{"id":347287,"date":"2025-02-06T08:10:20","date_gmt":"2025-02-06T11:10:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=347287"},"modified":"2025-02-06T08:57:09","modified_gmt":"2025-02-06T11:57:09","slug":"quando-o-medo-me-faz-devanear-e-me-agarrar-mais-a-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/quando-o-medo-me-faz-devanear-e-me-agarrar-mais-a-vida\/","title":{"rendered":"&#8216;Quando o medo me faz devanear &#8230; e me agarrar mais \u00e0 vida&#8217;"},"content":{"rendered":"<p>\u00c9 sempre assim, s\u00f3 de pensar em ter que sair come\u00e7o a passar mal. A respira\u00e7\u00e3o agita, o cora\u00e7\u00e3o acelera, a vis\u00e3o embaralha, sinto vertigem.<\/p>\n<p>E hoje n\u00e3o est\u00e1 sendo diferente. Acordei agitado e me recuso a levantar da cama.<\/p>\n<p>O barulho da rua me empurra para fora do meu alicerce. Tomo coragem e levanto. Aproximo meu olhar da janela, mas o corpo involuntariamente me faz caminhar at\u00e9 l\u00e1, espreito o movimento da rua, a inseguran\u00e7a invade o meu ser.<\/p>\n<p>Afasto da janela, passo diante do arm\u00e1rio, evitando encarar o espelho.<\/p>\n<p>Hoje recuso confrontar comigo mesmo e os meus medos. Em outros tempos, pararia diante dele e me contemplaria, tal qual Narciso. Mas neste instante, n\u00e3o tenho coragem de despir a minha sensibilidade humana. Para completar a minha inseguran\u00e7a, ou\u00e7o ao fundo a buzina do vendedor ambulante e o movimento do tr\u00e2nsito, isso aumenta a minha tens\u00e3o.<\/p>\n<p>Apalpo cada espa\u00e7o do meu quarto com os olhos, preciso urgentemente registrar na mem\u00f3ria cada objeto, planta, livro,.. e quanto mais olho mais fico ansioso, a vis\u00e3o distorce, o daltonismo reaparece. Por breves instantes enxergo tudo verde. \u00c9 sempre assim, quando fico fr\u00e1gil emocionalmente o daltonismo ataca, as imagens duplicam, quadriplicam.<\/p>\n<p>Desesperadamente olho cada m\u00f3vel, cada objeto, cada detalhe como se fosse a \u00faltima vez que os contemplaria. Anseio registrar cada detalhe nas minhas retinas assustadas, dalt\u00f4nicas e exaustas desse aprisionamento. Quero por que quero encarcerar este momento. Penso: nem o Coringa pode me ajudar. E as minhas estantes cheias de conhecimento? E as minhas plantas? Acendo um incenso para acalmar e purificar. Purificar o qu\u00ea? O ar? Os meus medos? A vis\u00e3o embaralhada? A minha sensibilidade?<\/p>\n<p>A contragosto decido sair do quarto. Caminho at\u00e9 a porta. Quando vou aproximando deparo com esta frase: \u201ca morte te espera l\u00e1 fora\u201d, estreme\u00e7o. Quem a escreveu? Quando? N\u00e3o tenho tempo pra isso.<\/p>\n<p>Abro a porta, decidido a enfrentar os outros ambientes\/mundos. Arquejo de arrepio, minha vis\u00e3o altera novamente. O daltonismo me assombra.<\/p>\n<p>Visualmente o c\u00f4modo fica verde, as imagens se repetem. Meu cora\u00e7\u00e3o palpita, mesmo assim decido percorrer a casa.<\/p>\n<p>Andando pelo corredor, a cortina fechada agu\u00e7a a minha curiosidade, por um momento fico tentado a enfrentar o mundo l\u00e1 de fora, mas o medo invadi e me impede de abri-la. Saio imediatamente dali com a respira\u00e7\u00e3o acelerada. Ou\u00e7o os meus passos.<\/p>\n<p>Entro no banheiro em busca de coragem. Sigo em dire\u00e7\u00e3o a \u00e1rea. Miro os pr\u00e9dios vizinhos, em busca de um olhar compreensivo, c\u00famplice, incentivador. N\u00e3o encontro. Dou meia volta, ando em dire\u00e7\u00e3o a cozinha e repito o ritual, registrar o m\u00e1ximo de imagens poss\u00edveis em minhas pupilas aflitas.<\/p>\n<p>O emocional continua incontrol\u00e1vel, pois est\u00e1 aproximando a hora, a t\u00e3o fat\u00eddica hora de encarar a rua. A vis\u00e3o embaralha novamente. Mais uma vez, retorno a enxergar de forma diferente. O meu daltonismo insisti em me humilhar.<\/p>\n<p>Pego a m\u00e1scara, minha arma contra a morte. Reflito: como um ser invis\u00edvel e min\u00fasculo ao olho humano, mas vis\u00edvel aos olhos\/lentes dos microsc\u00f3pios pode ceifar tantas vidas? Apesar do nervosismo ainda reflito.<\/p>\n<p>Pego o lixo resmungando mentalmente, pois minha respira\u00e7\u00e3o ficou mais ofegante. Est\u00fapido lixo, tu \u00e9s o respons\u00e1vel por todo esse flagelo que estou vivendo. Ofego novamente. Tomo coragem. Apesar do medo, abro a porta, espreito o corredor, e na maior pressa deixo o lixo ao lado da porta da entrada. Fecho-a o mais r\u00e1pido que posso. Procuro o \u00e1lcool. O desespero quase me cega, enfim o encontro, borrifo-o nas m\u00e3os lavando e desinfetando-as da morte. Mesmo assim continuo ansioso.<\/p>\n<p>Saio da cozinha, paro no corredor, ainda euf\u00f3rico devido a aventura de ter colocado o lixo do lado de fora. Respiro, por um momento miro o p\u00f4ster do Coringa. Neste breve instante nossos olhares se cruzam.<\/p>\n<p>Tenho a estranha sensa\u00e7\u00e3o, que ele est\u00e1 gargalhando de mim, da minha humanidade. Ele deve estar ca\u00e7oando por eu ter medo de um ser invis\u00edvel, min\u00fasculo e mortal. Eu que quando crian\u00e7a sonhava em ser super-her\u00f3i, usar m\u00e1scara e enfrentar todo tipo de inimigo para salvar a humanidade.<\/p>\n<p>Devaneando nestes ir\u00f4nicos e pat\u00e9ticos pensamentos, sigo o corredor em dire\u00e7\u00e3o do meu alicerce, do meu ref\u00fagio que \u00e9 o meu quarto, meu t\u00e3o amado quarto.<\/p>\n<p>Quando vou aproximando do meu porto seguro, desvio o olhar desse personagem que tanto admiro. Adentro o c\u00f4modo, sento na cama para descansar dessa epopeia. Mesmo agitado sinto que mais uma vez sobrevivi.<\/p>\n<p>De repente, um leve arrepio percorre a minha coluna, de s\u00fabito a vista escurece. Estreme\u00e7o de p\u00e2nico. Pressinto a morte a espreita.<\/p>\n<p>Desesperadamente tento agarrar a vida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 sempre assim, s\u00f3 de pensar em ter que sair come\u00e7o a passar mal. A respira\u00e7\u00e3o agita, o cora\u00e7\u00e3o acelera, a vis\u00e3o embaralha, sinto vertigem. E hoje n\u00e3o est\u00e1 sendo diferente. Acordei agitado e me recuso a levantar da cama. O barulho da rua me empurra para fora do meu alicerce. Tomo coragem e levanto. 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