{"id":346564,"date":"2025-01-28T02:11:27","date_gmt":"2025-01-28T05:11:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=346564"},"modified":"2025-01-27T21:47:13","modified_gmt":"2025-01-28T00:47:13","slug":"onde-esta-a-poesia-por-onde-andam-e-o-que-sao-os-poetas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/onde-esta-a-poesia-por-onde-andam-e-o-que-sao-os-poetas\/","title":{"rendered":"Onde est\u00e1 a poesia? Por onde andam (e o que s\u00e3o) os poetas?"},"content":{"rendered":"<p>Andei refletindo sobre o que \u00e9 ser poeta hoje em dia. Com a profus\u00e3o de poesia que nos chega pelas redes, n\u00e3o entendo aqueles que dizem n\u00e3o ter mais espa\u00e7o a poesia, estar ela morta&#8230; Ela tem muito espa\u00e7o, na verdade, e sobreviveu a esses tempos estranhos, l\u00edquidos, fugazes.<\/p>\n<p>Antes era mais dif\u00edcil. O poeta era o menestrel que cantava. Mais tarde, o poeta se tornou o privilegiado que publicava, num pa\u00eds de poucos leitores. Lembrei um poeta mineiro (eu tenho 50% de mineiridade nas veias), Murilo Mendes, cujo primeiro livro foi lan\u00e7ado em 1930. A edi\u00e7\u00e3o foi paga por seu pai, um pouco antes meio brigado com o filho pois o menino n\u00e3o tinha emprego fixo, nem ambi\u00e7\u00e3o. Queria mesmo era viver de poesia. E, de certa forma, viveu.<\/p>\n<p>Fico imaginando quantos n\u00e3o chegaram a debutar nos saraus, n\u00e3o frequentaram as estantes das livrarias, n\u00e3o gravaram seus nomes nos livros da posteridade apenas porque n\u00e3o tinham um pai rico para bancar uma edi\u00e7\u00e3o. Quantos lindos poemas n\u00e3o devem ter ficado no fundo da gaveta at\u00e9 que a tra\u00e7a os roeu.<\/p>\n<p>Hoje, os menestr\u00e9is cantam nas redes. A publica\u00e7\u00e3o do livro \u00e9 muito mais acess\u00edvel e pode ser at\u00e9 sem nenhum grama de papel, imaginem.<\/p>\n<p>E a poesia corre solta, aos borbot\u00f5es, \u00e0s esc\u00e2ncaras&#8230;<\/p>\n<p>Abro uma dessas redes e leio uma postagem contra a corrente. Dizia mais ou menos assim: \u201calguns pensam que fazer poesia \u00e9 apenas escrever per\u00edodos curtos, sobrepostos, tentando usar met\u00e1foras bonitas.\u201d<\/p>\n<p>Pensei tratar-se de um cr\u00edtico mordaz. Comecei a explorar suas postagens. E ali encontrei mais: \u201cpoesia tem que ter ritmo, m\u00e9trica. Poesia precisa explorar as formas cl\u00e1ssicas. Se a pessoa n\u00e3o faz isso, n\u00e3o \u00e9 poeta. Apenas pensa que \u00e9.\u201d<\/p>\n<p>Mais adiante, a melhor postagem de todas: \u201cse voc\u00ea concorda comigo, me segue e acompanhe o lan\u00e7amento do meu curso sobre como escrever poesia.\u201d<\/p>\n<p>Pronto&#8230; De imediato, veio \u00e0 mente Agripino Grieco, franco e temido cr\u00edtico liter\u00e1rio do s\u00e9culo XX. Ser\u00e1 que, ao fim de um artigo exaltando ou destruindo um escritor, ele teria coragem de vender um curso? \u00c0 dist\u00e2ncia. Na \u00e9poca, certamente por correspond\u00eancia. Claro que a credibilidade do \u201ccr\u00edtico\u201d caiu por terra. Percebi bem suas segundas inten\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Corte para algu\u00e9m que entende do assunto. Ao menos para mim \u00e9 refer\u00eancia. Um poeta. Pergunto a ele: o que \u00e9 ser, hoje em dia, o que voc\u00ea \u00e9? Omitirei o trecho da conversa em que ele me confessou nem saber direito o que \u00e9. At\u00e9 o momento em que entendeu o sentido de minha indaga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E ele me respondeu: talvez o mesmo que haja sido h\u00e1 s\u00e9culos. \u00c9 algu\u00e9m que, dotado de uma sensibilidade absurda, entranha-se com os males do mundo. Os processa e os vomita, mesmo para quem n\u00e3o quer ou nem sabe ouvir.<\/p>\n<p>Passou longe da resposta por mim esperada. Queria ouvir sobre a t\u00e9cnica preconizada pelo vendedor de curso.<\/p>\n<p>Sigo minha investiga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Novamente, vou \u00e0s redes. Determinado grupo de produ\u00e7\u00e3o po\u00e9tica lan\u00e7a um edital para agregar novos membros. Todos os anteriores me parecem bastante instagram\u00e1veis, jovens, livres, perform\u00e1ticos. A sele\u00e7\u00e3o \u00e9 conclu\u00edda e, bingo, os integrantes escolhidos s\u00e3o instagram\u00e1veis, jovens, livres, perform\u00e1ticos.<\/p>\n<p>Pelo crit\u00e9rio do cr\u00edtico-vendedor-de-curso, acho que nenhum se enquadraria no modelo can\u00f4nico de poesia. Levando em conta a produ\u00e7\u00e3o de seus cong\u00eaneres, conclu\u00ed que n\u00e3o atendem \u00e0 m\u00e9trica e \u00e0 rima. Poesia precisa disso mesmo? Pessoalmente, acho que n\u00e3o. Precisa ter sentido, beleza, ritmo. E d\u00e1 para ter ritmo sem m\u00e9trica e sem rima. A quem discordar, cartas para a reda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Novamente, indago \u00e0quele poeta-refer\u00eancia sobre seus jovens colegas. E ele: sinto-me deslocado. Evito at\u00e9 passar perto para n\u00e3o contaminar alguns com minha obsolesc\u00eancia.<\/p>\n<p>Uma obsolesc\u00eancia rebelde, contudo. Mas protesto. Ele ainda \u00e9 um poeta necess\u00e1rio e que, de alguma forma, me alimenta. Ele mal sabe, mas j\u00e1 chorei, sozinha, lendo-lhe certos versos.<\/p>\n<p>Eu me sinto mais nutrida por provoca\u00e7\u00f5es do que pelos c\u00e2nones irrepreens\u00edveis. Aquele verso que, lido, sem que a gente pense muito, mexe por dentro. Atinge um ponto qualquer e faz pensar.<\/p>\n<p>Quisera eu ser um bichinho necr\u00f3fago de antigas f\u00f3rmulas (percebam que jamais usei a express\u00e3o \u2018obsoletas\u2019) para saciar-me delas sem remorsos. Mas a elas retorno e, acima da mera forma, s\u00f3 consigo me encantar com imagens. S\u00e3o as imagens que trazem as sensa\u00e7\u00f5es, arrepiam a pele, enchem os olhos de \u00e1gua.<\/p>\n<p>Imagens que parecem quadros de uma exposi\u00e7\u00e3o. Imagens est\u00e1ticas que, entre si, dialogam, ensinam, prop\u00f5em, orientam, conduzem e acalentam.<\/p>\n<p>Uma exposi\u00e7\u00e3o viva. Abre-se a capa, vira-se a p\u00e1gina, com sorte at\u00e9 se faz escala numa dedicat\u00f3ria, corre-se at\u00e9 o \u00faltimo verso e, nesse caminho, topamos com campos de girass\u00f3is, mist\u00e9rios, noites estreladas, amores, o mar, perdas, reden\u00e7\u00e3o, eras passadas, pessoas extintas, a exalta\u00e7\u00e3o da arte, a morte, a d\u00favida.<\/p>\n<p>\u00c9 tudo o que eu almejo encontrar num livro de poemas.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/p>\n<p><strong>Cec\u00edlia Baumann \u00e9 Editora Assistente do Caf\u00e9 Liter\u00e1rio<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Andei refletindo sobre o que \u00e9 ser poeta hoje em dia. Com a profus\u00e3o de poesia que nos chega pelas redes, n\u00e3o entendo aqueles que dizem n\u00e3o ter mais espa\u00e7o a poesia, estar ela morta&#8230; Ela tem muito espa\u00e7o, na verdade, e sobreviveu a esses tempos estranhos, l\u00edquidos, fugazes. 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