{"id":348077,"date":"2025-02-16T07:40:07","date_gmt":"2025-02-16T10:40:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=348077"},"modified":"2025-02-16T07:54:47","modified_gmt":"2025-02-16T10:54:47","slug":"trabalho-de-nise-da-silveira-revelou-grandes-artistas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/trabalho-de-nise-da-silveira-revelou-grandes-artistas\/","title":{"rendered":"Trabalho de Nise da Silveira revelou grandes artistas"},"content":{"rendered":"<p>Quando Nise da Silveira iniciou seus tratamentos de terapia ocupacional baseada na arte, ela esperava que a atividade contribu\u00edsse para melhorar o quadro de seus pacientes e oferecesse a eles uma nova forma de expressar suas emo\u00e7\u00f5es. Mas esse trabalho tamb\u00e9m revelou ao mundo grandes artistas, que estavam soterrados debaixo das terapias psiqui\u00e1tricas convencionais da \u00e9poca, ou que nunca tinham tido a oportunidade de demonstrar sua criatividade.<\/p>\n<p>&#8220;Era surpreendente verificar a exist\u00eancia de uma puls\u00e3o configuradora de imagens sobrevivendo mesmo quando a personalidade estava desagregada. (&#8230;) Que acontecia? Nas palavras de Fernando estaria possivelmente a resposta: &#8211; Mudei para o mundo das imagens. Mudou a alma para outra coisa. As imagens tomam a alma da pessoa&#8221;, escreveu a pr\u00f3pria Nise, no primeiro cap\u00edtulo de seu principal livro, As imagens do inconsciente, a respeito dos trabalhos feitos na oficina de pintura.<\/p>\n<p>A primeira pessoa a reconhecer a excepcionalidade das obras foi Mario Pedrosa, um dos mais importantes cr\u00edticos de arte da hist\u00f3ria brasileira. Impressionado, ele levou at\u00e9 o hospital o cr\u00edtico franc\u00eas L\u00e9on Degand, que decidiu organizar uma exposi\u00e7\u00e3o no Museu de Arte Moderna de S\u00e3o Paulo, com algumas pe\u00e7as produzidas nas oficinas de Nise. Sob o nome &#8220;Nove Artistas do Engenho de Dentro&#8221;, ela estreou em 1949 e depois foi levada para outros espa\u00e7os.<\/p>\n<p><strong>Talentos marginalizados<\/strong><br \/>\nA necessidade de preservar as obras, organizar outras exibi\u00e7\u00f5es e proporcionar pesquisas sobre os trabalhos levou Nise a criar, em 1952, o Museu de Imagens do Inconsciente. Inicialmente ele funcionava no corredor das salas onde eram oferecidas as oficinas, dentro do Hospital Psiqui\u00e1trico Pedro II, em Engenho de Dentro, Zona Norte do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>&#8220;Eram pessoas marginalizadas pela sociedade e pela ci\u00eancia, mas surgiram talentos extraordin\u00e1rios. A ideia da psiquiatria \u00e9 que, com a doen\u00e7a, a intelig\u00eancia, a afetividade, a criatividade da pessoa v\u00e3o entrando em um processo de deteriora\u00e7\u00e3o. E o trabalho da Nise mostrou que a criatividade estava viva dentro dessas pessoas&#8221;, destaca o atual diretor do museu, Luiz Carlos Mello.<\/p>\n<p>Depois, o museu ganhou casa pr\u00f3pria, em outro pr\u00e9dio, mas ainda no terreno do instituto, onde segue at\u00e9 hoje sob a administra\u00e7\u00e3o da Sociedade Amigos do Museu de Imagens do Inconsciente, fundada em 1974, \u00e0s v\u00e9speras da aposentadoria compuls\u00f3ria de Nise, para garantir que seu trabalho n\u00e3o fosse interrompido.<\/p>\n<p>O Fernando citado por Nise \u00e9 Fernando Diniz, um dos artistas que trabalharam com a m\u00e9dica por mais tempo, somando milhares de pinturas produzidas. Tamb\u00e9m ganharam destaque no meio art\u00edstico pessoas como Adelina Gomes, Carlos Pertuis, Emygdio de Barros, L\u00facio Noeman e Oct\u00e1vio In\u00e1cio.<\/p>\n<p>O muse\u00f3logo Eur\u00edpedes Junior, que integra a diretoria da Sociedade, tinha 19 anos e estava na faculdade de M\u00fasica, quando come\u00e7ou a ministrar oficinas dentro das atividades de terapia ocupacional de Nise da Silveira. Ao atravessar o hospital &#8220;cheio de lixo, com pessoas sem roupa, nas mais degradantes condi\u00e7\u00f5es, Eur\u00edpedes diz que se &#8220;chocou terrivelmente&#8221; e pensou em nunca mais voltar, mas a experi\u00eancia com os pacientes o convenceu a continuar.<\/p>\n<p>&#8220;A primeira impress\u00e3o que eu tive da doutora Nise \u00e9 que ela era uma pessoa com um magnetismo muito grande. Ela me entregou seus pacientes, que era a coisa que ela mais amava no mundo, e eu perguntei para ela o que ela queria que eu fizesse, e ela falou: &#8220;Voc\u00ea faz o que voc\u00ea achar melhor, usa a sua criatividade&#8221;. A\u00ed eu comecei a fazer experi\u00eancias musicais que eu n\u00e3o conseguia fazer na escola de m\u00fasica, e isso foi maravilhoso para mim, tanto como profissional, como quanto pessoa, porque eu comecei a construir uma outra outra forma de ver o mundo&#8221;.<\/p>\n<p>Sua experi\u00eancia de 40 anos, trabalhando com as oficinas e depois contribuindo com o museu, deu origem ao livro rec\u00e9m-lan\u00e7ado &#8220;Do asilo ao museu &#8211; Nise da Silveira e as cole\u00e7\u00f5es da loucura&#8221;.<\/p>\n<p>Ele tenta explicar toda a pot\u00eancia das obras: &#8220;O mundo interno \u00e9 um grande universo que est\u00e1 para ser descoberto e que a nossa sociedade valoriza muito pouco. Pessoas que d\u00e3o um mergulho nesse mundo interno, que se perdem nesse mundo interno e sofrem por terem perdido a integridade do pensamento e da consci\u00eancia por causa de experi\u00eancias profundas muito poderosas que a gente mal conhece e d\u00e1 o nome de loucura, sempre foram exclu\u00eddas, estigmatizadas. A doutora Nise resgata uma coisa importante que \u00e9 a individualidade dessas pessoas, demonstrando ao mundo os valores e as riquezas desse mundo interno&#8221;<\/p>\n<p><strong>Mais de 200 exposi\u00e7\u00f5es<\/strong><br \/>\nHoje o museu abriga cerca de 400 mil obras, mas a cole\u00e7\u00e3o s\u00f3 aumenta, j\u00e1 que as oficinas continuam a ser oferecidas. Cerca de 128 mil delas foram tombadas pelo Iphan e est\u00e3o sendo digitalizadas. O museu tamb\u00e9m \u00e9 o guardi\u00e3o da biblioteca pessoal de Nise da Silveira, e de todo o seu acervo de estudos e pesquisas. A dire\u00e7\u00e3o est\u00e1 concluindo o projeto executivo para levantar verbas para uma amplia\u00e7\u00e3o, que vai permitir o melhor acondicionamento do acervo, e propiciar mais conforto e mais atividades para os visitantes.<\/p>\n<p>Desde a sua cria\u00e7\u00e3o, j\u00e1 foram realizadas mais de 200 exposi\u00e7\u00f5es, incluindo &#8220;Nise da Silveira &#8211; A revolu\u00e7\u00e3o do afeto&#8221;, que j\u00e1 est\u00e1 em sua s\u00e9tima edi\u00e7\u00e3o, passando pelo Centro Cultural Banco do Brasil de Bras\u00edlia e pelo Sesc de Sorocaba.<\/p>\n<p>&#8220;A gente fez uma curadoria de seis artistas, uma sele\u00e7\u00e3o dessas imagens do museu, e colocou em di\u00e1logo tanto com alguns artistas modernos que frequentaram o atelier como tamb\u00e9m com obras contempor\u00e2neas, porque outras pessoas tamb\u00e9m lidam com o problema da sa\u00fade mental, diretamente ou por outras formas de pensar corpos marginalizados&#8221;, explica Isabel Seixas, uma das curadoras da exposi\u00e7\u00e3o. Ela complementa que as obras foram escolhidas n\u00e3o s\u00f3 pela sua representatividade art\u00edstica, mas pelo contexto em que se inserem nas pesquisas feitas por Nise, que ajudaram a psiquiatria a entender melhor o inconsciente.<\/p>\n<p>A mostra j\u00e1 foi vista por mais de 300 mil pessoas, incluindo 50 mil estudantes que foram levados pelas escolas. Isabel faz uma reflex\u00e3o que se encaixa na realidade dos artistas mas tamb\u00e9m dos visitantes: &#8220;Ter contato com a arte \u00e9 sempre ampliar os referenciais de mundo. Voc\u00ea tem acesso a universos internos de outras pessoas e isso amplia sua forma de olhar o mundo, seja apenas para o delete est\u00e9tico, seja na forma como isso impacta voc\u00ea&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando Nise da Silveira iniciou seus tratamentos de terapia ocupacional baseada na arte, ela esperava que a atividade contribu\u00edsse para melhorar o quadro de seus pacientes e oferecesse a eles uma nova forma de expressar suas emo\u00e7\u00f5es. 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