{"id":348012,"date":"2025-02-15T07:49:17","date_gmt":"2025-02-15T10:49:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=348012"},"modified":"2025-02-15T07:49:17","modified_gmt":"2025-02-15T10:49:17","slug":"magoa-de-seu-olavo-passa-com-o-tempo-pois-no-fundo-ele-era-um-gentleman","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/magoa-de-seu-olavo-passa-com-o-tempo-pois-no-fundo-ele-era-um-gentleman\/","title":{"rendered":"M\u00e1goa de seu Olavo passa com o tempo, pois no fundo ele era um gentleman"},"content":{"rendered":"<p>Nunca consegui me adequar \u00e0s perdas. N\u00e3o perdas materiais, mesmo aquelas que nos s\u00e3o arrancadas pelas m\u00e3os bandidas dos bancos. O que tenho dificuldade de digerir \u00e9 a morte de um ser amado. E n\u00e3o precisa ser gente, pois sinto tanto ou at\u00e9 mais quando preciso providenciar o enterro de um gato ou cachorro que me fez companhia por anos.<\/p>\n<p>Devia eu estar com uns oito anos, quando tive a primeira grande perda. Foi t\u00e3o desastrosa, que levei quase um ano imaginando que a Cuca, minha vira-lata, fosse surgir de repente e me derrubaria com um daqueles encontr\u00f5es carinhosos que ela costumava dar. N\u00e3o era por maldade. Acredito que ela me percebia muito mais forte do que eu era ou, ent\u00e3o, estava me preparando para as trombadas que o mundo me daria ao longo da vida.<\/p>\n<p>Essa ideia de que a morte \u00e9 coisa definitiva ainda n\u00e3o estava consolidada em minha mente. Devo lembr\u00e1-lo de que ainda era uma crian\u00e7a, que imaginava a perman\u00eancia da vida. Explico. Naquele tempo, pensava, por exemplo, que vov\u00f3 sempre havia sido velha, apesar das in\u00fameras hist\u00f3rias que ela me contava dos seus tempos de menina. E, por mais que mam\u00e3e me mostrasse fotografias minhas de quando eu havia acabado de nascer, n\u00e3o conseguia me enxergar naquele beb\u00ea gorducho. Ainda mais eu, que, aos oito anos, era seca que nem graveto.<\/p>\n<p>Certo dia, que se deu logo ap\u00f3s o \u00f3bito da Cuca, chegou para uma visita a dona Maria de F\u00e1tima, que trouxe a tiracolo o marido, seu Olavo. Minha m\u00e3e me pediu para ajud\u00e1-la a colocar x\u00edcaras na mesa da sala. Foram servidos caf\u00e9 e bolo de laranja. Peguei um peda\u00e7o e fui me sentar na varanda, enquanto os adultos conversavam. Acabei me distraindo com uns passarinhos, que me rodearam como se querendo um naco do que estava nas minhas m\u00e3os pequeninas.<\/p>\n<p>De peda\u00e7o em peda\u00e7o, o bolo se foi, at\u00e9 que o casal se despediu. Morava a duas casas da gente, nas quadras 700 da Asa Norte. Dona Maria de F\u00e1tima, ao passar por mim, percebeu meu semblante.<\/p>\n<p>\u2014 O que houve, Lucinha? Por que essa cara?<\/p>\n<p>\u2014 A Cuca morreu.<\/p>\n<p>\u2014 Ai, que d\u00f3! Ela era t\u00e3o linda.<\/p>\n<p>\u2014 Que linda que nada, meu bem. Aquilo era mais feio do que batida de trem.<\/p>\n<p>\u2014 Olavo!<\/p>\n<p>\u2014 U\u00e9, agora n\u00e3o se pode mais falar a verdade?<\/p>\n<p>A mulher puxou o marido pelo bra\u00e7o e foi embora, enquanto mam\u00e3e, ao meu lado, passava a m\u00e3o esquerda nos meus cabelos aloirados, como se querendo me consolar pela fala despropositada do sujeito. Isso me remoeu por anos. Por que aquele sujeito precisava expor sua cretina opini\u00e3o para uma garotinha que estava sofrendo tanto?<\/p>\n<p>Ap\u00f3s quase dez anos da partida da Cuca, eis que chegou a vez do velho Olavo. Na \u00e9poca, nem me preocupei em descobrir a causa da sua morte. Certamente, foi devido a alguma doen\u00e7a de gente ruim.<\/p>\n<p>O enterro aconteceu num domingo. A quadra inteira, j\u00e1 no dia anterior, parecia um vel\u00f3rio, as pessoas lamentando a morte do seu Olavo, como se ele fosse o ser mais puro do mundo. Na verdade, desde o fat\u00eddico dia em que o cr\u00e1pula ofendeu a Cuca, nunca mais tive est\u00f4mago para olhar na sua cara repugnante.<\/p>\n<p>\u2014 Lucinha, vamos!<\/p>\n<p>\u2014 M\u00e3e, vou ficar estudando. Tenho prova amanh\u00e3.<\/p>\n<p>\u2014 Mas \u00e9 o seu Olavo, minha filha.<\/p>\n<p>\u2014 Outra hora vou visitar a dona Maria de F\u00e1tima, m\u00e3e.<\/p>\n<p>\u2014 T\u00e1 bom! Mas deixe as janelas fechadas pra n\u00e3o entrar mosca. Voc\u00ea sabe como odeio mosca.<\/p>\n<p>\u2014 T\u00e1 bom, m\u00e3e.<\/p>\n<p>Era mentira que eu tinha prova na segunda-feira, ainda mais porque era final de semestre na faculdade, e s\u00f3 estava faltando entregar um trabalho na sexta-feira. Depois, f\u00e9rias. No entanto, naquele tempo, ainda n\u00e3o havia conseguido digerir a m\u00e1goa que sentia por conta daquela fala completamente desumana dita por seu Olavo.<\/p>\n<p>Quase cinco anos ap\u00f3s o enterro, encontrei a dona Maria de F\u00e1tima na padaria. Assim que me viu, ela me puxou pelo bra\u00e7o e fomos lanchar na sua casa. N\u00e3o me recordava de ter entrado ali. Nossa vizinha fez quest\u00e3o de mostrar alguns \u00e1lbuns de fotografias. E, entre tantos retratos, um me chamou a aten\u00e7\u00e3o. Era o de um menino de aproximadamente sete, oito anos. Ele tinha um belo sorriso e um cachorro de pelo arrepiado no colo.<\/p>\n<p>\u2014 Quem \u00e9?<\/p>\n<p>\u2014 Ah, esse \u00e9 o Olavo.<\/p>\n<p>\u2014 Seu Olavo?<\/p>\n<p>\u2014 Sim.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sabia que ele gostava de cachorro.<\/p>\n<p>\u2014 Ele adorava! Essa a\u00ed da foto era a Pa\u00e7oca.<\/p>\n<p>\u2014 Pa\u00e7oca?<\/p>\n<p>\u2014 Sim.<\/p>\n<p>\u2014 Que nome engra\u00e7ado.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 mesmo. O Olavo me disse que a Pa\u00e7oca foi o primeiro e \u00faltimo bicho que ele teve.<\/p>\n<p>\u2014 E por qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 A m\u00e3e dele n\u00e3o gostava, dizia que dava muito trabalho. A Pa\u00e7oca morreu atropelada e o Olavo ficou doente. Febre alta. De vez em quando, o Olavo me contava alguma travessura que ele e a Pa\u00e7oca faziam. Creio que ele nunca superou a perda da amiga.<\/p>\n<p>A conversa se prolongou at\u00e9 o final da tarde. E, antes de eu ir embora, a dona Maria de F\u00e1tima me deu um forte abra\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2014 Lucinha, o Olavo chorou muito naquele dia.<\/p>\n<p>\u2014 Que dia, dona Maria de F\u00e1tima?<\/p>\n<p>\u2014 Quando a Cuca faleceu.<\/p>\n<p>\u2014 Nunca soube disso.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 que o Olavo era meio fechado e jamais conseguiu digerir perdas. At\u00e9 hoje me lembro das palavras dele.<\/p>\n<p>\u2014 E quais foram?<\/p>\n<p>\u2014 Ele se virou para mim e, com os olhos cheios de l\u00e1grimas, me falou: &#8220;Meu amor, pode parecer pretens\u00e3o da minha parte, mas sei exatamente o que a Lucinha est\u00e1 sentindo.&#8221;<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o sou mais aquela menina, estou perto de completar 70 anos. Seu Olavo tinha raz\u00e3o, e ainda sinto por n\u00e3o ter acompanhado seu enterro. A primeira fase da perda \u00e9 extremamente dolorosa. Com o tempo, temos a sensa\u00e7\u00e3o de que a dor passou, mas ela continua l\u00e1, s\u00f3 que camuflada.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/p>\n<p><strong>Eduardo Mart\u00ednez \u00e9 autor do livro 57 Contos e Cr\u00f4nicas por um Autor Muito Velho\u2019<\/strong><\/p>\n<p>Compre aqui\u00a0<span class=\"x19la9d6 x1fc57z9 x6ikm8r x10wlt62 x19co3pv x1g5zs5t xfibh0p xiy17q3 x1xsqp64 x1lkfr7t xexx8yu x4uap5 x18d9i69 xkhd6sd\"><span class=\"xrtxmta x1bhl96m\"><img decoding=\"async\" class=\"emoji\" role=\"img\" draggable=\"false\" src=\"https:\/\/s.w.org\/images\/core\/emoji\/15.0.3\/svg\/1f447-1f3ff.svg\" alt=\"&#x1f447;&#x1f3ff;\" \/><\/span><\/span><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho\">https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nunca consegui me adequar \u00e0s perdas. 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