{"id":348630,"date":"2025-02-22T09:50:05","date_gmt":"2025-02-22T12:50:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=348630"},"modified":"2025-02-22T10:06:37","modified_gmt":"2025-02-22T13:06:37","slug":"um-sonho-sonhado-de-quincas-berro-dagua-a-carlos-castaneda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/um-sonho-sonhado-de-quincas-berro-dagua-a-carlos-castaneda\/","title":{"rendered":"Um sonho sonhado de Quincas Berro d\u2019\u00c1gua a Carlos Casta\u00f1eda"},"content":{"rendered":"<p>Seu anivers\u00e1rio estava chegando e, como era de praxe, Adriano convidou alguns amigos para um quarup. O ritual se repetia desde os seus 73 anos; ele, sem no\u00e7\u00e3o, achou que morreria logo e quis se despedir em grande estilo. N\u00e3o morreu, mas a reuni\u00e3o ganhou esse nome. E se repetiu nos anos seguintes. S\u00f3 que, \u00e0s v\u00e9speras de completar 80 anos, sentiu que dessa vez seria diferente&#8230;<\/p>\n<p>O bar era o mesmo, os amigos, os dos \u00faltimos quatro quarups (um havia batido as botas, tadinho). Boa conversa, boa bebida, muitos risos \u2013 mas de repente Adriano sentiu que deixara o corpo. Viu-se \u00e0 mesa, falando pouco, ouvindo muito, e se afastou. Foi pousar (?) em uma clareira, onde havia uma grande roda de estacas pintadas, cravadas no ch\u00e3o. Reconheceu a coisa: ca\u00edra no meio de um ritual de Quarup, dos ind\u00edgenas do Alto Xingu. Tentou aproximar-se, mas n\u00e3o conseguiu; percebeu que tamb\u00e9m ele era uma estaca pintada.<\/p>\n<p>&#8211; Bem-vindo, guerreiro \u2013 comunicou telepaticamente a estaca a seu lado direito.<\/p>\n<p>Guerreiro? Adriano fora muitas coisas na vida, at\u00e9 mesmo militante contra a ditadura e a desgraceira do governo bozista, mas guerreiro era forte demais.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sou guerreiro \u2013 respondeu telepaticamente. \u2013 Sou um jornalista de esquerda, aposentado, e acho que ainda estou vivo!<\/p>\n<p>&#8211; A maioria de n\u00f3s est\u00e1 \u2013 respondeu a estaca. \u2013 Eu, por exemplo, estou agonizando em um hospital em Berlim. E tamb\u00e9m n\u00e3o sou rigorosamente um guerreiro, e sim um antrop\u00f3logo, professor na universidade. Mas conseguir vencer o espa\u00e7o e comparecer a este quarup nos permite usar essa designa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; E viemos aqui para&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Morrer, \u00e9 claro! Cercados pelo respeito de nossos irm\u00e3os guerreiros. Mas, at\u00e9 o in\u00edcio da cerim\u00f4nia, podemos retornar a nossos corpos velhos e doentes.<\/p>\n<p>Adriano viu que ind\u00edgenas cobertos de pintura corporal se aproximavam e saudavam cerimoniosamente cada estaca; n\u00e3o podia dizer se eram de carne e osso ou materializa\u00e7\u00f5es, que nem ele, o antrop\u00f3logo alem\u00e3o e, sem d\u00favida, muitos outros. Come\u00e7ou a tremer (por dentro, estacas cravadas no solo s\u00e3o singularmente imunes a tremer por iniciativa pr\u00f3pria) e lembrou do conto A terceira margem do rio, de Guimar\u00e3es Rosa. O protagonista passa muito tempo no meio de um rio \u2013 a terceira margem \u2013, at\u00e9 que um dia o filho lhe implora que volte, estava pronto a substitu\u00ed-lo. Quando a canoa come\u00e7a a se aproximar, o filho percebe o alcance do sacrif\u00edcio que se comprometeu a fazer e foge, coberto de culpa e vergonha. Adriano brincara com a ideia de um Quarup, n\u00e3o se comprometera a partir para outro plano em um, n\u00e3o imaginava que isso fosse poss\u00edvel \u2013 mas a culpa e a vergonha estavam presentes.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! N\u00e3o consigo!<\/p>\n<p>No mesmo momento, sua estaca se desmaterializou e ele voltou a seu corpo, no quarup paulistano.<\/p>\n<p>&#8211; Orra, brother! \u2013 disse um dos amigos, o mais esporrento de todos. \u2013 Achei que voc\u00ea tinha esticado as canelas! Estava quieto, sem falar nada&#8230; \u2013 e deu uma de suas estrondosas gargalhadas.<\/p>\n<p>&#8211; Se isso acontecer, me levem pra um \u00faltimo rol\u00ea, que nem no conto <em>A morte e a morte de Quincas Berro d\u2019\u00c1gua<\/em> \u2013 respondeu Adriano, com um sorriso for\u00e7ado. Era sua segunda alus\u00e3o liter\u00e1ria da noite \u2013 e a primeira ficara quietinha, envolta nos pensamentos e na culpa do Adriano-estaca.<\/p>\n<p>Os amigos se despediram \u00e0s 11h30 (eram ve\u00ednhas e ve\u00ednhos, dormiam cedo). De volta a sua casa, Adriano teve certeza de que n\u00e3o compareceria a outro Quarup no Xingu, era uma chance \u00fanica, que ele desperdi\u00e7ara. E tamb\u00e9m de que poderia encontrar os amigos em anivers\u00e1rios futuros, mas nunca mais chamaria essas reuni\u00f5es de quarup.<\/p>\n<p>Em sua terceira alus\u00e3o liter\u00e1ria, pensou em um livro de Carlos Casta\u00f1eda, sobre um feiticeiro ind\u00edgena, <em>Don Juan<\/em>. Ele conta que, quando um guerreiro vai morrer, A Magra se det\u00e9m, em respeito, e espera que ele dance sua \u00faltima dan\u00e7a. E depois, claro, o leva. Adriano se prop\u00f4s a fazer o mesmo quando a morte chegasse. Tentaria sintetizar, em movimentos improvisados, as tristezas e alegrias, as derrotas e vit\u00f3rias de sua vida. E ent\u00e3o partiria, desafiador e sem medo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Seu anivers\u00e1rio estava chegando e, como era de praxe, Adriano convidou alguns amigos para um quarup. O ritual se repetia desde os seus 73 anos; ele, sem no\u00e7\u00e3o, achou que morreria logo e quis se despedir em grande estilo. N\u00e3o morreu, mas a reuni\u00e3o ganhou esse nome. E se repetiu nos anos seguintes. 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