{"id":348672,"date":"2025-02-23T08:20:02","date_gmt":"2025-02-23T11:20:02","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=348672"},"modified":"2025-02-23T12:37:56","modified_gmt":"2025-02-23T15:37:56","slug":"como-jonas-joao-voltou-mas-vo-jacinta-foi-enterrada-com-as-sete-ervas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/como-jonas-joao-voltou-mas-vo-jacinta-foi-enterrada-com-as-sete-ervas\/","title":{"rendered":"Como Jonas, Jo\u00e3o voltou, mas V\u00f3 Jacinta foi enterrada com as sete ervas"},"content":{"rendered":"<p><strong>1.<\/strong><br \/>\nEra o final da esta\u00e7\u00e3o. Passado o ver\u00e3o, veio o tempo de guardar o var\u00e3o. Tantas travessias entre o rio da Madre e a praia da Guarda nesses anos todos de batalha. Var\u00e3o e barco chegaram ao descanso a espera do inverno. Jo\u00e3o Jonas levava consigo um sentimento misturado: um pouco de alegria pelo trabalho realizado, um pouco de frustra\u00e7\u00e3o pelo que poderia ter feito melhor. Jo\u00e3o era assim, Jonas como lhe dissera a av\u00f3 desde menininho:<\/p>\n<p>&#8220;&#8230; tem que ser o melhor, o perfeito, Jo\u00e3o! Voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 Jo\u00e3o; \u00e9 Jonas, aquele que foi engolido pela baleia e depois de anos voltou&#8221;.<\/p>\n<p>Aquele fim de tarde parecia especial. Jo\u00e3o trouxe o barco fincando o var\u00e3o no leito do rio como se fosse a primeira vez. A cada fincada sentia a m\u00e3o do tempo na mem\u00f3ria de quando come\u00e7ara na lida das travessias com o pai, Jo\u00e3o Samuca. Calmamente encostou a canoa na beira da areia e saltou com os p\u00e9s firmes no continente da Guarda.<\/p>\n<p>&#8220;&#8230;devagar, com calma, sem pressa, Jo\u00e3o&#8230;o pai ensinou que deve ser uma coisa de cada vez&#8221;.<\/p>\n<p>Na faixa de areia branca, as meninas do Baque da Guarda, grupo de folguedo de Maracatu j\u00e1 levava a m\u00fasica e as dan\u00e7as animando nativos e turistas. Jo\u00e3o carregava no peito o sentimento do dever cumprido. Sempre um Jonas sobrevivente no interior da baleia. Mas outro sentimento t\u00e3o m\u00e1gico e profundo gritava ainda mais forte, o amor pela morena-jambo,<br \/>\nLucinda, a rapariga mais faceira daquelas bandas:<\/p>\n<p>&#8220;&#8230; desde Pinheira, Gamboa, Morretes at\u00e9 a Praia do Rosa, o amor dos olhos d&#8217;alma, do azul do c\u00e9u, do dourado do Sol, minha vida, luz e alma, visse?!&#8221;.<\/p>\n<p><strong>2.<\/strong><br \/>\nComo de costume, a av\u00f3, dona Jacinta, tida como bruxa-feiticeira de respeito, o aguardava na chegada do final do dia. Ela retirou as duas guias do pesco\u00e7o e colocou no pesco\u00e7o de Jonas. Ritual local de amor, gratid\u00e3o e prote\u00e7\u00e3o. Neste momento, uma das guias se quebrou espalhando as contas na flor d&#8217;\u00e1gua do rio raso misturado com a flor de areia que j\u00e1 se agarrava aos p\u00e9s de Jonas.<\/p>\n<p>&#8220;&#8230; estranho&#8230; muito estranho &#8230; a guia quebrou sozinha sem que eu for\u00e7asse &#8230; estranho&#8230;&#8221;.<\/p>\n<p>Jonas sorriu, como sempre. Beijou a av\u00f3 e firmou-se na prainha do rio da Madre apoiado em seu fiel var\u00e3o. O Sol j\u00e1 caia na serra do continente quando Lucinda veio dan\u00e7ando um ponto de Maracatu insinuante e bela.<\/p>\n<p><strong>3.<\/strong><br \/>\nEm meio ao beijo contido -pois p\u00fablico- e ao lado da av\u00f3, a segunda guia de Jonas partiu-se e as pequenas contas esparramaram-se pela areia. A av\u00f3 Jacinta a tudo via e nada dizia.<\/p>\n<p>&#8220;&#8230;estranho&#8230; alguma coisa est\u00e1 fora da coisa&#8230; as duas contas de Jonas quebradas&#8230; assim&#8230;do nada?!&#8221;.<\/p>\n<p>Jonas nem percebeu. Abra\u00e7ado com Lucinda, seguiu dan\u00e7ando e cantando novos pontos do Maracatu. Mestre Tininho dava o mote e improvisava versos sobre o amor, o tempo, a ilus\u00e3o e a solid\u00e3o. E assim foi-se fechando mais um ver\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>4.<\/strong><br \/>\nNaquela madrugada, a av\u00f3 Jacinta n\u00e3o esperou o galo cantar. Todos dormiam na casa e ela seguiu para o cost\u00e3o de pedra. A velha senhora tinha conhecimento profundo da natureza e atuava h\u00e1 tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es como curandeira, parteira, guia espiritual de todos na pequena aldeia de pescadores. Pela trilha at\u00e9 o cost\u00e3o, seguiu descal\u00e7a levando o embornal tran\u00e7ado no peito e dentro pedrinhas do mar, cristais e sete ervas m\u00e1gicas: Alecrim, Artem\u00edsia, S\u00e1lvia, Menta, Lavanda, as ervas mais &#8220;suaves&#8221;; e duas ervas &#8220;pesadas&#8221;, Arruda e Comigo-ningu\u00e9m-pode. Ap\u00f3s subir a primeira escada de pedras do cost\u00e3o, v\u00f3 Jacinta mirou a Lua cheia iluminando a noite, retirou as ervas &#8220;suaves&#8221; do embornal e foi abrindo os caminhos at\u00e9 a beirada do cost\u00e3o onde as ondas do mar estouravam em for\u00e7a e movimento. Permaneceu em sil\u00eancio por algum tempo e s\u00f3 ent\u00e3o iniciou as rezas e os c\u00e2nticos. Ao final da primeira parte do ritual, ela tirou os pequenos frascos com as duas poderosas ervas para a &#8220;bruxaria verde&#8221;. Um grito de Mau-agouro da rasga-mortalha, a coruja do mar, ecoou pelo cost\u00e3o trazendo arrepio e fasc\u00ednio na noite praieira.<\/p>\n<p><strong>5.<\/strong><br \/>\nJo\u00e3o Jonas s\u00f3 tinha olhos para Lucinda. Amores da inf\u00e2ncia e prometidos pelas fam\u00edlias para o casamento, filhos e uni\u00e3o em tudo o que interessasse aos pais e av\u00f3s. Costume nativo. Na verdade, eram bem mais amigos adolescentes que foram se acostumando \u00e0 conviv\u00eancia imposta e ainda sem descobrirem o desejo sexual. Jo\u00e3o Jones bem mais ing\u00eanuo e rapag\u00e3o; Lucinda mais faceira, fogosa entrando na fase menstrual e dos del\u00edrios &#8220;sem raz\u00e3o&#8221;. Com Jonas, corria pelas praias, nadavam juntos, rolavam pelas dunas e faziam toda forma de brincadeiras como se estendessem a inf\u00e2ncia vivida juntos. Mas naquele final de ver\u00e3o, o novo se encarregou de trazer as mudan\u00e7as que sempre chegam. Lucinda foi fisgada pelo olhar do jovem Roberto, filho do patr\u00e3o-dono-dos-barcos do vilarejo, que estudava na capital e voltou para as f\u00e9rias de ver\u00e3o. V\u00f3 Jacinta j\u00e1 sabia do destino e do arranjo que a vida se ocupa de fazer nestas circunst\u00e2ncias. Da\u00ed as provid\u00eancias de salva\u00e7\u00e3o e justi\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>6.<\/strong><br \/>\nA velha senhora chamou a prote\u00e7\u00e3o das for\u00e7as, jogou as ervas poderosas ao mar e entoou o c\u00e2ntico decisivo:<\/p>\n<p>&#8220;&#8230; mandaram para mim a coruja me visitar&#8230; eu te chamo Mulambo para me ajudar&#8230; quem com ferro ser\u00e1 ferido&#8230; a maior trai\u00e7\u00e3o \u00e9 quando vem de um amigo&#8230;tranca essa porta e abre as estradas&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>A Lua se escondeu. A noite virou breu. O mar, ainda mais revolto, no cost\u00e3o bateu.<\/p>\n<p>A coruja rasga-mortalha gritou pela madrugada.<\/p>\n<p>V\u00f3 Jacinta resmungou as suas rezas e depois emudeceu.<\/p>\n<p>Garrou o caminho de volta e tudo o mais aconteceu.<\/p>\n<p><strong>7.<\/strong><br \/>\nPela manh\u00e3, no bar do Maneca, o coment\u00e1rio era geral:<\/p>\n<p>&#8220;&#8230;visse s\u00f3&#8230; estranho que o patr\u00e3o Agenor sa\u00edsse pro mar e ainda no final do ver\u00e3o&#8230; ele n\u00e3o entrava em barco fazia tempos&#8230; o que que deu na cabe\u00e7a do abestalhado para querer sair sozinho com a canoa e entrar em mar aberto?&#8230; eu ainda disse pra ele que eu ia junto, mas n\u00e3o&#8230; homezinho teimoso, turr\u00e3o&#8230; estranho&#8230; muito estranho&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>O corpo do patr\u00e3o Agenor jamais foi encontrado.<\/p>\n<p>O mar engoliu.<\/p>\n<p>Anos depois, no in\u00edcio de outro ver\u00e3o, Jo\u00e3o Jonas e Lucinda se casaram na igreja de Nossa Senhora de F\u00e1tima e foi uma festan\u00e7a de arromba na comunidade.<\/p>\n<p>Vieram os filhos e Jo\u00e3o gostava de contar as hist\u00f3rias da av\u00f3 Jacinta para eles, especialmente a de Jonas, aquele que foi engolido pela baleia nas p\u00e1ginas b\u00edblicas, sobreviveu e voltou para o mundo dos vivos.<\/p>\n<p>V\u00f3 Jacinta j\u00e1 havia morrido tempos antes.<\/p>\n<p>E foi enterrada com o seu embornal das sete ervas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. 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