{"id":348051,"date":"2025-02-16T05:51:22","date_gmt":"2025-02-16T08:51:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=348051"},"modified":"2025-02-16T05:51:22","modified_gmt":"2025-02-16T08:51:22","slug":"abra-o-olho-lula-quando-jango-viu-ja-era-tarde","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/abra-o-olho-lula-quando-jango-viu-ja-era-tarde\/","title":{"rendered":"Abra o olho, Lula; quando Jango viu, j\u00e1 era tarde"},"content":{"rendered":"<p><em>&#8220;Age em rela\u00e7\u00e3o a teus amigos como se eles devessem tornar-se um dia teus inimigos&#8221;<\/em><br \/>\n<em>-Cardeal Mazarin, Brevi\u00e1rio dos pol\u00edticos<\/em><\/p>\n<p>O governo Lula ainda n\u00e3o conseguira instalar-se de fato; a \u00e1rea da defesa permanecia intocada (como intocada permanece at\u00e9 aqui), e a mobiliza\u00e7\u00e3o popular cessara com a &#8220;subida da rampa&#8221;, promessa finada em sua bela met\u00e1fora. Os chefes militares do novo governo haviam sido ditados pelas fileiras ao ministro da Defesa; o presidente n\u00e3o cuidou politicamente da lista que lhe foi apresentada, n\u00e3o pesou os nomes nem os crit\u00e9rios da escola estritamente castrense, e os comandos permaneceram os mesmos. Hav\u00edamos vencido as elei\u00e7\u00f5es, assum\u00edramos o governo, mas tudo permanecia como dantes no castelo de Abrantes. Assim, o passado que sup\u00fanhamos haver derrotado \u00e9 que constru\u00eda os fatos, e os fatos nos governavam.<\/p>\n<p>[Em setembro de 2023, o deputado Glauber Braga (PSOL-RJ), com outros parlamentares, foi recebido em audi\u00eancia pelo ministro da Defesa. Seu relato: &#8220;Fui \u00e0 Defesa discutir a Lei n\u00ba 13.954, de 2019 (que amplia os poderes dos oficiais superiores e reduz os direitos dos pra\u00e7as). Fomos recebidos por Jos\u00e9 M\u00facio Monteiro e uma mesa cheia de generais. A certa altura, sem pedir segredo, o ministro, referindo-se aos oficiais, diz: &#8216;S\u00e3o todos bolsonaristas. Tem golpista e legalista. Mas todos bolsonaristas&#8217;.&#8221;]<\/p>\n<p>No dia 8 de janeiro, o ministro da Defesa saboreava acepipes em um restaurante badalado de Bras\u00edlia quando foi surpreendido (o depoimento \u00e9 dele) pela not\u00edcia da turbamulta invadindo as sedes dos poderes. Uma s\u00facia arrecadada \u00e0 vista de todos e por muito tempo, trazida de todos os quadrantes do pa\u00eds, por todos os meios, para se juntar aos insurretos que ocupavam os port\u00f5es e as imedia\u00e7\u00f5es dos quart\u00e9is, sob a prote\u00e7\u00e3o delinquente de seus comandantes.<\/p>\n<p>Do outro lado da Esplanada, revelando uma salutar contradi\u00e7\u00e3o no governo, o ministro da Justi\u00e7a, Fl\u00e1vio Dino, comandava de seu gabinete a rea\u00e7\u00e3o poss\u00edvel. Diz a cr\u00f4nica que foi apresentada ao presidente, pelo ministro da Defesa, a proposta de decreto que fazia a reg\u00eancia do malfadado art. 142 da CF-88, o dedo perverso do militarismo na Constituinte. Era o meio de consolidar juridicamente o golpe: as tropas, sob o p\u00e1lio da Lei Maior, voltariam \u00e0s ruas &#8220;para restabelecer a ordem&#8221; que elas mesmas haviam ajudado a decompor, e n\u00e3o se admitia prazo para seu retorno aos quart\u00e9is. O planejado \u00e9 f\u00e1cil de imaginar.<\/p>\n<p>Sabe-se que o texto suicida foi recusado, por inst\u00e2ncia do ministro da Justi\u00e7a, no &#8220;fio da navalha&#8221;.<\/p>\n<p>Tudo isso me vem \u00e0 baila quando o ministro da Defesa, surpreendentemente boquirroto para quem o conheceu de outros tempos, volta \u00e0s folhas, \u00e0s telas e \u00e0s telinhas para incomodar a Rep\u00fablica e p\u00f4r em sobressalto a pol\u00edtica. O sobressalto \u00e9 justo, e compreens\u00edveis s\u00e3o as variadas interpreta\u00e7\u00f5es de seu discurso, pois n\u00e3o se trata de um pol\u00edtico qualquer. M\u00facio tem hist\u00f3ria: express\u00e3o graduada da classe dominante pernambucana de ra\u00edzes rurais, foi o candidato do regime militar contra Miguel Arraes em 1986 e se tornaria amigo e colaborador de Eduardo Campos, neto do patriarca. Deputado federal por cinco mandatos, transitou pelas siglas do sistema \u2013 ARENA, PDS, PFL e PTB \u2013 e assim chegou ao posto de ministro coordenador pol\u00edtico no segundo mandato de Lula Encerrou a carreira pol\u00edtica como ministro do Tribunal de Contas da Uni\u00e3o, nomeado pelo mesmo Lula.<\/p>\n<p>Suas falas s\u00e3o coisa s\u00e9ria, pois n\u00e3o consistem em palavras soltas ao vento. Trata-se, por\u00e9m, de uma ventriloquia, e \u00e9 preciso cuidar do dono da voz.<\/p>\n<p>Em sua recente entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura (10\/02), M\u00facio lembrou que teve familiares junto aos port\u00f5es dos quart\u00e9is, naquela tentativa do bolsonarismo de criar a desordem servidora do objetivo de impedir a posse de Lula. Lembrou que, antes de assumir o minist\u00e9rio, procurara seu amigo capit\u00e3o; precisava de sua ajuda, e a obteve, para abrir-lhe as portas fechadas dos comandos militares. Afinal, portou-se, ainda nesse programa, como o melhor dos defensores do capit\u00e3o delinquente\u2013 cujo advogado, por sinal, j\u00e1 anunciou o pedido de juntada do programa de TV aos autos do processo de seu cliente, como a mais importante pe\u00e7a de sua defesa (vide O Globo, 11\/02\/2025).<\/p>\n<p>O ministro falou em &#8220;pris\u00e3o de inocentes&#8221; e aplica\u00e7\u00e3o de &#8220;penas arbitr\u00e1rias&#8221;. Posando de jurista e juiz, defendeu uma nova dosimetria das penas, diferenciando os envolvidos conforme o grau de responsabilidade, como se isso n\u00e3o estivesse sendo observado \u2013 o que \u00e9 uma forma a mais de condenar o processo. E insinuou haver excesso de condena\u00e7\u00f5es e de penas altas impostas pelo STF. &#8220;Voc\u00ea n\u00e3o pode condenar uma pessoa da mesma pena, quem armou, quem financiou e quem foi l\u00e1 inchar o movimento&#8221;. Quem o est\u00e1 fazendo? Segundo o ministro, &#8220;n\u00e3o havia ningu\u00e9m armado&#8221;, porque ele n\u00e3o considera as facas, os bast\u00f5es de ferro, as pedras, as bombas de g\u00e1s lacrimog\u00eanio , os pesados extintores de inc\u00eandios etc.<\/p>\n<p>Fez coro \u00e0 defesa da anistia que os meliantes de todos os naipes reclamam, sob a alega\u00e7\u00e3o de que o pa\u00eds precisa ser &#8220;pacificado&#8221;. &#8220;Ningu\u00e9m aguenta mais esse radicalismo&#8221;, afirmou, sem se dignar a explicar o que entende por &#8220;esse radicalismo&#8221;, nem apontar sua origem (qual seja, a campanha eleitoral de 2018 e o governo que a ela se sucedeu). Para o ministro, essa aberra\u00e7\u00e3o pol\u00edtica nos quadros de hoje ajudaria a &#8220;pacificar o pa\u00eds e reduzir a polariza\u00e7\u00e3o&#8221;. A direita solta fogos.<\/p>\n<p>Assim, n\u00e3o cogitou de discutir a alimenta\u00e7\u00e3o desse radicalismo, hoje talvez ainda mais agudo do que nos tempos da campanha e do governo passado. Rejeitou, reiteradamente, qualificar o 8 de Janeiro como ataque \u00e0 democracia ou tentativa de golpe. O ministro simplifica a hist\u00f3ria, qualificando-o como um &#8220;movimento&#8221; (n\u00e3o indica seu car\u00e1ter) ainda em apura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Questionado sobre a participa\u00e7\u00e3o das for\u00e7as armadas nos atos, M\u00facio sugeriu que n\u00e3o houve tentativa de golpe, pois os militares n\u00e3o aderiram \u00e0 invas\u00e3o, mas n\u00e3o soube explicar por que os comandantes das For\u00e7as se recusavam a receb\u00ea-lo e por que o chefe da Marinha e do Ex\u00e9rcito n\u00e3o procederam \u00e0 transmiss\u00e3o do cargo, a que estavam obrigados, e por que acoitaram nas portas dos quart\u00e9is os arruaceiros que, como parte decisiva da intentona, invadiram e depredaram as sedes dos tr\u00eas poderes..<br \/>\nA quem (e a que) aproveita tudo isso?<\/p>\n<p>Se o presidente Lula n\u00e3o enquadrar o porta-voz da caserna no MD, parecer\u00e1, \u00e0 opini\u00e3o p\u00fablica, que o est\u00e1 endossando \u2013 o que seria muito perigoso para o governo e a democracia.<\/p>\n<p>Ouso sugerir aos assessores pol\u00edticos do presidente que consultem a hist\u00f3ria recente do presidencialismo brasileiro, com suas insurrei\u00e7\u00f5es, levantes militares e, principalmente, com sua longa e aparentemente intermin\u00e1vel s\u00e9rie de golpes e contragolpes \u2013 e neles, o papel insidioso da subleva\u00e7\u00e3o dos quart\u00e9is, cupim voraz na faina silenciosa de consumir a legalidade. A bibliografia, mesmo aquela dedicada aos temas mais recentes, como o golpe de 1\u00ba de abril de 1964, \u00e9 vasta. Limito-me \u00e0 indica\u00e7\u00e3o de um s\u00f3 t\u00edtulo, o depoimento de Almino Afonso sobre o desmonte do governo Jango (1964 na vis\u00e3o do ministro do trabalho de Jo\u00e3o Goulart). H\u00e1 ali uma li\u00e7\u00e3o: nenhum presidente da Rep\u00fablica, em nosso regime, sobrevive sem um sistema (chamava-se \u00e0 \u00e9poca de &#8220;dispositivo&#8221;) militar sob seu comando \u2013 n\u00e3o s\u00f3 eficiente, como fiel. Neste caso, comando e fidelidade n\u00e3o se transferem.<\/p>\n<p>Quando Jango se deu conta, j\u00e1 era tarde demais.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/p>\n<p><strong>Roberto Amaral foi ministro da Ci\u00eancia e Tecnologia de Lula 1<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Age em rela\u00e7\u00e3o a teus amigos como se eles devessem tornar-se um dia teus inimigos&#8221; -Cardeal Mazarin, Brevi\u00e1rio dos pol\u00edticos O governo Lula ainda n\u00e3o conseguira instalar-se de fato; a \u00e1rea da defesa permanecia intocada (como intocada permanece at\u00e9 aqui), e a mobiliza\u00e7\u00e3o popular cessara com a &#8220;subida da rampa&#8221;, promessa finada em sua bela [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":339771,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[],"class_list":["post-348051","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/348051","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=348051"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/348051\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":348052,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/348051\/revisions\/348052"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/339771"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=348051"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=348051"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=348051"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}