{"id":347003,"date":"2025-02-04T05:00:21","date_gmt":"2025-02-04T08:00:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=347003"},"modified":"2025-02-04T05:13:25","modified_gmt":"2025-02-04T08:13:25","slug":"lula-enfrenta-desafios-em-um-mundo-em-convulsaoo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/lula-enfrenta-desafios-em-um-mundo-em-convulsaoo\/","title":{"rendered":"Lula enfrenta desafios em um mundo em convuls\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>A crise pol\u00edtica \u2013 anunciante do que vir\u00e1 \u2013 exige da esquerda brasileira o engenho e a arte que lhe t\u00eam faltado: compreender as circunst\u00e2ncias e o car\u00e1ter do governo Lula e, nele e em face dele, identificar seu papel e arrecadar os elementos de que carece para agir. Procuramos compreender a realidade para modific\u00e1-la, o que exige reflex\u00e3o, um olhar hist\u00f3rico e um simult\u00e2neo comprometimento com o futuro em constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Carecemos de uma esquerda preparada para rever objetivos e corrigir paradigmas, despida de partis pris, ousada o suficiente para reavaliar certezas e axiomas, sempre em benef\u00edcio do processo revolucion\u00e1rio real. Processo que, exatamente por n\u00e3o abdicar das utopias fundadoras, mant\u00e9m-se atento ao mundo objetivo e suas circunst\u00e2ncias \u2013 n\u00e3o como ditadura da hist\u00f3ria, mas como fen\u00f4meno; n\u00e3o como esfinge, mas como solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>S\u00f3 assim a esquerda poder\u00e1 superar o torpor e a est\u00e9ril expectativa hist\u00f3rica (lament\u00e1vel quadro atual), e partir para a a\u00e7\u00e3o; \u00e1guas paradas n\u00e3o movem moinho. A ordem, com sus margens pl\u00e1cidas, \u00e9 o ref\u00fagio do atraso, o velho que se disfar\u00e7a no aparentemente novo e vivo, o velho fascismo que ressurge abra\u00e7ado \u00e0s fantasias do neoliberalismo e do individualismo \u2013 base da democracia autocr\u00e1tica, oximoro l\u00e9xico e pol\u00edtico, modelo da ordem trumpista rec\u00e9m-instalada, pren\u00fancio de uma nova fase do imperialismo em busca do controle planet\u00e1rio.<\/p>\n<p>O realismo pol\u00edtico, a leitura do real, n\u00e3o implica convers\u00e3o ao &#8220;imp\u00e9rio das circunst\u00e2ncias&#8221;, mas, por reconhec\u00ea-lo, compromete-se a conhecer e construir as condi\u00e7\u00f5es objetivas para sua supera\u00e7\u00e3o. Assim, ao sustentar o governo cuja elei\u00e7\u00e3o ajudou a viabilizar, a esquerda torna-se agente do processo social. E a esquerda \u00e9 movimento.<\/p>\n<p>A esquerda e o governo (que n\u00e3o s\u00e3o sin\u00f4nimos, mas est\u00e3o profundamente ligados, gostemos ou n\u00e3o) caminham, \u00e0s vezes, dois passos atr\u00e1s e um \u00e0 frente \u2013 claudicantes, mas de m\u00e3os dadas, pois seus destinos est\u00e3o entrela\u00e7ados. N\u00e3o se trata apenas de escolha, mas de um imperativo do processo social. A esquerda, liderando as for\u00e7as democr\u00e1ticas e progressistas consequentes, tornou-se o principal anteparo ao avan\u00e7o do neofascismo. A elei\u00e7\u00e3o de Lula, fruto desse processo, foi um dique democr\u00e1tico, e sua consolida\u00e7\u00e3o \u00e9 necessidade hist\u00f3rica. Fomos atores desse momento e nosso papel n\u00e3o se esgotou com a conquista do governo, conquista \u00e1rdua, dependente de uma alian\u00e7a heterodoxa, dif\u00edcil de administrar, mas indispens\u00e1vel nas circunst\u00e2ncias, como os fatos certificam.<\/p>\n<p>Nada, por\u00e9m, justifica um recuo f\u00e1tico e pol\u00edtico quando a realidade cobra avan\u00e7o. A ren\u00fancia \u00e0 batalha ideol\u00f3gica \u00e9 inaceit\u00e1vel, especialmente diante da crescente articula\u00e7\u00e3o da extrema-direita, que resgata, como nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo passado, um modelo de &#8220;internacional&#8221; fascista \u2013sustentado pelo grande capital e governos poderosos, como agora o dos EUA, no in\u00edcio de sua mais feroz fase imperialista.<\/p>\n<p>A crise de acumula\u00e7\u00e3o do capitalismo, fermento da crise globalizada de que apenas vislumbramos os primeiros sinais, condiciona fortemente o impasse brasileiro. Nossas responsabilidades crescem diante do governo eleito em 2022. Se n\u00e3o \u00e9 um governo de esquerda (nem mesmo o dos sonhos perdidos de 1989 o seria), \u00e9 um governo pelo qual somos respons\u00e1veis perante a Hist\u00f3ria. Essa responsabilidade \u00e9 tanto maior quanto mais evidentes se tornam o car\u00e1ter da crise econ\u00f4mica, social e pol\u00edtica e a natureza de frente ampla do governo, que, ainda quando eleitoralmente necess\u00e1ria, demanda atua\u00e7\u00e3o cr\u00edtica e estrat\u00e9gica da esquerda.<\/p>\n<p>A esta cabe avan\u00e7ar, para poder resistir.<\/p>\n<p>Nosso papel, repito, n\u00e3o \u00e9 de apoiadores cegos do governo de coaliz\u00e3o (como uma torcida organizada), nem o de cr\u00edticos contemplativos, mas de sujeito no processo \u2013 o que implica corresponsabilidade f\u00e1tica e hist\u00f3rica. Essa circunst\u00e2ncia exige tanto a defesa do governo quanto a an\u00e1lise cr\u00edtica, apontando trope\u00e7os e sugerindo caminhos. A esquerda deve disputar a lideran\u00e7a ideol\u00f3gica e program\u00e1tica da frente e do governo, atuando na pol\u00edtica institucional, mas sobretudo na organiza\u00e7\u00e3o popular, seu campo preferencial de combate.<\/p>\n<p>O distanciamento das massas, evidenciado pelos n\u00fameros de 2024, demanda a reconstru\u00e7\u00e3o dos movimentos sociais e a retomada do proselitismo posto ao relento. \u00c9 preciso atuar para al\u00e9m das negocia\u00e7\u00f5es de c\u00fapula e de gabinete (t\u00e3o ao agrado do terceiro andar do Pal\u00e1cio do Planalto), terreno da direita, onde ela dita as regras do jogo de que \u00e9 sempre vencedora.<\/p>\n<p>Governo e esquerda, Estado e partidos cumprem pap\u00e9is distintos, ainda que possam ser afluentes de um mesmo projeto. A esquerda n\u00e3o pode aparentar surpresa diante da crise governamental, tampouco considerar-se alheia \u00e0 sua origem ou imune \u00e0s suas consequ\u00eancias. Mais uma vez, caminhamos juntos: se o governo carece de um projeto de pa\u00eds (est\u00e1 a dev\u00ea-lo desde a), a esquerda brasileira tampouco tem clareza sobre o que fazer ou o que pretende politicamente, confunde-se numa sequ\u00eancia de t\u00e1ticas e n\u00e3o se encontra com um rumo estrat\u00e9gico. At\u00e9 agora, n\u00e3o apresentou nem defendeu um programa de mudan\u00e7a e constru\u00e7\u00e3o do novo, e sequer disp\u00f5e de um programa coerente pelo qual possa ser identificada pela sociedade.<\/p>\n<p>Mas parte dela se percebe moralmente superior ao que identifica como &#8220;pobre de direita&#8221;&#8230;<\/p>\n<p>At\u00e9 aqui, capinando nessa carestia pol\u00edtico-ideol\u00f3gica, a esquerda brasileira, talvez como reflexo da conjuntura mundial, marcada pelo avan\u00e7o da extrema-direita na Europa, nos EUA e na Am\u00e9rica Latina (hosanas \u00e0 exce\u00e7\u00e3o mexicana!), tem assumido o papel de defensora da ordem, da institucionalidade, do estabelecido, permitindo que o fascismo ocupe no imagin\u00e1rio popular o espa\u00e7o da contesta\u00e7\u00e3o ao establishment. No governo, adotamos o modelo econ\u00f4mico de exclus\u00e3o lucrativa, e assim aderimos ao projeto de tornar o capitalismo suport\u00e1vel \u2013 papel que antes coubera \u00e0 socialdemocracia.<\/p>\n<p>Assim, renunciamos at\u00e9 mesmo \u00e0s veleidades revolucion\u00e1rias de cunho ret\u00f3rico. Ao ignorar a luta de classes e abandonar o proselitismo socialista, naturalizamos a desigualdade social obscena, e, ao nos ausentarmos do enfrentamento, passamos a ser vistos como parte do sistema neoliberal, tornando-nos mantenedores da ordem na qual nossos governos e nossos agentes s\u00e3o eleitos para governar em minoria. Com isso, cedemos espa\u00e7o para o discurso da direita contra um sistema que ela pr\u00f3pria criou. As consequ\u00eancias, como bem lembrava o Conselheiro Ac\u00e1cio, sempre v\u00eam depois \u2013 e cobram um pre\u00e7o alt\u00edssimo na pol\u00edtica real.<\/p>\n<p>Estranha, portanto, \u00e9 nossa surpresa quando os explorados se revelam confusos na identifica\u00e7\u00e3o de aliados e algozes.<\/p>\n<p>O que n\u00e3o se pode cobrar de um governo como o nosso, jungido \u00e0s suas circunst\u00e2ncias, deve ser exigido das for\u00e7as de esquerda. Ao renunciar ao seu papel hist\u00f3rico, a esquerda se fragiliza pol\u00edtica e organicamente, o que, por sua vez, enfraquece o governo que deveria sustentar e, em \u00faltima inst\u00e2ncia, compromete o projeto democr\u00e1tico em que apostamos para confrontar a escalada reacion\u00e1ria mundial.<\/p>\n<p>Nada obstante o &#8220;ano eleitoral&#8221;, devemos cobrar do governo, isto sim, um programa estrat\u00e9gico para o Brasil \u2013 algo que, renovando a esperan\u00e7a, v\u00e1 al\u00e9m da cervejinha e da picanha do fim de semana, ensejando que ele, governo, dialogue diretamente com a sociedade sobre o que far\u00e1 ou precisar\u00e1 fazer para garantir o desenvolvimento sustent\u00e1vel, a cria\u00e7\u00e3o de riqueza e a redistribui\u00e7\u00e3o de renda. O passo, pequeno passo que podemos dar, no presente, olhando para uma nova sociedade.<\/p>\n<p>As esquerdas haver\u00e3o de lutar, j\u00e1 agora, por uma nova maioria pol\u00edtica capaz de deter a regress\u00e3o reacion\u00e1ria e abrir caminho para uma retomada das reformas sociais interrompidas pelo golpe de 2016 e pela ascens\u00e3o do bolsonarismo, para a qual o impeachment de Dilma Rousseff assoalhou a estrada.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/p>\n<p><strong>Roberto Amaral foi ministro da Ci\u00eancia e Tecnologia com Lula 1<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A crise pol\u00edtica \u2013 anunciante do que vir\u00e1 \u2013 exige da esquerda brasileira o engenho e a arte que lhe t\u00eam faltado: compreender as circunst\u00e2ncias e o car\u00e1ter do governo Lula e, nele e em face dele, identificar seu papel e arrecadar os elementos de que carece para agir. 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