{"id":346939,"date":"2025-02-03T00:00:24","date_gmt":"2025-02-03T03:00:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=346939"},"modified":"2025-02-03T05:29:21","modified_gmt":"2025-02-03T08:29:21","slug":"estudo-sobre-cartas-de-alforria-revela-condicoes-impostas-a-liberdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/estudo-sobre-cartas-de-alforria-revela-condicoes-impostas-a-liberdade\/","title":{"rendered":"Estudo sobre cartas de alforria revela condi\u00e7\u00f5es impostas \u00e0 liberdade"},"content":{"rendered":"<p>Os cart\u00f3rios de Salvador guardam registros valiosos para entender em detalhes como se deu a forma\u00e7\u00e3o do povo brasileiro e como se estabeleceram rela\u00e7\u00f5es sociais que perduram ainda neste s\u00e9culo 21. Em livros notariais do per\u00edodo colonial, escriv\u00e3es registraram transa\u00e7\u00f5es de compra e venda de pessoas escravizadas, cartas de alforria, e testamentos de senhores e senhoras de escravos, e tamb\u00e9m de homens e mulheres negros libertos.<\/p>\n<p>H\u00e1 d\u00e9cadas, tais documentos s\u00e3o o universo de pesquisa do historiador e professor Urano de Cerqueira Andrade, especializado em hist\u00f3ria social e econ\u00f4mica do Brasil Col\u00f4nia. Perito na digitaliza\u00e7\u00e3o e preserva\u00e7\u00e3o de acervos documentais, ele \u00e9 o coordenador t\u00e9cnico no projeto Digitalizando Fontes Manuscritas Amea\u00e7adas: Os Livros de Notas da Bahia, Brasil, 1664-1889, financiado pela Biblioteca Brit\u00e2nica.<\/p>\n<p>Nesse trabalho feito em equipe, foram escaneados 1.465 livros notariais, desde o primeiro, no ano de 1664, at\u00e9 o in\u00edcio da d\u00e9cada de 1920.<\/p>\n<p>Dentro desse per\u00edodo que se estende por quatro s\u00e9culos, 19.726 cartas de alforria registradas de 1800 a 1855 est\u00e3o tabuladas em planilhas de dados, onde constam nome da pessoa alforriada, idade, g\u00eanero, nome dos pais, origem, cor (preto ou pardo), of\u00edcio, valores pagos e condi\u00e7\u00f5es impostas pelos senhores para a concess\u00e3o da alforria.<\/p>\n<p>\u201cEstudar hist\u00f3ria \u00e9 estudar o passado, entender o presente e tentar melhorar o futuro\u201d, afirma o historiador e professor. \u201cA gente n\u00e3o tem como melhorar o futuro se a gente n\u00e3o olhar o passado \u2013 olhar e reconhecer os nossos erros, e fazer de outra forma\u201d, costuma aconselhar.<\/p>\n<p>Veja a seguir os principais trechos da entrevista de Urano Andrade.<\/p>\n<p><strong>Quantos casos de pessoas escravizadas que conseguiram a alforria j\u00e1 conseguiram identificar?<\/strong><br \/>\nExatamente, 19.726 casos tabulados \u2013 dentro do per\u00edodo de 1800 a 1855.<\/p>\n<p><strong>Nessa tabula\u00e7\u00e3o, tem o nome da pessoa escravizada, de quem era propriedade e quando foi obtida a alforria? H\u00e1 algo mais sobre a pessoa escravizada?<\/strong><br \/>\nN\u00f3s temos o g\u00eanero, o nome, a idade, a na\u00e7\u00e3o, origem ou cor. As defini\u00e7\u00f5es s\u00e3o muito gen\u00e9ricas. Os escravizados eram trazidos de certas regi\u00f5es do continente africano. Muitos traziam denomina\u00e7\u00f5es como \u2018Angola\u2019, \u2018Cabinda\u2019 [hoje prov\u00edncia de Angola], \u2018Calabar\u2019 [hoje cidade na Nig\u00e9ria]. N\u00f3s temos tamb\u00e9m os crioulos [como eram chamadas pessoas negras nascidas no Brasil]. H\u00e1 subgrupos, onde colocavam os nomes de \u2018mulatos\u2019 ou \u2018mulatas\u2019. N\u00f3s temos tamb\u00e9m a ocupa\u00e7\u00e3o, o nome da m\u00e3e, o nome do pai, data do registro da carta de alforria e data da efetiva alforria, o valor, as condicionais e observa\u00e7\u00f5es das mais diversas.<\/p>\n<p><strong>Com essas informa\u00e7\u00f5es \u00e9 poss\u00edvel mapear de onde vieram especialmente os escravizados da Bahia?<\/strong><br \/>\n\u00c9 muito gen\u00e9rico. Mesmo tabulado com a nomenclatura que est\u00e1 no documento, a gente n\u00e3o pode ter 100% de certeza. \u00c9 preciso ter um estudo muito mais avan\u00e7ado para a gente ter uma defini\u00e7\u00e3o correta. Mas d\u00e1 para levantar dados estat\u00edsticos. Tem uma quest\u00e3o que est\u00e1 relacionada ao fluxo [do com\u00e9rcio negreiro] durante os per\u00edodos. A partir de 1719, por exemplo, h\u00e1 uma forte presen\u00e7a dos nag\u00f4s. H\u00e1 muita gente originada do que hoje \u00e9 a regi\u00e3o do Benin, que foi muito devastada pela escravid\u00e3o. Tem pessoas que vieram do Sud\u00e3o, do Norte da \u00c1frica.<\/p>\n<p><strong>O senhor falou que as cartas de alforria descreviam condi\u00e7\u00f5es para ganhar a liberdade. Que condicionais eram essas?<\/strong><br \/>\nSe a gente for tabular dados, 70% dessas alforrias eram condicionadas. A alforria n\u00e3o \u00e9 dada, ela n\u00e3o \u00e9 uma d\u00e1diva do senhor para seus escravizados. Pode ter sido comprada, pode ser retributiva, ou seja, em troca de algo. Havia diversas condi\u00e7\u00f5es. Caso n\u00e3o cumprisse a obedi\u00eancia, a pessoa mesmo estando liberta retornaria \u00e0 escravid\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Que condi\u00e7\u00f5es os senhores observaram?<\/strong><br \/>\nAs mais diversas. A maioria delas era viver em companhia do seu senhor ou da sua senhora at\u00e9 o fim de sua vida. Ou seja, aquele escravizado ou aquela escravizada s\u00f3 recebia de fato a alforria ap\u00f3s a morte dos seus senhores. Essa era a mais comum. Havia tamb\u00e9m alforrias por troca. Por exemplo, o escravizado dava gado em troca, ou mesmo oferecia outra pessoa escravizada em troca da sua liberdade. Encontramos cartas de alforria cuja condi\u00e7\u00e3o era a mulher escravizada casar com seu senhor e viver de com ele \u2018portas adentro\u2019. Ou seja, dentro de casa, mas na rua, n\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>As cartas s\u00e3o escritas em um portugu\u00eas antigo e com tipo de letra dif\u00edcil de identificar hoje em dia. Como o senhor conseguiu ler esse material?<\/strong><br \/>\nEstudei paleografia na universidade. Al\u00e9m disso, h\u00e1 a pr\u00e1tica do olhar sobre o documento. Aprendemos a reconhecer todas as letras e as abreviaturas. Alguns escriv\u00e3es n\u00e3o sabiam, de fato, escrever. Mas n\u00f3s nos adaptamos a cada um, e na hora da transcri\u00e7\u00e3o lembramos: \u2018como \u00e9 aquele escriv\u00e3o mesmo? Como \u00e9 o C dele? O P? O A mai\u00fasculo? E O N min\u00fasculo?\u2019 \u00c9 a pr\u00e1tica mesmo. O dia a dia. Eu trabalho com pesquisas mais diversas. Em quase 20 anos, tenho quase mil pesquisas realizadas por diversas \u00e1reas. Atualmente, eu estou trabalhando mais com a digitaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 quem diga que a escravid\u00e3o no Brasil, diferentemente de outros pa\u00edses, teria sido menos cruel. As cartas de alforria trazem elementos para dizer isso?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o. O Brasil n\u00e3o \u00e9 diferente de outras partes do mundo. A escravid\u00e3o, seja de que forma for, em qualquer lugar ou pa\u00eds, em qualquer tempo, \u00e9 extremamente cruel. A gente tem diversas hist\u00f3rias, algumas bem chocantes. Eu publiquei um artigo sobre uma m\u00e3e que foi separada de sua filha no continente africano e depois a reencontra sendo vendida aqui em Salvador. A m\u00e3e j\u00e1 estava na condi\u00e7\u00e3o de liberta. Com o dinheiro que possu\u00eda, compra sua filha. Vai ao cart\u00f3rio, diz \u2018ela \u00e9 minha filha, est\u00e1 liberta, poder\u00e1 ir para onde quiser. O nome dela ser\u00e1 Felicidade\u2019.<\/p>\n<p><strong>Tamb\u00e9m \u00e9 dito que falta documenta\u00e7\u00e3o robusta sobre a escravid\u00e3o no Brasil porque Rui Barbosa teria mandado queimar registros para os fazendeiros n\u00e3o exigirem indeniza\u00e7\u00e3o do Estado.<\/strong><br \/>\nIsso \u00e9 mito. A documenta\u00e7\u00e3o \u00e9 vasta. Aqui na Bahia, a gente tem um arquivo que \u00e9 considerado o segundo melhor do Brasil em termos de qualidade e quantidade, perdendo apenas para o Arquivo Nacional. Temos o Arquivo Municipal de Salvador, que tamb\u00e9m traz uma parte muito interessante da documenta\u00e7\u00e3o sobre a compra e a venda de pessoas escravizadas. Com essa documenta\u00e7\u00e3o, \u00e9 poss\u00edvel mapear quanto se dispendeu nas compras e tamb\u00e9m nas liberta\u00e7\u00f5es, quando ocorreram as transa\u00e7\u00f5es. H\u00e1 um estudo a ser publicado sobre o que seria o PIB do Brasil entre o s\u00e9culo 16 e o s\u00e9culo 18. Nesse per\u00edodo, o que gerou riqueza foi o trabalho escravo, n\u00e3o para os pr\u00f3prios escravizados, mas para os senhores brancos e as senhoras brancas.<\/p>\n<p><strong>Al\u00e9m dos livros de compra e venda, h\u00e1 testamentos das pessoas que foram libertas?<\/strong><br \/>\nSim. Uma documenta\u00e7\u00e3o que a gente pode tabular.<\/p>\n<p><strong>Com esses registros podemos fazer um acompanhamento de algumas pessoas na escravid\u00e3o?<\/strong><br \/>\nA partir da chegada podemos tentar fazer a varredura at\u00e9 o final de sua vida. Tudo come\u00e7a com a chegada na Concei\u00e7\u00e3o da Praia. N\u00f3s temos os livros de entradas de navios, que est\u00e3o extremamente prec\u00e1rios no arquivo municipal. Mas h\u00e1 uma grande documenta\u00e7\u00e3o que s\u00e3o os livros de batismo. Os livros de batismo est\u00e3o online no site dos m\u00f3rmons. Quando o escravizado chegava, se registrava o batismo. Era a mesma coisa de dizer \u2018\u00e9 meu\u2019. N\u00e3o deixavam de batizar porque era uma cobran\u00e7a da Igreja Cat\u00f3lica. Tamb\u00e9m havia batismo dentro do navio. Posteriormente, h\u00e1 a documenta\u00e7\u00e3o de compra e venda. H\u00e1 dois ou tr\u00eas negociantes que s\u00e3o mais not\u00f3rios que est\u00e3o tabulados. Entre os negociantes tamb\u00e9m h\u00e1 os que seguem para o interior, comprando e vendendo, alcan\u00e7ando regi\u00f5es hoje no interior de S\u00e3o Paulo e no Paran\u00e1. Para os que ficaram escravizados por aqui pode haver alguma documenta\u00e7\u00e3o sobre alguma ocorr\u00eancia por eventual registro na pol\u00edcia. No caso de quem conseguiu a liberta\u00e7\u00e3o, temos as cartas de alforria. Eles passam a viver como pessoas livres e, perto da morte, podem ter elaborado um testamento, um invent\u00e1rio, e deixar seu legado.<\/p>\n<p><strong>O senhor citou a import\u00e2ncia do batismo. H\u00e1 pesquisadores que afirmam que a Igreja Cat\u00f3lica forneceu a matriz ideol\u00f3gica que naturalizava a escravid\u00e3o.<\/strong><br \/>\nExatamente. Ela deu aval religioso. Mas isso pode ser percebido de outra forma nas cartas de alforria e nos testamentos. Pessoas que queriam salvar suas almas no fim da vida davam liberdade aos escravizados como gesto de bondade. Muitas vezes querendo se salvar das \u2018chamas do fogo do inferno\u2019, alguns reconhecem em testamento diversos filhos que foram frutos das mulheres escravizadas que abusaram e estupraram.<\/p>\n<p><strong>Podemos dizer que esse medo do inferno permanece at\u00e9 hoje?<\/strong><br \/>\nCom certeza.<\/p>\n<p><strong>O senhor lecionou na rede p\u00fablica do estado da Bahia. Como avalia o ensino de hist\u00f3ria da \u00c1frica nas escolas?<\/strong><br \/>\nH\u00e1 professores engajados que trabalham muito com texto, mas ainda \u00e9 preciso aperfei\u00e7oamento. Temos um problema que \u00e9 a quest\u00e3o da forma\u00e7\u00e3o do aluno [baseada exclusivamente] no livro did\u00e1tico. A gente tem que pensar na documenta\u00e7\u00e3o, que est\u00e1 dispon\u00edvel, por exemplo, em jornais digitalizados pela Biblioteca Nacional. N\u00e3o defendo que a documenta\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica traga necessariamente a verdade. Pelo contr\u00e1rio, mas ela tem que ser lida e interpretada.<\/p>\n<p><strong>O senhor descobriu que a hero\u00edna da p\u00e1tria Maria Quit\u00e9ria tinha escravizado. Isso causou alguma controv\u00e9rsia. Essa pol\u00eamica diz muito do que entendemos sobre a escravid\u00e3o?<\/strong><br \/>\nMaria Quit\u00e9ria, assim como Joana Ang\u00e9lica, viveram a din\u00e2mica do seu tempo. A todo momento, isso \u00e9 dito em minhas palavras em diversas mat\u00e9rias, inclusive no meu pr\u00f3prio blog. N\u00e3o podemos enxergar o passado com olhar no presente. Tanto Joana Ang\u00e9lica como Maria Quit\u00e9ria tiveram escravizados. Isso era comum, estava na lei, digamos assim. Se de fato ocorreu, isso tem que ser publicado. N\u00e3o pode estar escondido, n\u00e3o revelado e n\u00e3o contado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os cart\u00f3rios de Salvador guardam registros valiosos para entender em detalhes como se deu a forma\u00e7\u00e3o do povo brasileiro e como se estabeleceram rela\u00e7\u00f5es sociais que perduram ainda neste s\u00e9culo 21. 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