{"id":346042,"date":"2025-01-20T06:41:15","date_gmt":"2025-01-20T09:41:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=346042"},"modified":"2025-01-20T07:46:21","modified_gmt":"2025-01-20T10:46:21","slug":"um-conto-sobre-o-dono-de-toda-aquela-gente-como-rubinho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/um-conto-sobre-o-dono-de-toda-aquela-gente-como-rubinho\/","title":{"rendered":"Um conto sobre o dono de toda aquela gente, como Rubinho"},"content":{"rendered":"<p>Assim que avistei aquela propriedade em Maragogipe, Bahia, correu-se um calafrio por todo o corpo. Mesmo ainda n\u00e3o contando com oito anos, sabia que ali morava o dono de todas aquelas terras, de toda a regi\u00e3o, de toda aquela gente, incluindo meus pais, irm\u00e3os e eu. Antes de ser levado dos bra\u00e7os de minha m\u00e3e, ela havia me advertido que esse dia logo chegaria.<\/p>\n<p>\u2014 Rubinho, meu filho, n\u00e3o \u00e9 que sua m\u00e3e n\u00e3o deseja estar sempre ao seu lado. \u00c9 a vida que nos for\u00e7a a fazer coisas contra a nossa vontade.<\/p>\n<p>Mal entrei na sala, arrastado pelas m\u00e3os firmes de um dos homens que haviam me arrancado da minha casa, fui colocado em um canto com outras crian\u00e7as. Todos ficamos mudos, enquanto um sujeito, com um grande livro nas m\u00e3os, lia e fazia anota\u00e7\u00f5es. Sentado em uma poltrona ornada, que mais parecia trono que assento de gente comum, estava Dom Rubens.<\/p>\n<p>Creio que o que mais me chamou a aten\u00e7\u00e3o foi aquele olhar penetrante e perscrutador, como se j\u00e1 soubesse todas as respostas antes mesmo de algu\u00e9m pensar em fazer perguntas. N\u00e3o era mais alto nem mais corpulento do que os homens comuns, mas era n\u00edtida a altivez de seus gestos. Tipo s\u00e9rio e sombrio, n\u00e3o fazia quest\u00e3o de esconder o mau humor e, n\u00e3o duvidei naquele instante, que Dom Rubens n\u00e3o era muito af\u00e1vel.<\/p>\n<p>\u2014 Alberico, quem \u00e9 o negrinho mais claro?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 o filho da Alzira, Dom Rubens.<\/p>\n<p>\u2014 Hum. Qual \u00e9 o seu nome, menino?<\/p>\n<p>Diante de tal pergunta, n\u00e3o soube o que responder, at\u00e9 que Alberico, o homem do livro, se dirigiu a mim com rispidez.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o t\u00e1 ouvindo o patr\u00e3o, moleque? Diga logo o seu nome!<\/p>\n<p>\u2014 Rubinho.<\/p>\n<p>\u2014 Rubinho, senhor!<\/p>\n<p>\u2014 Rubinho, senhor.<\/p>\n<p>\u2014 Melhor assim, moleque! Dom Rubens, se o senhor quiser, ponho esse negrinho em r\u00e9deas firmes. Rapidinho ele aprende a respeitar o senhor.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 preciso. Traga-o aqui.<\/p>\n<p>Fui arrastado pelo bra\u00e7o e, assim que estaquei diante do dono de tudo, ele me observou como tentando encontrar algo que lhe fosse conhecido. Em seguida, num gesto que jamais pensei que Dom Rubens teria, ele estendeu a m\u00e3o direita em minha dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Rubens! Parece que compartilhamos o mesmo nome.<\/p>\n<p>Sem entender, estendi a minha m\u00e3o, que recebeu algumas sacudidelas amig\u00e1veis. Mesmo nome? Como assim? Naquele instante percebi que Rubinho era meu apelido, que era o modo carinhoso que mam\u00e3e escolheu me chamar.<\/p>\n<p>Apesar de n\u00e3o me sentir confort\u00e1vel com aquela situa\u00e7\u00e3o, de certo modo, senti-me acolhido por Dom Rubens, como se algo nos ligasse al\u00e9m do nome. Tanto \u00e9 que, apesar da fisionomia quase r\u00edgida, foi como se estivesse sido acolhido por meu pai. Tal percep\u00e7\u00e3o, todavia, foi abalada no instante seguinte, quando, por um gesto quase impercept\u00edvel, ele ordenou que Alberico me levasse para junto dos outros meninos e meninas.<\/p>\n<p>Nos anos seguintes, sobrevivi que nem mais um dos tantos escravizados. Antes do amanhecer, era enxotado do galp\u00e3o, onde a palha nos servia de colch\u00e3o e coberta e, caso ela n\u00e3o fosse suficiente, esprem\u00edamos na tentativa de esquentar nossos corpos sofridos.<\/p>\n<p>Colh\u00edamos na \u00e9poca da colheita, seme\u00e1vamos na \u00e9poca do plantio. De t\u00e3o fatigados, sonh\u00e1vamos com a senzala no final do dia, que, quase sempre, se findava quando a noite j\u00e1 n\u00e3o era nenhuma menina. Engol\u00edamos o que consegu\u00edamos engolir e nem nos record\u00e1vamos do \u00faltimo momento acordado, tamanho o cansa\u00e7o, at\u00e9 que \u00e9ramos cutucados com os bicos das botinas do capataz e outros pretos com certas regalias.<\/p>\n<p>Certa feita, quando j\u00e1 contava com meus quase 15 anos, fui arrancado da senzala com pontap\u00e9s de Juliano, um dos mais cru\u00e9is que trabalhavam ao lado do capataz. Tentei me desvencilhar dos chutes, mas a maioria me acertou dolorosamente.<\/p>\n<p>\u2014 Anda, negro!<\/p>\n<p>Fui amarrado em um tronco. Sabia que os que reclamavam eram ainda mais surrados e, por isso, me mantive calado, at\u00e9 meus gemidos eram mudos. Juliano caprichou nas chibatadas, rasgando o couro das minhas costas. No entanto, assim que preparava para mais uma lapada, o meu algoz foi impedido pela voz rouca de Alberico.<\/p>\n<p>Retirado do tronco, fui levado at\u00e9 Dom Rubens, que a tudo assistia. Ele me encarou sem mostrar emo\u00e7\u00f5es, at\u00e9 que fez um breve sinal de cabe\u00e7a para Alberico. Este, por sua vez, ordenou que dois pretos arrastassem Juliano para o tronco. Suas vestes foram arrancadas. Logo em seguida, Alberico me entregou o chicote. N\u00e3o precisou dizer palavras.<\/p>\n<p>Fui tomado por uma f\u00faria e chicoteei Juliano at\u00e9 minhas for\u00e7as se exaurirem. A despeito do sangue que escorria por seu corpo, minha v\u00edtima n\u00e3o emitiu nenhum som antes de desmaiar. Fui amarrado no mesmo tronco e, assim, passamos os pr\u00f3ximos dias ali a p\u00e3o e \u00e1gua.<\/p>\n<p>Apesar de nos olharmos, n\u00e3o conversamos. Cheguei a imaginar que passar\u00edamos o resto dos nossos dias ali, at\u00e9 que, n\u00e3o me lembro se na manh\u00e3 do sexto ou s\u00e9timo dia, fomos desamarrados. Alberico mandou nos dar sab\u00e3o para nos lavarmos. Ganhamos roupas limpas e, apesar de ainda sofrermos com as carnes expostas, fomos levados para o casar\u00e3o, onde estava Dom Rubens sentado na poltrona.<\/p>\n<p>Dono de tudo, senhor de todos n\u00f3s, o homem nos observou por alguns instantes. Pela primeira vez observei a cor dos seus olhos. Eram cinzentos, algo raro por ali. De poucas palavras, apesar de homem cruel, pareceu-me sincero.<\/p>\n<p>\u2014 Juliano, quero que voc\u00ea ensine tudo o que sabe pro Diego.<\/p>\n<p>Diego? Quem era esse Diego? N\u00e3o precisei esperar muito para perceber que Diego era eu. Dom Rubens, o rei daquele lugar, acabara de dar nome ao que j\u00e1 era seu antes mesmo de minha m\u00e3e me parir.<\/p>\n<p>Hoje, perto de completar 30 anos, continuo trabalhando ao lado de Juliano. N\u00e3o nos tornamos amigos, mas aprendemos a conviver de modo a nos garantir certo conforto, ainda mais em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pen\u00faria imposta aos outros pretos. De vez em quando, a chibata estala no lombo de algum negro pregui\u00e7oso, seja pelas minhas m\u00e3os, seja pelas do Juliano.<\/p>\n<p>Dom Rubens ainda vive, como se fosse a erva daninha que resiste \u00e0s novas plantas. N\u00e3o faz muito tempo, ele conversou comigo sobre ter me escolhido entre tantos outros escravos.<\/p>\n<p>\u2014 Sei que voc\u00ea pensa sobre isso, Diego.<\/p>\n<p>\u2014 De vez em quando, Dom Rubens.<\/p>\n<p>\u2014 Sabe por que o escolhi?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, Dom Rubens.<\/p>\n<p>\u2014 De algum modo, o sangue que corre aqui nas minhas veias s\u00e3o como o sangue que corre a\u00ed nas suas.<\/p>\n<p>Devo ter feito cara de espanto, pois o velho desandou a rir at\u00e9 engasgar. Tossiu quatro ou cinco vezes e voltou a me encarar com aqueles olhos cinzentos.<\/p>\n<p>\u2014 O senhor \u00e9 meu pai, Dom Rubens?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o seja rid\u00edculo, negro! N\u00e3o sou homem que se deita com sua gente. Diego, meu falecido irm\u00e3o, \u00e9 que tinha esse costume mundano.<\/p>\n<p>A vontade de matar Dom Rubens ainda perambula pela minha mente, mas \u00e9 cada vez mais escassa. N\u00e3o sei se por medo de retornar \u00e0 senzala, cujo odor ainda impregna minhas narinas ou, ent\u00e3o, h\u00e1 tempos suprimi os resqu\u00edcios daquele menino, cuja m\u00e3e chamava de Rubinho.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/p>\n<div><strong>Eduardo Mart\u00ednez \u00e9 autor do livro \u201c57 Contos e Cr\u00f4nicas por um Autor muito Velho\u201d.<\/strong><\/div>\n<div>\n<div class=\"mvp-post-soc-in\">\n<div id=\"mvp-content-body\" class=\"left relative\">\n<div id=\"mvp-content-body-top\" class=\"left relative\">\n<div id=\"mvp-content-main\" class=\"left relative\">\n<p>Compre aqui\u00a0<span class=\"x19la9d6 x1fc57z9 x6ikm8r x10wlt62 x19co3pv x1g5zs5t xfibh0p xiy17q3 x1xsqp64 x1lkfr7t xexx8yu x4uap5 x18d9i69 xkhd6sd\"><span class=\"xrtxmta x1bhl96m\"><img decoding=\"async\" class=\"emoji\" role=\"img\" draggable=\"false\" src=\"https:\/\/s.w.org\/images\/core\/emoji\/14.0.0\/svg\/1f447-1f3ff.svg\" alt=\"&#x1f447;&#x1f3ff;\" \/><\/span><\/span><span class=\"x19la9d6 x1fc57z9 x6ikm8r x10wlt62 x19co3pv x1g5zs5t xfibh0p xiy17q3 x1xsqp64 x1lkfr7t xexx8yu x4uap5 x18d9i69 xkhd6sd\"><span class=\"xrtxmta x1bhl96m\"><img decoding=\"async\" class=\"emoji\" role=\"img\" draggable=\"false\" src=\"https:\/\/s.w.org\/images\/core\/emoji\/14.0.0\/svg\/1f447-1f3ff.svg\" alt=\"&#x1f447;&#x1f3ff;\" \/><\/span><\/span><span class=\"x19la9d6 x1fc57z9 x6ikm8r x10wlt62 x19co3pv x1g5zs5t xfibh0p xiy17q3 x1xsqp64 x1lkfr7t xexx8yu x4uap5 x18d9i69 xkhd6sd\"><span class=\"xrtxmta x1bhl96m\"><img decoding=\"async\" class=\"emoji\" role=\"img\" draggable=\"false\" src=\"https:\/\/s.w.org\/images\/core\/emoji\/14.0.0\/svg\/1f447-1f3ff.svg\" alt=\"&#x1f447;&#x1f3ff;\" \/><\/span><\/span><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho\">http:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho<\/a><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Assim que avistei aquela propriedade em Maragogipe, Bahia, correu-se um calafrio por todo o corpo. 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