade que representa os trabalhadores lamenta que, conforme levantamento da Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e o Desenvolvimento Econ\u00f4mico (OCDE), o investimento per capita na educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica brasileira \u00e9 o terceiro pior entre os pa\u00edses em desenvolvimento e que possuem melhores resultados no Programa Internacional de Avalia\u00e7\u00e3o de Estudantes (Pisa). \u201cEm 2023, o conjunto das redes p\u00fablicas no Brasil investiu cerca de R$ 17,7 mil anuais por aluno, contra R$ 158,2 mil em Luxemburgo, R$ 103,9 na Su\u00ed\u00e7a e R$ 99 mil na B\u00e9lgica\u201d.<\/p>\n<p>A consequ\u00eancia \u00e9, conforme argumenta a entidade, que o Brasil estaria \u201ch\u00e1 d\u00e9cadas nas \u00faltimas coloca\u00e7\u00f5es da pesquisa da OCDE em rela\u00e7\u00e3o aos sal\u00e1rios de professores que atuam no n\u00edvel b\u00e1sico\u201d. A CNTE acrescenta que, atualmente, 54% dos docentes das redes estaduais trabalham com contratos prec\u00e1rios, sem estabilidade ou a garantia do piso do magist\u00e9rio.<\/p>\n<p><strong>Esperan\u00e7a em sala de aula<\/strong><br \/>\nO professor pernambucano Thiago Santos, que passou mais de 20 anos morando em favela, sonhou que, um dia, poderia fazer a diferen\u00e7a em sala de aula, inclusive para comunidades como a que ele nasceu e cresceu. Hoje ele sente alegria e emo\u00e7\u00e3o com a forma\u00e7\u00e3o de novos professores. \u201cEu vi que, atrav\u00e9s dessa profiss\u00e3o, n\u00f3s podemos fazer muito pelo pa\u00eds\u201d. Em sua forma\u00e7\u00e3o no ensino m\u00e9dio, Thiago ouviu de colegas que estranhavam a escolha do estudante por cursar licenciatura, j\u00e1 que ele era estudioso e inteligente.<\/p>\n<p>\u201cUma pessoa que veio da extrema pobreza, por que escolheria essa carreira?\u201d, perguntavam ao rapaz. Thiago seguiu firme e at\u00e9 influenciou a m\u00e3e (que morreu de covid-19 em 2020), empregada dom\u00e9stica, a tamb\u00e9m voltar para a escola. \u201cEla sentia a necessidade de voltar para a escola porque teve um momento que ela n\u00e3o conseguia mais nos ajudar com o dever de casa.\u201d<\/p>\n<p>Al\u00e9m da tia professora, a hist\u00f3ria da m\u00e3e de Thiago foi inspira\u00e7\u00e3o para o professor. Ele recorda que era ela que fazia a capinha dos livros e dos cadernos que recebiam na escola. Em meio \u00e0 mis\u00e9ria, a m\u00e3e nunca abriu m\u00e3o que o rapaz continuasse os estudos. Ao olhar para a pr\u00f3pria hist\u00f3ria, ele entende bem a transforma\u00e7\u00e3o que um professor e a escola podem fazer na vida de algu\u00e9m.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A casa da tia Sandra era um dos melhores lugares do mundo para o menino recifense Thiago Santos. Por um motivo simples: ela era a \u00fanica da fam\u00edlia com emprego fixo. A av\u00f3 teve dez filhos. Mas era na casa de Sandra, na cidade de Abreu e Lima, que tinha um espa\u00e7o \u201craro\u201d: o banheiro. [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":346011,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[165],"tags":[],"class_list":["post-346010","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nordeste"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/346010","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=346010"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/346010\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":346013,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/346010\/revisions\/346013"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/346011"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=346010"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=346010"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=346010"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}