{"id":348811,"date":"2025-02-25T07:28:39","date_gmt":"2025-02-25T10:28:39","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=348811"},"modified":"2025-02-25T07:28:39","modified_gmt":"2025-02-25T10:28:39","slug":"quando-abridor-de-cartas-abre-o-caminho-para-oferendas-a-deusa-kali","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/quando-abridor-de-cartas-abre-o-caminho-para-oferendas-a-deusa-kali\/","title":{"rendered":"Quando abridor de cartas abre o caminho para oferendas \u00e0 deusa Kali"},"content":{"rendered":"<p>Shirley e William estavam casados h\u00e1 dois anos. Ainda n\u00e3o tinham filhos e viviam numa perp\u00e9tua lua de mel. \u201cSeria perfeito se ele n\u00e3o fosse t\u00e3o apegado \u00e0 m\u00e3e\u201d, pensava sempre a jovem. \u201cAquela vaca me trata mal por ser filha de imigrantes!\u201d.<\/p>\n<p>Certa noite, depois do jantar, os dois foram pra cama e fizeram um amorzinho gostoso. De repente, Shirley se viu deitada no ch\u00e3o, com o corpo todo dolorido, enquanto William a sacudia e repetia sem parar o seu nome.<\/p>\n<p>&#8211; Que a-aconteceu? \u2013 perguntou, aturdida.<\/p>\n<p>&#8211; Eu \u00e9 que pergunto! \u2013 respondeu ele, num tom entre ansioso e irritado. \u2013 Voc\u00ea n\u00e3o lembra de nada? \u2013 diante do olhar at\u00f4nito de Shirley, explicou:<\/p>\n<p>&#8211; Depois que a gente transou, voc\u00ea foi ao banheiro. Voltou com um punhal na m\u00e3o, gritando palavras sem nexo, e me atacou! Segurei sua m\u00e3o, voc\u00ea n\u00e3o me feriu, mas n\u00e3o consegui desarm\u00e1-la. De repente voc\u00ea largou a arma e tombou, em convuls\u00f5es. \u2013 Afagando-lhe o rosto, indagou:<\/p>\n<p>&#8211; Querida, que palavras eram aquelas, de que l\u00edngua? Por que me atacou? Por que havia um punhal no banheiro?<\/p>\n<p>Ela tentou retribuir a car\u00edcia, mas n\u00e3o conseguiu erguer o bra\u00e7o, pesava demais.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o lembro de nada, amor, juro. Mas aquilo \u2013 e olhou para o objeto ca\u00eddo no ch\u00e3o \u2013 n\u00e3o \u00e9 um punhal, \u00e9 um abridor de cartas. Est\u00e1 na minha fam\u00edlia h\u00e1 muitas gera\u00e7\u00f5es. N\u00e3o fa\u00e7o a menor ideia de como foi parar no banheiro&#8230;<\/p>\n<p>No dia seguinte, ao sair do trabalho, William foi direto para a casa da m\u00e3e e contou-lhe o ocorrido. A velha ouviu tudo em sil\u00eancio, os l\u00e1bios apertados em desaprova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Eu sabia que aquela vagabunda n\u00e3o prestava! \u2013 explodiu quando o filho enfim se calou. \u2013 \u00c9 uma estrangeira, n\u00e3o conhece nossas tradi\u00e7\u00f5es! \u2013 Retomou o f\u00f4lego e prosseguiu:<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 possu\u00edda por dem\u00f4nios, tenho certeza! Leve-a amanh\u00e3 ao templo que o pastor vai exorciz\u00e1-la, expulsar os esp\u00edritos imundos. \u2013 E ordenou, inflex\u00edvel. \u2013 Mas, at\u00e9 que isso aconte\u00e7a, n\u00e3o se aproxime daquela &#8230; voc\u00ea vai dormir aqui!<\/p>\n<p>William foi pra casa e, meio em gra\u00e7a, contou \u00e0 esposa a exig\u00eancia da m\u00e3e. Shirley chorou, disse que aquilo nunca mais aconteceria, que eles poderiam continuar a ser felizes, mas ele foi inflex\u00edvel.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea vai ao templo amanh\u00e3. S\u00f3 volto a toc\u00e1-la depois de o pastor expulsar os dem\u00f4nios! \u2013 E saiu, para dormir no ninho materno.<\/p>\n<p>A jovem resignou-se e, no dia seguinte, acompanhou o marido ao templo. Ao entrar, suportou o olhar de desprezo das devotas. Mas quando o pastor a chamou de \u201cpecadora que se ofereceu ao diabo e se abriu para ele\u201d, foi demais. Libertou-se de William com um safan\u00e3o e correu para fora. Quando olhou para tr\u00e1s, as l\u00e1grimas nos olhos n\u00e3o a impediram de ver, na porta do templo, seu amor, que a xingava aos berros, ao lado da megera, que sorria triunfante.<\/p>\n<p>Shirley correu para a casa da m\u00e3e e, aos prantos, contou-lhe tudo. A velha ouviu em sil\u00eancio, enquanto acariciava os cabelos da filha. No final, falou:<\/p>\n<p>&#8211; Isso n\u00e3o me surpreende, tinha medo de que acontecesse algum dia. \u2013 E, pegando-a pelo bra\u00e7o \u2013 Venha comigo, vou lev\u00e1-la \u00e0 \u00fanica pessoa que pode ajud\u00e1-la agora.<\/p>\n<p>Uma hora depois, chegaram a um s\u00edtio cheio de \u00e1rvores, na periferia urbana. A m\u00e3e de Shirley identificou-se e obteve permiss\u00e3o para entrar. Foram recebidas por uma mulher bastante idosa, cujo olhar brilhava de poder espiritual. Shirley contou-lhe toda a hist\u00f3ria, e a velha explicou:<\/p>\n<p>&#8211; A M\u00e3e a chamou, voc\u00ea vai ter de ficar aqui e desenvolver sua espiritualidade. Ser\u00e3o seis meses de reclus\u00e3o, na minha companhia e na de suas irm\u00e3s. Voc\u00ea aceita?<\/p>\n<p>Sem alternativa, a jovem concordou. Despediu-se da m\u00e3e e iniciou uma nova vida.<\/p>\n<p>Cada dia daqueles seis meses trouxe provas dif\u00edceis, que fortaleceram o car\u00e1ter e a determina\u00e7\u00e3o de Shirley. No \u00faltimo dia, a velha a conduziu a uma sala onde jamais havia entrado, decorada em tons vermelhos, tendo ao centro uma imagem coberta por um pano. Sentaram-se em almofadas dispostas pelo ch\u00e3o. A mestra sorriu para a disc\u00edpula e falou:<\/p>\n<p>&#8211; Querida, voc\u00ea concluiu seu noviciado, \u00e9 uma verdadeira filha da deusa, n\u00e3o mais minha aprendiz, \u00e9 minha irm\u00e3! \u2013 Dando uma guinada na conversa, observou: \u2013 A M\u00e3e \u00e9 exigente, nosso ritual de forma\u00e7\u00e3o \u00e9 doloroso e dif\u00edcil. Morro de rir com as inicia\u00e7\u00f5es do candombl\u00e9 da Nig\u00e9ria, do vodu do Daom\u00e9, da roda mo\u00e7ambicana, parecem brincadeira de crian\u00e7a diante da nossa! Mas n\u00e3o estamos na Nig\u00e9ria, no Daom\u00e9 ou em Mo\u00e7ambique. Estamos na \u00c1frica do Sul, pertencemos \u00e0 minoria hindu e cultuamos divindades muito mais antigas que os deuses africanos. E muito mais poderosas!<\/p>\n<p>Shirley ouvia em sil\u00eancio, quase sem respirar. A velha prosseguiu:<\/p>\n<p>&#8211; Mil vezes voc\u00ea me perguntou o nome daquela que chamamos simplesmente de M\u00e3e. Nunca respondi. \u00c9 hora de ser apresentada a ela!<\/p>\n<p>Pegando a jovem pela m\u00e3o, dirigiu-se com ela para junto da est\u00e1tua e puxou o pano. Surgiu a imagem de uma entidade feminina de pele azul-escura, com o corpo coberto de serpentes, em vez de roupas, e que trazia ao pesco\u00e7o um colar de cr\u00e2nios humanos.<\/p>\n<p>&#8211; Seu nome \u00e9 Kali, destruidora de dem\u00f4nios, deusa da destrui\u00e7\u00e3o e do renascimento. \u2013 Olhou para a mo\u00e7a com um misto de respeito e comisera\u00e7\u00e3o e continuou \u2013 A alguns de seus filhos, pede apenas ora\u00e7\u00f5es e flores, mas a deusa em voc\u00ea \u00e9 poderosa, e ela quer mais! \u2013 E continuou, quase num sussurro:<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 s\u00e9culos que sua fam\u00edlia serve a M\u00e3e. Antepassados seus estiveram entre os tugues, que ofereciam a Kali vidas humanas, em especial dos odiados colonizadores brit\u00e2nicos. Ela lhe pede a mesma coisa. Voc\u00ea j\u00e1 tem o punhal. Suplico-lhe, n\u00e3o ignore o pedido dessa m\u00e3e exigente! Ofere\u00e7a-lhe uma morte por ano, e voc\u00ea ter\u00e1 para sempre a prote\u00e7\u00e3o de Kali!<\/p>\n<p>Shirley n\u00e3o respondeu de in\u00edcio. Aos poucos, por\u00e9m, a sugest\u00e3o de um sorriso aflorou em seus l\u00e1bios. J\u00e1 sabia quais seriam as primeiras oferendas: a vaca da m\u00e3e de William e depois ele, que a havia abandonado!<\/p>\n<p>&#8211; Sim \u2013, murmurou. E saiu da sala e do templo, sentindo-se livre e poderosa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Shirley e William estavam casados h\u00e1 dois anos. Ainda n\u00e3o tinham filhos e viviam numa perp\u00e9tua lua de mel. \u201cSeria perfeito se ele n\u00e3o fosse t\u00e3o apegado \u00e0 m\u00e3e\u201d, pensava sempre a jovem. \u201cAquela vaca me trata mal por ser filha de imigrantes!\u201d. 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