{"id":346753,"date":"2025-01-30T10:18:48","date_gmt":"2025-01-30T13:18:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=346753"},"modified":"2025-01-30T11:43:27","modified_gmt":"2025-01-30T14:43:27","slug":"historia-sobre-louco-bonzinho-ao-cair-da-tarde-como-se-cantou-do-viaduto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/historia-sobre-louco-bonzinho-ao-cair-da-tarde-como-se-cantou-do-viaduto\/","title":{"rendered":"Hist\u00f3ria sobre louco bonzinho, ao cair da tarde como se cantou do viaduto"},"content":{"rendered":"<p>Ca\u00eda a tarde em Buenos Aires, n\u00e3o de um momento para outro, como desaba um viaduto, e sim pouco a pouco, como costumam cair as tardes, quando ela o avistou. N\u00e3o trajava luto, que nem o b\u00eabado da bela composi\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Bosco e Aldir Blanc, o fundo musical deste epis\u00f3dio est\u00e1 mais para Balada para un loco, de Astor Piazzolla e Horacio Ferrer, do que para O b\u00eabado e a equilibrista, mas Carlitos era uma esp\u00e9cie de denominador comum aos dois personagens. O b\u00eabado brasileiro usava chap\u00e9u-coco, igualzinho ao do vagabundo do cinema; o argentino portava, sorridente, meio mel\u00e3o na cabe\u00e7a, \u00e0 guisa de.<\/p>\n<p>Como informa a balada, ele estava mais para um louco, mas um louco bonzinho, incapaz de fazer mal a algu\u00e9m \u2013 o que os argentinos chamam de loco berret\u00edn. Um louco com quem flertam os manequins das vitrines a quem os sem\u00e1foros sa\u00fadam com luzes azuis. Aproximou-se dela, tirou o mel\u00e3o para cumpriment\u00e1-la e falou:<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1s t\u00e3o triste&#8230;Vem dan\u00e7ar comigo.<\/p>\n<p>Como por magia, ouviu-se uma valsa, e os dois dan\u00e7aram pela rua. Ele prosseguiu:<\/p>\n<p>&#8211; Quero revelar o que escondes no peito. Como um acrobata insano, vou pular no abismo de teu decote, at\u00e9 sentir que enlouqueci teu cora\u00e7\u00e3o de liberdade.<\/p>\n<p>Comovida, ela o olhou e sorriu, sem palavras. Podia sentir a magia daquele momento. Ele continuou:<\/p>\n<p>&#8211; Um sorriso? Melhor. Agora vem voar.<\/p>\n<p>Segurando mais forte a m\u00e3o dela, levou-a consigo para o c\u00e9u de Buenos Aires e continuaram a dan\u00e7ar. Era tempo de mais uma li\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Sei que sou louco, minha querida, mas foram os loucos que inventaram o amor. Ame-me assim, loucamente, suba nessa ternura louca que existe em mim, descerra os amores que vamos experimentar, inventar. A loucura m\u00e1gica, total, de reviver.<\/p>\n<p>Muito depois, aos poucos, conduziu-a de volta ao solo.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 na hora de partir, minha querida. Recuperaste um pouco de tua loucura, que bom! Agora vou regressar a meu ninho de pardal, diminuir de tamanho e repousar, \u00e9 dele que observo minha cidade de Buenos Aires e identifico quem necessita de uma pitada de loucura \u2013 e beijou-a.<\/p>\n<p>&#8211; Partir? Mas esperava que&#8230; desejava&#8230;<\/p>\n<p>Ele cortou-lhe com um segundo beijo as palavras balbuciadas e voltou a voar, dessa vez sozinho.<\/p>\n<p>Loucos s\u00e3o rom\u00e2nticos, quixotescos, mo\u00e7as salvas da tristeza por uma pitada de insanidade em geral s\u00e3o terra a terra, sanchopancescas. Ela estava babando de desejo, morrendo de vontade de com\u00ea-lo. A magia continuava forte naquele in\u00edcio de noite, ela transformou-se em um falc\u00e3o e voou at\u00e9 o ninho de pardal onde ele se abrigava, pequenininho.<\/p>\n<p>A ideia era recuperar a forma e a estatura humanas para uma t\u00f3rrida noite de amor nas alturas, mas o instinto de falc\u00e3o foi mais forte e a ave de rapina o devorou.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ca\u00eda a tarde em Buenos Aires, n\u00e3o de um momento para outro, como desaba um viaduto, e sim pouco a pouco, como costumam cair as tardes, quando ela o avistou. 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