{"id":346675,"date":"2025-01-29T10:30:28","date_gmt":"2025-01-29T13:30:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=346675"},"modified":"2025-01-29T10:56:39","modified_gmt":"2025-01-29T13:56:39","slug":"ta-la-o-corpo-estendido-no-chao-e-a-vela-acesa-lembrando-o-beijo-de-judas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/ta-la-o-corpo-estendido-no-chao-e-a-vela-acesa-lembrando-o-beijo-de-judas\/","title":{"rendered":"T\u00e1 l\u00e1 o corpo estendido no ch\u00e3o&#8230; e a vela acesa lembrando o beijo de Judas"},"content":{"rendered":"<p>Tr\u00eas disparos e o corpo do homem vai ao ch\u00e3o. Dois tiros no peito e um na pilastra que dividia as portas da padaria. Os outros dois homens que estavam na mesma mesa se afastam para tr\u00e1s com a roupa e o rosto respingados de sangue.<\/p>\n<p>O homem ainda tem movimentos bruscos at\u00e9 paralisar mortalmente.<\/p>\n<p>Da carrocinha de cachorro quente ao lado do jornaleiro j\u00e1 fechado, em frente a padaria, outro homem paralisado, de terror. A moto com dois homens que fizeram os disparos pediram ao humilde vendedor que se afastasse da carrocinha, o que ele fez, mas manteve-se inerte ficando surdo com o barulho dos disparos.<\/p>\n<p>Menos de um minuto de sil\u00eancio foi quebrado pelos latidos do c\u00e3o que acompanhava o homem, agora morto no ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma po\u00e7a de sangue vem surgindo do seu corpo deitado de bru\u00e7os no piso frio. Frio do piso azulejado. Frio da noite de inverno com aquela chuvinha fina. Frio da morte r\u00e1pida e violenta.<\/p>\n<p>As pessoas come\u00e7am a chegar, uma pequena multid\u00e3o curiosa. Os atendentes da padaria param tudo para olhar a cena. Pessoas que estavam em outras mesas levantam-se assustadas. Os homens que estavam \u00e0 mesa com ele,<br \/>\ndesaparecem.<\/p>\n<p>Do meio da multid\u00e3o ouve-se um grito de uma mulher, que rompe destemida e se joga no ch\u00e3o. A rec\u00e9m vi\u00fava chega ao local. Agarra-se ao corpo em prantos.<\/p>\n<p>&#8211; Quanta viol\u00eancia! A padaria foi assaltada? &#8211; diz em seu del\u00edrio. Ele \u00e9 um homem de bem. Estava acertando a vida. Nem andava mais armado.<\/p>\n<p>Desfez-se da arma.<\/p>\n<p>Alguns ficaram quietos e os curiosos murmuravam baixinho.<\/p>\n<p>Os dois eram antigos no bairro e todos sabiam que tudo que ela falava n\u00e3o era verdade.<\/p>\n<p>Quando os bombeiros chegaram e atestaram a morte pediram para que algu\u00e9m verificasse os pertences dele.<\/p>\n<p>Duas amigas da esposa se ajoelharam pr\u00f3ximas do corpo. Uma tentava desvencilhar-se da po\u00e7a de sangue, consolando a vi\u00fava. A outra come\u00e7ou a mexer no corpo diante do bombeiro que se mant\u00e9m alheio ao acontecido.<\/p>\n<p>Sim, ele n\u00e3o estava armado. Tirou dele o rel\u00f3gio de pulso e o celular. E dos bolsos da camisa rasgada e das cal\u00e7as jeans retirava algumas trouxinhas de maconha e papelotes de coca\u00edna. E ia entregando ao seu filho que estava em p\u00e9 junto dela. Ele ainda traficava.<\/p>\n<p>O c\u00e3o andava no meio da po\u00e7a de sangue para lamber o rosto do dono, suas patas avermelharam -se. O corpo ainda estava quente mas o sangue n\u00e3o parava de escorrer pela cal\u00e7ada.<\/p>\n<p>A pol\u00edcia chegou e verificou o corpo. Come\u00e7aram a fazer perguntas. Os tiros tinham sido certeiros.<\/p>\n<p>Mandados.<\/p>\n<p>A mulher tinha parado de chorar e pediu \u00e0 amiga para fazerem uma ora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea sabe a prece de C\u00e1ritas?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei de cor &#8211; disse a amiga mais preocupada com o sangue diante de suas pernas.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o repete comigo. O mundo est\u00e1 muito violento. Meu marido foi assassinado num assalto.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m ouviu a prece pois todos conversavam entre si.<\/p>\n<p>Os filhos chegaram. A mocinha queria tirar a m\u00e3e do local. O filho s\u00f3 observava.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou a chover fininho e o frio assolava aquela noite, mas o corpo ainda estava quente.<\/p>\n<p>O filho conversou com os policiais, disse que o pai estava se redimindo.<\/p>\n<p>Por \u00faltimo chegou o cunhado, que tamb\u00e9m tentou retirar a irm\u00e3 de cima do corpo. Rec\u00e9m sa\u00eddo da pris\u00e3o queria lev\u00e1-la para casa, deix\u00e1-la em seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>Aos poucos a pequena multid\u00e3o foi se dispersando. Os bombeiros foram embora, teria que esperar o rabec\u00e3o para levar o corpo e isto ia levar horas.<\/p>\n<p>A filha conseguiu convencer a m\u00e3e a sair dali, voltar para casa, a poucos metros do ocorrido. A padaria fechou. O homem da carrocinha de cachorro quente tamb\u00e9m foi embora.<\/p>\n<p>O corpo estava coberto com um saco preto, come\u00e7ava a ficar gelado e r\u00edgido. A po\u00e7a de sangue misturava-se \u00e0 chuva. O c\u00e3o tamb\u00e9m foi levado para casa.<\/p>\n<p>Apenas o filho ficou observando de forma silenciosa. Talvez em sua mente questionava quem poderia mandar matar o pai. Nunca ningu\u00e9m saberia? Ele iria descobrir.<\/p>\n<p>E ainda chovia fininho quando o cunhado colocou uma vela acesa perto do corpo. O beijo de Judas. Ningu\u00e9m percebeu. E a vela n\u00e3o queima nem a metade tombando por cima da po\u00e7a de sangue.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tr\u00eas disparos e o corpo do homem vai ao ch\u00e3o. Dois tiros no peito e um na pilastra que dividia as portas da padaria. Os outros dois homens que estavam na mesma mesa se afastam para tr\u00e1s com a roupa e o rosto respingados de sangue. O homem ainda tem movimentos bruscos at\u00e9 paralisar mortalmente. 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