{"id":346404,"date":"2025-01-24T01:56:21","date_gmt":"2025-01-24T04:56:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=346404"},"modified":"2025-01-23T22:07:35","modified_gmt":"2025-01-24T01:07:35","slug":"sem-obra-reconhecida-josias-o-sertanejo-morre-alvejado-por-fiosdeumaegua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/sem-obra-reconhecida-josias-o-sertanejo-morre-alvejado-por-fiosdeumaegua\/","title":{"rendered":"Sem obra reconhecida, Josias, o sertanejo, morre alvejado por fiosdeuma\u00e9gua"},"content":{"rendered":"<p>Come\u00e7ou com uma brincadeira. Ou melhor, como a coloca\u00e7\u00e3o da cereja no bolo, o coroamento da constru\u00e7\u00e3o de um avatar liter\u00e1rio.<\/p>\n<p>O criador do avatar chamava-se Josias, tinha 63 anos, vivia no sert\u00e3o pernambucano e era escritor. N\u00e3o se considerava assim, era mesmo, e um escritor bem razo\u00e1vel. Mas ele queria mais, desejava que seus livros atra\u00edssem multid\u00f5es, seduzissem os cr\u00edticos, atravessassem os s\u00e9culos.<\/p>\n<p>Sonhava com a gl\u00f3ria liter\u00e1ria, em atingir o patamar em que se encontrava seu \u00eddolo, o russo Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski.<\/p>\n<p>S\u00f3 que a S\u00e3o Petersburgo do s\u00e9culo XIX n\u00e3o \u00e9 a Recife do s\u00e9culo XXI, as estepes geladas da R\u00fassia n\u00e3o s\u00e3o a caatinga esturricada pelo sol do sert\u00e3o. Nenhuma editora brasileira de porte entrava em contato com ele, suplicando para publicar seus textos. As pequenas editoras nordestinas tamb\u00e9m o ignoravam: eram um bando de imbecis, repetia, que n\u00e3o nvalorizavam o talento local. Em tais circunst\u00e2ncias, os poucos livros que Josias publicara foram editados por conta pr\u00f3pria, sem apoio de divulga\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o venderam nem receberam cr\u00edticas consagradoras. As redes sociais ofereciam um m\u00ednimo de reconhecimento para sua produ\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o a gl\u00f3ria ansiada.<\/p>\n<p>Quem sabe, ela viria com a constru\u00e7\u00e3o de um avatar? Ele n\u00e3o seria muito diferente de seus personagens e do pr\u00f3prio Josias. Ele povoava seus textos de gente sem um tost\u00e3o, que se virava como podia, castigada pelo alcoolismo mas que conservava a solidariedade e a alegria de viver. O autor tamb\u00e9m era assim, em certa medida; pois bem, o avatar teria essas caracter\u00edsticas ampliadas: sempre tentando descolar algum para a pr\u00f3xima dose, o pr\u00f3ximo baseado, sempre louco, mas encontrando um porto seguro no conv\u00edvio com seus pares e no contato com seus amados cl\u00e1ssicos da literatura. Seus av\u00f3s conduziam rebanhos pelo sert\u00e3o; o neto via seu avatar como um pastor de personagens e palavras. N\u00e3o um pastor da Arc\u00e1dia em meio a ninfas, o arcadismo era uma corrente liter\u00e1ria morta havia muito tempo; algo mais pr\u00f3ximo (mas n\u00e3o na mesma linha) dos pastores da noite, t\u00edtulo de um livro de Jorge Amado. Era isto: um pastor de palavras.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que lhe veio a ideia da cereja no bolo, de fazer \u201cseu\u201d personagem sonhar com o Pr\u00eamio Nobel de Literatura. Sabia que isso provocaria rea\u00e7\u00f5es de incredulidade \u2013 o qu\u00ea? Um autor desconhecido desejar o mais alto galard\u00e3o liter\u00e1rio? \u2013 mas tamb\u00e9m refor\u00e7aria a dimens\u00e3o quixotesca do avatar, comovendo leitores e cr\u00edticos. N\u00e3o custava tentar.<\/p>\n<p>S\u00f3 que o tempo foi passando, a profus\u00e3o de leitores n\u00e3o veio, a chuva de cr\u00edticas estimulantes n\u00e3o ocorreu (chove pouco, no sert\u00e3o)&#8230; Em contrapartida, contaminado pelo avatar, Josias passou a sonhar com o Nobel de Literatura para si pr\u00f3prio. De in\u00edcio, em devaneios, do tipo \u201cSeria legal se os suecos dessem o pr\u00eamio a um escritor sertanejo praticamente desconhecido\u201d. Depois, com uma gastura que aumentava a cada ano, a cada rejei\u00e7\u00e3o \u2013 a cada premia\u00e7\u00e3o de um escritor que n\u00e3o ele. A cerim\u00f4nia da entrega do pr\u00eamio tornou-se uma fonte de tormento. Nessas noites, bebia at\u00e9 cair, desmaiado.<\/p>\n<p>A gota d\u2019\u00e1gua foi a concess\u00e3o do pr\u00eamio a uma sul-coreana. Ele havia engolido (fazer o qu\u00ea?) agraciados europeus, norte-americanos e, numa guinada terceiro mundista da Academia sueca, latino-americanos, indianos e de populosos pa\u00edses mu\u00e7ulmanos. Mas uma sul-coreana? Por que n\u00e3o premiar, em vez disso, um sul-americano do sert\u00e3o de Pernambuco chamado Josias?<\/p>\n<p>Literato na \u00faltima, recordou uma passagem de El siglo de las luces, do cubano Alejo Carpentier, em que, num levante, a multid\u00e3o madrilena investe contra os invasores franceses com armas improvisadas, \u201cde cuanto pudiese cortar, herir, hacer da\u00f1o\u201d. Que pena, os engravatados suecos eram inating\u00edveis, mas havia outros, de gravatas fora de moda e ternos baratos, na Academia de Letras da cidadezinha em que morava. Mostraria a esses <em>fiosdeuma\u00e9gua<\/em>, que se imaginavam europeus, haviam cortado seus la\u00e7os com a caatinga e desprezavam os escritores ligados \u00e0 gente pobre e sofrida da regi\u00e3o, que um sertanejo digno desse nome tamb\u00e9m pode cortar, ferir e causar dano. Vestiu seu gib\u00e3o de couro, empunhou a peixeira, foi para a porta da Academia e retalhou todos que cruzavam seu caminho, at\u00e9 ser abatido a tiros.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Come\u00e7ou com uma brincadeira. Ou melhor, como a coloca\u00e7\u00e3o da cereja no bolo, o coroamento da constru\u00e7\u00e3o de um avatar liter\u00e1rio. O criador do avatar chamava-se Josias, tinha 63 anos, vivia no sert\u00e3o pernambucano e era escritor. N\u00e3o se considerava assim, era mesmo, e um escritor bem razo\u00e1vel. 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