{"id":348892,"date":"2025-02-26T10:02:52","date_gmt":"2025-02-26T13:02:52","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=348892"},"modified":"2025-02-26T10:02:52","modified_gmt":"2025-02-26T13:02:52","slug":"um-sonho-sofrido-de-viver-com-o-sabor-da-rapadura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/um-sonho-sofrido-de-viver-com-o-sabor-da-rapadura\/","title":{"rendered":"Um sonho sofrido de viver com o sabor da rapadura"},"content":{"rendered":"<p>A menina nada mais esperava daquela manh\u00e3. Vinha de m\u00e3os dadas com a m\u00e3e, que trazia ao colo outro irm\u00e3o, mais novo. O nen\u00e9m chorava e, em v\u00e3o, a mulher lhe tapava a boca com uma chupeta imunda, presa a um trapo. E a menina ali, parada, observando a cena, ao mesmo tempo em que vagava os olhos curiosos pelas pessoas em volta.<\/p>\n<p>Continuaram a marcha.<\/p>\n<p>&#8211; Vem, menina, se apressa.<\/p>\n<p>E mais a garotinha apertava o passo. O peso dos sapatos, maiores que seus p\u00e9s, traziam um severo inc\u00f4modo. Como ela sentia tudo estranho e hostil naquela cidade e naquela manh\u00e3. Lembrava-se a menina que, na noite anterior, ela, a m\u00e3e e o irm\u00e3ozinho haviam se despedido, na rodovi\u00e1ria, da mulher que lhes dera abrigo por alguns meses.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea mande not\u00edcias, viu? E v\u00e1 a este endere\u00e7o, o Sandoval vai lhe prestar toda a ajuda de que precise.<\/p>\n<p>E foram. Passaram a noite toda no interior do \u00f4nibus, onde o corpo da menina experimentara alguns poucos momentos de descanso. Depois, era o cheiro estranho do ve\u00edculo, nauseante, morno. Eram os solavancos da estrada e a \u00e2nsia de v\u00f4mito que, \u00e0s vezes, se confundia com a fome, e aquela sensa\u00e7\u00e3o lhe fazia subir um tremendo vazio no peito.<\/p>\n<p>Chegaram \u00e0 cidade ainda de manh\u00e3zinha. A m\u00e3e passou numa banca e comprou um jornal. Era importante conferir a data e, se Sandoval n\u00e3o fosse prestante, havia de encontrar alguma coisa nos classificados.<\/p>\n<p>A rua era comprida e larga, muito maior do que a menina j\u00e1 tinha visto em sua cidade natal.<\/p>\n<p>&#8211; Anda, moleca. Apressa o passo &#8211; ralhava a m\u00e3e, furiosa &#8211; \u00e9 ali naquela rua, tenho certeza.<\/p>\n<p>Aquele trio improv\u00e1vel parou \u00e0 frente de uma casa comercial. Modesta, mas bem sortida.<\/p>\n<p>A mulher chegou perto de onde, atr\u00e1s do velho balc\u00e3o de madeira, um homem de uns 50 anos embrulhava as compras de uma velhinha que esperava trazendo j\u00e1 algumas coisas numa sacola. E o homem enrolava o queijo no papel \u00e1spero e pardacento. Quando cortou o papel na pe\u00e7a de ferro que compunha o suporte em que se apoiava o grande rolo, um arrepio de afli\u00e7\u00e3o percorreu o corpo da menina.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 falo com a senhora, disse o homem, secamente.<\/p>\n<p>Ali esperaram por mais alguns instantes quando o homem virou-se para eles:<\/p>\n<p>&#8211; A senhora que \u00e9 a prima de Matilde? Sou o Sandoval.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, senhor, ela mandou esta carta, disse a mulher passando-lhe um envelope.<\/p>\n<p>Ele abriu-o e leu, por um minuto ou pouco mais, o seu conte\u00fado. Estava circunspecto, m\u00e3o no queixo, cenho franzido.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, minha senhora, n\u00e3o vai dar n\u00e3o. Eu n\u00e3o preciso de ningu\u00e9m aqui pra ajudar.<\/p>\n<p>As palavras haviam tingido de desola\u00e7\u00e3o o sofrido e sulcado rosto da mulher que, se mal tivesse completado os 30, aparentava ter bem mais de 40 anos.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia como descrever o olhar de sofrida ang\u00fastia que brotou de suas fei\u00e7\u00f5es. N\u00e3o sabia direito o que dizia a carta. Diversas vezes, tendo-a em m\u00e3os durante a viagem, pensou num meio de abri-la antes de entregar a Sandoval. Mas n\u00e3o, sua moral n\u00e3o o permitia. E, ademais, era imposs\u00edvel passar, depois, o envelope por inviolado. Antes que amassasse demais o papel, guardou-a e permaneceu em sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Mas, ainda que n\u00e3o houvesse lido, imaginava que sua amiga dirigisse a Sandoval um pedido de caridade, pedido de socorro, para que lhe achasse alguma tarefa a desempenhar. Assim, poderia ter um teto por sobre si mesma e seus filhos.<\/p>\n<p>V\u00e1rios minutos de sil\u00eancio depois, ela virou-se de costas para o balc\u00e3o, atr\u00e1s do qual o dono do estabelecimento j\u00e1 voltara a se mover, organizando itens, limpando daqui e dali.<\/p>\n<p>O filho mais novo havia dormido depois de choramingar um pouco. A menina, em riste, observava alguma coisa guardada na prateleira atr\u00e1s o balc\u00e3o.<\/p>\n<p>Era uma pequena pilha de rapaduras, envolvidas em papel-manteiga. A menina adivinhava os adocicados tabletes pois j\u00e1 os tinha visto muitas vezes na cidadezinha de onde sa\u00edra. Lembrou-se da av\u00f3 que, em \u00e9poca de S\u00e3o Jo\u00e3o, cavava uma grande moranga, recheava-lhe com a polpa misturada a peda\u00e7os generosos de rapadura, deitava-lhe uns cravos da \u00edndia e uns paus de canela e punha tudo a assar, por horas a fio, enterrado num buraco sobre o qual colocava-se brasa ardente. Horas depois, era tornar a abrir o buraco no ch\u00e3o e desenterrar o fruto, que, fumegante, proporcionava a quem o experimentasse a sensa\u00e7\u00e3o fibrosa de sua polpa, que trazia algo de adocicado e terroso, misturado ao aroma da canela e do cravo e o caldo dos nacos de rapadura que derretiam e traziam uma sensa\u00e7\u00e3o de densa umidade na boca.<\/p>\n<p>Ela ficou ali, admirada de ver juntas tantas rapaduras, e at\u00e9 passou-lhe pela cabe\u00e7a pedir uma ao mo\u00e7o, ou implorar para que sua m\u00e3e comprasse.<\/p>\n<p>Mas j\u00e1 adivinhava a negativa r\u00edspida da mulher e at\u00e9 quis poup\u00e1-la, pois notava como estava exausta e desesperada observando o comportamento da coitada sob a \u00f3tica de uma maturidade impressionante, que lhe parecia haver chegado nas \u00faltimas horas.<\/p>\n<p>Ainda desanimada, a mulher balbuciou:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o d\u00e1 nem para o senhor me arrumar um servicinho por hoje? Fa\u00e7o qualquer coisa, s\u00f3 pra ter o que comer com meus filhos.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o precisa. Vou arrumar alguma coisa para a senhora comer com as suas crian\u00e7as. Mas, infelizmente, n\u00e3o posso ajudar mais do que isso.<\/p>\n<p>Sentaram-se \u00e0 mesa ali pr\u00f3xima, enquanto Sandoval dava alguma ordem a um ajudante que veio do interior da cozinha.<\/p>\n<p>A menina continuava olhando fixamente a prateleira.<\/p>\n<p>Vieram alguns p\u00e3es com ovos fritos, uma jarra de \u00e1gua gelada e tr\u00eas lingui\u00e7as.<\/p>\n<p>Sandoval, observando a cena, intuiu o interesse da menina em algo atr\u00e1s do balc\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea quer alguma coisa, menina?<\/p>\n<p>Ela, subitamente, olhou para a m\u00e3e, como a buscar uma aprova\u00e7\u00e3o ou uma deixa qualquer para falar da rapadura. Mas a mulher entretinha-se em picar a lingui\u00e7a em pequenos peda\u00e7os, dando-lhes, com miolo de p\u00e3o, para o filho mais novo que mastigava aquela iguaria com interesse.<\/p>\n<p>A menina, t\u00edmida, nem olhou mais para o homem, torcendo para que sa\u00edssem logo daquele lugar.<\/p>\n<p>L\u00e1 fora, o sol castigava perpendicularmente as cal\u00e7adas e as portas do estabelecimento. A cabe\u00e7a da menina do\u00eda, e ela sonhava acordada com um ambiente acolhedor e calmo, onde pudesse tirar os sapatos e descansar. Talvez molhar os p\u00e9s no regato de \u00e1gua gelada em sua cidadezinha. Tudo era bem diferente do que vira no \u00f4nibus \u00e0 noite e naquele local.<\/p>\n<p>Ainda mais ela apertava os olhos e procurava sentir de novo o sabor da rapadura, \u00famida a descer-lhe pela garganta e, depois, prendia a sensa\u00e7\u00e3o em sua pequena boca infantil, de t\u00e3o poucas mem\u00f3rias.<\/p>\n<p>Dias dif\u00edceis se avizinhavam daquele pobre grupo. O ar da tarde se fazia mais pesado. Ainda mais hostil era a cidade desconhecida l\u00e1 fora.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/p>\n<p><strong>Daniel Marchi \u00e9 autor de A Verdade nos Seres, livro de poemas que pode ser adquirido diretamente atrav\u00e9s do e-mail danielmarchiadv@gmail.com<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A menina nada mais esperava daquela manh\u00e3. Vinha de m\u00e3os dadas com a m\u00e3e, que trazia ao colo outro irm\u00e3o, mais novo. O nen\u00e9m chorava e, em v\u00e3o, a mulher lhe tapava a boca com uma chupeta imunda, presa a um trapo. 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