{"id":347829,"date":"2025-02-13T06:53:56","date_gmt":"2025-02-13T09:53:56","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=347829"},"modified":"2025-02-13T06:55:03","modified_gmt":"2025-02-13T09:55:03","slug":"afranio-o-corretor-que-se-achava-poeta-de-verdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/afranio-o-corretor-que-se-achava-poeta-de-verdade\/","title":{"rendered":"Afr\u00e2nio, o corretor que se achava poeta de verdade"},"content":{"rendered":"<p>\u00c0quela hora, a rua inteira ainda estava entregue aos bra\u00e7os de Morfeu, menos o papagaio e o poeta, que insistia em versos piegas e rimas banais. Este, ali\u00e1s, talvez n\u00e3o tivesse no\u00e7\u00e3o da enorme falta de traquejo com as palavras ou, se tivesse, certamente culparia o parco tempo por conta da corrida vida de corretor de im\u00f3veis. Nisso, ali\u00e1s, ele era dos melhores.<\/p>\n<p>Afr\u00e2nio Matos, 44 anos, tipo que poderia passar despercebido, caso n\u00e3o fosse pelo vasto bigode que ajudava a esconder os dentes escurecidos pelo consumo excessivo de caf\u00e9. \u00c9 verdade que o sujeito havia fumado durante quase vinte anos, mas o cigarro n\u00e3o fazia mais parte da sua rotina desde pouco antes da conquista da Ta\u00e7a Libertadores da Am\u00e9rica do seu Fluminense. Diante da promessa, ainda tentou recuar, mas n\u00e3o seria prudente ir contra os des\u00edgnios dos deuses do futebol.<\/p>\n<p>Aconteceu logo ap\u00f3s a venda de uma luxuosa mans\u00e3o no Lago Sul, quando Afr\u00e2nio recebeu uma polpuda comiss\u00e3o. Fez alguns c\u00e1lculos e teve certeza de que poderia sobreviver sem trabalhar durante pelo menos seis meses, desde que reduzisse certas despesas. Nada de confraterniza\u00e7\u00f5es com os amigos ou viagens de \u00faltima hora para visitar as praias que s\u00f3 conhecia atrav\u00e9s de fotografias. Quanto aos restaurantes, faria todas as refei\u00e7\u00f5es em casa ou, no m\u00e1ximo, compraria uma quentinha nos momentos em que seu talento para culin\u00e1ria, que era quase nenhum, o abandonasse.<\/p>\n<p>Decidido, abasteceu a geladeira e a despensa com v\u00edveres e tratou de se dedicar \u00e0 poesia. Levantava cedo, preparava caf\u00e9 suficiente para completar a generosa garrafa t\u00e9rmica, heran\u00e7a da av\u00f3. Em seguida, sentava em frente ao computador e buscava inspira\u00e7\u00e3o na samambaia de pl\u00e1stico pendurada no teto da sala.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>&#8220;E se a samambaia possu\u00edsse flores?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Estaria eu subvertendo a vontade de Deus ou da natureza?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Ou seria eu mero aprendiz da vida?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Vida vazia longe de tanta beleza da minha Tereza.&#8221;<\/strong><\/p>\n<p>Afr\u00e2nio, n\u00e3o se sabe se por causa da primeira estrofe escrita, se sentiu Dummond por um instante. V\u00e1 l\u00e1, ao menos Vinicius. Sorveu o resto de caf\u00e9 na x\u00edcara antes de voltar seus dedos impacientes para o teclado.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>&#8220;Tereza, Tereza, Tereza,<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Eis que aqui estou.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Desejoso dos seus l\u00e1bios nos meus,<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Pois os meus s\u00e3o eternamente teus.&#8221;<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o restava d\u00favida, segundo o poeta de \u00faltima hora, que aqueles versos entrariam para a hist\u00f3ria. Choveriam convites para entrar na Academia Brasileira de Letras. N\u00e3o que ele desejasse a morte de algum imortal. Morte de algum imortal? Afr\u00e2nio voltou a escrever para n\u00e3o perder aquele momento de tamanha inspira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>&#8220;Independentemente da morte, Tereza,<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Nosso amor \u00e9 imortal.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Sabe por que sei disso?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Porque o bem sempre vence o mau.&#8221;<\/strong><\/p>\n<p>Quanto mais as palavras se somavam, Afr\u00e2nio dava mais e mais goles no caf\u00e9. N\u00e3o sentia mais fome, a n\u00e3o ser de despejar todos seus sentimentos na tela. Nem dormir conseguia, apesar das flagrantes olheiras.<\/p>\n<p>Dona Maria das Dores, a diarista, encontrou o patr\u00e3o ca\u00eddo no ch\u00e3o da sala. A mulher tomou um susto, pois imaginou que ele estivesse morto. N\u00e3o estava. Mesmo assim, achou melhor chamar o porteiro para ajud\u00e1-la a carregar o homem para a cama.<\/p>\n<p>A ambul\u00e2ncia chegou e levou Afr\u00e2nio para o hospital. O gajo passou dois dias ali, at\u00e9 ser liberado. Voltou para seu apartamento na Asa Norte e buscou inspira\u00e7\u00e3o na samambaia. Esta, al\u00e9m de continuar sem flores como qualquer outra pterid\u00f3fita, n\u00e3o parecia disposta a transformar o homem em poeta.<\/p>\n<p>Afr\u00e2nio, inquieto, andava de um lado para o outro, at\u00e9 que percebeu que o dinheiro estava perto de acabar. Precisava voltar ao trabalho. Entretanto, jurou que, assim que fechasse outra venda de im\u00f3vel, retornaria para o que julgava ser o seu destino.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/p>\n<p><strong>Eduardo Mart\u00ednez \u00e9 autor do livro 57 Contos e Cr\u00f4nicas por um Autor Muito Velho\u2019<\/strong><\/p>\n<p>Compre aqui\u00a0<span class=\"x19la9d6 x1fc57z9 x6ikm8r x10wlt62 x19co3pv x1g5zs5t xfibh0p xiy17q3 x1xsqp64 x1lkfr7t xexx8yu x4uap5 x18d9i69 xkhd6sd\"><span class=\"xrtxmta x1bhl96m\"><img decoding=\"async\" class=\"emoji\" role=\"img\" draggable=\"false\" src=\"https:\/\/s.w.org\/images\/core\/emoji\/15.0.3\/svg\/1f447-1f3ff.svg\" alt=\"&#x1f447;&#x1f3ff;\" \/><\/span><\/span><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho\">https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c0quela hora, a rua inteira ainda estava entregue aos bra\u00e7os de Morfeu, menos o papagaio e o poeta, que insistia em versos piegas e rimas banais. 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